Uma Noite com o Padre - Conto
1 Uma Noite com o Padre
Numa noite chuvosa e fria onde o ruído das árvores é abafado pelo zunir do vento, um carro segue em velocidade segura pela rodovia deserta. O homem que dirigia o veículo não demonstrava cansaço. Estava atento devido ao mal tempo. A mulher no banco do carona estava incomodada com a leitura que fazia de um livro que para ela, parecia não ter fim.
– Como pode uma mulher tão rica entrar numa negociação tão suja como esta? — resmungou incrédula referindo-se a personagem principal.
– O que houve dessa vez? — perguntou o marido somente para puxar assunto. Ele nunca se interessou pela leitura dela.
– Essa imbecil aceitou entrar no sujo esquema do casino do primo dela; ela tem muito mais a perder do que ganhar. — respondeu indignada, fechando o livro em seguida, colocando-o sobre o painel do carro — Não quero mais saber dessa história. Nem desse autor! Me deixaram revoltada.
Com um leve sorriso no rosto ele comentou:
– Apesar das palavras eu sei que você vai retomar a leitura. Em breve.
Quando ela pensou em responder um barulho forte assustou os dois. O veículo perdeu a direção e o motorista ao pisar no freio, sentiu o carro girar derrapando. O livro em cima do painel foi lançado contra a testa da mulher que em poucos segundos havia o esnobado. A lateral direita do carro bateu contra uma árvore e ali eles ficaram. Estavam assustados como tudo aconteceu rapidamente. O pneu esquerdo dianteiro havia furado. Ambos estavam bem; menos a mulher, que reclamava de uma forte dor na cabeça, mas nada que fosse além do insuportável.
A estrada era larga. A chuva reduzia com o passar dos segundos. O clima estava mudando. Mas a sensação de medo aumentando.
– Meu celular, eu acho que perdi meu celular. — disse a mulher retirando o cinto de segurança.
Seu marido fez o mesmo.
Com o cessar da chuva eles puderam ver com mais clareza o outro lado da rodovia.
O homem encontrou o celular caído no carpete próximo de seu pé.
– Você está bem?
– Sim, eu estou. Apenas levei uma pancada na cabeça. — respondeu a mulher.
– Consegue ler o que está escrito naquela placa lá do outro lado? Acho que é uma casa.
– Está escrito... Igreja de São Valentin. Não é uma casa. Veja o sino lá em cima.
– Como pode existir algo tão grande numa região tão pequena.
– O importante é que podemos procurar ajuda lá dentro.
O casal seguiu andando até a grande igreja. Pelas janelas laterais era possível ver um luxuoso altar com castiçais e velas. Todas acesas. Mas a porta de madeira envernizada e com detalhes geométricos estava semi aberta. Embora sentiram receio para entrar, não tinham escolha senão continuar.
Tudo era muito limpo e o perfume que pairava no ar trazia sensação de relaxamento.
– Esse ambiente me lembra um spa que fomos no Chile, naquela viagem de férias. — disse a mulher surpresa com o fato.
Um homem surgiu de um dos bancos de madeira logo à frente do altar. Estava orando de joelhos. Era o padre.
– Bem vindos a Igreja de São Valentin. Pela aparência de ambos precisam de ajuda.
O homem tomou a frente da mulher. Foram se aproximando do Padre.
– Meu nome é Mike. Essa é minha esposa Jenny. Nosso carro furou o pneu e acabamos batendo numa árvore logo aqui na frente. Precisamos chamar um guincho.
– Viajando sem outro pneu no porta-malas senhor Mike? — perguntou o Padre.
– Pois é; nunca estamos preparados para o pior.
– Vocês possivelmente rezaram antes de seguir viagem, certo?
– Sempre fazemos isso. — disse Jenny cautelosa.
– Que ótimo! — respondeu o Padre — O poder de Deus está sendo cobrindo a falha do Homem. Mas não se preocupem, estou aqui para ajudá-los.
– Não vamos ficar por muito tempo. Uma ligação será o suficiente. — disse Mike não tendo a intenção de incomodar.
– Fique tranquilo Mike. Vocês podem ficar até conseguir chamar um guincho. Mas não garanto que seja esta noite. Com a chuva que acabou de cair meu telefone fixo ficou mudo. É normal acontecer isso em fortes chuvas. Mas podemos ficar tentando.
Depois de alguns minutos conversando um pouco mais o casal retornou ao carro para buscar algumas roupas. Não tinham como seguir viagem. A próxima cidade estava há pouco mais de trezentos quilômetros de distancia.
Enquanto estavam no carro pegando alguns pertences Jenny tentava ligar para uma oficina não muito longe dali. Mike sentiu confiança no Padre. Mas Jenny estava com algo incomodando por dentro. O olhar dele não era de um Homem que pregava a palavra de Deus.
– Não temos sinal. Vai perder seu tempo tentando ligar para esse lugar. — disse o Homem ajeitando algumas roupas na mochila sobre o capô do carro.
– Não estou confiante nesse Padre. Será que ele tem algum carro? Poderia ser de mais serventia do que ceder espaço na igreja para passarmos a noite.
– Podemos perguntar isso a ele. É uma boa sugestão.
O celular conseguiu alcançar sinal e a ligação foi completada. Jenny sentiu-se aliviada quando ouviu a voz do estranho no outro lado da linha.
– Oficina do Mols, boa noite.
– Oi, meu nome é Jenny.
– Em que posso ajudá-la Jenny?
– O carro do meu marido furou o pneu e nós precisamos de ajuda. Estamos há pouco mais de trinta quilômetros de vocês.
– Que ótimo. Não é muito longe para nós. Jenny, vou pegar alguns dados com você, tudo bem?
– Mas é claro, do que precisa?
Enquanto Jenny dava informações sobre o veículo e seus dados pessoais ao telefonista, Mike terminava de arrumar as coisas. Estava feliz pela conquista da esposa.
– Senhora Jenny, pode me dizer algum ponto de referência?
– Claro; estamos na igreja de São Valentin.
A ligação ficou muda por alguns instantes.
– Alô?
– Oi, estou na linha, você disse que estava na igreja de --
– Sim, estou na igreja, consegue me ouvir? A ligação está dando interferência.
– Senhora Jenny, nós não -- por favor -- agora.
A ligação estava com um forte ruído. O sinal perdeu-se em seguida.
– O que houve? — peguntou Mike.
– A ligação falhou assim que passei nossa posição pra ele. Depois ele disse alguma coisa com "por favor"...
– Mas ele vem, correto?
– Espero que sim.
– Vamos entrar. Sinto que a chuva está voltando e vai cair com força.
As palavras de Mike foram concretas. A chuva retomou com força e o vento estava ainda mais forte. Na companhia do Padre dentro da igreja eles estavam sentados em lados opostos. O casal ao lado direito dos bancos e o Padre ao lado esquerdo. Falavam sobre os vilarejos vizinhos que existiam naquela área e hoje todos foram deixados para trás com o surgimento de cidades mais desenvolvidas. O Padre falava no assunto com tristeza.
Jenny observou o altar e perguntou se poderia olhar mais de perto. O Padre não hesitou e disse que ambos poderiam ficar à vontade.
Quando ela se ausentou o Padre olhou para Mike e perguntou:
– Vejo um verdadeiro amor entre vocês. Já possuem filhos?
– Ainda não. Jenny está tentando evitar filhos nesse ano.
– Mas vocês já estão na fase de ter uma criança. Precisam presentear Deus com uma linda família.
– Já tentei falar com ela de várias maneiras, mas não adiantou.
– Filho, antes de me tornar Padre pensava em ter filhos. E tentei várias vezes com minha esposa. Por fim, sofremos um acidente de ônibus e ela acabou falecendo. Desde então procuro recompensar este desejo adorando ao nosso Deus.
– Acha que tinha um propósito nisso?
– Eu tenho quase certeza. Se importa em me dar sua mão? Vamos orar e pedir que Deus dê a ela essa vontade que você tanto deseja.
Mike estendeu suas mãos e ambos fecharam os olhos.
No altar, de costas para os dois, Jenny apreciava as gravuras angelicais pelas paredes e os castiçais que reluziam feito ouro por todos os lados. O Padre parou ao lado dela e disse:
– É um belo altar, não acha?
– Sim, muito bonito mesmo.
– Vou me retirar agora. Deixarei vocês ficarem sozinhos. Se ouvirem algo estranho por favor, não entrem. Às vezes tenho pesadelos. Mas se for urgente, podem me chamar.
– Nós vamos ficar bem, obrigada. — respondeu Jenny.
Ao se retirar ela retornou ao marido que havia preparado no canto da igreja um lugar para os dois ficarem. O Padre havia disponibilizado um colchonete para cada um.
– Agora é uma questão de tempo até sairmos desse lugar.
– Poderíamos aproveitar o momento sozinhos para colocar as coisas em dia.
– Nem pense nisso. — respondeu Jenny — Estamos dentro de uma igreja.
– E desde quando você não é a favor do pecado?
– Não seja ridículo, Mike. Nós vamos dormir e será só isso.
As luzes começaram a piscar. O zunir do vento ao lado de fora estava forte.
– Não gosto dessa sensação. Sabe o que ele me disse?
– O que?
– Para ignorar qualquer barulho estranho porque ele tem pesadelos.
– Não fique pensando nessas coisas; venha, deite comigo.
Com o passar de poucas horas Jenny acordou lentamente. Mike estava passando um pouco dos limites. Ela resmungou como se não quisesse, mas ela queria. Quando virou-se para beijar o marido, gritou e o empurrou. O rosto que estava ao seu lado era o do Padre. Ela levantou-se e percebeu que tudo foi um pesadelo. Mike acordou irritado:
– Por que me empurrou desse jeito? Eu não estava fazendo nada!
– Eu quero ir embora... Tive uma visão horrível agora.
Um ronco forte e profundo veio do altar. O casal olhou com estranheza.
– Deve ser o Padre tendo pesadelos.
A porta ao lado do altar se abriu lentamente. A silhueta de um Homem estava a espreita. Sua imagem se revelou sombria. Pupilas dilatadas. Lábios banhados em sangue. E um grito de selvageria antes do ataque. Ele não parecia ter controle de sua coordenação motora. O casal correu para a porta mas a mesma estava trancada. O Padre demonstrando estar possuído agarrou nas costas de Mike e o mordeu no pescoço. Jenny buscou no altar um castiçal e acertou na cabeça do Padre, que largou Mike. O padre gritou contra a mulher, que viu o queixo dele se abrir de maneira horripilante. Foi possível ouvir o quebrar do maxilar enquanto a boca continuava se abrindo, rasgando os dois lados do rosto até as orelhas.
Mike chutou o Padre para cima de um dos bancos de madeira e correu com Jenny para o altar. Entraram na porta que dava acesso ao quarto do Padre e lá se trancaram.
– O que foi isso? O que foi isso? — perguntava Jenny tentando ajudar Mike com seu sangramento no pescoço.
Usando o lençol que encontrou na cama ela estancou o sangue que esguichava com o ferimento. Mike começou a entrar numa etapa de convulsão e se debatia emitindo sons atormentadores. O Padre possuído chutava a porta na tentativa de entrar e atacar o casal. Quando tudo parecia desmoronar Jenny fechou os olhos e gritou em pânico. Um estrondoso som chamou sua atenção. O Padre já não estava mais chutando a porta.
– Jenny! Jenny você pode me ouvir!? — chamou o homem ao lado de fora.
– O telefonista da Oficina do Mols! — sussurrou Jenny, pulando por cima do marido e voltando para o altar, vendo o Padre caído no chão, aparentemente morto. O guincho havia arrombado a porta para que o homem pudesse resgatar o casal.
– Onde está o seu marido? — perguntou ele com uma espingarda na mão.
– Ele foi mordido pelo Padre possuído. Está caído lá dentro! — falou em pânico.
– Temos que ir embora sem ele! Venha comigo!
– Mas não posso deixá-lo para trás.
O Padre se levantou como se não houvesse gravidade sob seu corpo. Correu na direção do homem que iniciou uma sequencia de tiros. Nenhuma deu resultado. O Padre se jogou em cima do homem e o mordeu brutalmente no pescoço. Tudo o que ele dizia era para Jenny correr.
– Jenny! — gritou Mike de dentro do quarto — Socorro!!
– Fuja Jenny, fuja! — gritava o homem da oficina sob ataque, sentindo seu corpo desfalecer.
Tomada pelo desespero ela correu pela rodovia no meio da tempestade que dominava do lado de fora. Não tinha esperanças do futuro. Sua fuga estava clara quanto ao futuro. Ele não existiria.
Com as pernas enfraquecidas e a chuva tomando suas forças com o forte vento frio, Jenny caiu na beira da estrada e desmaiou. Qualquer que fosse o seu destino seria lucro.
HORAS DEPOIS...
Os olhos foram se abrindo lentamente. Pela estrutura do quarto Jenny estava num hospital. A enfermeira se aproximou e disse para ela ter calma. Avisou ainda que ela deixaria o hospital ao lado do marido, que passava bem.
Quando Jenny chegou na recepção do hospital, encontrou a enfermeira que havia falado pela manhã. Perguntou preocupada pelo marido.
A enfermeira colocou o olhar por cima de seus ombros e disse:
– Ali vem ele.
Quando Jenny virou-se, ficou em choque. O Padre caminhava em sua direção usando roupas que deveriam ser do Mike.
– O que faz com a roupa dele?
– Querida, sou eu, Mike.
– Você não é meu marido, afaste-se de mim! Eu quero meu marido de volta! O que vocês fizeram com ele?
A enfermeira pediu para que ela tivesse calma ou chamaria os seguranças.
– Chama quem você quiser, criola! Mas não me venha com esse papo de que esse homem é meu marido! Será que vocês não conseguem ver?
– Ela deve estar em estado de choque. — disse o Padre com um sínico olhar.
– Seu monstro maldito! — gritou Jenny o atacando violentamente.
Os seguranças se aproximaram e agarraram a mulher descontrolada. Jenny surtou de uma maneira impossível de explicar; estava perturbada com todo o ocorrido.
– Tirem suas mãos de cima de mim! Tirem suas mãos de cima de mim! Seus assassinos, criminosos!
Jenny foi diagnosticada com fortes transtornos psíquicos. Mas o fato era que Mike estava vivo e recuperado. Mas ela era incapaz de ver o seu rosto novamente. Tudo o que refletia em sua mente era o rosto do Padre. E tudo o que ela desejava... Era matá-lo!
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