Treze. Apenas treze ovos! Se tem uma coisa que eu odeio è número ímpar. Rapidamente eu pego aquele ovo infeliz e atiro pela janela, fazendo um estrago.

— Que porcaria é essa meu?– a pessoa atingida pelo ovo gritava da janela

— Foi mal!– Gritava do outro lado. Fechava a porta da geladeira, tranquilamente! Agora eram doze, meu número favorito!

Sentava outra vez no sofá, com uma bela e morna xìcara de chá preto, digitando as últimas palavras que concluiriam a análise do crime, e enviar para o juíz. Ao meu lado, minha preciosa agenda onde eu anotava os mínimos afazeres do meu dia, e vejo o seguinte tópico.

“Checar a caixa de e-mails para encontros.”

Depois do trabalho feito, resolvo dar uma olhada nos emails recebidos no site de relacionamentos onde era cadastrado, e para a minha surpresa, haviam várias respostas.

— Quarenta e sete… outra vez um número ímpar...– falo impaciente, olhando superficialmente o perfil das garotas interessadas, e as excluindo uma por uma.– Muito delicada, muito magra, muito pálida, não escreve certo, usa emoticon demais, decote típico desesperada por atenção...– até que por último, eu olho o perfil de uma tal de Manuela Alves, onde em sua foto de perfil a mesma vestia-se com traje militar da aeronáutica.– E para variar… uma sargentona...– no exato momento onde meu mouse passa por cima do botão de “excluir pedido”, meu irmão entra na casa, fechando a porta com força.

— Que inferno, Rodrigo!– Brigava com ele.– Quer quebrar a porta?

— Desculpa, escapou da minha mão. – Ele colocava as compras em cima da mesa da cozinha.

— É bom que tenha limpado os sapatos antes de entrar...– resmungo.– Sabe como eu odeio que você suje o piso!

— Relaxa, maninho...– Rodrigo faz um cafuné em meu cabelo, desarrumando o penteado.– Em sites de relacionamento de novo?

— Não é da sua conta…

— Uh, essa é bem gatinha...– sorria.– Irão marcar um encontro?

— Rodrigo, pelo amor de Deus….

— Sem essa, cara! Sai um pouco dessa casa, que mal há em conhecer gente nova?– Ele senta ao meu lado, tomando o computador de minhas mãos. – Ela tem vinte cinco anos, só três anos mais nova que ti…

— Sim, e provavelmente é uma “ maria- joão” militar…

— Força Aérea, realmente ela é interessante…

— Então marca tu, um encontro com essa Manuela...– reviro os olhos.

— Larga de ser chato! E outra, diferente de você eu já tenho namorada…

Levanto, levando a xícara atè a cozinha, lavando a louça o ignorando.

— O que você tem a perder se tentar alguma coisa com ela?– Rodrigo, pegava uma laranja a descascando para comer.

— Eu sò não quero me envolver com uma sargentona, caramba!– Terminava de lavar a louça furioso com a insistência dele. – Não é minha praia sair com uma garota dessas…

— Só você não percebeu que nada é sua praia, Guilherme. Mas tu se ferrou agora!– Rodrigo fala com voz levemente maligna.– Marquei um encontro com ela , essa noite, em um restaurante do Copacabana.

— Rodrigo , seu inútil!– Lanço o prato em sua direção.– Quem mandou você fazer isso?

Ele sai da sala, rindo da minha desgraça.– Tenha um bom encontro...– e fecha a porta de seu quarto. – E é melhor limpar esses cacos do chão, afinal o neurótico com limpeza da casa, é só você!

— Tu está morto, quando sair daí!– Brado. Agachava pegando os cacos de vidro no chão, onde coincidentemente eram ímpares também. Ao apanhar aquele pedaço de porcelana, por um breve descuido corto meu dedo, levando diretamente a boca, chupando o sangue.

Começava a me lembrar de minha mãe, e nas vezes que ela cuidava de meus machucados, quando eu era criança. Tinha que lhe fazer uma visita, pensava dentro de mim, acalmando-me e jogando os cacos na lata de lixo.

De repente, o despertador de meu celular dispara em meu bolso, lembrando-me que precisava ir correr no parque como de costume.

Calçava os meus tênis, pondo os meus fones de ouvido altos, enquanto corria aceleradamente pelo lugar. Tinha vezes em que o Rodrigo costumava a ser bem babaca comigo, como o papel de todo irmão mais velho. Mas com certeza… isso passou dos limites! Agora eu não poderia fazer a desfeita com a moça, a deixando sozinha naquele lugar. Sempre fui um perfeito cavalheiro com as moças, por mais que em todas as vezes onde tentava me aproximar delas, encontrava algo que me incomodava. Desde que me conheço por homem, parecia que nada era bom o bastante ou estava em perfeita harmonia comigo e o mundo. Sinceramente desde aquele triste dia pelo qual tive de suportar.

Já estava pingando o suor que escorria da minha testa, descendo sobre a face, até gotear pelo queixo, e minhas costas molhadas como se tivesse pulado em um lago. Olho para o relógio e estava perto da hora, em que o encontro aconteceria.

Voltava para casa, tomando um longo banho, vestindo-me com vestes sociais e indo até o restaurante. Haviam tantos casais na rua, que uma leve confusão atordoa minha mente, pensando que talvez, não encontraria tão fácil Manuela.

Naquele breve tempo em que olhava para todos os cantos , tentando ver se a moça estava lá, eu começo a presumir como ela era. Provavelmente uma mulher robusta, com expressão fechada e trejeitos robotizados, como a de uma máquina, sem nenhuma vontade espontânea. Ora irá me julgar por preconceito? Todo muito tem isso, é natural supor as coisas antes de elas se concretizarem, e eu Guilherme Alves Arantes era mestre em ser exigente até com as mínimas coisas. Posso dizer que foi até uma ótima qualidade para me tornar promotor de justiça. Até que sinto alguém puxar-me levemente pelo braço, chamando-me a atenção.

— Guilherme Azevedo… é você?– Perguntava uma bela moça com longos cabelos castanhos claros soltos, e um olhar predador esverdeado.

— Sim… Manuela Alves?– Olhava aquela mulher de cima a baixo, a admirando totalmente. Pela primeira vez, em minha lista mental, não tinha um defeito para ela.

— Prazer conhecê-lo ao vivo!– Ela sorri, apertando minha mão.– É bem mais bonito pessoalmente...– sorria mordendo os lábios.

— Digo o mesmo de você...– corado, eu passava as mãos pelos meus cabelos negros, a encarando de forma sexy com meus olhos azuis.

Sentamos na mesa do restaurante, ambos de frentes um para o outro Pedimos uma porção de frutos-do-mar, e duas cervejas, enquanto Manuela falava a seu respeito.

— Ok, como eu provavelmente sou a menos tímida entre nós, melhor começar as apresentações… eu sou a Manuela Alves Martins, meu amigos me chamam de Manu, tenho vinte e cinco anos, sou de São Paulo, mas estou de férias aqui… e trabalho na Força Aérea Brasileira…

— O que você faz lá?– Estranhamente me mostrava interessado.

— Sou comandante de aeronaves grandes...– sorria enquanto tomava seu suco de manga. – Bom, agora que eu já quebrei o gelo, que tal você me falar sobre sua pessoa?

— Não sou tão interessante...– ria se humor.– meu nome è Guilherme Azevedo, tenho vinte e oito anos e acabei de iniciar minha carreira como promotor.– Tomava quase toda cerveja em um gole.

— Puxa deve ser uma loucura seu dia-a dia. – Manu falava parecendo estar interessada. – Mexer em análises de processos , e etc...deve dar um trabalho...

— Nem tanto.– Via a comida chegar na mesa.– Sempre fui um cara bastante organizado e ponho todos os meus processos em dia, assim como os outros afazeres da minha lista. – Sorria simpático.– Eu adoro criar rotina, ser pontual em meus compromissos, ter tudo anotado na agenda, sair de casa apenas quando necessário, afinal nada è melhor pra mim do que trabalhar, eu amo o que eu faço.

—Quem dera eu , ser organizada dessa forma...– ela murmura em alto e bom som, comendo um dos 24 camarões que lá tinha, deixando vinte e três… rapidamente, levo um deles à boca, resolvendo essa pequena agonía com nùmeros impares.

— Estranho! Eu sempre pensei que pessoas do exército fossem de extrema organização , até mais do que eu ….

A garota começa a rir muito de mim.– Não é porque militares são regrados, que até fora do trabalho eles são robotizados.

— Perdão é apenas um preconceito que eu tinha… é a primeira vez que eu saio com uma garota do exército, óbvio que terei vários conceitos deturpados.

— Relaxe quanto a isso.– Ela comia outro camarão, voltando a quantidade ímpar, me impulsionando a comer outro para voltar ao número par.– Acredite eu já escutei coisa pior, mas eu sou bastante desencanada com isso, pode se abrir à vontade.

— É que para falar a verdade, faz tempo que não vou em encontros...– fico desconcertado.– a maioria das garotas falam que eu trabalho demais e sou muito regrado.

— Então você está no lugar certo com a pessoa certa!– Manuela ria.– não sei se isso se deve ao fato de ser sagitariana, mas tenho um espírito bastante aventureiro, um dos motivos por ter optado a aeronáutica…

— Eu sou péssimo com essas coisas de horóscopo para falar a verdade, mas sim… eu estou tão acostumado a trabalhar em casa, que devo ter desaprendido a como agir com garotas em encontro...– percebia que aos poucos eu estava me soltando.– Olha só pra mim, me abrindo desse jeito já de cara.

— Não existe problema nenhum em você ser sincero com uma garota no primeiro encontro.– Manu retirava o dinheiro de dentro da carteira, pondo sobre a mesa, assim como eu também.

Ao sairmos do restaurante , ela resolve me levar para um passeio surpresa. Meio que com o pé atrás, eu resolvi topar aquela “aventura.” Percorremos um bom caminho pelo Rio de Janeiro, até reparar que estávamos entrando no aeroporto.

— Manuela… para onde você está me levando? – Perguntava apavorado.

— Não esquenta, você irá gostar!– Ela estacionava , me tirando do carro e entrando comigo até a pista dos aviões. Mil coisas se passavam pela minha cabeça, e tudo o que eu conseguia pensar era no quanto eu estava ferrado.

— Eu te levarei para um passeio de avião teco-teco…

Arregalo os olhos, com o coração gelado.– Eu não posso fazer isso…

— Tem medo de altura?

— Eu… perdi meus pais em um acidente de avião…

Manuela me encarava totalmente pasma, e eu continuava a explicar a situação para ela.

— Isso faz um tempo já… foi no aeroporto de Congonhas ...eu ainda morava em São Paulo na época e… o avião não conseguiu pousar direito... — deixo sem querer, uma lágrima descer por meu olho.

Manuela deslizou levemente a face de sua mão em meu rosto, olhando no fundo dos meus olhos.– Eu sinto muito pelo que aconteceu com sua família, deve ter sido uma perda inimaginável… porém eu só peço que confie em mim… seus pais iriam gostar de te ver se divertindo… de te ver dando uma chance para as pessoas e para si mesmo.

Naquela hora, pela primeira vez em todo esse tempo, eu agi sem planejar. Encostei levemente meus dedos em seu queixo, avançando em seus lábios e lhe dando um beijo doce. – Eu… escolho confiar em você…

Manu sorria para mim, tornando minha noite mais mágica. Entramos no avião, com ela checando a superfície de controle , e os tanques de combustível e óleo. Analisava a tabela de peso e equilíbrio do avião de forma cautelosa, assim depois de todas as medidas de segurança, levantando vôo.

Ficava com um frio na barriga, deixando escapar de meus lábios um grito.

— Ainda está com medo?– Manuela pergunta em alto som, enquanto pairávamos pelo ar.

— Isso …. é a melhor coisa que eu já fiz na minha vida! – Grito eufórico e com uma adrenalina tomando minha alma por inteiro.

Olhava para baixo e via, toda aquela cidade linda, e tão cheia de luzes como as constelações de um céu rural.Manuela fazia acrobacias e piruetas, aumentando ainda mais a minha empolgação. E em apenas uma noite, tinha conseguido quebrar totalmente os paradigmas que a agenda automática fazia para tudo e todos.

No final da noite, ela me dava carona até minha boa e confortável casa.

— Eu nem sei como posso te agradecer pela noite incrível que me proporcionou, Manuela…

— Eu que devo agradecer.– Manuela bagunça o cabelo, mas eu não estava nem aí para o penteado bagunçado.

—Quando poderemos nos ver de novo?

— Não marcaremos uma data...– seu olhar flerta-se com o meu.– Vamos nos surpreender…

Sorria, a beijando novamente como uma romântica despedida, a olhando partir.

Entrava em minha casa , jogando-me no sofá. Respirava fundo ainda sobre reflexão, e pego minha agenda ao meu lado anotando a seguinte frase.

“ Tarefa de amanhã: Deixar a agenda de lado, e deixar o dia me surpreender com as dádivas que o destino nos propõe”.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!