Uma Noite De Amor E Música
4 Pensamentos de Sam Puckett
Notas iniciais
Mais um capítulo, espero que gostem >
Então foi a isso que se reduziu minha promissora vida. A menina que agora está prestes a ser solta no mundo, cujas possibilidades supostamente seriam infinitas, está no meio de uma noite de abril sentada no banco do carona de um Yugo que cheira a óleo de aroma terapia de patchouli de Madisen. Talvez seja só o carro que não dá a partida, mas parece que é minha vida que não pega. Sim, o estado deste Yugo, com o metal do banco do carona atravessando o tecido rasgado do estofamento, arranhando minhas coxas, esta relíquia da Guerra Fria que não responde ao giro da chave na ignição, é como uma metáfora do estado de merda em que minha vida se encontra: AFOGADA. Freddie pode ser um deus do baixo, mas também é um deus do estacionamento, porque localizou uma vaga bem em frente ao clube, cuja consequência infeliz é que agora meus ouvidos obstruídos estão tendo o privilégio de ouvir a banda tocando lá dentro do clube; eles são bons pra caramba e isso me irrita de verdade. Não sei bem se atolei minha vida por entrar nesse Yugo com meu novo quase namorado, ou se regredi por ter tido de sair cedo do clube para mais uma vez salvar Ariana, e não me importa como esta noite vai terminar, eu vou sair querendo mais música. Spencer ainda está no palco, mas agora ouço que Zayn está junto e eles estão cantando um outro cover do Green Day com uma harmonia estranha, e desta vez a música é Time of Your Life.
A Spencer Does Spencer acelerou o clássico de FM light (o que pode ser mais punk do que fazer uma música de elevador — obrigada, Billie Joe) com um andamento de música de sala de estar, e eu juro que há um DJ mixando um sample daquele anormal do Michael Jackson gemendo que Billie Jean is not my lover, the kid is not my son.
Como é possível e por que isso parece tão bom? E se o Yugo não der a partida em um segundo eu vou dar o fora daqui, não ligo para o quanto estou tentada a experimentar mais sete minutos como a namorada de Freddie depois de levarmos Ariana para a minha casa. Para um pobre coitado, ele é tentadoramente bonitinho.
— Ouviu isso? — pergunto a Freddie.
— O quê ? É o motor pegando?
O pobre coitado não só é bonitinho e bate cabeça bem quando dança, ele provavelmente também é um cara legal. Pelo menos demonstrou perícia ao manobrar Ariana, deusa bêbada, no banco traseiro de um Yugo ferrado e fazê-la pensar que foi ideia dela. Não vamos esquecer de que ele beija bem. E de fato merece bem mais do que a Madisen — e um Yugo. Digo a ele:
– Não, cara, preste atenção. Tá ouvindo esse estrondo martelando lá dentro do clube? Chama-se bateria. É, tipo assim, famoso como a base de som desde as culturas primitivas.
Eu toco bateria no porta-luvas do Yugo, que se abre com a minha batida. Uma Polaroid de Madisen está colada na parte interna do compartimento. Eu a arranco. Mas que horror! Ariana não é paranóica — a Madisen realmente roubou sua camiseta branca e cortada, com o autógrafo do Flea na área do peito esquerdo. Atiro a foto pela janela e me viro para Freddie.
– A merda da sua banda precisa de um baterista. Eu te vi se remoendo com o cover de Chump do Green Day que o Spencer fez mais cedo. Sei que você sabe que ritmo é algo mais do que suas habilidades de ter um ataque cardíaco no contrabaixo. Pense nisso. O que seria de Chump sem o Três Cool? Amime um baterista pra sua banda, cara. É sério.
(Ariana ainda não estava na fase bêbada-carente, pós-vômito e pré-sono,o que significava que agora estava na fase inquisitiva. Então, logo na primeira deixa, lá do banco traseiro, ela se mete).
— É sério — porque Caroline sempre pega as frases de onde eu parei ? — Motorista. Ei!
Ela bate no ombro de Freddie. Ele olha para ela, mas rapidamente se vira para mim. Uma menina tão bonita com um bafo tão forte de tequila. Ariana quer saber:
— Por que você usa sapatos tão feios,hein? Responde, motorista. Por favor?
— Os sapatos acompanham o carro, Ariana — eu digo a ela. — Os motoristas de Yugo precisam usar essa merda desse All Star todo rasgado e pichado nos pés. É tipo uma regra.- Está no manual. — Pego o manual do Yugo no porta-luvas. Um chiclete mastigado se estende na capa do manual até o compartimento. Pego o guardanapo do McDonald's enfiado dentro do porta-luvas e tiro o chiclete do manual. A merda da Madisen e sua mania de mascar chicletes. Jogo o manual no banco traseiro para que Ariana leia. Ela ignora o bendito manual.
— Você é iugoslavo, motorista? — pergunta Ariana a Freddie. — Sam, é por isso que ele está levando a gente pra casa? Ele é taxista, né?
— Claro — eu digo a ela. — Ele será o taxista assim que esse táxi Yugo pegar.
Estamos operando comum a janela de oportunidade limitada por aqui. Precisamos de dez minutos só para colocar Ariana no banco traseiro. Agora posso ver o Gibby, zanzando do lado de fora do clube, fumando um cigarro e falando com Crazy Lou. Mas está olhando para o Yugo, pronto para cair em cima da Ariana novamente, eu sei disso, se esse Yugo não der o fora daqui logo.
— Ainda existe alguma etnia iugoslava? — pergunta Freddie. —Agora que o país foi todo dividido? Foi uma merda séria o que rolou ali na Sérvia e Croácia, né ? Uma vergonha. Ele sacudiu a cabeça e apoiou sua mão na ignição, como se tivesse desistido. Freddie bateu a cabeça no volante, depois socou o punho na alavanca de marcha. Ele está arrasado. Não aguenta mais. O carro não vai a lugar algum. Ele parece tão deprimido e derrotado, que não tenho coragem de criticá-lo por agir como se lamentasse pela Iugoslávia quando era tão evidente que ele lamentava pela Madisen. Ariana nos informa:
– Eu sou parte iugoslava, sabia? Do lado de meu bisavô paterno.
Eu digo a ela:
– Você também é parte da Transilvânia, sua imbecil. Fique quieta. Preciso pensar. — E agora, como é que a gente vai pra casa? E por que eu tinha que levar Ariana pra casa, aliás? Tem um gato sentado do meu lado, mesmo que ele seja um rejeitado da Madisen, ele tem potencial para ser modelado. Aqui estou eu em Manhattan, como diz a música do Stevie Wonder preferida do meu pai: New York, just like I pictured shyscrapers, and everything. Devia estar dando alguma aqui, e não a merda afogada do Yugo. Pelo para-brisa do carro, posso ver o Empire State Building, iluminado de rosa e verde para a Páscoa. Então por que estou salvando o rabo dela quando podia estar do lado de fora desse Yugo, vivendo um pouco? Eu nem usei direito aqueles dois minutos a mais como namorada do Freddie. Ariana diz:
— Você não é minha chefe, Sub Z.
É instinto, não posso evitar. Eu me viro para encarar a Bafo de Dragão e rebato:
— Não me chame assim! — Ela ri, satisfeita por ter conseguido me alterar. A risada de Ariana misericordiosamente se transforma em um cochilo. Pelo reflexo do retrovisor do carona, vejo que ela parece estar caindo no sono, com a cara encostada na janela traseira. Nunca a vi desmaiar sem antes vomitar. Freddie e seu Yugo podem ter propriedades mágicas, afinal. Por favor, que isso dure até conseguirmos voltar para Jersey. Um ronco pesado vindo do banco traseiro anuncia que Ariana está realmente apagada. SIM! Não vou nem me estressar com o fato de que, depois de chegar em casa, terei de dormir ao lado da Bafo de Dragão, para ter certeza de que ela não se engasgou com o próprio vômito enquanto dormia. De novo.
— Menos um problema — eu digo a Nick. Coloco a mão esquerda na direita dele, que está agarrada na alavanca de cambio.
— Agora, o que vamos fazer para resolver este outro aqui ? Ele se encolhe um pouco com meu toque e afasta a mão para girar a ignição mais uma vez. Não sei mesmo por que eu toquei a mão dele. Ele quer saber:
— Por que você estragava as Barbies da Madisen ? — E agora eu estou tipo assim, que merda, este é o preço do sacrifício por Ariana desmaiar inesperadamente cedo: Freddie chega à fase de melancolia que em geral se segue à fase inquisitiva de Ariana.
— Tenho três irmãs e sei que é coisa séria mexer nas Barbies de uma garota. — Tá legal, talvez ele não esteja melancólico, porque seu sorriso sarcástico me diz que ele voltou a ser uma criatura irônica, tão típica de meninos que tocam em bandas alternativas. E é incrível como isso, de alguma forma, me dá uma vontade louca de arrancar as roupas dele.
Ainda assim, sei que ele está procurando por informações, mas não vou entrar nesse papo da Madisen com ele. Simplesmente não posso. A Sub Z pode causar muitos danos à psique masculina numa noite só.
Por outro lado, talvez eu possa fazer de Freddie um projeto, desintoxicá-lo da Madisen, reabilitar o cara, colocá-lo num programa de imersão em boa namorada. Eu gosto do número sete — a gente pode namorar, superfofos e lindos, por sete dias em vez de sete minutos. Depois eu o liberto, sem a bagagem de Madisen, moldado e aperfeiçoado no cara incrível que sei que há por trás desses olhos pesados pela Madisen. Ele será meu presente à humanidade, um espécime masculino ideal, como músico e namorado. Vou mandá-lo de volta ao mundo totalmente livre de ironias, sem considerar mais todas as mulheres desdenhosamente com potenciais para Madisen.
Um furgão branco atravanca a rua de mão única na direção errada, parando diante do hidrante, bem na frente do fogo.
— Ah, graças a Deus — diz Freddie.
Que interessante. Estamos sintonizados na história da intervenção divina. Será o destino? Um homem sai do furgão. Com a Bafo de Dragão e o Yugo afogado, e, aliás, POR QUE eu estou me dedicando tanto a pensar em ficar suspensa no tempo e no Yugo com esse Freddie ? Ele é louco pela Madisen ! O tal homem — ele é tão emo que é praticamente um Muppet — se inclina na janela aberta de Freddie. E diz a ele:
— Levanta o capô e vamos tentar uma chupeta nesse bebê.
— Tá — diz Freddie, como se fosse algo rotineiro. — Valeu, Scot.
Scot olha para mim. E diz:
— O Avan podia ter alguma ajuda no furgão, se não se importa.
Que merda é essa? Sei lá.
Eu dou de ombros e saio do carro, enquanto Scot levanta o capo do Yugo para prender os cabos da chupeta. Eu passo por Gibby, que está encostado na parede do clube, e aceno para ele, só por acenar mesmo. Depois subo no banco do carona do furgão e vejo o equipamento da banda lá atrás. Eu sabia que a banda de Freddie tinha um furgão! Por que eu não especifiquei — um furgão, e não o Yugo, para Jersey?
O cara sentado no banco do motorista diz:
– Oi. Meu nome é Avan. Com "n".
Eu digo a ele:
– Eu sou Gsam. Com "g". O "g" é mudo. Como em gnomo.
– É mesmo? — diz Avan.
– Não, não é verdade. É mesmo? — perguntou Avan de novo.
– É mesmo — eu digo. — Mas nem imagino por que estou nesse furgão para falar da letra n. O que é que tá rolando?
Avan me passa uma nota amassada de cinquenta dólares, e diz:
– Scot e eu rachamos. Vimos aquele beijo entre você e Freddie — O Avan não é o vocalista da banda, mas pode incorporar a Aretha, não como o Ed Vogue, na versão de uma musica quando canta, "Giving him something he canfeel!"
— Não entendi — eu digo.
O capô do furgão obstrui a nossa vista, mas podemos ouvir os estalos do motor do Yugo ameaçando ganhar vida.
— Não tenho tempo para explicar — diz Avan. — Dividimos apenas porque Scot e eu temos ódio mortal da ex do Freddie e gostaríamos de dar a ele alguma ajuda para tocar a vida. Então, por favor, fique com o cara hoje à noite, veja a cidade, veja o banco traseiro do Yugo, eu não ligo, só fique com nosso amigo esta noite, por favor. Já chegamos à conclusão de que gostamos de você e que você vai será salvação do Freddie.
Sem pressão nem nada. Os elogios podiam levar o cara a qualquer lugar e eu estava querendo ser a salvação agora, mas:
— Não posso — eu disse a ele, embora estivesse bem tentada a ficar com Freddie. Não faço ideia do que aconteceria se eu me atrevesse a outro toque em sua mão — ou em outras partes, como aquela boca de Não-Homo muito gostosa. Continuei dizendo:
— O Freddie está me dando uma carona, me ajudando a levar minha amiga que está bêbada até Jersey. Ela está dormindo no banco traseiro do Yugo agora. Avan diz:
— Temos um colchão na parte de trás do furgão. Vamos fazer uma troca. Nós a levamos para casa se você ficar com Freddie esta noite. Concluo que vale a penar viver um pouco.
— Combinado — digo a ele.
Coloco a nota de cinquenta no bolso da calça, depois escrevo o endereço da minha casa na mão de Avan, Digo a ele onde encontrar a chave da casa, debaixo do vaso de planta, e que não se preocupe com meus pais — provavelmente darão uma gorjeta por levar Ariana para casa e me fazer sair com um ser vivo. Não estou me sentindo nada frígida em relação ao Freddie. Nem me lembro da última vez em que tive expectativa — não do sexo (necessariamente), mas de conhecer uma pessoa nova e deliciosa, mesmo sendo um pobre coitado.
Então nos acertamos e eu saio do furgão com Avan, que obriga Scot a ajudar a transportar Ariana do Yugo para o furgão. Mas depois que estou de volta ao Yugo, não tenho oportunidade de explicar a Freddie a nova ordem das coisas no meio da noite, porque, pelo para-brisa, eu vejo que Gibby está encostado na parede trocando um cumprimento de mano com um recém-chegado que, por acaso, é o cara que acabou com minha cabeça e me transformou em Sub Z no ano passado. Ao que parece, o verdadeiro sobrinho do tio Lou não sobreviveu a seu primeiro ano no kibutz da África do Sul. O chamado da verdadeira selva — Manhattan — deve ter sido demais para ele. E que merda, o Ex do Mal me viu e agora está ao meu lado na porta do carona do Yugo, dizendo:
– E aí, gata, pronta para recomeçar de onde paramos ?
Notas finais
Amanha eu posto mais *-*
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