Uma Mudança De Vida
3 Capítulo 3 - Sherlock Holmes
Capítulo 3
John chegou à porta do quarto de Sherlock Holmes (assim como deduzira, já que não fora formalmente apresentado nem a senhora que estava tendo um ataque de nervos e nem a Mycroft).
Mycroft Holmes, com um gesto imperioso, tomou a frente, abrindo a porta do quarto e convidando com a mão para que John entrasse no recinto.
O quarto era um cômodo grande, com paredes pintadas por um tom suave de creme e parcialmente iluminado pelas lâmpadas que decaiam do lustre e que imitavam gotas em vidro. O ambiente era largo e com um chão de piso de madeira, forrado parcialmente por um tapete persa. John notou que o quarto estaria mais bem apresentado se não fosse centenas de folhas de papel espalhadas pela mesa de carvalho e um crânio estranhamente observando a tudo como se tratasse de um vigia.
Para detalhar ainda mais o quarto, estavam diversos livros jogados pelo sofá de camurça, as prateleiras foram decoradas com tubos de ensaio e mais utensílios que John reconheceu como ferramentas úteis apenas para um cientista. Havia um alto guarda roupa de uma madeira escura e bem talhada tomando conta de uma parede, e ao centro deste uma penteadeira com um longo espelho oval decorando o móvel.
Além disso, havia uma cama grande de ferro e extensa de casal em meio ao quarto, rodeada por duas cômodas com abajures de tecido e vidro. A cama estava rodeada de travesseiros e comportando um homem vestido por uma camisa branca desabotoada e calças pretas.
– Eis meu irmão, Dr. Watson. – Mycroft apontou para o corpo inerte, — Vou deixá-lo em suas mãos para examiná-lo. Se precisar de qualquer coisa, estarei no quarto ao lado ou tentando controlar minha tia.
E assim, sendo, Mycroft deixou John sozinho com o homem desmaiado.
O doutor dentro de John estava pronto para começar suas análises padrões no corpo humano, e aproximou-se do corpo imóvel. Observou que o rapaz era jovem, ainda estaria entre os 20 a 25 anos, e que sua tez branca e lívida contrastava fortemente com a cor escura de seus cabelos ondulados e que se espalhavam timidamente sobre o travesseiro branco. Holmes aparentava mal ter respiração e John escorregou seus dedos para o pulso e pescoço do rapaz.
A frequência cardíaca do homem estava baixa, mas era frequente, e John deixou-se aliviar por isso. Mas ainda sim, retirou de dentro de sua maleta um estetoscópio e posicionou sobre o peito de Holmes. Observou a cadência leve com que o peito do rapaz subia e descia, e escutou o ritmo vagaroso de seu coração. Voltou-se a observar-lhe o rosto.
A mente de John correu em uma metáfora artística, ao comparar este homem a uma estátua esculpida no marfim ou no gelo.
E ignorando esta sua linha de pensamento, John Watson virou cuidadosamente ambos os lados da face magra do homem, notando as maçãs de seu rosto sobressalente. Desceu os dedos pelo rosto até os lábios do rapaz que estavam ressequidos e rachados, e John subiu os dedos novamente naquele rosto para abaixar as órbitas de ambos os olhos e percebeu um tom esbranquiçado. Segurou as mãos de dedos compridos e notou o suor frio nelas. A mente médica de John exalou um veredicto, mas não havia como prová-lo sem os devidos testes de sangue.
O tal de Sherlock Holmes, aparentemente, estava anêmico. E provavelmente não havia ingerido alimento há algum tempo e por isso tinha sucumbido para a inconsciência. John guardou seu estetoscópio e começou a remexer em sua maleta a fim de encontrar algum álcool para trazer o rapaz a seus sentidos, mas sua tarefa foi vã ao ouvir uma voz rouca e um tanto baixa ecoar no silêncio do quarto.
– Fiquei inconsciente por quanto tempo, doutor?
John Watson era um homem treinado como soldado e que havia tido a experiência da guerra. O susto que a voz do rapaz lhe deu o fez sobressaltar e sua pupila dilatou refletindo em seu corpo que ficou tenso como se preparasse para um combate. Imediatamente, a respiração de John tornou-se um pouco mais pesada e ele mentalmente tranquilizou-se, evitando que qualquer resquício do terror da guerra trespassasse a calma que ele havia construído para si mesmo.
Retornou, silenciosa e metodicamente, para o homem deitado na cama e deparou-se com profundos e sonolentos olhos cinza que se assemelhavam com um mar revolto em um dia de tempestade a caminho.
– Diria que, aproximadamente, um pouco mais que 30 minutos.
– Acredito que meu tempo recorde. – Ele respondeu mais para si do que qualquer coisa ajeitando-se no travesseiro e umedecendo com a língua os lábios secos.
– Sendo um recorde ou não, desmaios não são coisas simples. – John assumiu um caráter profissional e médico: — Você está, muito provavelmente, com anemia. Não posso assumir com segurança, mas a palidez de sua pele, suas mãos frias, a falta de cor no tecido dos seus olhos e os lábios ressecados indicam sintomas anêmicos.
O homem olhou para o médico e ergueu uma sobrancelha. Murmurou algo, depois deixou um pequeno gemido escapar de seus lábios e elevou uma das mãos para a cabeça, fechando os olhos. – Sim, muito provavelmente estou anêmico. Ou meu corpo apenas protestou após eu ter ficado três dias sem me alimentar.
– Três dias?! Deus! – John havia ficado perplexo e deixou sua voz alterar-se.
– Por favor, fale o mais baixo possível, Doutor. Minha cabeça está como se milhões de elefantes a pisoteassem. – Holmes deixou escapar, e depois prosseguiu com os olhos ainda fechados: — Esteve na guerra por quanto tempo?
John franziu o cenho para o homem que continuava com os olhos cerrados e a mão sobre o rosto. — Como você...?
– Basicamente pelo seu porte militar. O jeito com que anda e fala, como se estivesse comedido e citando a risca o que deveria ou não fazer. E isto são atitudes típicas de um ex-soldado, afinal, aprende-se a ser cuidadoso no exército. Além disso, quando abri meus olhos e lhe perguntei sobre quanto tempo eu estive inconsciente (claramente te assustei), seu corpo inteiro tencionou e pude perceber uma ligeira mudança em sua respiração (você passou a inspirar pesadamente). Isto indica uma maneira de lidar com situações desconhecidas que um militar passa a ter: o de impor ao corpo uma atitude pronta para o combate frente ao perigo. E enfim, seu rosto resvalou um tédio profissional quando listou os sintomas da anemia. Isso significa que você não se sente confortável em uma rotina de um médico de família, e sim, se sente mais confortável em situações de tensão em sua profissão. Resumindo: um médico que serviu no exército durante a primeira grande guerra.
John Watson estava estupefato.
– Incrível! Simplesmente Incrível!
– Incrível?! – Holmes comentou, abrindo seus orbes acinzentados e encarou John com uma expressão levemente surpresa: — Não é o que as pessoas costumam dizer.
– E o que as pessoas costumam dizer? – John perguntou em um tom brincalhão. Ele realmente havia se surpreendido com a “mágica” daquele homem.
– Que eu sou um bruxo.
John Watson se deixou rir. Talvez pelo sorriso que se desenhou nos lábios secos de Holmes, ou por sua entoação ou por sua aparência e voz, John encontrou-se inevitavelmente intrigado por Holmes. Antes que perguntasse para Holmes como ele havia feito aquele truque, a voz de Mycroft irrompeu no quarto:
– Doutor? – Mycroft entrou gloriosamente no quarto acompanhado da senhora histriônica (e John pensou que a postura de ambos sempre beirava o teatral) — Minha tia está gritando que Sherlock tenha morrido... Diga para ela a sua suspeita quanto à anemia, pois quando eu disse exatamente isso, ela acusou-me de não ‘cuidar’ o suficiente do meu irmão.
– Ah, sim... – John se surpreendeu pelo veredicto do homem, — Desconfio que o Sr. Holmes está com anemia, mas só posso certificar isso com exames de... – John foi interrompido por Mycroft:
– Exames de sangue. Sim, claro. Pela manhã eu mesmo farei questão de levar Sherlock até sua clínica para todo e qualquer tipo de exame. – Ele falou olhando da tia, que correra para a cama ao lado do rapaz e cuidadosamente lhe passava a mão nos cabelos, para Sherlock e enfim, para John.
– Eu não sou uma criança e você não é minha babá, Mycroft.
– Quando você parar de se comportar igual uma criança, eu vou parar de ser sua babá.
E Watson sentiu o clima gélido entre os dois irmãos. Problemas familiares, concluiu John que deixou um suspiro escapar ante a tensão no ambiente e a Sra. Hudson, que notavelmente estava aflita, tomou a palavra:
– Por favor, não é hora de brigas! Ainda mais você Mycroft, não vê o estado de Sherlock?! – Ela pontuou enquanto olhava para Mycroft com desaprovação e voltou o rosto para o médico: — Alguma indicação para o meu sobrinho, doutor?
– Sim, claro... Sr. Holmes, você deveria comer e não ficar em jejum. – John comentou enquanto fechava sua maleta, — Por agora, é bom que você coma pelo menos um prato inteiro de uma boa sopa de legumes. Pela manhã, como o Sr. Holmes disse que o levará a clínica, irei lhe prescrever alguns remédios tais como um complexo B e uma alimentação reforçada com nutrientes e ferro, depois de concluirmos os exames de sangue que ficarão prontos em alguns dias.
– Farei com que meu irmão siga tudo que foi dito. Algo mais? – Mycroft perguntou ignorando a expressão do irmão mais novo, e John Watson viu Sherlock rolar os olhos como se suas instruções fossem besteiras e que ele não tinha intenção alguma em segui-las.
– Não, isso é tudo.
– Assim sendo, o acompanharei até a porta, Dr. Watson.
John deu boa noite a Sra. Hudson que já gritava com a empregada para que ela preparasse uma sopa para seu sobrinho, e antes que saísse do quarto, ouviu a voz rouca de Sherlock:
– Até amanhã, Dr. Watson.
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