Uma Mudança De Vida
2 Capítulo 2 - Recém-chegados
John não era o habitante de Winnyn que mais circulava entre a vida social da cidade. E por isso, quando havia uma novidade rondando, John era um dos últimos a tomar conhecimento. Ele acreditava que pegou essa atitude reservada quando vivera em Londres, afinal, quem em uma cidade tão grande como Londres poderia se preocupar com pequenas notícias e fofocas da vida alheia?
Assim sendo, durante o jantar em sua casa, quando Gregory Lestrade lhe perguntou se John sabia que a casa do Sr. Agarelli — um italiano que antes de retornar a Toscana tinha comprado um extenso terreno em Winnyn, construindo uma casa enorme e luxuosa (e de fato, a maior de Winnyn), havia sido alugada por um homem do governo; John franziu o cenho.
- Um homem do governo? – John perguntou curioso, deixando sua xícara de chá pairando a caminho dos lábios, – O que ele viria fazer aqui, pelo amor de Deus?
- Oh John! Não é porque você detesta Winnyn que os outros também a deteste! – Molly, a esposa de Gregory respondeu com um leve tom indignado. Ela estava sentada ao lado de Mary, apreciando os biscoitos amanteigados que só a Sra. Gilbert tinha as mãos para fazer.
- Não que eu deteste Winnyn, mas você tem que ser conivente comigo, Molly. O que esta cidade do interior ofereceria para um homem do governo?
- John está certo. Winnyn não consegue oferecer o mesmo nível de diversão para alguém que esteja acostumado a frequentar a sociedade londrina, e até mesmo a estar na presença da realeza. – Gregory pontuou com racionalidade.
- Sim, sem dúvidas. – Mary se pronunciou, enquanto adoçava seu chá com uma colherzinha de mel. – Mas este homem já se mudou?
- Ainda não. Chegaram a Winnyn apenas os móveis e os empregados. – Respondeu Gregory recostando-se no sofá cor creme dos Watson. – Uma das empregadas foi até o armazém para abastecer a dispensa do patrão e comentou que ele, a tia e o irmão irão chegar até o fim da semana.
- Se mudarão definitivamente para Winnyn, então?
Para esta questão, Gregory apontou que não sabia e deu de ombros. O assunto acabou morrendo entre o casal de amigos, e Molly emendou uma conversa bastante animada com Mary sobre suas crianças e a nova renda que ela tecia. John e Gregory ficaram de lado, conversando sobre um ou outro caso médico que o próprio John havia atendido quando médico em St. Barts. Continuaram assim até que o casal Lestrade notou a hora, viram que era tarde da noite e se despediram dos Watson.
•••
Dois dias se passaram após o jantar na casa dos Watson.
Era uma sexta-feira brilhante, decorada com um céu de nuvens tão nítidas quanto bolas de algodão que contrastavam com morros de uma natureza verde e viva. John estava a catalogar os remédios que chegara à clínica ao lado de Sarah Farwell, que lhe contava sobre o filho de dois anos e suas traquinagens. E o Dr. Watson chegava a rir das histórias contadas pela sua assistente, imaginando como seria ter um menininho desarrumando uma casa e passando o lápis de cor numa parede branca com o intuito de desenhar a mãe e o pai.
- William é alegria de casa. Tenho certeza que nunca fui tão feliz assim! Crianças são realmente um presente de Deus, Dr. Watson. – Sarah comentou sorridente. – O senhor verá que o que digo é verdade quando tiver o seu!
John acenou que sim com a cabeça, deixando um sorriso complacente em seus lábios. Lembrou-se que ele e Mary não conseguiam ter filhos e sentiu a pontada de realização de tal fato abater seu coração. Não, Sarah, ele quis dizer, eu não saberei se é verdade o que me diz. Mas também não falou sobre isso, e Sarah era doce demais para apontar por que ele e Mary não tinham um filho. Rapidamente, John mudou o foco do assuntou ao perguntar se ela sabia da novidade que corria Winnyn sobre quem havia alugado a casa do Sr. Agarelli.
- Impossível não saber disso, doutor! É basicamente a única coisa que Winnyn está comentando por agora. – Ela deu uma ênfase em suas palavras e prosseguiu: — Eu vi quando os novos inquilinos do Sr. Agarelli chegaram hoje de manhãzinha em um automóvel caro. Traziam tanta bagagem quanto era possível!
John levantou uma sobrancelha e se sentiu levemente curioso em relação aos novos moradores. Como havia sido dito, John quase sempre era o último a tomar conhecimentos das novidades em Winnyn, mas os inquilinos do italiano com certeza o estava um tanto que o mobilizando para saber mais.
- E você conseguiu vê-los? Gregory disse que se trata de um homem do governo...
- Tive apenas um relance deles enquanto vinha abrir a clínica. Vi dois homens altos e uma senhora com um lindo chapéu roxo. Não vi nada mais, posso lhe assegurar Doutor. Mas tenho certeza que Anderson lhe traria até mesmo um retrato dos recém-chegados! – Dito isso, Sarah lançou um sorriso divertido para John que retribuiu rindo.
Anderson Booker (dono do café e doceria Booker’s), realmente, sabia de tudo o que se passava na vida de cada pessoa que morava em Winnyn. Passava a atuar como um jornal com membros que voava com informações detalhadas sobre cada um.
Após os risos de ambos, a conversa sobre os recém-chegados acabou morrendo e John começou a perguntar a Sarah Farwell sobre o último livro que ela havia lido. Ela concordou em lhe contar um enredo escrito por Jane Austen, enquanto John ficava rolando os olhos e comentando comicamente o quanto mulheres eram sentimentais até mesmo para escreverem um livro, e Sarah questionava e afirmava que os homens que eram brutos demais para apreciarem romances. Ficaram o resto da tarefa de catalogação dos remédios rebatendo trechos de Persuasão.
•••
John estava em um sono tranquilo quando fora acordado por Mary e pela Sra. Gilbert que o chacoalhavam com furor. Doutor Watson abriu os olhos assustado, retirando de cima de si o jornal que estava lendo em sua cama após o jantar e num impulso, estava de pé como se estivesse pronto para a guerra.
- Pelo amor de Deus! O que está acontecendo? – John olhou de Mary para a Sra. Gilbert com uma expressão interrogativa, perdido no tempo e espaço. Respirou fundo e com calma, reviu o mundo ao redor e percebeu que ambas as mulheres já estavam com camisolas e seus robes postos, olhando-o com grande preocupação.
- Dr. Watson, há um homem em sua porta pedindo a ajuda de um médico urgentemente! – A Sra. Gilbert respondeu aflita, mudando seu peso de um pé para o outro com nervosismo em seu gesto. Ela sempre fez tal ação quando seus nervos estavam atacados, John lembrava-se desta atitude de sua empregada desde que era pequeno; principalmente quando ela estava para dizer para sua mãe que ele havia destruído alguma coisa de sua irmã (roupa, brinquedo, o próprio cabelo de Harry) em uma das inúmeras brigas entre os irmãos.
- E quem é este homem? – John perguntou enquanto punha em cima de seu pijama um roupão escuro e já saia de seu quarto com Mary e Sra. Gilbert em seu encalço.
- Ele se identificou como Sr. Holmes, John. Acredito que seja o novo inquilino do Sr. Agarelli. – Mary respondeu com rapidez, pondo seus longos cabelos loiros atrás da orelha. – Ele parece muitíssimo nervoso... Diz que o irmão sofreu de um mal súbito e está desmaiado há uns 20 minutos!
- Desmaiado há 20 minutos?! E o homem só procura um médico depois de tanto tempo? – John sussurrou e passou a mão pelo rosto, um tanto irritado por ter sido tirado de seu sono.
Os três desceram as escadas, deparando-se com um homem alto, trajado com um terno cinza de um corte impecável e olhos claros penetrantes e duros, em pé na sala dos Watson. Seu rosto estava um tanto lívido e ele rapidamente se referiu a John, excluindo qualquer tipo de apresentação:
- Dr. Watson, sei que parece que eu negligenciei a saúde de meu irmão, mas te digo que não é este o caso. Meu irmão sofre de alguns... Problemas. – O homem pareceu procurar por um termo adequado enquanto John o encarava com os olhos amplos, tentando entender se o homem havia de algum modo lido seu pensamento. – E esta não é a primeira vez que ele desmaia por alguns longos minutos. Mas hoje, especialmente, o seu estado de inconsciência tem se estendido. Por isso vim aqui em sua casa lhe buscar, Dr. Watson, preciso que avalie o estado de meu irmão.
John soltou um suspiro e balançou a cabeça em afirmativa, lançando um olhar para o relógio na parede da sala. 3h 47 min.
– Dê-me um minuto para colocar uma roupa adequada e iremos até sua casa, Sr. Holmes.
•••
Dr. Watson e Sr. Holmes andavam a passos largos até a mansão do Sr. Agarelli.
Ao chegar a frente ao portão de ferro branco e talhado, John lembrou-se de quando era pequeno e de que ele e alguns amigos pulavam o muro do italiano para roubar as maçãs e uvas que eram cultivadas no jardim daquela casa. Se não fosse o caso de extrema urgência, John deixaria se abater pelo sentimento nostálgico.
- Dr. Watson, peço desculpas por tê-lo feito acordar em plena madrugada. – John ouviu o homem dizer a sua frente enquanto atravessavam o belo jardim iluminado por lâmpadas amareladas em forma de globos.
- Por favor, não peça desculpas – John disse com seu característico tom cavalheiro, — Ser médico me traz algumas responsabilidades como acordar em plena madrugada.
O homem apenas olhou para trás, exatamente para John em um gesto duro e balançou a cabeça afirmativamente. John sentiu um gelo em sua espinha pela atitude inóspita do homem, mas sua mente não foi exatamente capaz de processar tal sensação, pois uma voz feminina estalou em algum cômodo daquela casa imensa.
- Graças a Deus você chegou com o médico, Mycroft! Eu já estava a ponto de enlouquecer ao olhar para Sherlock parecendo um morto!
Uma senhora de cabelos cor de mel (claramente tingidos), de camisola e robes brancos e ostentando uma expressão enrugada de preocupação, apareceu na ampla e bem decorada sala em que John e o Sr. Holmes haviam acabado de pisar.
– Oh doutor! Muitíssimo obrigado por ter caído da cama para vir nos ajudar! – Ela dizia num tom de desespero, quase empurrando John escada acima com as mãos trêmulas de nervoso, — Por favor, vá vê-lo, vá vê-lo. Mycroft! Leve o médico até o quarto do seu irmão! Vá, vá!
- Querida tia Hudson, acalme-se. – Mycroft Holmes ponderou com sua voz profunda, fazendo sua tia sentar-se dramaticamente no longo e macio sofá carmim. — Dr. Watson verá que não há nada demais com Sherlock, e a senhora terá estado com os nervos irritados à toa!
- Oh Mycroft! Você sempre desdenha do que Sherlock sente! – Ela deixou escapar, caindo por sobre as almofadas, — Leve o Doutor até seu irmão e me deixe aqui com meus nervos! – Ela fitou o sobrinho gelidamente e rapidamente, Mycroft foi até o lado do Doutor que estava inerte e próximo da escada, o orientando a subir os degraus.
- Vamos Dr. Watson, o quarto do meu irmão é o último ao fim do corredor.
E, encobrindo a voz de Mycroft, John só pode ouvir a da senhora ecoar, novamente, pela casa:
- Caroline, dear? Por favor! Traga-me um chá e um tranquilizante, por favor!
(continua)
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