Uma Maravilhosa Vida De Gato
1 Uma maravilhosa vida de gato - One-shout.
Notas iniciais
Duas orelhas pontudas e negras tremeram levemente, uma cauda negra balançava de modo entediado e olhos de um vermelho vivo olhavam para o horizonte.
O garoto-gato bocejou, debruçado na janela e suspirou. Usava roupas bonitas e elegantes, estava dentro de uma grande e vistosa casa, com um belo jardim, o quarto em que estava era grande e só dele sempre bem arrumado. E ele não tinha que levantar um dedo.
Para resumir, era um verdadeiro gato de madame.
Mas então as suas orelhas pontudas ficaram levantas e estáticas, e seus olhos se arregalaram quando avistaram alguém no telhado da casa vizinha. Duas orelhas pontudas como as dele, mas brancas e uma cauda branca e felpuda, a dona delas usava uma roupa comum, um tanto esfarrapada e até meio encardida.
Para resumir, uma gata de rua.
–Ei, Mashiro-chaan~ — Cantarolou na direção dela. A garota-gata se virou para ele com uma expressão não muito amigável com os brilhantes olhos azuis faiscando, esta segurava uma espinha de peixe na boca.
–Já falei para não me chamar assim. – Ela reclamou, descendo com agilidade do telhado e pousando dentro do jardim da casa do gatinho, de frente para a sua janela.
–Que posso fazer? Você não me disse o seu nome.
–Eu já te disse que não tenho nome. – Ela o lembrou. – Ruby.
–Então por que eu não posso te dar um nome?
–Porque eu não quero. – Respondeu seca.
Ele abaixou um pouco as orelhas e deitou de novo sobre o parapeito da janela.
–Ora, vamos. Não precisa ficar tão brav... – Ele pareceu perceber a espinha de peixe dela. – Onde você conseguiu isso?
–Hm? – Ela tirou os ossos de peixe da boca. – Acho que foi em uma daquelas latas ali...
–ARGH! QUE NOJO! – Exclamou, indignado. – Como você pode comer uma coisa que tava no lixo?
–Eu tava com fome! – A cauda dela se eriçou.
–Mas logo do lixo? Eu tenho comida de verdade aqui em casa. – E apontou para o lado de dentro.
A gatinha virou o rosto.
–Não quero favores de um gato doméstico como você.
–Você fala como se ser um gato doméstico fosse ruim. – Ele apontou e ela bufou.
–É claro que é ruim. Eu não vou abrir mão da minha liberdade para viver presa dentro de uma casa! – Logo depois, saiu correndo e pulou o muro, desaparecendo da vista dele.
Ruby suspirou e olhou para o céu.
***
Era um dia bonito, o sol brilhava, as crianças brincavam na rua alegremente. Sentado no parapeito de madeira de uma janela, estava um garoto-gato brincado com um novelo de lã tão vermelho quanto os seus olhos. Ele resmungou um pouco quando prendeu os dedos entre os fios, mas riu depois. Estava um dia tão calmo e relaxante...
CABLAM!
–NYAAHAH! – Berrou uma voz de garota.
Com o susto, o gatinho caiu da janela para o lado de dentro, jogando o novelo longe. Quando se recompôs e olhou pela janela, com as orelhas eriçadas, avistou uma gatinha branca de olhos azuis brilhantes, encolhida perto do muro como se o usasse como escudo.
Ruby piscou um par de vezes e continuou encarando a gatinha branca e entrara de repente em sua casa, ela tinha orelhas brancas e felpudas assim como a cauda, mas o cabelo era acastanhado e apesar de estar um pouco bagunçados, pareciam ser macios, os olhos eram bem... Bonitos.
–Lindos... – Murmurou sem perceber. – A-Ah... Ei! Tudo bem?
A garota-gata deu um pulo e olhou na direção da janela, assustada.
–Ah, calma. Calma. – Ele se apressou em dizer. – Não vou fazer nada.
A gatinha branca levantou uma sobrancelha e se aproximou cautelosamente da janela, quando estava perto o suficiente, ficou na ponta dos pés, segurando no parapeito e cheirou o ar.
–Quem... É você? – Perguntou, desconfiada.
–Meu nome é Ruby. – Ele respondeu, se inclinando sobre o parapeito para mais perto dela, mas isso a fez recuar de repente. – Qual o seu nome?
–Nome? Eu não tenho isso.
–Como não? Sua dona ou dono não te deu um.
A dona dos olhos azuis olhou em volta, percebendo finalmente onde estava e levantou uma sobrancelha.
–Não sou uma gata doméstica como você. Sou uma gata de rua.
–Gata de rua? – Ele tombou a cabeça para o lado. – Ah...
–Pois é... – Ela disse se virando. – Acabei atravessando a rua na hora errada e quase fui atropelada. Daí corri para cá.
–A- Atropelada? – Ele exclamou.
Ela assentiu, ainda de costas.
–É, quase...
Ele olhou para gatinha por mais uns minutos, até que...
–Por que você não vem morar aqui?
Ela se virou para ele.
–Como é?
–Morar. Aqui. – Ele apontou para o lado de dentro. – É quentinho e aconchegante.
Ela tombou a cabeça para o lado.
–Morar? Em uma casa? Ser... Uma gata doméstica? – E levantou uma sobrancelha. – Alias, por que você não sai?
–Ah, minha dona não deixa. – Explicou.
–Está vendo? É por isso que eu não moro em “casas”. Eu não sirvo para servir ordens como vocês gatos domésticos.
Que língua afiada ela tinha. Ele já havia visto alguns gatos de rua, mas era a primeira vez falando com uma.
–Não é ruim como você diz, ok? – Falou um tanto irritado. – Eu tenho um lugar quente, comida e carinho.
–Ou seja, é um gato mimado.
–E você, uma gata grosseira.
Os olhos dela faiscaram e ela o fuzilou com o olhar.
–Como é?!
–Hunf. – Ele bufou. – Você que começou.
A cauda dela se eriçou, mas depois voltou ao normal. Bufou e se virou, dirigindo-se para o muro. Quando já estava em cima dele, ouviu o gatinho dizer.
–Até mais, Mashiro-chan. – Ela se virou e deu língua.
–Não me chame assim. – E saltou para a rua.
***
Ele riu ao se lembrar daquele dia. E mesmo achando que nunca mais veria a gatinha, ela sempre acabava aparecendo por lá, por um motivo ou outro. Ele não se importava, na verdade, ele queria ver a gatinha, realmente, algo nela chamara a sua atenção.
Talvez... Os olhos.
O gatinho preto não conseguia evitar pensar nos brilhantes olhos azuis da garota-gato que conhecera. Eram mais bonitos que as joias da sua dona, porém, talvez não sejam só os olhos, como a gatinha em si, que resolveu prender sua atenção, sem intenção de soltá-la.
Foi aí que ele ouviu um barulho alto perto do muro e suspirou. A gatinha fazia tanto barulho quando chegava ali, mas quando olhou na direção dela, tomou um susto ao vê-la caída no chão, toda machucada.
Ele não pensou duas vezes e saltou da janela, e assim que colocou os pés no chão saiu correndo na direção dela.
–E-Ei! – Ele a segurou pelos ombros. – Ei!
Ela abriu os olhos devagar.
–Ruby...?
–O que aconteceu? – Ele perguntou preocupado.
–C-Cachorros... – Ela murmurou. – Passei por uns bravos, sem querer.
–Sinceramente! O que você tem na cabeça?
–E-E...
–Espera aqui! – Ele a deitou e foi correndo chamar a dona.
***
Dentro da casa, a gatinha branca estava sentada em cima de uma grande almofada salmão e mordia as bandagens que a dona de Ruby cuidadosamente atou, após cuidar e desinfetar os machucados. O gatinho preto estava sentado do lado da almofada e olhava para ela.
–Essas bandagens são para te ajudar.
–Eu não preciso de ajuda. – Retrucou. – Ai!
–Ah, claro que não. – Ele revirou os olhos e subiu em cima da almofada para sentar ao seu lado.
–E-Ei.
–Você podia ter se machucado feio, sabia? – Ela piscou um par de vezes e viu nos olhos vermelhos dele que ele estava realmente preocupado.
–... Sabia.
Ele suspirou.
–Poxa, você me deixou preocupado.
–... Desculpa.
–E não ven... Hein? Desculpa? – Ele a encarou.
–É, pedi desculpa. – Ela olhou para baixo. Ele continuou olhando e depois sorriu, pegando as suas mãos.
–Ah, então você tem um lado meigo, Sapphire.
–Cala a boca! – Exclamou, corada. -... Sapphire?
Ele riu.
–É, seus olhos me lembram safiras. Então vou te chamar assim, ok?
–T- Tanto faz. – Murmurou.
...
–Porque você se preocupa tanto comigo?
–Vai saber, né? – Ele levantou as mãos dela. – Acho que é porque eu gosto de você. – E beijou as.
...
–FSSSST!! – Ela chiou e se jogou para trás, caindo no chão. Corada ao extremo.
Ruby olhou para ela assustado, mas depois não conseguiu conter o riso.
–Não ri! – Ela exclamou, esfregando a cabeça. Ele parou de rir e se inclinou na almoçada para chegar mais perto dela que dessa vez não recuou de repente.
–More aqui comigo, Sapphire. – Ele pediu.
Ela olhou para o lado, envergonhada, enquanto ainda balançava a cabeça.
–Hm... N-Não, m-mas eu posso vir te visitar todos os dias... – Sugeriu baixinho.
Ele suspirou.
–Acho que tudo bem então.
Mas certifique-se de vir me visitar mesmo.
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