Uma Mancha De Sangue
3 Narnianos?
Notas iniciais
A feitura de sapatos era um oficio um tanto quanto instigante, Lucas poderia passar horas observando sem se cansar, a técnica de Albert era impressionante e os sapatos ficavam maravilhosos, é claro que Lucas só fazia o tratamento e corte do couro, além de limpar e arrumar o local de trabalho, mas mesmo assim ele se sentia incrivelmente contente estando ali todos os dias na companhia de alguém e trabalhando. Aquele trabalho lhe satisfazia imensamente, Albert conversava com ele enquanto movia seus dedos quase magicamente para fazer os sapatos e essa conversa o fazia conhecer um pouco mais de si mesmo, não do seu passado, mas suas opiniões sua visão do mundo e isso o deixava contente.
Aos poucos foi conhecendo seu chefe e sua opinião sobre ele não mudara, o senhor era simpático e com um caloroso coração. Tudo indicava que ele não precisava de um assistente realmente, mas sim companhia, era viúvo e sua única filha o deixara com o casamento, ela parecia justa, mas ríspida de acordo com as descrições do pai e viria visita-los dali a dois dias, tudo se seguiu normalmente até o dia da visita.
Anna chegou de manhã acompanhada de seu esposo, um homem alto de olhar doce e sorriso fácil, um grande contraponto com sua mulher, baixinha, gordinha com a face rosada, mas olhar duro como suas palavras. Sentaram-se a mesa e Lucas serviu chá de laranja com mel e canela, algo que Albert dizia que ele fazia com maestria “para compensar sua total falta de talento com o couro”, eles sempre riam disso, mas Anna não riu, ela lançou um olhar duro ao pai e voltou a bebericar o chá enquanto o marido tentava quebrar o clima que havia se instalado na mesa.
– Soube que o Rei finalmente terminou a ponte, disseram-me que amanhã eles iriam cruzá-la e montar acampamento perto do esconderijo dos Narnianos.
– Narnianos? – Lucas perguntou, quando acordou ouviu falar do rei e de uma batalha no castelo, mas aquela palavra o intrigava de alguma maneira.
– São os antigos habitantes de Nárnia – explicou pacientemente Albert, ele já havia se habituado com o garoto o perguntando sobre tudo – achávamos que estavam extintos, mas aparentemente eles foram mais expertos, se esconderam no interior da floresta e agora querem atacar o reino.
–Mas porque essa pessoas decidiram atacar o reino agora depois de tanto tempo escondidas, o que mudou?
–Oh, querido – disse Anna – Eles não são pessoas! São anões, animais, centauros e até ratos, pelo que me disseram.
Lucas não se sentiu nem um pouco surpreso com o que ela dissera e isso o surpreendeu.
–Mas sua pergunta é interessante, as vezes eles estavam de organizando e esperando um momento de instabilidade e na ausência de um o criaram, o desaparecimento de um herdeiro pode ser considerado um momento de instabilidade, não é? – completou astutamente Anna.
–Ou talvez a chegada desse herdeiro do trono desaparecido para ajuda-los, foi o que ouvi dizer... – sugeriu o marido.
–Tom, não seja ridículo, Caspian foi raptado pelos Narnianos, talvez eles o estejam forçando-o a ajudar, mas da maneira como você fala até parece que ele foi correndo para a floresta dando ideia de como destruir seu próprio reino!
–Mas foi o que aconteceu – disse soturnamente Albert- Leonardo me contou, o próprio Rei Miraz disse aos fidalgos e parece-me que ele chamou ajuda, algo assim, ele me disse que não entendeu direito o que ele quis dizer com reis do passado.
–De certo veio alguma doninha ajuda-los – suspirou Anna.
–A maneira como você fala parece que eles são ruins... – Lucas pronunciou-se sem pensar.
–Talvez não o sejam, mas eles querem nosso reino e isso os torna inimigos, o que diminui muito minha propensão a gostar deles.
Albert sabiamente mudou o rumo da conversa e a noite se passou rápida e agradavelmente e ao final Lucas se sentia incrivelmente próximo daqueles dois e eles também começaram a nutrir uma grande simpatia para com o garoto. Só que mesmo com toda essa felicidade ele não estava em paz, algo nele estava estranho, era como se estivesse no lugar errado, o que provavelmente era verdade, afinal ele tinha uma vida anterior àquela, entretanto era mais profundo que isso ele sentia que estava do lado errado da guerra.
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