Fria, dolorida, angustiada, sentimental, pensativa, com medo, muito medo, era assim que ela estava, enfim... Quebrada em minúsculos pedaços, seu coração estava como pó, aquele pó que o vento leva para longe para nunca mais voltar. Ela sabia que nenhuma musica poderia ajudá-la, por isso nem seu cd pegou, ela queria falar com alguém, mas sabia que não se tinha alguém com quem podia falar. Ela precisava de ajuda, carinho, apoio, conforto, aquela segurança, aquele amor que só sentiu uma vez, a única vez que ela se sentiu completa, com aquele alguém. Antes ela era a popular, a legal, a garota que metade dos meninos aonde ela ia a queriam, agora, tudo está mudando, das pessoas mais próximas as mais distantes, ela. Desde que começou a sentir que nenhum lugar era o seu lugar, ninguém pode fazê-la sorrir como ela sorria. Ela tenta, mas não consegue mais ser a louca que todos amam e que alguns invejam, ela se sente, nem ela sabe exatamente... Excluída? Sim, e muito, muito perdida. Ela não sabe mais para onde correr, sabe que tem alguns amigos, mas não sabe se algum deles é realmente leal. O tempo lá fora esta como ela sempre preferiu, vento, querendo chover, mas com medo que muita gente se zangue, só com algumas trovoadas e uns relâmpagos para assustar aqueles que tanto a odeiam e querem seu mal, agora chovendo também, decide então ir para seu quarto, deixar tudo escuro e fechar a porta, nesse escuro deita-se em sua cama, e as lagrimas começam a escorrer de seus olhos, aquela mágoa, aquele ódio, aquele frio. Tentou dormir e sonhar, mas apenas vinham belos e assustadores pesadelos. Ela estava com medo de nunca mais se sentir confortável e segura novamente. Tinha seus amigos, ou nem os tinha. Quando chegou a casa hoje, suas únicas palavras eram: “hm, ok, não ou sim” ou repostas para algumas perguntas idiotas que seus pais faziam. Ela realmente não sabia mais o que fazer, sabia que tinha gente lá fora com muito mais problemas que ela, sabia que rímel bom é caro, e que ninguém merecia suas lagrimas, mas mesmo assim, ela precisava, pois no momento precisava jogar aquilo fora, e a única maneira era deitar em sua cama, e pensar em quão idiota ela era, quão feia, otária, invisível, insignificante e ignorante era. Ela não conseguia pensar direito, quando conseguia pensar em algo outra coisa vinha em sua mente, ela estava com medo de não ser o orgulho de seus pais, de seu melhor amigo nem gostar tanto dela, de sua amiga só querer apoio quando ela precisava, de que o garoto que ela amava nem querer saber de sua existência. Ela estava cansada, cansada de sempre ter pessoas que vinham pedir-lhe conselhos, não que ela não gostava, pelo contrario, ela adorava e se sentia importante, mas já a algum tempo ela percebeu que sua felicidade era ver os outros felizes e por alguma razão isso não parecia estar certo. Agora era ela estava precisando de conselhos, ela precisava de abraços, carinhos e apoios em suas decisões. Ela só queria alguém que se importasse alguém com ela pudesse conversar, ouvir, falar, alguém que voasse com ela quando preciso, mas tivesse os pés no chão de vez em quando para puxa-la de volta se ela se perdesse. Só o que ela pedia era para que ela pudesse ter certeza de algo, não que tudo fosse mais ou menos ou sei lá. Ela estava confusa, confusa com tudo, confusa de estar confusa. Ela queria sorrir de novo, sabe, ela sentia falta daquele sorriso, daquele sorriso verdadeiro de quando estava com seus amigos ou com ele. Queria poder simplesmente deitar de noite em sua cama e ter lindos sonhos de “felizes para sempre”. Mas a realidade era outra, e ela sabia. Não tinha essa de “felizes para sempre” ou “tudo que você faz para os outros volta em dobro para você”. Não. Não era assim que as coisas funcionavam, era assim, “se você é boazinha você se fode”, sem explicações, vírgulas, reticências, parágrafos e etc. Ela estava sozinha. Pegou uma caixinha que escondia dentro de seu colchão e colocou-a no banheiro enquanto deixava a banheira encher. Para seus pais não a pegarem esperou que saíssem para jantar. Foi aí que começou, começou a chorar, chorar histericamente, ligou musica no máximo, chorava e chorava, não aguentava seu próprio peso, despiu-se e foi ao banheiro, olhou-se no espelho, tão gorda, tão feia, horrível, cheia de marcas de automutilação, olhos inchados e vermelhos de tanto chorar, deu de ombros e deitou-se na banheira, molhou-se e tirou a maquiagem, pegou a caixinha que continha suas 3 navalhas, as encarou, passou a mão bem de leve nelas. Sabia que hoje tinha que o fazer. Hoje era o dia em que receberia o beijo mortal. Hoje tudo pelo qual tanto lutou realmente ia desaparecer, ela ia desaparecer, e os problemas iriam com ela. Então começou pelas pernas, a lâmina passeava por seu corpo como um carro sobre uma estrada, leve como uma pluma. O sangue deslizava por sua perna e descia em forma de gotas para dentro da banheira. A água começava a ter uma cor mais avermelhada, não conseguia se mexer, pois a dor era muita, mas mesmo com toda essa dor, continuava a cortar-se. De repente ouvir seus pais chegando, começaram a gritar entre si, falavam sobre o tal divórcio e falavam mal-na culpando de tudo, começou a vir-lhe uma nostalgia o que a deixou mais nervosa e fez com que se cortasse com muito mais força na barriga e em seu rosto. Seus pais batiam na porta e gritavam para ela abrí-la, ela não o fez e continuou a cortar-se. Quando chegou a seus pulsos, sua força quase acabando, pegou a outra lâmina, mais limpinha. Um grito. Dois pais. Uma lâmina. Uma última lágrima. Uma morte.

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