Uma Lady Em Apuros
4 III
Notas iniciais
Eu estava exausta. Deitada no pequeno tronco próximo ao desfiladeiro vendo o horizonte e a vila lá embaixo. O funeral havia sido difícil em todos os aspectos e se eu me sentia tão exausta, não gostaria de saber como minha amiga se sentirá durante as horas seguintes em que todos vieram depositar flores e apresentar condolências às famílias, tanto de Margoth quanto aos pais dele. Eu não abandonei ela um único instante, até quando o médico lhe deu alguma mistura calmante que a fez cair no sono. Eu não sabia que horas eram exatamente, mas sabia que eu saira da casa muito depois do enterro, estávamos próximos do inverno, um vento frio soprava meu rosto e eu fechei os olhos suspirando aquele vento gélido e que pareciam pequenas agulhas encostando no meu rosto.
— Você vai acabar congelando se continuar ai.
Não levantei, nem assustei. Ninguém mais me seguia até ali se não fosse o Ben.
— Eu estou bem.
Respondi ainda de olhos fechados, esperando enquanto ouvia seus passos se aproximando. Ele sentou no chão. Abri meus olhos e ele estava encarando o precipício, nossa pequena cidade lá embaixo, um vilarejo com apenas alguns pequenos quilômetros. Suspirei.
— Você parece tão mal quanto ela. — ele disse sem me encarar. Os olhos fixos naquele ponto.
— Eu estou cansada, Benjamin.
— Percebi... Não me foi sarcástica ou grosseira. Nem mesmo o está sendo agora...
Lhe encarei forçando a que me olhasse de volta. Ele havia trago um pequeno lampião para afastar a escuridão e o havia deixado ao lado do meu, um pouco longe para ninguém lá embaixo percebesse que havia alguém ali tamanha hora.
— Eu só vim me despedir... — ele disse e me encarou. Parecia carregar um pesar grande.
— Vou te ver quando o inverno passar? — Ele já havia antes, estava fugindo de alguma coisa.
— Não estou fugindo da minha família, Isabel.
— E o que isso significa? — Engoli em seco. — O seu adeus, quero dizer. Se não está fugindo de novo então o que significa?
— A morte dele. É... Difícil de explicar.
Eu estava confusa. Não sabia o que estava acontecendo mas sorri nervosa e essa foi minha pior expressão porque pareceu errada no momento em que externalizei.
— Eu estou tentando dizer que ele está morto por minha causa, Isabel.
— Impossível. — eu ainda ria — Você está fugindo outra vez, como pode tê-lo matado se tinha ficado na vila, não te vi sair com o grupo e além do mais estávamos juntos aqui em cima quando eles chegaram.
Sua expressão era dura como pedra.
— Eu me juntei a eles na estrada. Passamos dois dias juntos, eu o trouxe de volta até a Ama, a curandeira, aquela senhora que ele ajudava.
Aquela história não me fazia nenhum sentido.
— Quando eu saí enfim de seu lado, ele parecia bem. Então sai a sua procura, vim despedir de qualquer jeito, estava culpado pela armadilha que deu errado. — engoliu em seco. — Mas então ele morreu, e então eu tive que contar a Margoth tudo o que aconteceu e temi que ela fosse mais uma morte em minhas costas mas você a alcançou e ficou ao lado dela.
Um bolo formava em minha garganta.
— E por que está me dizendo tudo isso?
— É a verdade. Somos amigos a tanto tempo, não esconderia nada nem deixaria ninguém contar nada no meu lugar à você.
Eu estava fria, na alma e corpo. Ele sabia de tudo, vira ele se morto e se sentia culpado. Meu coração doeu.
— Você não foi culpado, foi um acidente.
— Mas me culpam por ser inexperiente. — ele deu de ombros impotente.
— Margoth não lhe culpa, eu sei.
Ele negou com a cabeça. Forte. Agitando seus cachos. A respiracao dele era uma fumaça de vapor na noite fria.
— Eu preciso ir.. superar.
— Então eu te verei depois desse inverno.
Ele sorriu mas parecia triste. Seus olhos ainda estavam pesados embora seus lábios formassem um sorriso.
— Lhe adoro, Irving.
E assim, sem nem mesmo esperar por uma resposta tomou meu rosto em suas mãos e me beijou. Fiquei surpresa com o quanto seus lábios eram quentes e espantava o frio que estava tomando conta do meu corpo. Abracei seu pescoço enquanto ele de joelhos no chão me beijava com ainda mais profundidade. Eu nunca antes havia beijado alguém assim, ou melhor nunca antes havia sido beijada. Ele abraçou minha cintura e me puxou de encontro a ele, cai em seu colo sem nos separarmos. Apenas quando faltou o ar nós demos uma pausa. Eu não conseguia formar pensamentos com muita clareza, ainda me sentia quente, mas não tão quente, queria que ele não parasse até extinguir todo o frio de mim. Mesmo assim reuni os pensamentos e consegui falar.
— O que foi isso? -perguntei com o rosto em ombro.
Se alguém nos visse seria um escândalo. Ben estava sentado no chão e eu em seu colo, com os braços repousando seus ombros enquanto ele abraçava minha cintura com os dois braços. Lhe observei sorrir.
— Uma coisinha que eu ando querendo fazer a tempos.
Corei inevitavelmente.
— Então faz mais uma vez, eu não consegui prestar muita atenção.
Ben gargalhou alto. E eu lhe beijei.
Apenas um pequeno beijo mas ele sabia e continuou. Aprofundou nosso beijo e eu sorri enquanto lhe beijava, ele sabia como me aquecer.
Quando dei por mim estávamos deitados na relva, próximos aos precipício. Dei um gritinho abafado e Ben pareceu entender, me puxando de volta para cima dele e para longe da beirada. Ele ria descontroladamente.
— Céus, preciso me controlar. — ele disse passando a mão pelo meu cabelo. — Sinto informar que você está só grama.
Meu coração batia com força e eu sorria mesmo assim.
— Você quase me matou, imbecil! Não sabe fazer nada direito?
Ele sorriu ainda mais.
— Quer descobrir?
Me lançou um olhar malicioso, um ar brincalhão mas ao mesmo tempo eu sentia a seriedade do seu desejo. Sorri, uma expectativa crescendo dentro de mim.
— Quero, mas só se me prometer que voltará, que te verei na próxima primavera.
— Se não nesta, em alguma outra estação, senhorita.
Ele estendeu a mão e eu aceitei a ajuda para levantar.
— Cuidado, Ben.
— Se cuide, Isabel.
Me beijou uma última vez e saiu levando seu lampião. Observei ele sair pelo caminho oposto ao que eu tomaria. Sorri e levei a mão aos lábios pensando no que havia acontecido. O vento frio bateu mais uma vez e então o torpor perdeu seu efeito fazendo meu coração afundar.
Ele se fora e eu teria um inverno frio pela frente. Peguei meu lampião agora solitário ao lado da marca do que antes estivera ao lado dele e meu coração apertou ainda mais. Mesmo assim caminhei até a trilha, olhando para a direção que ele tomara, será que se eu corresse ainda o alcançaria?
Balancei a cabeça e tomei o caminho contrário. Não era hora para ilusões.
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