Notas iniciais
VOLTEI depois de um longo inverno.
Em longo inverno, leia-se semestre que ainda não acabou da faculdade.

Carly chegou em casa silenciosamente. Essa foi a primeira dica de Spencer que sua irmã estava chateada.

A segunda dica foi quando ela sentou no sofá, cabisbaixa. Geralmente, ela ia correndo fazer alguma coisa com a Sam, o Freddie ou até o Gibby.

A terceira dica foi ela falar:

– Spencer, estou chateada!

Era isso, o momento que Spencer sempre esperou, com um misto de ansiosidade e temor: era hora de bancar o irmão mais velho. Spencer largou seus pacotes de macarrão cru no balcão (era para uma escultura) e se sentou ao lado da irmã.

– Carly, estou aqui pra te ouvir.

– É que uma pessoa da escola se declarou pra mim e...

– Quem?

– Não interessa quem, Spencer! — protestou a menina, brava.

– Do meu ponto de vista, interessa sim — disse Spencer, mas ao perceber a cara emburrada da irmã, decidiu deixar pra lá. — Mas tudo bem, prossiga.

– Então, essa pessoa se declarou pra mim e eu não reagi muito bem.

– Como assim, não reagiu bem?

– Eu virei de costas e a deixei falando pras paredes.

– Nossa, Carly... Você mandou mal nessa.

– Eu sei, não precisa me deixar mais culpada do que já estou.

– Não é isso. É que, poxa, parece até frieza da sua parte.

– Mas foi só o choque que eu levei na hora — disse, quase gritando com irmão. Não estava gostando dos rumos da conversa.

– Eu sei. E você já se desculpou com o rapaz? — Carly deu um sorriso desconcertado que passou despercebido pelo irmão. Não era um rapaz, pensou, era a Sam. A menina respondeu apenas balançando a cabeça. — E porque cargas d'água você não se desculpou com ele?

– Eu... fiquei com vergonha.

– Entendo, vergonha — falou Spencer, pensativo. — E você gosta do garoto?

– Gosto, é um dos meus melhores... amigos — disse, com a última palavra soando um tanto artificial e forçada para um observador atento. Por sorte, Spencer não notou nada.

– Mas eu quis dizer se era recíproco, Carly. Você também gosta desse cara do mesmo jeito que ele gosta de você?

– Não sei — disse Carly, e parecia que ela estava prestes a chorar. — Eu nunca pensei... nele... desse jeito. Só como amigo, entende?

– Entendo. Alguns dos nossos sentimentos mais poderosos só são expostos quando jogados na nossa cara.

– O problema é que eu não sei o que falar pra essa pessoa. Não quero magoá-la, não quero perder sua amizade. Mas não sei se quero... ficar com ela — disse. E completou mentalmente: "não sei se quero ser gay".

– Bem, que tal você dizer a verdade?

– A verdade?

– É, a verdade. Parece ser uma grande coisa, falar a verdade, mas não é. O mundo seria mais simples se falássemos a verdade mais vezes.

– Mas e se...?

– Se a pessoa te entender? — interrompeu Spencer. — Ou se ela se magoar? Bem, eu te garanto que ela já ficou magoada com sua reação, Carly. Sinto em dizer isso, mas você tem pouco a perder.

Carly ficou muda por alguns segundos, pensativa. Depois, sorriu para o irmão e o abraçou. Spencer dava bons conselhos, afinal.

Notas finais
É isso, galera.