Uma Garota Sombria

10 Queridas lápides e uma garota viva


Notas iniciais
Esse veio rápido. To animada :)
Muito obrigada pelo apoio Mina dos Phelps, Fallen Angel e Gabi. Espero que gostem.

Estava tão perdida! A minha mente era um caos, do qual eu desejava fugir. Eu não acreditaria em mais ninguém agora. Eram todos mentirosos. Cheguei ao cemitério e entre as lápides de meus pais, ele me esperava. Ele olhava para baixo e o capuz negro não me permitia ver seu rosto. Mas quem era ele? Eu me aproximei. Eu estava cansada de temer aquele estranho.

- Quem é você? – Ele não respondeu. – Quem é você? – insisti.

- Um homem indigno de você, Anne.

- Como sabe meu nome?

- Todos conhecem a história de Anne Cavenaghi.

- Por que está aqui?

- Por que não tenho outro lugar para ir.

- Tire o capuz.

Ele levantou o rosto e deu um passo a frente, mas parou de repente como se temesse algo. Eu me aproximei dele e com cuidado abaixei seu capuz.

Ele não era um monstro. Na verdade, aquele era o rosto mais bonito que eu já havia visto. Eu o via, porém não o decifrava. Seus segredos eram tão profundos e misteriosos quanto seus olhos.

Meu coração estava acelerado. Nossos rostos se aproximavam aos poucos. E quando seus lábios tocaram os meus, eu tive certeza de que enfrentaria qualquer coisa para ficar com ele. Qualquer mentira, qualquer verdade e qualquer pessoa. Era como se eu tivesse esperado por ele a minha vida inteira ou como se eu já o conhecesse. Era algo forte de mais, que eu jamais poderia imaginar existir.

O beijo ficou mais intenso e lágrimas começaram a escorrer no rosto daquele homem misterioso. Eu não sabia o que deveria fazer. Eu nunca havia beijado um homem. O meu corpo todo tremia numa fusão de sensações indescritíveis. Eu me sentia viva novamente.

Ele se afastou atordoado. Olhava pra mim confuso. E eu sabia que aquele olhar me escondia algo.

- Desculpe-me. – Falou culpado.

- Não se desculpe.

- Eu não devia... Não posso.

- Quem é você? Por que se esconde?

- Esqueça que me conheceu. Foi um erro.

Ele partiu em direção a floresta. Sem explicações. Sem despedidas. E eu fiquei ali, imóvel, sem conseguir pensar, sem conseguir agir. Ele estava partindo para sempre? Eu não entendia. Eu não suportaria.

- Não quero que vá!

Ele olhou rapidamente para trás. Um misto de culpa e dor. Não disse mais nada, apenas recolocou seu capuz preto e desapareceu na floresta.

- Mãe, eu não sei o que está acontecendo comigo. Eu nem sequer conheço este homem. Por que não está comigo pai? Por que foi embora?

Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Uma pequena demonstração de minha tristeza. Era estranho chorar novamente por eles depois de tanto tempo. Eu já havia me acostumado com a solidão, era como se eu tivesse morrido com eles. Agora tudo estava diferente. O vazio em meu peito estava doendo.

Deitei entre aquelas lápides tão queridas e tentei não pensar em nada. Já havia pensado muito por um dia e tomado muitas decisões inúteis. Em um minuto, tudo havia mudado. A traição de Charlotte e Marcony, e agora um beijo misterioso. Talvez amanhã, tudo mude de novo. Talvez até o final do dia... Peguei no sono e tive sonhos estranhos.

“Tudo era azul. Eu não podia ver a luz do dia, mas a desejava. Eu estava sem ar. Os meus membros não tinham mais forças para continuar lutando. Só havia água e eu estava afundando. A vida estava me deixando. Eu estava morrendo. Eu estava sozinha.”

Acordei atordoada. Já estava tarde e o céu estava coberto de estrelas. Voltei para casa correndo. Não havia como evitar minha tia, entrei pela porta da frente, esperando o barulho de seus sapatos de salto virem até mim.

- Menina bruxa! – Aquela voz rouca me fez estremecer. Sua delicadeza era inconfundível.

- Senhora Venere. Que bom vê-la. – Falei irônica.

Sentadas no sofá, ela e minha tia estavam rodeadas de livros e papéis. Caixinhas de madeira estavam empilhadas no chão, algumas maiores e quadradas e outras menores e arredondadas. O rosto da minha tia estava em pânico.

- Pensei que já tivesse se recolhido. – Falou a senhora venere, com um pouco de satisfação.

Percebi a situação desconfortável. Minha tia havia mentido.

- Sim... Estava indisposta, então me deitei cedo.

As duas olharam para mim de formas diferente, mas ambas esperavam uma explicação.

- Acordei a pouco e estava sem sono, então fui dar uma volta no jardim. Gosto de ver as estrelas.

- Não vimos você saindo — Falou a senhora Venere se sentindo vitoriosa. Achava ter pego duas mentirosas. E de fato, ela estava certa.

- Fomos à biblioteca pegar esses livros. – Disse minha tia com aquela aparente calma de sempre.

- Ah, sim... Lembro-me de ouvir vozes na biblioteca quando saí. Achei que fosse Bina que conversava com minha tia. – menti.

- Ainda está sem sono? – Perguntou minha tia, antes que a senhora Venere falasse mais alguma coisa, com a verdadeira tranqüilidade de volta ao seu rosto. – Estamos vendo coisas antigas e relembrando histórias.

- Já está tarde... – Minha tia levantou as sobrancelhas. Eu sabia o que significava. -... Mas adoraria me juntar a vocês. Deve ter histórias incríveis, senhora Venere.

- Está mais educada do que da ultima vez que a vi.

- Ela sempre foi uma garota educada.

- Não segundo minhas memórias.

“– Menina bruxa!

- Bruxa é você!

- Elissandra, olhe como ela fala comigo. Uma senhora na minha idade sendo insultada desse jeito...

- Anne, suba para seu quarto. Quando seu pai voltar, ele ficará sabendo do seu comportamento.

- Toda suja de lama, cheirando como comida apodrecida. Como deixa sua sobrinha viver nesse estado, Elissandra?!

- Apodrecida é você! – Falei antes de lhe dar língua e subir correndo as escadas.”

- A minha pequena Anne passou por momentos difíceis, como a maioria das garotas na sua idade não passam.

- A perda é sempre dolorosa, em qualquer idade. Minha filha Rose perdeu dois maridos, mas nunca deixou de ser uma mãe exemplar. Perder o marido é pior que perder os pais! Se quer viver, menina, tem que ir a muitos enterros. – Mas talvez eu não quisesse...

Sentei ao lado de tia Elissandra, me perguntando como e até quando aguentaria aquela velha insuportável. Eu não sabia que até o fim da noite, tudo mudaria. Eu realmente não fazia idéia dos segredos que me revelariam pequenas caixinhas de madeira.

Notas finais
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