Uma Garota Sombria
1 O mais triste dos vestidos
Notas iniciais
Eu me chamo Anne. E hoje, é o dia em que completo 15 anos de idade. Ao contrário do que deve imaginar, hoje, eu não irei a uma festa, não irei sorrir, não farei pedidos, e muito menos, me desejarão felicidades, ou me darão os parabéns. Ninguém ousaria dizer coisas assim para mim. Hoje, a única coisa que eu queria fazer era passar o dia com eles. E é o que vou fazer. Eu acordei antes de todos, antes mesmo dos empregados. Vesti um longo vestido preto. O mesmo que eu havia usado no dia mais doloroso da minha vida. Eu precisei fazer alguns ajustes, é claro, já que em dois anos, eu cresci bastante. Valeu o esforço. Aquele era o mais bonito e mais triste dos vestidos. E agora eu estava novamente com ele, andando pelas covas, a procura de dois nomes.
2 anos atrás...
Eu estava de luto. Isso significava roupas novas, ironicamente. Eu não costumava vestir preto antigamente, mas depois que minha mãe faleceu, eu passei a me vestir unicamente com essa cor. Na noite anterior havia chegado um vestido. Eu não havia pedido, mas minha tia mandou fazer roupas novas para mim, depois dessa mudança. Eu não podia mentir, eu havia gostado do vestido, era lindo sim. Mas não via nenhuma ocasião para vesti-lo. Experimentei, e depois o deixei sobre a cama. Eu não sabia, mas eu iria usá-lo mais breve do que eu imaginava.
Naquele dia, havia chovido a manhã inteira. A terra estava molhada e havia poças de lama espalhadas pelo cemitério. Ajoelhei-me e encarei sua lápide melancolicamente.
Já fazia um tempo que eu não chorava. Era estranho, mas era como se eu estivesse me acostumando com a dor. Era terrível.
Deitei ao lado de seu túmulo e fiquei lembrando de momentos bons. Agora, eram só lembranças que nunca mais se repetiriam. E lembrar disso, era o mais triste.
Senti a lama cobrir todo o meu corpo, e passando as mãos pela terra molhada, fechei os olhos. Fiquei horas ali. Ás vezes rolava pala lama devagar. Eu sempre gostei de brincar com a terra molhada. Minha mãe ficava preocupada, mas sempre ria de me ver toda suja. Mas eu não estava brincando, eu não sabia mais brincar. Ela tinha ido embora. Ela estava ali embaixo. Mas ela não estava preocupada, ela não estava rindo, ela nem ao menos respirava!
Meu pai estava viajando, ele teve que ir a capital a trabalho. Minha tia Elissandraveio morar conosco quando minha mãe adoeceu. Ela é uma boa pessoa. Cuidou de minha mãe e de mim, como se fosse sua obrigação. E ao contrário do que Binaachava, nunca se insinuou a meu pai. Era realmente uma boa mulher. Ela tem um filho, e eu uma irmã. Eles têm a mesma idade e se dão muito bem apesar das diferencias de personalidade. Pelo menos a pequena Elise encontrou algo para lhe confortar. Já eu... Apesar do barulho e de todos os empregados, era com se eu estivesse sozinha a todo o momento. E eu só me sentia mais segura ali, perto dela.
Começou a chuva, e era como se ela quisesse me levar. Foi ficando cada vez mais forte e eu me levantei para abraçar a lápide.
- Porque eu estou tão triste hoje, mãe? Por que essa dor? É como se estivesse piorando.
Os meus longos cabelos negros estavam totalmente grudados em meu rosto. E meu vestido preto, sujo e colado em meu corpo. Já era noite, e eu devia voltar para casa. Poderiam estar preocupados. Corri para casa o mais rápido possível. E quanto mais eu corria, mas sentia que precisava chegar logo. Minha cabeça estava confusa, uma confusão de imagens. Quando cheguei à porta, eu estava desorientada. Eu sabia que estava acontecendo alguma coisa. Dessa vez eu não iria entrar pelos fundos escondida, aguentaria o sermão se necessário, eu só precisava abraçar Elise. Eu só precisava ver minha irmã!
Bati na porta impaciente. A velha Bina, uma das empregadas da casa, abriu quase que imediatamente. Eu sabia que ouviria muitos sermões sobre minha ida ao cemitério e minha roupa. Mas não. Assim que me viu, ela me abraçou sem parecer se importar com a lama. Ela me segurou forte, como quem segura o choro.
- Coitadinha... – sussurrou.
As lágrimas inundaram meus olhos.
- O que aconteceu? Bina, me conte, o que aconteceu? – falei tremendo.
- O seu pai...
- NÃO! Não Bina... Ele não...
- Ele foi assassinado na capital. Eu sinto muito, minha filha, mas...
- Não!
- Seja forte. Seja forte. – Não! Eu não conseguia. Como ser forte, quando a vida me surrava desta maneira?
- Não... Eu não... – tentava falar com as lágrimas transbordando. – Eu não posso ser o que não sou. – Eu não era forte o suficiente.
Então tudo escureceu e eu perdi a consciência.
Euvesti aquele vestido para ir ao enterro de meu pai. Aquele era o mais bonito e mais triste dos vestidos. E agora, dois anos depois, eu estava novamente com ele, andando pelas covas, a procura de dois nomes.
Elisabeth Cavenaghi
Albano Cavenaghi
Na verdade, eu não precisava procurar, pois sabia exatamente onde estavam. Eu poderia ir até eles de olhos fechados. Aquele cemitério era como meu segundo lar e havia exatamente dois anos desde a primeira vez que eu estive ali pela primeira vez. Aos 13 anos, eu soube o quanto a vida pode ser triste e quanto a morte pode ser cruel. Eu perdi minha mãe no dia do meu aniversário, e quatro meses depois o meu pai. Aos poucos então, eu me tornei essa garota estranha que sou hoje. A garota de preto que praticamente vive no cemitério. Mas tudo está prestes a mudar. Agora eu já tenho idade para ser obrigada a me casar. E alguma coisa me diz, que algo vai acontecer em breve. Algo que vai mudar absolutamente tudo.
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