Uma floresta, úmida e sombria, em volta da garota de cabelos pretos, olhos azuis e pele alva como a lua, em suas vestes brancas de dormir. A luz circular que a iluminava mostrava-se azulada, enriquecendo sua palidez, e onde havia luz não haviam árvores. No centro, sentada no chão, tateava com desespero a superfície de aspecto estranho — branco e seco, como areia — olhando para todos os lados na tentativa de reconhecer o lugar.

A garota apanha um pouco dos grãos e os solta, observando suas mãos recentemente cortadas pela terra. Clarence ouve o vento em alta velocidade, tal qual uma espada corta o vento ou uma tempestade anúncia sua chegada e, em questão de segundos, acompanha com a cabeça até enxergar apenas uma luz tão clara quanto a que a rodeava. Seu coração dispara, sua cabeça volta à frente e inicia sua procura entre as árvores pelo o que acabara de passar. Ousa olhar novamente para trás mas, dessa vez, um rosto familiar lhe aparece como numa nebulosa translúcida que moldava sua face maldosa e estrutura flutuante que na medida em que se afastava revelava atrás de si uma foice afiada. A jovem se vira rapidamente para seus joelhos, agarrando-os por cima do vestido e manchando-o com suas mãos sangrentas, como se pudesse fugir da morte apenas fechando seus olhos com temor e sussurrando:

— Eu vou ficar bem. Vou sim, eu sei... Eu vou!

Porém ao terminar a frase, vários semelhantes aquele que a sentenciava saíram de trás das árvores e passaram a fazer uma espécie de ciranda ao redor de Clarence. Começaram andando lentamente no círculo à sua volta, mas mudavam seu ritmo a cada segundo. Num segundo andando, no próximo andando apressadamente, correndo... Até que em dado momento, se moviam com velocidade impossível de se acompanhar com olhos humanos, formando uma espécie de redemoinho que a suspendia no ar, tirando sua capacidade de respirar. Então, com as mãos no pescoço seus olhos reviravam e a mesma subia cada vez mais.

***

— Clarence, Clarence! CLARENCE! – Gritou a governanta, cravando as unhas finas nas mãos de Clarence. – Você estava tendo um pesadelo, quase se sufocou no travesseiro.

— Hã...? Como assim? O que foi aquilo? Quem era aquele?! – Disse Clarence suando frio e agarrando a tal mulher.

Surge então à porta, um homem, de cabelos negros e compridos, dizendo:

— Uma floresta, Clarence. Uma floresta. – Pôs um sorriso irônico em seu rosto e apontou para a janela num gesto com a cabeça.

A garota olha a paisagem e reconhece o lugar de seu pesadelo e, ao voltar seu olhar à porta, lá estava o espírito familiar de tal, também.

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