Uma Família de Natal
1 Prólogo
Notas iniciais
Aeroporto internacional de Guarulhos, 18 de agosto de 2012.
O ambiente era ligeiramente caótico, mas meticulosamente organizado. Pessoas apressadas corriam, outras observavam o cenário com a tranquilidade de quem chegou cedo, evitando qualquer imprevisto. Alguns pareciam perdidos, em busca do guichê correto. Despedidas e reencontros aconteciam em meio ao movimento frenético, tudo no mesmo local, antes mesmo do nascer do sol.
Observei o homem loiro ao meu lado e percebi sua apreensão enquanto caminhávamos pelo saguão do aeroporto. Já estávamos ali há mais de duas horas. Afinal, aquele momento representava a realização de um sonho antigo. Eu havia esperado por anos por essa oportunidade e não podia me dar ao luxo de me atrasar ou correr qualquer risco. Por isso, saímos de casa no meio da noite, chegando cedo para despachar as malas com calma, antes de atravessar a barreira que mudaria minha vida e meu futuro para sempre.
Paramos em frente ao embarque internacional. Embora o fluxo de pessoas na primeira fila ainda fosse pequeno, sabia que ainda teria um longo caminho até o portão de embarque.
“Acho que chegou a hora.” Tentei sorrir ao falar e notei que ele fez o mesmo, embora fosse evidente que essa não era a expressão que mais refletia, o que estávamos sentindo.
“É, chegou a hora.” Ele apertou suavemente minha mão, enquanto a outra segurava ligeiramente a alça da minha mala de bordo.
“Queria ficar mais tempo com você. O embarque real poderia ser mais como nos filmes, onde as pessoas se despedem praticamente no portão.” Ele sorriu. “Mas a vida real está longe de ser um filme.”
“Isso é bom, não sei se seria um bom protagonista.”
“E quem disse que você seria o protagonista? Eu seria a protagonista, você seria apenas o meu interesse romântico.” Brinquei, tentando arrancar aquele sorriso que eu tanto amava ver. De certa forma, funcionou, embora o sorriso dele não tenha alcançado seus olhos.
“Você seria sem dúvida a heroína perfeita de um grande sucesso de Hollywood.” Ele passou a mão suavemente pelo meu rosto. “É inteligente, forte, corajosa e extremamente bonita. A fórmula perfeita, quase a mulher perfeita.”
“Quase?”
“Você está me deixando, então… quase.”
“Não estou te deixando.” Falei rápido, como se quisesse me defender. “Peeta...”
“Eu sei, desculpa.”
“É por pouco tempo. Logo você vai conseguir seu visto e me encontrará lá.” Falei com a convicção de quem deseja que aquilo seja real. O visto dele ser negado não estava nos meus planos, mesmo assim, eu sabia que ele iria conseguir, talvez não nos próximos meses, mas iria conseguir.
“Preciso esperar um pouco antes de tentar de novo. Quem sabe depois de terminar minha pós...” Ele olhou para baixo, meio sem jeito. “Vou me empenhar mais no inglês, talvez fazer um curso, embora duvide que encontre uma professora melhor que você.” Ele tentou brincar, mas seu semblante não refletia isso. Eu sabia o quanto tinha se dedicado nos últimos meses para melhorar no idioma. A pronúncia estava excelente, mas a escrita sempre foi um obstáculo, especialmente ao tentar se inscrever para estudar no exterior.
“Vai dar certo.”
“E se não der? Katniss, e se eu não conseguir?”
“Amor, não é a primeira vez que ficamos longe. Deu certo da outra vez, vai dar certo agora.”
“Existe uma grande diferença entre São Paulo/Rio Grande do Sul e São Paulo/Nova York.” Eu pude sentir a mão dele ficar mais fria. “Eu não estou com um bom pressentimento. E se as coisas derem errado? Não dá para pegar um avião ou dirigir até você a qualquer momento. Não posso passar o dia dirigindo só para te ver.” Percebi que ele estava começando a se desesperar, o que não fazia sentido. Peeta sempre foi centrado, o tipo de pessoa calma, que sabe lidar com qualquer situação. Puxei ele para um canto e olhei nos seus olhos.
“Peeta, fica calmo, amor. É só o clima de despedida. No pior cenário, se você não conseguir o visto, são apenas dois anos de curso. Depois estarei de volta e vamos seguir nossa vida.”
“Dois anos é muito tempo.”
“Não é, amor. Olha, conversamos sobre isso várias vezes.” Coloquei as duas mãos no rosto dele. “Vai dar certo. Vai ser bom para nós.”
“Não precisamos disso, podemos fazer dar certo, você tem um bom emprego aqui. Sei que é seu sonho, mas podemos ir pra fora do país depois, fazer isso juntos.”
“Peeta...”
“Fica, por mim, por nós. Não vai. Fica comigo, por favor, Katniss. Ir para Nova York sozinha agora é uma péssima ideia.” Olhei para ele, sem entender o motivo de tudo aquilo. Nos três anos de namoro e quase dois de noivado, Peeta sempre foi a pessoa que mais incentivou meus sonhos. Ele me apoiou em cada decisão e escolha que fiz, tanto pessoal quanto profissionalmente. Abraçou nosso futuro como algo inevitável, e mesmo quando se formou dois anos antes de mim e, ao não conseguir um emprego, teve que deixar São Paulo e voltar para o sul, onde morava com a avó, nada indicava que ele pensava que as coisas não dariam certo. Pelo contrário, lutou incansavelmente até conseguir um emprego na capital paulista, onde, sem medo, estabeleceu uma moradia fixa perto de mim.
“Olha, é só o clima de despedida falando. Conversamos sobre isso antes, vai dar certo. Você sabe o quanto eu queria que você fosse comigo, mas também sabe que essa é a única chance que tenho de fazer o MBA na Columbia. Você sabe o quanto foi difícil conseguir esse intercâmbio e o quanto sonhei com isso. Em dois anos, vou realizar dois grandes sonhos: me formar no exterior e, então, trocar essa aliança de mão.” Mostrei a aliança que compartilhávamos nos últimos anos, balançando levemente os dedos. “E então, vou me tornar a senhora Mellark. Vou até mudar meu sobrenome.” Ele tentou sorrir, mas seus olhos azuis estavam cheios de lágrimas.
“De todos os meus sonhos, o maior deles e me casar com você Katniss, por mim faríamos isso hoje, você sabe.” E de fato eu sabia, sabia que por ele já estaríamos casados a muito tempo. “Eu te amo, muito, mais do que qualquer coisa nesse mundo.”
“Não existe nada nesse mundo que me impeça de me casar com você, Peeta. Eu também te amo.”
Aproximei meus lábios dos dele, quebrando a distância entre nós com um beijo que, a princípio, foi quase um selinho, mas, antes que eu pudesse me afastar, ele aprofundou o gesto naquela dança segura e conhecida dos nossos lábios. Senti meu coração acelerar, como sempre acontecia nos braços dele. Eu amava aquele homem de uma forma que nunca havia amado ninguém. Se havia alguém que me fez desejar aderir aos votos do matrimônio, era ele.
Quando me afastei, peguei a alça da minha mala. Eu precisava ir, não podia ficar ali, olhando aquele azul penetrante que tanto amava, ou não teria forças para fazer o que precisava ser feito.
“Me liga assim que chegar.” Eu confirmei com a cabeça.
“Vamos nos falar todos os dias pelo Skype.” Vi a lágrima que ele estava tentando segurar descer pelo seu rosto, e me virei antes que ele pudesse ver as minhas.
Respirei fundo enquanto arrastava minha mala em direção ao embarque internacional, sem olhar para trás.
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