Uma Família Feliz...

9 A Noite Mais Longa


A medicação começou a fazer efeito.

Mas antes de melhorar… piorou.

Jacob havia avisado.

— Nas primeiras semanas, pode haver aumento da ansiedade, sonhos vívidos, intensificação emocional.

Bella não imaginava o que isso significava.

Ela começou a sonhar todas as noites.

O Sonho do Fogo

Ela estava na sala.

Anthony brincava no tapete.

Charlie no carrinho.

Edward organizava alguns papéis na mesa.

Tudo normal.

Então ela pegava uma caixa de fósforos.

No sonho, suas mãos tremiam, mas seus olhos estavam vazios.

Ela riscava.

O sofá começava a queimar.

A cortina pegava fogo.

O teto escurecia.

As crianças choravam.

Edward gritava o nome dela.

Mas ela não se movia.

Ela assistia.

Acordou sufocando.

O cheiro de fumaça parecia real.

Ela correu pelo corredor.

Entrou no quarto das crianças.

Anthony dormia com o ursinho.

Charlie respirava tranquila.

Edward apareceu atrás dela.

— Amor? O que foi?

Ela o olhou como se ele estivesse distante. Como se fosse uma lembrança, não um homem de carne e osso.

— Eu queimei vocês.

Ele segurou o rosto dela.

— Foi um sonho.

Mas, para Bella, parecia memória.

O Sonho do Silêncio

Dois dias depois, outro.

Ela estava na cozinha.

Anthony sentado à mesa.

Charlie no cadeirão.

Ela colocava algo na comida.

No sonho, ela sabia que era veneno.

Mas não via o rosto deles.

Via apenas sombras.

Eles paravam de se mover.

O silêncio era absoluto.

Ela acordou gritando.

Edward a segurou antes que ela saísse correndo para o quarto das crianças.

— Eles estão bem. Eu prometo.

Mas a mente dela já estava construindo outra narrativa:

“Você é perigosa.”

“Você não deveria estar aqui.”

“Você vai machucar alguém.”

A Cozinha — Realidade vs. Mente

Era fim de tarde.

A casa estava relativamente tranquila.

Renee tinha levado Anthony ao parquinho.

Charlie dormia no berço.

Bella e Edward estavam na cozinha.

Ele preparava café.

Ela encostada na pia, braços cruzados.

Realidade:

Edward falou com voz calma.

— O Jacob acha que precisamos ajustar a dose. Só isso. É um processo.

Na mente dela:

— Você está piorando. Isso não está funcionando. Talvez a gente precise pensar em algo mais sério.

Realidade:

— Talvez seja bom você descansar alguns dias na casa da sua mãe. Só pra aliviar a pressão.

Na mente dela:

— Talvez seja melhor você ficar longe das crianças.

O coração dela acelerou.

Realidade:

Edward deu dois passos na direção dela.

— Bella, olha pra mim.

Na mente dela:

Ele apontava o dedo.

Acusava.

O rosto endurecido.

— Você está colocando todos em risco!

A respiração dela ficou irregular.

— Eu não sou um risco! — ela gritou.

Realidade:

Edward apenas abriu os braços.

— Eu nunca disse isso.

Mas, na mente dela, a discussão já estava fora de controle.

Ela viu a si mesma avançando.

Empurrando ele.

Batendo no peito dele.

Gritando.

Ela sentiu o impulso real de levantar a mão.

Por um segundo.

Um segundo perigoso.

Ela recuou.

Mas na cabeça dela, a cena continuou: ela socando, ele caindo, tudo quebrando.

Então a realidade invadiu.

Edward estava ali.

Imóvel.

Os olhos cheios de preocupação, não de raiva.

Ele se aproximou lentamente, como quem se aproxima de alguém à beira de um precipício.

— Eu estou aqui. Eu não estou brigando com você.

Ela começou a tremer.

— Você estava gritando comigo…

— Eu não estava.

A confusão no rosto dela era devastadora.

Ela começou a chorar.

— Eu ouvi… eu vi…

Ele a abraçou.

Ela estava rígida no início.

Depois desmoronou contra o peito dele.

— Vai ficar tudo bem — ele sussurrou, repetindo como um mantra.

Mas, por dentro, ele estava apavorado.

Porque agora não eram só sonhos.

Era distorção da realidade.

A Decisão

Na sessão seguinte, Jacob ouviu tudo com atenção extrema.

Ele ficou mais sério do que nunca.

— Bella, você está apresentando sintomas de depressão pós-parto grave com episódios dissociativos e pensamentos intrusivos intensificados.

Edward estava na sala dessa vez.

— O que isso significa? — ele perguntou.

Jacob respirou fundo.

— Significa que talvez seja necessário um acompanhamento mais intensivo por um período. Possivelmente internação breve para estabilização.

Bella ficou pálida.

Na mente dela, aquilo virou:

“Eles vão me trancar.”

“Eles vão tirar meus filhos.”

“Edward quer se livrar de você.”

— Não! — ela se levantou abruptamente. — Você quer me afastar deles!

Edward ficou de pé também.

— Eu quero você viva.

A frase ecoou.

Jacob interveio:

— Internação não é punição. É cuidado.

Mas Bella já estava entrando em pânico.

— Vocês estão conspirando contra mim.

O olhar dela estava diferente.

Não agressivo.

Mas distante.

Edward sentiu o chão sumir sob os pés.

Ele nunca imaginou que amar alguém pudesse doer tanto.

A Noite Mais Longa

Naquela noite, Bella ficou sentada no chão do quarto das crianças, observando os dois dormirem.

Edward a encontrou ali às três da manhã.

— Amor…

— Eu tenho medo de mim.

Ele sentou ao lado dela.

— Eu tenho medo de te perder.

Silêncio.

Ela encostou a cabeça no ombro dele.

Pela primeira vez em semanas, não havia distorção.

Só dor real.

Humana.

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