Uma Estranha No Meu Quarto
5 Capítulo 5 - Pobre menina rica
Notas iniciais
Todo o meu corpo doía. Aos poucos fui absorvendo a atmosfera de lugar mau-iluminado para mim, e isso machucava. Não me era um lugar estranho, mas não era conhecido. Parecia-se com um quarto: A grande cama embaixo de mim, as paredes azuis, os pôsteres pregados nela, a porta para o banheiro no canto direito, uma escada descendo para um canto de estudos, a porta de vidro para a varanda localizada ao lado da cama, a mesa de cabeceira com o abajur e os portas-retratos do outro lado da cama, o telefone celular na mesa do computador mais à frete, junto com estantes cheias de CD’s e outras coisas legais… Se quisesse sair dali era só descer as escadas, passar pelas estantes com os livros e a lareira e disparar pela porta. Eu sabia disso sem nem me levantar para olhar lá em baixo, só não compreendia como. Então me ocorreu que aquele era meu quarto, o quarto da casa nova. Por isso era tão estranho para mim.
Tinha uma cortina na janela em cima da cama e ela estava batendo por trás da minha cabeça com o pulsar do vento. A porta da varanda estava aberta e o vento gélido da madrugada entrava sem ser convidado. Uma neblina também se apossava do ambiente e percebi que o quarto estava apenas iluminado pela lua, cheia, distante no céu. Teria de levantar, acender as luzes e fechar pelo menos a porta. Mas não podia.
Percebi então que estava confortável encostado em um ou mais travesseiros. Não deitado, mas sim sentado. E não era preguiça que me impedia de levantar, era outra coisa a qual estava me esquecendo…
A dor, lembrei repentinamente. Minha dor, a dor de mais alguém… Alguém estava aqui, sofrendo comigo. Eu não podia ver, mas sentia. Estava chamando por mim, mas não com palavras. E a medida que chamava a dor aumentava.
— Quem é? — Eu soei meio estrangulado e lutei para recompor minha voz. — É você?
Eu não soube quem eu pensava que era e não obtive uma resposta concreta de imediato. Mas depois o colchão no pé da cama começou a afundar vagarosamente, como se alguém, alguma presença, estivesse subindo na cama. Eu senti a presença engatinha e parar em cima de mim, senti seu peso sobre o meu, sua pele sobre a minha. Era uma pessoa, sem dúvida. E mesmo me tocando, mesmo tão próximo de mim, eu não podia vê-la. E apesar disso não senti medo, só vontade de vê-la. Não tinha tanta neblina assim, não o suficiente para cobrir uma pessoa inteira. Ela simplesmente era invisível.
— Mas por que eu não posso…
Eu nunca finalizei a frase. Ela me calou com seus lábios delicados e eu pude sentir toda sua urgência, todo seu pedido mudo. Eu concordei passando os braços envolta dela e a puxando contra mim. Ela colocou suas mãos em meu rosto e deu um longo suspiro, sem interromper o beijo.
Ela se separou dos meus lábios e deitou sua cabeça em meu ombro. Eu acariciei seus longos cabelos lisos com uma das mãos, sem soltar sua cintura com a outra. Toda dor que senti tinha passado e eu me sentia plenamente feliz.
Entretanto uma confusão de sentimentos emanava dela: Amor, alegria, felicidade, desejo, esperança, insegurança, raiva, ódio e tristeza, muita tristeza, sólida e permanente. E acima de todos esses sentimentos, o medo. Se sentia tão indefesa…
— Eu vou te proteger… — Eu disse com firmeza e suavidade. — Para sempre.
Eu enxuguei uma lágrima de seu rosto. Era engraçado o modo como eu conhecia seu corpo mesmo sem ver, parecendo até que eu tenho um mapa dele. Eu sabia exatamente onde encontrar cada parte e eu procurei por sua boca, mais urgente. Ela se mostrou insegura com meu beijo repentino mas não mostrou resistência. Depois se afastou, desta vez para ir embora. Eu agarrei seu pulso com força.
— Não, não, não. — Senti minha voz entrando em pânico. — Não vá embora, por favor.
Ela encostou seus lábios uma última vez nos meus e depois o pulso que eu segurava desapareceu do meu aperto.
A claridade me cegou por um momento até que meus olhos se adaptaram a nova luz. Sentia-me confuso e atordoado essa manhã. Talvez por causa da confusão na escola de ontem. Tanto sangue, não gosto disso. Houve um total de 36 mortos, e em memória a eles o diretor fechou a escola durante um mês.
Mesmo se tivesse aula, acho que ninguém iria. Meus lábios ainda formigavam com prazer e eu ainda estava em pânico. Eu olhei para a mão que agarrava o pulso da presença ontem a noite. Se encontrava fechada sobre o lençol e vazia.
Foi um sonho. Mas parecia tão real… Eu queria ao menos tê-la visto. Seria ela minha ex-namorada? Não, o beijo da menina de ontem era… doce.
Eu vaguei com o olhar pela parte de cima do quarto. De dia o quarto me pareceu mais familiar, menos assustador e frio. Eu liguei a grande TV de plasma posicionada de frente para a cama, não lembrando de tê-la visto no sonho ontem. Apesar de estar de frente para a cama estava a metros dela. Isso me fez olhar automaticamente para a porta ao lado dela. Pensei que era a porta do banheiro no sonho, era o closet na vida real. Deve ser por que eu nunca tive um closet na vida, nunca senti necessidade de ter um lugar tão grande assim para colocar minhas roupas. E o closet é realmente grande, do tamanho da parte de cima do quarto, onde eu tenho dormido há quase duas semanas.
Não é só o closet que é absurdamente grande, pensei. O quarto inteiro é um absurdo, surreal!
Eu ficaria contente só com a parte de cima dela, mas ainda tem um andar de baixo exclusivo. Eu tinha tido a sorte de ganhar ele dos outros — num jogo de pôquer — e o azar de minha mãe ter se metido na história. Ela viu que minhas coisas não seriam suficientes para mobiliar o andar de baixo e encheu o espaço com livros, muitos livros em estantes rodeando as paredes. Ela colocou umas poltronas e uma mesinha de cabeceira de frente para a lareira artificial. Sim, tem uma lareira no quarto. E um lustre de diamante em cima da mesa, no teto. E como o segundo andar só ocupa metade do quarto, como uma galeria ou uma arquibancada, dá pra ver todo esse espaço de cima.
A parte de baixo que não dá pra ver de cima foi decorada por mim. Eu coloquei uma mini geladeira, um vídeo game, outra TV, outro computador, muitas poltronas coloridas, um tapete legal, desenhos de animes pintados na parede, uma estante com potes de guloseimas e um aparelho de som potente e moderno, com caixas de som espalhadas pelos dois andares. Eu fiquei realmente satisfeito por decorar um pedaço do quarto, apesar de não estar tão luxuoso quanto o lado da minha mãe.
E depois dessas coisas todas o quarto ainda se encontra um tanto vazio. O que me leva a imaginar que tipo de pessoa era dona dele antes de mim. Deveria ser alguém muito… exagerada.
Isso mesmo,um grande exagero. Para quê tudo isso? Eu pensei debruçado no peitoril, olhando diretamente para a lareira no andar de baixo.
“Era o quarto da filha do antigo dono. Ela era uma daquelas meninas que passa o dia inteiro no shopping, que desmaia quando quebra uma unha, a garota perfeita para o filme As Patricinhas de Bevely Hills. Ela costumava fazer muitas festas nesse espaço todo grande. Estudava onde vamos estudar e era a garota mais popular da escola. Dizem que era linda. Em todo caso não se preocupe muito com a história do quarto. Ele será meu.” Eu recordei o que Michael me disse pouco antes de nos mudarmos.
Michael estava certo, essa menina com certeza era bem… Perua? Não sei se é a palavra certa, mas era bem espaçosa.
“Ela era a garota mais popular da escola?” Não pude deixar de perguntar. “Não é mais?”
“Ela morreu há mais ou menos três anos atrás. Por isso seus pais venderam a casa.” Disse pó fim.
Eu regressei ao presente. Virei meu rosto até a porta ao lado da TV. O closet.
Talvez eu deva usá-lo em consideração a ela. Aposto que ela não gostaria de ver seu closet fechado e abandonado.
Notas finais
Até a próxima :)
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