Uma Estranha No Meu Quarto
31 Capítulo 28 - Reunião (parte 01)
Notas iniciais
É início do pôr do sol quando estaciono em frente ao duplex “abandonado” de Ana e os outros fantasmas. Jaynet salta do carro animada e estica os braços, correndo em direção a porta de entrada. Ela havia passado alguns meses com Ana nessa casa enquanto eu estava em coma, então conhecia bem o lugar. Aciono o alarme do carro e a sigo, batendo na porta. Jaynet revira os olhos.
— Que educadinho!
Bufo e espero, até que um fantasma trajado com roupas do faroeste a abre. Me assusto ao vê-lo com um coldre enorme na cintura e algumas cicatrizes pelo rosto. Em seu peito uma estrela chamativa de prata brilhava. Ele me olha de um jeito carrancudo, mas ao ver Jaynet abre um enorme sorriso e a ergue no ar, girando-a.
— Patricinha, você voltou!
— Xerife!!! — Jaynet beija seu rosto e ele a põe no chão. Então ela aponta para mim. — Este aqui é o mediador..
— É ele?!!! — O fantasma me lança um olhar indecifrável. — Olá Christian Grey!
O xerife cai na gargalhada e Jaynet o cutuca. Não entendo a piada deles, mas quando ele sai gritando pela casa que “o Christian Grey chegou”, vários pares de olhos se amontoam e me cumprimentam da mesma forma. Jaynet se encolhe e me encara sem graça, se desculpando. Entramos na casa e sinto a madeira podre ranger sob meus pés. O burburinho ao meu respeito continua.
— Até que é gostoso! — Comenta outro rapaz de roupa de faroeste. — Mandou bem patricinha.
Diversos tipos de comentários são ditos, até que Ana desce as escadas do duplex, um sorriso enorme em seu rosto. A garotinha idêntica a Kristen vem em seu encalço e pula no colo de Jaynet. Minha fantasma favorita abre um sorriso que faz meu coração derreter e a aperta.
— Tia!! Estava com saudades.
— Eu também Karine! — Jaynet beija seu rosto de forma amável. — Vim pegar aquele desenho que você me prometeu.
— Ih tia, eu esqueci... — A tal de Karine desce do seu colo. — Vou desenhar agora mesmo!
Karine sai correndo com os braços abertos, imitando um avião. Ela é tão parecida com Kristen que me causa arrepios. Observo suas ações atentamente e espero ela fazer algo estranho, no entanto ela age como uma criança de seis anos, como Kristen deveria agir, e tem um jeito ingênuo. Solto o ar, nem me dando conta de que o estava segurando.
Ana toca levemente meu braço, contraindo minha atenção. Fito seu vestido rodado de mangas compridas e rendas delicadas, imaginando qual seria sua idade.
— Que bom vê-los aqui, pensei que nunca iriam nos visitar.
— Muito bonita a casa. — Elogiei, tentando ser educado.
— É antiga e desgastada, porém aqui possuímos um pouco de paz e tranquilidade. — Ela sorri e segura a mão de Jaynet. — Por que não vamos lá para a sala, lá podemos conversar melhor. — Ela ergue a mão e me indicando uma porta no canto do hall. — Cuidado onde pisa Christian, tem muito tempo que ninguém vivo entra aqui, não sabemos como estão as condições do forro.
Assinto e as sigo, fitando atentamente o chão de madeira e pulando algumas partes que considerei perigosas. Alguns outros fantasmas nos seguem até uma sala pequena e acolhedora, com uma lareira no centro e algumas poltronas individuais, ignoro a poeira e arrisco sentar em uma delas, esperando que ela não ceda e eu caia de bunda no chão. Ana se acomoda a minha frente, e Jaynet se senta na poltrona ao meu lado. Os outros fantasmas saem, me deixando a sós com elas duas.
— Está com frio Christian? Quer que eu acenda a lareira? — Pergunta preocupada. — Não temos muita noção de temperatura devido a nossa... Condição.
— Assim está bom para mim Ana, obrigado.
— Espero que você não esteja com fome. — Sorriu sem graça. — Não temos nada de comer aqui, me desculpe.
— Eu sei, já comi algo na escola.
Encaro Jaynet esperando ela começar. Havia tanta coisa a ser dita, a ser esclarecida. Ela pensa por um tempo e abre um sorriso.
— Convidei um amigo para vir aqui Ana, ele deve chegar em breve.. — Fecho meus olhos contendo minha irritação, imaginando o assassino abusado e sedutor de quinhentos anos que ela havia chamado, contudo Jaynet me surpreende. — O nome dele é Jason, ele tem vivido com a gente há algumas semanas. Sua família foi assassinada recentemente em um incêndio criminoso...
— Ah Meu Deus que horror! — Exclama Ana, suas feições realmente tristes.
— É triste mesmo. Alguém trancou a casa, um fantasma assim como a gente. Ele perdeu a esposa, um filho de 15 anos e a filha de seis. — Jaynet suspira e imagino onde ela quer chegar contando esse tipo de coisa. — Então ele nos procurou para ajudar a encontrar o assassino.
— E vocês conseguiram encontrar? — Ana se empertiga na poltrona parecendo interessada e encara os outros fantasmas que estavam ouvindo calados. — Se precisarem de qualquer ajuda, podem contar com a gente.
— É aí que está o problema, ele acha que foi Roosevelt. — Resumo a história e Jaynet me encara furiosa. — Ele quer que eu o exorcize, ameaçou matar todos da escola se eu não fizer.
Ana coloca a mão na boca assustada. Ela corre os olhos de mim para Jaynet.
— Não era desta forma que eu queria contar a ela! — Jaynet ralha comigo.
— Claro, você queria amenizar a culpa do seu protegido e tirar o dele da reta. — Rebato irritado. — Sequer ia tocar no nome dele, não é?
— Ia sim, mas não como assassino. — Jaynet me rebate de volta, irritada também. Então se volta para Ana. — Ele não matou essas pessoas Ana, Jason está enganado.
— Isso é o que ele te diz. — Respondo a ela, furioso. — Acho que você se esqueceu de todas as coisas que ele vem fazendo, se esqueceu de todas pessoas que ele assassinou.
— Eu não disse que ele é nenhum santo! — Jaynet praticamente gritou. — Eu só disse que ele não matou essas pessoas!
Ana encara nós dois, surpresa por nossa hostilidade. Jaynet ventila e nós nos calamos. Inspiro com força, tentando me acalmar.
— Mas você exorcizou o Roosevelt? Conseguiu? — Pergunta Ana apreensiva. — Ele é perigoso, Christian, muito perigoso.
— Não fiz nada, a Jaynet não quer deixar. — Arfo e viro o rosto.
— Jaynet!!
Ana encara Jaynet com as sobrancelhas franzidas. Minha quase namorada descruza os braços e lhe lança um olhar suplicante.
— Não foi ele Ana, eu sei que não foi. Eu conversei com ele, olhei em seus olhos. Você tem que acreditar em mim.
Ana suspira e cruza as pernas.
— Jaynet... — Ana brinca com os dedos procurando as palavras certas. — Conheço o Conde Roosevelt há muitos séculos, nós vivemos e morremos praticamente na mesma época, no mesmo círculo social, e ele não é mais o que costumava ser.
— Conde?!! — Exclamo exasperado.
Porra, além de tudo o senhor perfeitinho tem um título! Não tenho chance alguma...
— Não sabia que ele era um conde! — diz Jaynet, encantada. — Nossa, adoro a época de vocês, parece ser uma época tão... chique.
— E era... Era uma época de aparências. — Ana balança a cabeça, rindo sozinha. — Como eu ia dizendo, o senhor Roosevelt costumava ser um homem confiável, de boa índole... até sua morte. Depois disso ele foi aos poucos se demostrando outra pessoa. Não sei se posso confiar nele, e acho que você também não deva.
Ouvimos uma leve batida e o Xerife bota a cara sem abrir a porta e encara Ana. Arfo e contenho um grito pelo susto.
— Porra!!
— Desculpa, Christian Grey. — Ele dá um risinho. — Tem um fantasma aqui fora chamado Jason.
— Mande-o entrar, Matheus.
Matheus/Xerife se retira e vejo Jason transpassar a porta. Reviro os olhos ao tomar outro susto.
— Será que vocês não podem girar a maçaneta como pessoas normais!
Jaynet ri. Jason a beija no rosto e dá um tapinha em minhas costas. Ele segura a mão de Ana e a beija e pude jurar que rolou um clima. Jaynet me encara de um modo cumplice que diz que ela achou exatamente a mesma coisa.
— Sou Jason, Jaynet fala muito sobre a senhora.
— Senhorita, por favor. Nunca me casei. — Ana sorri e estende a mão, indicando uma poltrona vazia. — Me chamo Ana. Sente-se Jason, estávamos justamente falando sobre seu trágico incidente. Eu sinto muito pela sua família.
— Obrigado Ana. Onde vocês estavam?
— No problema Roosevelt. — Respondi de forma apática.
— Aquele filho da puta! — Jason encarou Ana e encolheu os ombros. — Desculpa. Mas você já deve saber da lavagem cerebral que ele fez na nossa queridinha ali.
— Ele não me fez nada! — Jaynet encarou Jason com olhos suplicantes. — Por favor, Roosevelt não matou sua família, o verdadeiro assassino irá sair impune se a gente o acusar.
Jason se levantou exasperado. Me pus entre ele e Jaynet, mesmo sabendo que sou o único que pode realmente apanhar e sofre por isso.
— Você não estava lá! — Ele gritou. — Eu estava, eu vi. Era ele, Jaynet, eu tenho certeza.
— Você deve ter se enganado...
— Como você se atreve a dizer isso!!
Jason avançou na direção de Jaynet, tentando passar por mim. Ana se levantou, segurando ele pelo braço. Ela
— Por favor, isso não vai levar a nada. — Suplicou. — Se acalmem os dois..
Abracei Jaynet e me sentei de novo na poltrona, forçando-a a ficar no meu colo. Ela recostou a cabeça em meu ombro e se pôs a estudar minha expressão bem de perto. Jason foi amparado por Ana, que passou a acariciar-lhe o rosto. Lentamente os dois foram se acalmando. Jaynet suspirou e procurou meus olhos.
— Eu odeio injustiça, tente entender. — Assenti, mesmo não entendendo tamanho empenho. — Você tinha que ver quando eu o questionei, o Roosevelt. — Sussurrou baixo para que Jason não ouvisse. — Ele nem tentou se defender. Acho que ele desistiu. Esses assassinatos que ele comete, toda essa história de ritual, sinto é sua ultima esperança. Eu olho para ele e me vejo daqui quinhentos anos. Você precisa entender, por que eu o defendo. Por favor.
Assinto novamente, agora um pouco mais convencido. Esfrego minhas têmporas tentando me colocar na situação do Roosevelt, quinhentos anos sem perspectiva de futuro, trancafiado naquela mansão. Depois tento me colocar no lugar de Jaynet, quinhentos anos presa em nossa casa, eu já falecido. Então surge uma oportunidade... como eu reagiria? O que eu faria se fosse estivesse no lugar deles? Minha cabeça lateja.
— Eu não consigo jaynet. — Respondo. — Tudo isso é muito surreal, há um ano atrás eu nem tinha conhecimento de todo esse universo por trás de simples vida humana.
Jaynet se aninha no meu ombro. Não sinto sua respiração em seu pescoço, não sinto seu coração bater. Mas ela existe, ela é real. Todos eles são pessoas reais, com problemas reais. E as pessoas são falhas, pessoas cometem erro...
Eu também cometo muitos erros. Talvez o Roosevelt tenha cometido alguns, talvez ele esteja tentando do jeito que ele pode, talvez Jason tenha se enganado e não era ele. Não posso mais julgá-lo, não sem conhece-lo direito. Nós só nos vimos o que? Duas vezes?
Encaro o fantasma a minha frente e tento manter um tom de voz neutro:
— Jason. — Ele vira o olhar para mim. — Tem certeza?
Jason suspira e revira os olhos. Não me responde, nem tem tempo. Pois, sentado na quinta poltrona que antes estava vazia, está ninguém menos que Roosevelt.
O fantasma nos encara de forma apática, assistindo seu julgamento particular. Bem diferente da última vez em que o vi, Roosevelt estava novamente com suas roupas de época e um olhar mais antigo do que sua aparência revelava. Parecia cansado, muito cansado. Eu nunca havia parado para reparar nele antes.
Ele lança um sorriso amável para Jaynet e percorre o cômodo com os olhos, parando na sua conterrânea temporal, — se é que isso existe — a mulher que nasceu na mesma época e cidade que ele.
— Ana. — Sua voz sai indiferente.
— Conde Mackenzie.
— Esse título não me diz mais respeito senhorita Harrison.
Olho Jason de soslaio e ele está com as mãos fechadas em punho, se controlando com muito empenho, no entanto está quase explodindo e sei que essa reunião está longe de acabar. Ana concorda com a cabeça, e observa Roosevelt com expectativa. Ele suspira e encara Jaynet.
— Então... Vocês falavam de mim, dos meus assassinatos. — Roosevelt abre um sorriso debochado. — Não se incomodem com minha presença, podem continuar. Acho que precisamos mesmo esclarecer algumas coisas.
Jason enfim explode e avança em sua direção, urrando. Roosevelt ergue a mão num único gesto singelo e o fantasma voa em direção a parede. A construção já velha e meia abalada cede, não com o peso pois Jason não tem nenhum, mas com o poder de Roosevelt, a força que ele exerce. Parte do concreto despenca em pequenas partículas de poeira. Jaynet e Ana arregalam os olhos. Eu devo estar com os olhos arregalados também pois nem consigo me mexer.
Ele encara o fantasma caído no chão com a mesma apatia de antes. Sua voz sai baixa e contida:
— Será que agora podemos conversar, ou você vai vir me atacar outra vez?
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