Uma Estranha No Meu Quarto

13 Capítulo 13 - Entre Dois Planos


Notas iniciais
Christian está morto? Não está morto? Não sei XD

Se tem uma coisa que eu nunca imaginei na minha vida é olhar meu próprio corpo deitado numa maca de hospital, mas cá estou de pé e calmo observando todo o sangue esvair do meu corpo. Tanto que o médico disse que eu precisaria de uma transfusão e se retirou da sala apressado, juntos com todos os enfermeiros, me deixando a sós comigo mesmo. Observei minha respiração subir e descer descompassada e ouvi a música fora de ritmo vinda da máquina que me mantém respirando. Eu toquei a minha cabeça, verificando o ferimento que mais sangrava, minha pele pálida e meus lábios brancos. Porém a minha mão ultrapassou tudo, e logo eu não resisti e passei a mão por dentro de todo meu corpo e os objetos cirúrgicos, rindo debilmente por não conseguir realmente tocar em nada.
Meu deus eu vou morrer.
Me sobressaltei quando todos retornaram e tomaram suas posições, o médico ficando parado justo onde eu estava de pé, me desfazendo em fumaça, a mesma quando alguém ultrapassa a Jaynet ou os outros fantasmas. Eu fiquei apavorado e recuei, indo pro canto do cômodo, me refazendo. Fiquei em silencio e assisti eles conectarem a bolsa de sangue em mim, e o médico pegou uma das ferramentas esquisitas e começou a procurar algo dentro do ferimento da cabeça. Então, ao invés de fechar o ferimento ele abriu mais, mostrando pra mim meu amado cérebro. Eu juro que queria vomitar mais infelizmente acho que espíritos não vomitam. Ele ficou revirando, procurando algo.
— Doutor, não seria melhor a gente retirar os cacos de vidro do corpo e depois cuidar do ferimento maior? — Ouvi uma enfermeira dizer, ela parecia estar nervosa.
— Não.. — Respondeu o homem de cabelos brancos e uma calvice discreta, ainda concentrado na minha cabeça. — Pode ter cortado alguma artéria e ele perder mais sangue, precisamos cuidar deste primeiro.
A moça assentiu.
— E o que aconteceu com ele? — Indagou um enfermeiro mais jovem.
— Ele tem o braço direito quebrado, vidro por toda parte da frente do corpo, vidro dentro da cabeça... — Eu botei minhas unhas na boca, roendo pelo nervosismo — Acredito que ele caiu de alguma janela amortecendo a queda com o próprio braço e os cacos de vidro caíram depois
— Coitadinho — A enfermeira levou a mão ao peito
— Vamos fazer nosso melhor mas... — Ah não! Por que sempre tem que ter um "mas". —... ele perdeu muito sangue acho que não vai sobreviver.
— Meus deus não, eu não quero morrer... — Este foi eu sendo ignorado pois ninguém me ouvia mesmo.
— Pronto. — Ele mostrou um pedaço de vidro que retirou de dentro do meu crânio — Não tem mais nada aqui acho que podemos começar a fechar.
Depois de horas assistindo eles revirarem meu corpo, sentir enjoo várias vezes, uma fedelha muito chata apareceu do meu lado, fitando curiosa o procedimento. Antes tivesse sido Jaynet.
— Kristen. — Falei azedo. — Não vai me beijar hoje?
— Chris — Ela me cumprimentou sorrindo, pela primeira vez aparentando ser a menina que era. Ela tirou os olhos do corpo e virou pro meu espectro tocando meu rosto. Eu me desvencilhei — Será que você vai morrer?
— Por que? você veio me matar? — Ela negou com a cabeça. — Chegou tarde baixinha, Marcus já fez o serviço pra você.
— Eu não quero te matar — Ela soou sincera embora eu duvidasse muito disso. — O Marcus era muito mal.
Dei de ombros.
— Você é um poço de bondade. — Abracei o sarcasmo.
Ela me observou com o semblante aflito e pareceu ponderar o que dizer em seguida.
— Desculpa se eu pareci ser malvada.. As vezes parece que eu sou.. duas pessoas.. Como se alguém tivesse me controlando, eu meio que me assisto fazendo e falando certas coisas..
— Aham.
— É sério — Insistiu — É como você se assistindo agora. Eu tento sair de onde eu moro por exemplo, e quando dou por mim estou lá de novo com o mestre.
— Que mestre?
— O mestre que matou o Marcus.
Eu revirei os olhos. Ia chamá-la de doida mentirosa e de bipolar, quando lembrei do Marcus falando que um homem o tinha matado. Então eu resolvi jogar o jogo dela.
— É mesmo pirralha, você não quer me levar até seu mestre?

Vou meter a porrada nesse cara.
— Não!! Ele é perigoso, pode te matar.
Eu ri histericamente, apontando pro meu corpo que os médicos retiravam da sala. Ela mordeu o lábio tentando não rir também. Eu ia dizer Garota, estou todo fodido. Mas a idade dela me fez reconsiderar.
— Eu não estou me sentindo muito vivo no momento.
— É eu sei mas você não está morto, a cirurgia acabou. — Ela riu —Porém se ele descobre que você está aqui vai terminar o serviço.
— É só ele não descobrir. Por favor Kristen, preciso conhecer esse cara. Que hora melhor do que agora que estou na mesma situação que vocês? Talvez se eu conversar ele desista de.... destruir o mundo?
Ela gargalhou
— Ele não quer destruir o mundo, ele quer retornar a vida.
— Ah.. — Respondi sem saber o que dizer quanto a isso.
— Esquece o mestre Chris, vamos ver aonde levaram seu corpo.
Eu deixei que ela me levasse por que já estava enjoado de ver tanto sangue meu espalhado por aquela sala. Ela correu de mãos dadas comigo e antes que eu pudesse alertar que a gente ia bater na parede, ultrapassamos o concreto. Era pra ser legal mas me senti um nada. Puxei sua mão quando notei meus amigos na sala de espera, Kevin andando de um lado para o outro, Michael comendo chocolate e Nick jogando no seu video game portátil com cara de que não estava nem ai, mas eu sabia que ele só joga Dissidia 012 quando está muito nervoso.
Minha mãe parecia ter saído do spa as pressas, o rosto vermelho de algum procedimento não terminado, porém não impediu que ela repousasse o rosto no peito do homem elegante que a envolvia. Ele estava de blusa social branca e um colete preto como se tivesse tirado o paletó, a gravata perfeitamente alinhada, seu olhos eram verdes como o meu e no cabelo preto penteado pra trás apareciam os primeiros fios grisalhos. O Rolex no pulso dele era pra sempre lembrar que não tinha tempo pra nada, sempre andando apressado, contudo ainda parecia ter um tempinho pra mim. Fiquei muito feliz de ver meus pais assim depois de anos divorciados, que me esqueci de kristen me puxando.
Apertei a mão de Kristen com força quando o médico adentrou a sala, era agora ou nunca. Ele segurava uma prancheta, a expressão indecifrável. Todos se reuniram pra ouvir.
— Doutor como está meu filho? — Minha mãe agarrou os braços do médico e meu pai passou o braço por sua cintura possessivamente.
— Bom... — Ele hesitou, isso não era nada bom. — Ele sobreviveu.. mas...
— Mas o que Doutor? — Minha mãe ficou pálida.
— Ele perdeu muito sangue, o caso dele foi muito grave, a cirurgia foi muito demorada, fizemos várias transfusões mas ele entrou em coma. Nós não sabemos quando ou se ele vai algum dia acordar. Pode ser amanhã, como daqui uns anos.
Ninguém disse uma palavra, todos inclusive eu, ficaram paralisados com meu estado. Depois de algum tempo eu ouvi a voz do meu pai.
— Mas não tem nada que você possa fazer? Eu pago o que for preciso..
— Infelizmente não senhor Randall, só podemos aguardar.
Eu não aguentei mais e puxei Kristen até o meu quarto, e olhei pro corpo imóvel a minha frente. Se não fosse a faixa na cabeça e os diversos curativos por todo o corpo eu diria que dormia serenamente. Não parecia ser tão grave assim.
— Kristen eu estou de coma, isso é horrível — Eu fiz uma careta.
— Claro — Revirou os olhos impaciente — Como você ia estar consciente nesse plano e ainda assim acordar? Piloto automático? — Ela riu e acrescentou. — Você tem que dar um jeito de voltar pro seu corpo
Eu me senti um idiota, como sempre venho me sentido desde que passei a ver esse bando de gente morta. Era tão óbvio. Eu deitei na cama tentando voltar, mas nada aconteceu. Levantei exasperado.
— E como eu faço isso?
— Não tenho a mínima ideia.. — Arqueei as sobrancelhas pra ela — Eu tenho seis anos, pelo amor de deus! Eu não sei de todas as coisas... Sei lá!!
Os quase três meses que se seguiram sem que eu conseguisse voltar pro meu corpo foram muito agitados, exceto pra mim. Eu recebia visitas todos os dias, inclusive de Kristen. Ela disse que não viria todos os dias por ser muito perigoso, mas vinha sempre que podia, conversava comigo, me fazia brincar com ela, me ensinava a mover as coisas com a mente e ultrapassar as paredes sozinho. Ver ela assim, normal, me fez pensar que ela não estaria mentindo, que alguém realmente a controla quando quiser e depois deixa ela livre. Todas minhas suspeitas se direcionavam pro tal "mestre" que ela tanto teme. Sempre que eu questionava sobre ele, fugia do assunto até que resolvi deixar isso pra depois que eu acordar. Ficaria muito triste caso ela se aborrecesse e parasse de me visitar.
A única visita que eu não recebi foi a que eu mais queria... Jaynet. Eu... Nós... Poderíamos fazer tantas coisas esses dois meses. Estava morrendo de vontade de saber a verdadeira sensação do toque dela, de falar umas coisas que não tenho coragem de dizer. Mas no momento que mais era pra ela estar aqui, some me deixando puto e preocupado. E frustado sexualmente.
A voz de Kevin quebrou meus pensamentos. Sempre que vinha me visitar trazia os livros que a professora de literatura listava nas aulas, alegando pra si mesmo que quando eu acordasse não ia mais precisar ler. Muito legal da parte dele mas eu sabia que o verdadeiro motivo era que ele queria ficar sozinho. Independente disso ele estava me ajudando muito e nem sabia. Faltam 2 meses pras provas finais e eu estou preso aqui com uma montanha de matéria acumulando, tentando não me desesperar.
Se olho para essas lajes, vejo nelas gravadas as suas feições.! Em cada nuvem, em cada arvore, na escuridão da noite, refletida de dia em cada objeto, por toda a parte eu vejo a tua imagem.! Nos rostos mais vulgares dos homens e mulheres, até as minhas feições me enganam com a semelhança. O mundo inteiro é uma terrível testemunha de que um dia ela realmente existiu, e eu a perdi para sempre..
Eu revirei os olhos, tentando entender por que toda professora de literatura coloca "O morro dos ventos uivantes" na lista de leitura. Por que elas não colocam "As crônicas de gelo e fogo", por exemplo, alguma coisa pra a gente se divertir. Essa merda melancólica já estava me dando nos nervos. Eu olhei pra Kevin, desanimado.
— Heathcliff e Catherine de novo? Pede pra professora passar os quatro livros de crepúsculo no lugar desse pelo amor de deus. Desde a quinta série que a gente lê essa bosta.. — Eu ri sem humor, lembrando das piadas sem graça que a Jaynet conta — Se eu não estivesse de coma eu me matava.
Tenho certeza que ela riria a beça porém Kevin ficou estático, deixando o livro cair de suas mãos. Eu vi todo sangue esvair de seu rosto rapidamente. Ele abriu a boca várias vezes, tentando formular alguma frase. Depois do que pareceu uma eternidade ele levantou da cadeira que estava sentado e ficou fitando meu corpo.
— Chris? — Ele sussurrou assustado.
Puta merda ele me ouviu.
— Kevin?
Ele deu um passo pra trás, visivelmente abalado. Eu me senti um idiota por nunca ter tentado falar com ele antes, mas nesse tempo todo ele nunca demonstrou sinais de que me via ali no quarto. Balancei a mão no seu rosto, tentando provar minha teoria.
— Kevin você pode me ver? eu estou aqui na sua frente.
Ele deu outro passo pra trás se virando em direção a porta.
— Não por favor — Gritei, sabendo o que ele estava sentindo. — Você não está maluco, por favor Kevin.
— Puta que pariu!
Em todos esses anos eu nunca vi ele xingar, e isso me fez rir. Ele pegou o livro do chão e se sentou na poltrona, pondo uma das mão no rosto cruzou as pernas e esperou. Eu tive certeza que não podia me ver assim como eu vejo os espíritos, mas resolvi contar tudo o que aconteceu na esperança de que ele não fosse lerdo como eu e acreditasse logo de cara.
— Kevin, escuta... — Formulei as palavras com dificuldade. — Por onde começa a explicar algo assim? Eu vejo gente morta, todo tempo. — Eu ri.— Sério agora kevin, desde que a gente se mudou pra casa dos Beckers que eu vejo pessoas que.. bem, não foram pro céu ou pra o inferno, algo assim — Despejei a verdade. Kevin fez o sinal da cruz, eu tinha me esquecido que ele era católico até então. — A primeira pessoa que vi foi a moça que morava na nossa casa antes.. mas já vi muito mais, eles andam por ai, como se estivessem vivos, demorou um tempo até que eu soubesse diferenciar..
— Isso explica tudo.. — Sussurrou — A gente estava te achando muito esquisito já tem um tempo.. E agora você chegou em casa quase morto. Se eu não estou doido e falando comigo mesmo, suponho que você saiba o que te aconteceu?
— Sim, eu estava na escola conversando com o espírito do garoto que morreu inicio do ano, procurando pistas de quem fez isso com ele.. humm... tipo um trabalho.. Eu ajudo os espíritos... Com a Jaynet, a moça da casa — Ele assentiu com a cabeça e eu prossegui sem saber se ele estava mesmo acreditando — Então, ele queria... Ele queria.. Ele pediu um beijo em troca da informação e ela concordou mas depois ele quis mais — Eu fechei o punho de raiva — Tentou forçá-la e nós brigamos e eu cai do segundo andar.. O resto eu não me lembro muito bem — Poupei ele da parte do exorcismo.
— Você é o vândalo que destruiu a sala do terceiro ano? — Sua expressão ficou vívida — Meu deus Christian.... E a voz de mulher que eu ouvi me gritar no dia que eu te achei, pensei ter imaginado coisas, mas ai os objetos começaram a cair no chão. Eu fiquei apavorado — Kevin corou.
— Provavelmente foi a Jaynet. — Eu dei de ombros, mesmo sabendo que ele não poderia me ver — Mas eu estou acordado desde o acidente e nunca mais a vi.
Ele sorriu parecendo acreditar mesmo que estar falando comigo e seu sorriso se alargou ainda mais. Vem coisa ai
— Ta apaixonado por ela. — Não foi uma pergunta.
— Não.
— Está sim Chris — Ele continuou com o sorriso bobo — Cara, você está fodido.
— Já disse que não estou apaixonado por ela e, segundo palavrão da noite, quem é você e o que fez com meu amigo? —Tentei desviar o foco.
— Está muito apaixonado por ela. — Tive vontade de socar a cara dele.
— Por favor Kevin, te contei tanta coisa e você cismou justo com isso?— Revirei os olhos — Fala sério!
— Eu te conheço Chris, sei que você está revirando os olhos e sei que está apaixonado, eu não preciso ver pra saber.
— Não estou!!!! — Eu gritei exasperado, me encolhendo.
— Está bem! Eu entendo por que você quer enganar a si mesmo, não é como se o relacionamento de vocês tivesse futuro..... — Ele respirou fundo — Desculpa, foi maldade o que acabei de dizer, não toco mais nesse assunto — Ele levantou as mãos em rendição. — Então, mudando de assunto. Por que você não vai pra lá e acorda de uma vez? — Kevin apontou pro meu corpo.
— Se eu soubesse como não estaria aqui ouvindo esse livro besta — Eu respondi, me sentindo aliviado por ele ter trocado de assunto. — Eu não consigo simplesmente entrar no meu corpo e acordar a hora que eu quiser, não sei como funciona. E tem uma coisa que eu quero fazer antes de voltar pro meu corpo..
Algo que talvez custaria minha vida.

Notas finais
Bom é isso próximo capítulo talvez semana que vem, não vou prometer pois sou bastante enrolada :s Espero que tenham gostado e me mandem um oi, fantasmas nós já temos de monte na história kkkkkk