Uma Estranha No Meu Quarto

12 Capítulo 12 - Christian Randall


Notas iniciais
Christian está entre a vida e a morte :(

Sentei no banco de trás do carro de Christian esperando que ele passasse pro lado do volante e desse a partida, o que não aconteceu. Então fui pra frente e fitei seu rosto desacordado no carona, sereno como em qualquer outra noite em que eu secretamente vigiei seu sonho, tentando me lembrar como era a sensação de dormir, de sonhar. E sempre que amanhecia eu via seus lindos olhos verdes como esmeraldas abrirem e sumia envergonhada. Contudo hoje eu sabia que ele não estava adormecido e sim desmaiado, e pior de tudo por minha culpa.

Filetes de sangue corriam pelo corpo bem definido saindo dos cacos de vidro, fazendo ele se debater de dor mesmo inconsciente. Mas o maior ferimento estava em sua cabeça. Eu afaguei seu cabelo encharcado de sangue esperando que ele se acalmasse, mas assim que parei voltou a ficar agitado, parecendo estar muito desconfortável. Precisava tirar ele dali o quanto antes se não ele ia morrer.

E não era intuição minha. Parte dos estranhos poderes de fantasma incluía ver a linha da vida e da morte. Era uma linha grossa e curta, acima da cabeça, simbolizando a ligação da alma com o corpo; quando estava branca indicava que estava tudo bem, amarelo a pessoa estava doente, e vermelha a pessoa estava morrendo. Naturalmente fantasmas não tinham essa linha, motivo pelo qual eu achava que nós eramos os únicos a vê-la. A linha de Christian estava em um vermelho escuro, se abrindo em camadas mais finas, dando sinais de que daqui umas horas iria rebentar. Ele gemeu, me pondo mais nervosa.

— Calma Christian, vai ficar tudo bem. — Eu sussurrei tentando me manter calma. — Eu vou te salvar!

Com uma determinação de outro mundo pus a mão na chave e tentei girar, rindo loucamente quando minha mão ultrapassou o objeto. Tocar em Christian, lutar contra outro fantasma, me teleportar de um lugar ao outro, era tudo muito fácil comparado a mover um simples objeto. Eu mal conseguia mover uma pluma, quanto mais dirigir um carro. Eu me encostei no volante, me sentindo incompetente. Até o Marcus que morreu há pouco tempo conseguia segurar uma cadeira inteira e eu não.

— Se eu conseguisse girar a chave e tocar a buzina...

Eu tentei esvaziar minha mente e após várias tentativas os gemidos de Christian foram sumindo, imaginei a chave se movendo pro lado e ela lentamente foi reproduzindo meus pensamentos, até que o painel do carro piscou e se acendeu. Aproveitei que estava concentrada e forcei o botão do meio do volante pra baixo, lembrando das poucas aulas de direção que meu pai me dera quando viva, dando graças quando o som da buzina encheu a rua, alto.. Entretanto senti que não ia conseguir manter por muito tempo.

Por favor alguém, por favor..

Ninguém ouviu.

Eu segurei a mão de Christian, e encostei no banco ao seu lado, me sentindo derrotada. Senti o formigamento estranho que sempre ocorria quando nos tocávamos. Não era uma sensação ruim, mas me deixava fraca, muito emotiva, por isso eu evitava. Era incrível na realidade, o mais próximo da vida que eu podia chegar, da vida que eu tive, e do futuro que eu teria. Como eu queria poder toca-lo de verdade. E agora todo seu futuro seria privado dele como foi comigo.

— Me perdoa Chris..... Eu não sei mais o que fazer meu amor..

Levei a mão na boca me sentindo corar.

— Jaynet...

— Estou aqui com você, não vou sair daqui. — Eu respondi sabendo que ele estava delirando.

Talvez ele se tornasse um fantasma assim como eu, no fundo do meu egoísmo eu desejava que sim.

Então eu vi dois pares de olhos verdes curiosos me olhando pelo retrovisor interno do carro. Eu me virei e dei de cara com uma menina loira pequena de aura radiante. Ela vestia um vestido azul florido de criança e lindas sapatilhas prateadas. Seu cabelo estava cuidadosamente partido em dois, cada lado com uma trança. Não tinha mais que uns 6 anos. Ela sorriu e pôs as duas mãos no meu rosto, me dando um selinho rápido na boca.

— Moça linda, por que está triste?

— Ele vai morrer. — Eu toquei sua bochecha, apontando pro Christian.

— Não vai querida nós viemos aqui ajudar..

Eu nem tinha me dado conta da mulher que estava sentada do lado da menina até ouvir sua voz. Parecia ter uns 30 anos mas ser muito mais experiente que eu, ter morrido há muito tempo. Era alta, os cabelos negros cacheados preso num penteado de época, trajando um vestido amarelo tão vintage que parecia ser do século 20. Era lindo, com todos aqueles babados, mas apesar de gostar muito de moda eu não consegui prestar atenção em nada.

Eu nunca havia visto nenhuma delas antes.

— Vocês são amigas do Christian?..

— Ainda não meu bem.. — A mais velha respondeu. — Eu me chamo Ana e a princesinha ali é a Karine. Eu queria que nos conhecêssemos de outra forma mais agora não há tempo, temos que mover esse carro..

Eu arregalei os olhos.

— Eu não consigo..

— Eu sei querida. — Ela tocou a minha mão. — Karine é uma fantasma muito especial, apesar de pequena ela tem grande poder. — A menina me encarou sorrindo mais. Ana olhou pra menina com um sorriso — Vamos Karine, me ajude aqui..

As duas fecharam os olhos e começaram a brilhar, eu segurei a mão do Christian com mais força, fechando os meus olhos também e quando voltei a abrir o carro estava parado na garagem de casa. Eu abracei as duas sem conseguir conter minhas lágrimas. Ficamos assim até o Christian soltar um grito e estremecer de dor.

Flutuei apressada pela casa, até avistar um garoto alto de cabelos castanhos e um sorriso doce. Ele estava deitado no tapete da sala olhando um mapa e fazendo anotações. Eu sorri, ajoelhando ao lado dele.

— Kevin.

Ele continuou rabiscando na folha, alheio a minha presença. Eu corri pra mesa de centro derrubando um copo.

— Kevin!!!!! — Eu gritei desesperada.

Ele parou a caneta no ar, franzindo o cenho. Eu aproveitei que tinha chamado sua atenção e corri pela sala derrubando as coisas em direção a garagem, me sentindo mais confiante depois de ter tocado a buzina por tanto tempo com meus poderes. Ele levantou assustado, pegando um vaso e seguindo a trilha, deu de cara com um Christian ensanguentado.

No mesmo instante ele largou o objeto no chão e entrou no carro, saindo de ré a toda velocidade, quebrando o retrovisor e arranhando a porta do motorista.

— Adeus Christian.. — Eu sussurrei, sabendo que seria a ultima vez que o veria.

Notas finais
Eu fiquei com tanta pena de fazer isso com o Christian, mas ele não poderia ser um mediador fodão do nada não é? Espero que ninguém fique bravo... Ainda tem mais .. Beijos até o próximo!!