Uma Estranha No Meu Quarto
10 Capítulo 10 - Encarando a Realidade
Notas iniciais
Jaynet caminhou pelo corredor que leva a minha mesa, mas ao contrário do que pensei, ela não foi ao meu encontro. Virou de costas para mim e meteu o rosto na frente do de Heather observando cada detalhe dela, com poucos centímetros de distância e depois abriu um largo sorriso quando Heather corou e me perguntou o que eu estava olhando, sorrindo para mim timidamente.
— É Christian, o que você está olhando? — Jaynet imitou o sorriso tímido com perfeição, parecendo se divertir.
— Não é nada. — Eu respondi para as duas e voltei minha atenção para o quadro a nossa frente, onde Magdalena rabiscava e falava sem parar.
— Ela gosta de escrever. — Eu ouvi a voz de Jaynet. — Não sua namorada, me refiro a professora.
Ela não é minha namorada, tive vontade de dizer. Ao invés disso virei o rosto para ver Jaynet sentada no chão do corredor das fileiras, entre Heather e eu. Ela me olhou diretamente, esperando uma resposta.
— O que você está fazendo aqui? — Sussurrei.
— Eu? — Ela olhou em volta. — Ah, eu pensei em sair de casa um pouco e visitar minha antiga escola e... Adivinha!!! Eu estudava aqui antes de você! Nessa mesma sala, com a mesma professora. Isso não é legal? — Eu abri minha boca para dizer que não, dizer que ela tinha que voltar pra casa, mas ela me cortou. — Não! Não fale nada, se não as pessoas vão pensar que você está se drogando. Mas, olha, você não está... não é? Mas se tiver quero que saiba que não tenho nada contra.... — E riu — Sabe, é melhor olhar um pouco para outro lugar, por que as pessoas já estão achando estranho você aí, olhando fixamente para o chão. Eu sei que sou linda e irresistível mas faça um esforço que consegue, hahahaha.
Eu virei o rosto imediatamente e me concentrei no que a professora dizia. Quem Jaynet pensa que é Britney Spears???
— Eu dei uma passadinha no shopping, a loja da Dior está fabulosa! Tantas criações sofisticadas, vestidos novos! — Sua voz musical ecoou em meus ouvidos e eu senti um arrepio percorrer meu corpo. — Este vestido é de lá. O que você achou? Ficou bem em mim?
Eu não a olhei. Nem precisava olhar de novo para gravar cada detalhe do vestido nela, do modo como realçava seu corpo. E eu já vi. E como vi.
— Acho que vou ter de fazer um monólogo aqui. Mas não tem problema, eu sempre tirei notas altas em teatro. Tinha um garoto tão quente quanto o Brad Pit na minha aula. Eu acho que até saí com ele algumas vezes...
Não me perguntem por que, mas eu virei para ela imediatamente. Bem a tempo de ver uma coisa que me fez ter um shock de realidade e perceber que ela está mesmo morta: Um garoto bem acima do peso
que se senta no fundo pediu para beber água, levantou seu traseiro avantajado da cadeira e andou na direção em que Jaynet estava sentada. Ele ia tropeçar nela e talvez sufocá-la, dependendo de onde cairiam todos aqueles centos e poucos quilos. E eu acho que eu meio que gritei um “nãããããooo” desesperador pois Jaynet caiu na gargalhada, enquanto o cara a ultrapassava, literalmente. A parte do corpo dela que ele rompeu se dispersou por alguns segundos em uma fumaça brilhante, logo voltando ao normal.
E jaynet só ficou rindo e olhando para mim. Não só ela, mas todos na sala me olharam espantados. E depois de algum tempo de silêncio a professora bateu palmas. Para mim.
— Bravo Christian!!!! — Ela falou entusiasmada. — Quanto drama, terror, desespero, amor... — Eu corei com o último. — Você tem que fazer aula de teatro. O pessoal do grupo vai morrer quando ver sua atuação!!!!
— Ah, vai mesmo! — Jaynet tomou um longo fôlego. — Morrerrrrr. Eu morri de tanto rir. — Ela arqueou uma sobrancelha. — Percebe a piada? Morri de rir. Eu, já morta... É ENGRAÇADO. — Ela esperou. — Está bem, parei.
— Cala a boca. — Eu disse entre os dentes.
— Que senso de humor, hein!?
— Eu não posso fazer nada se as suas piadas são sem graça.
Ela se levantou, abriu a porta e saiu. Para quem não vê o que eu vejo o vento simplesmente abriu a porta e depois ela voltou a se fechar com um estrondo, também por conta do vento. Tudo tão natural que ninguém suspeitou das mãos de Jaynet na maçaneta, furiosa. Eu devo demorar um tempo pra me acostumar com isso, e não me refiro aos fantasmas. E sim o temperamento instável dessa mulher fascinante.
Assim que a aula de inglês acabou eu corri para o banheiro no fim do corredor. Entrei nele sem nem sequer me dar conta do que fazia. Só percebi onde estava quando vi minhas mãos abrirem a torneira e jogarem a água fria em meu rosto. Eu me olhei no espelho.
Parecia normal por fora, mas minha cabeça fervia por causa do que eu tinha acabado de perceber ao ver Jaynet na sala.
O modo engraçado como ela imitou a professora e ninguém riu, o jeito como ela estava vestida e ninguém reparou, a proximidade do rosto dela com o de Heather e o jeito como Heather ignorou, como se não a estivesse vendo. O gordinho fazendo ela virar fumaça... Isso tudo me fez perceber que eu estive mesmo conversando com uma linda menina...
Morta.
Realmente morta. Muito morta.
Joguei mais água em meu rosto, tentando impedir uma crise histérica.
Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus. Não pode ser. Morta. Morta de verdade. Eu passei uma mão pelo cabelo e xinguei alguma coisa, batendo meu rosto do espelho nem ligando pra linha de sangue que escorreu da minha testa.
Não que eu não soubesse disso antes, de fato Jaynet comentou algo sobre estar morta e eu morar na casa dela, dormir em seu quarto. Mas não é como se essa história fosse convincente. A própria Jaynet em si não é muito convincente, sempre aérea e um tanto animada demais. Então eu supus que ela poderia ter surtado momentaneamente e ter inventado isso tudo para... ok, não sei bem para quê.
Em momento algum eu acreditei mesmo que ela estava morta. Morta, morta, morta... Ela está mesmo morta.
As paredes de piso branco começaram a se mexer, me deixando um pouco tonto. Olhei novamente meu reflexo, agora pálido. Ele foi sumindo...
— Christian? — Eu arregalei os olhos e me forcei a respirar. — Você está bem?
— Não, não estou. — Eu me ouvi dizer para o seu meio reflexo no espelho. Seus olhos aparentavam preocupação enquanto me analisava de cima a baixo. — Você está morta? — Não foi uma pergunta, mas soou como uma.
Isso fez Jaynet fechar a porta atrás de si e soltar um longo suspiro. Ouvi o barulho da chave rodando. Depois a vi vir em minha direção. Eu rapidamente dei um passo para trás então ela, vendo meu medo, passou por mim até recostar na outra parede.
— Morta. — Repeti debilmente.
— Eu havia lhe dito isso, se bem me lembro. Só agora foi sacar??? Como você é lerdo heim!?!— Sua expressão era meio arrogante, seus olhos entretanto emanavam medo, tristeza e solidão.
— Morta. Eu estive conversando com um cadáver. — Minha voz ficou mais alta. — Uma alma penada. — Ela fez uma careta. — Alguém morto, sem vida.
— Christian. — Eu vi mágoa em seus olhos. — Está me ofendendo. Eu não sou um cadáver, já deixei meu corpo há uns anos. — Sua voz saiu fraca. — Não sou. E, fale baixo, alguém pode ouvir. Eles podem ouvi-lo ainda, esqueceu?
— Estou pouco me lixando!!!— Gritei, me sentindo um pouco doente. — Quem sabe eles não chamem um padre para te exorcizar.
— Eu não preciso de um padre Christian, ninguém na mesma situação que eu precisa. — Sua voz soou errada. — Nós precisamos de um mediador, alguém que possa nos ver... Alguém como você.
É isso. Ela já tinha dito sobre mediadores antes, mas eu pensei que eu havia deixado bem claro que EU NÃO SOU UM MEDIUM. Bem, acho que não deixei claro suficiente.
— Eu.Não.Sou.Um.Mediador. — Falei bem devagar
— Desculpe Christian mas... Se você não fosse um mediador não estava me vendo. Ta na hora de você aceitar sinceramente, já chega disso. Esse drama todo, fala sério.. — Ela rolou os olhos, impaciente.
Pensei por um instante.
— Tem razão já chega disso. —Recobrei o juízo. — Então eu acho que não posso mais vê-la. — Falei por fim. Seus olhos azuis avermelhados, então acrescentei: — Desculpe, eu não posso. É demais para mim.
E me virei para tentar sair dignamente.
— Então é isso? — Sua voz aumentou. — Eu aqui pensando que finalmente não estava mais sozinha e você simplesmente vai ignorar minha existência, como se pudesse apagar o que você vê. — Eu me virei para ela. — Vai ignorar todas as pessoas que precisam de você para ir a algum lugar, para pelo menos parar de ser invisível, de vagar sem rumo. Você tem idéia do que é não existir? — Ela me encarou, lágrimas traçando um caminho por sua bochecha rosada. — Há Três anos moro sozinha naquele lugar..., Três longos anos. Logo assim que morri meus pais se mudaram, mas vinham todos os dias pedir por minha alma. Eu ouvia e via minha mãe chorando. No início eu não entendia que eu estava morta, tentava falar com ela, dizer para ela parar. Ela não ouvia. Ficava na frente dela, mas ela simplesmente me ultrapassava, assim como os outros: meu pai, os caras que foram pegar os móveis... Todos agiam como se eu não existisse. Mas... — Ela soluçou. — Mas você não entende isso, nem deve ser capaz de imaginar.
Eu revirei os olhos, ia me arrepender disso pra sempre.
— O.K!! Eu vou ser o mediador, só para de chorar... Isso é golpe baixo...
— Ebaaa Obrigada!!! — Ela se recompôs como se nem tivesse chorado e me abraçou, se afastando logo em seguida. Eu estremeci com o contato — Eu vou te ajudar, vamos começar hoje a noite aqui na escola.. Nos encontramos mais tarde.
— Por que aqui?
Ela me olhou como se eu fosse um retardado mental, e ultimamente com essa história toda era assim mesmo que eu me sentia.
— Porque teve uma morte aqui e a gente ainda não investigou.
— Ah..... é mesmo... tudo bem..
— Você tem problema..
Ela riu e se foi.
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