Uma Era De Ordem E Honra

10 9. Em momentos de crise é muito fácil se exaltar. Difícil é tomar uma decisão com calma.


O luto profundo logo deu lugar a um sentimento de quase normalidade, um que estava, e já fazia algum tempo, andando com uma forte sensação de que havia alguma coisa de muito errada acontecendo. E esse sentimento ficava mais forte ao passo que os documentos, que deveriam vir de Niedersieg todos os dias, não chegavam fazia algumas semanas.

Os preparativos para a anglicização do novo marquês logo começaram também. Seria, dessa vez, um evento mais simples e menos pomposo, levando em consideração a guerra que estava acontecendo na Alemanha.
Mas enquanto esses preparativos aconteciam, chegou finalmente de Niedersieg os documentos de Estado tão esperados, assim como a explicação do barão von Frieden. E foi essa explicação que fez Alfred convocar o Conselho Regencial em Hampton Court.

— Uma invasão!?— Ao lado de Alfred, Elizabeth fez levemente uma massagem em seu ouvido. Não era necessário Lord Kent gritar, mas a julgar pela sua expressão de raiva...— Como os austríacos tiveram coragem de cometer esse... ato ultrajante!? Eles querem guerra.

— Assim como o milorde, não ficamos felizes, mas assim como o milorde, desejamos saber o motivo.— Alfred de forma contida paciente, apontou então para a carta que estava sob a mesma.— Na carta o motivo nos é revelado.

Também com uma expressão ressentida, Lord Berland pegou a carta de forma bruta e começou a ler para si mesma, enquanto Lord Hartford e Lord Ormond tentavam ver também. O rosto do conde de Berland apenas ficou mais raivoso.

— A justificativa astríaca para a ocupação é que foi uma forma de impedir uma possível invasão prussiana. O que segundo eles, seria muito pior.... Isso é ultrajante, meu príncipe, uma desculpa sem razão.

— Os prussianos nunca iriam invadir um Estado neutro! Seria um crime.— O barão York era o mais contido, mas na opinião de Elizabeth, ele deveria ser do mesmo lado que Kent e Berland.— Um crime que Maria Theresa cometeu.

Elizabeth olhou para Alfred, que continuava estóico, apenas ouvido tudo. Ele deu um suspiro cansado e olhou para o conde de Shaftesbury, que percebeu o olhar.

— O que iniciou essa guerra toda foi a invasão prussiana a neutra Saxônia. Os prussianos também não são confiáveis.— Todos os lords olharam para o velho conde e alguns assentiram para suas palavras.— Foi um mal, mas antes um pequeno que um grande.

— Lord Shaftesbury não deixa de estar certo, milordes. Mas no momento, discutir sobre esse ponto não é o importante.— Alfred, com um olhar de ordem, olhou para os Kent e Berland, que estavam em pé, eles sentaram.— O que é importante é o fato dessa invasão ter causado danos quase que incontáveis tanto estrutural, como moralmente. E as tropas austríacas ainda estarem estacionadas em Niedersieg.

Elizabeth pegou para si a carta do barão von Frieden. Era até triste ler. Nenhuma morte foi contada, mas muitos prédios públicos e privados foram danificados. Sem contar no caos e nos distúrbios contra os austríacos. Foram durante reprimidos e a ordem logo voltou a reinar, mas ainda assim era preocupante.

Os alemães tinha uma fama de aceitarem tudo de seus governantes, mas isso não significava aceitar tudo de outros governantes.

— O que Maria Theresa pede para deixar o principado?— Com a pergunta do calmo e contido visconde Ormond, Elizabeth colocou a carta na mesa e voltou a olhar.— Ela certamente deseja algo.

— Nós também queríamos saber, Lord Ormond. Mas as ordens foram para abrir a carta em conselho.— A voz de Elizabeth foi ouvida na sala, com todos olhando para ela.

Mas que coisa. Por que esses homens mais velhos deveriam olhar para ela assim? Por que tinham que parecer tão assustadores? Mas o foco era a outra carta. Maria Theresa queria algo, e esse algo, até o momento, era desconhecido.

— Então chegou a hora de termos conhecimento. Leia, Cambridge.— Lord Shaftesbury era o líder então. Com ninguém se opondo a ele.

Lord Cambridge, o detentor da carta, então começou a ler a mmensagem que foi enviada pelo barão Von Frieden.

E basicamente Maria Theresa dizia que estava disposta a retirar suas tropas de Niedersieg, mas em troca, todas as decisões da regência em deveriam passar por Viena, antes de irem para a Inglaterra. E isso claramente não agradou a ninguém. Elizabeth poderia ver o rosto de Alfred impassível, era possível ver toda a força que ele estava dando para não desfazer a aparência calma e digna.

Ela não tinha nenhuma dificuldade em fazer isso, não havia em Elizabeth nenhum carinho, apreço ou importância para com Niedersieg. Mas ela entendia a grandeza do problema e não faria pouco caso.

— Um ultraje! Maria Theresa ficou louca.— Novamente o conde de Kent se alterou, e levantou-se, novamente, de seu lugar.— Meu marquês...

— Kent, ela pode ter ficado louca. Mas não temos outra alternativa senão aceitar. Sem dinheiro, sem influência, sem exército. Nos cabe aceitar.— O conde de Rochford foi rápido em cortar o alterado conde, que lhe deu o olhar raivoso.

— Não é uma questão de poder ou não. Mas sim de soberania! O que a austríaca vai querer depois? Nos midiatizar?— Lord Kent estava acordando a causar uma certa confusão. Elizabeth tinha pena de Alfred, sempre ter que aguentar isso era horríve.— Não vamos aceitar!

— Não podemos simplesmente não aceitar, Kent! Não temos nem mesmo finanças para pagar nossa liberdade.— O visconde Cambridge finalmente falou algo, e olhou para ao marquês em seguida.— O príncipe Frederik gastou grandes somas de dinheiro com urbanização e obras públicas. Estamos quase no zero. Não temos uma terceira via.

Assim que o visconde acabou, os outros também começaram a falar. Eram quase ao mesmo tempo, se atropelando nas palavras e interrompendo. Era uma confusão total. Elizabeth nunca tinha presenciado uma cena dessas. Esses cavalheiros eram em público sempre tão sérios, calmos, educados. Agora eles eram o total oposto. Era tão estressante, tão frustrante, como Alfred aguentava isso?

Como Elizabeth iria aguentar isso? Ela também teria que ouvir essas coisas agora, teria que participar dessas reuniões. Por quê? Essa pensamento dava em Elizabeth vontade de chorar, mas a única coisa que ela poderia fazer era olhar para Alfred. Mas ele também não estava mais aguentado. Alfred tinha uma de suas mãos no rosto, como que tentando se esconder de tudo isso.

— Alfred.— Elizabeth pegou no braço dele e o balançou, tentando o trazer de volta. Ele a olhou.— Faça algo.

Por um momento Elizabeth pensou que ele não iria fazer nada, mas Alfred se levantou e junto levou a voz:

— Milordes, já chega!— Eles pararam assustados.— O honoráveis estão em Hampton Court, não em Westminster, e muito menos em um clube, mas em Hampton Court.

E lentamente voltaram a sentar, cada um em seu lugar. Alfred deu um suspiro, e massageou sua cabeça, Elizabeth permanecia sentada em seu lugar, apenas observando.

— Nos exaltamos, meu marquês, e pedimos perdão por isso.— Alfred assentiu para o conde de Shaftesbury e seu pedido de perdão. Parecia sincero.— Esquecemos que a decisão final é do senhor, e apenas sua.

Os outros lords nada fizeram ou falaram. Alguns olhavam para Alfred em concordância, outros olhavam para baixo e ainda alguns para lugar nenhum.

— Em momentos de crise é muito fácil se exaltar. Difícil é tomar uma decisão com calma.— Lord Shaftesbury assentiu para o marquês. Eram bom que esse conde fossem assim, ele sabia o seu lugar, e sabia como agir nele.— Ainda temos que decidir sobre meu principado, não? O que você acha, Elizabeth?

Novamente todos os olhares se voltaram para Elizabeth. Ela estava tão acostumada com olhares bondosos, divertidos e tolos, que esses, tão cheios de expectativa e escrutínio, eram desconcertantes, de qualquer forma seriam.

Mesmo assim, Elizabeth não gostava que olhassem para ela assim.

Mas ainda era necessário falar. Ela então se levantou, e tentou mostrar a calma digna, junto com uma posição altiva.

— Deve ser feito conforme a vontade de meu marquês.— Elizabeth olhou para Alfred e ele não fez nada, ela olhou para Lord Kent, e esse estava levantando.— Que sempre é tomada pensando no melhor do povo.

E ela sentou novamente. Se as brigas voltassem, Elizabeth iria sair dessa sala, ela não era obrigada a aguentar tudo.

— Pois bem. Vamos aceitar logo a condição de Maria Theresa e acabar logo com isso.— Era possível visualizar pela terceira ou quarta vez o conde de Kent se levantando, mas muito ao contrário, ele ficou em seu lugar. Alfred respirou e expirou, todos na sala devem ter ouvido.— Então está decidido. Os milordes podem se retirar.

Os homens se levantaram de seus lugares e saíram, em paz, silêncio e calma.

Alfred continuava em pé, perto da mesma. Poderia não ser aconselhável, Elizabeth poderia estar fazendo algo ruim, mas mesmo assim ela se levantou e foi até seu marido, colocando lentamente sua mão no ombro de Alfred.

— O que faremos agora, Alfred?— Ele deu um pequeno olhar na mão dela, antes de começar a respirar e expirar lentamente. E com um pausa ele falou:

— Nada.

*****

Alfred tentava regular sua respiração novamente. Tanto estresse não fazia bem para alguém como ele. Calma, paciência, a sua família, o dever. Alfred fechou os olhos e tentou pensar nessas coisas.

Mas como era possível não sentir-se afetado com tudo isso? Como Maria Theresa pôde fazer isso com ele? A relação entre os Habsburg da Áustria e os da Inglaterra sempre foi tão boa. Das duas uma. Maria Theresa estava desesperada ou havia ficado louca, porque a história de que havia sido para impedir uma invasão prussiana não havia servido.

Mas, não havia mais volta. Então Alfred abriu novamente os olhos, sua respiração estava voltando ao normal, uma crise de asma não seria útil no momento. Ele se virou para Elizabeth, que estava confusa e preocupada.

— Nada? Eu não...— Elizabeth pareceu se embaralhar com as palavras, até que ela também deu um suspiro.— Talvez seja realmente o melhor.

— Não existe um talvez, é o melhor. Quando não se tem opções melhores, a menos pior se torna automaticamente a melhor.— Agora Alfred sentia pequenas pontadas na sua cabeça, era tão agradável voltar a ser doente. Ele então voltou a sua cadeira e sentou, observando Elizabeth em pé.— Só espero que isso não me cause mais problemas ainda.

— Não é bom ficar estressado, Alfred. Vamos confiar que Maria Theresa vai fazer o melhor.— Ela exibiu um lindo e encorajador sorriso em seguida, Alfred apreciava isso de Elizabeth, mas ele teve certo esforço em retribuir.— Além do mais, Maria Theresa tem um território tão grande para governar, um lugar tão pequeno como Niedersieg passará quase que em branco.

O sorrisso de Elizabeth era tão encorajar, bonito e confiante. Talvez ela não soubesse que Maria Theresa, assim como a imperatriz da Rússia, eram farinha do mesmo saco que a mãe dele. Era quase impossível Alfred não se estressar.

— Não posso ficar calmo enquanto meus mais ou menos 12 mil súditos sofrem.

Saiu com certo grau de grossura, Alfred não iria negar, mas Elizabeth não se importou, muito pelo contrário, ela foi para trás da cadeira dele, e colocou suas mãos em seus ombros.

— Apenas não fique muito preocupado.— Elizabeth começou a apertar seus ombros, talvez o objetivo dela fosse fazer uma massagem, mas ela não fazia certo.— Para seu próprio bem. Eu percebi seu problema, Alfred.

As mãos de Elizabeth pararam de apertar, e Alfred percebeu o rosto dela em seu ombro. Os rostos deles dois estavam tão próximos, e Elizabeth também percebeu. Alfred sentiu seu rosto corar e Elizabeth também se afastou, com um sorriso tenso e também vermelha. Era tão intrigante isso. Nos últimos tempos eles quase se beijaram tantas vezes, mas nunca concretizaram esse momento.

De certa forma, Alfred ainda sentia medo, havia nele um receio muito grande. Toda vez que Alfred chegava perto dos lábios de Elizabeth, toda vez que ele a tocava, Alfred se lembrava daquele dia horrível. Dos gritos da condessa de Carlisle, era tão angustiante. Mas ao mesmo tempo, ele queria tanto, desejava tanto. Alfred olhava para Elizabeth, e percebia como ela ficava acanhada. Ela também queria. Mas havia uma questão: ele não sabia o que passava em sua cabeça.

Ele realmente não sabia, mas poderia. Era apenas perguntar, segurar a mão dela e fazer a pergunta. E por um momento, um curto momento, Alfred tentou. Ele levantou de sua cadeira, foi até Elizabeth e segurou sua mão.

— Elizabeth, eu... nós poderíamos...— Ela parecia já saber, já ter uma ideia. Os olhos de Elizabeth ficaram maiores e ela começou a assentir. Alfred aproximou seu rosto do dela.— Posso bei...

— Deveríamos voltar mais tarde?— Não! Como uma corça fugindo do caçador, tanto Elizabeth como Alfred se afastaram um do outro. Que desgraça eram Henry e Anne as vezes.

— Não! Nada de voltar depois, Henry.— Anne foi logo entrando na Sala Dourada, ignorando o que talvez eles tenham quase presenciado.— Temos assuntos importantes a tratar, Alfred.

— Eu vou logo dizendo que a porta estava aberta, então entramos.— Henry tentou se justificar, não por vergonha, seu sorriso de graça mostrava que não era.— Tem uma pessoa lhe esperando na Sala Verde, Elizabeth.

A marquesa, que até o momento havia fugido para um lugar mais afastado, tentando se recompor, ouviu Henry com confusão. E Anne explicou:

— Sua mãe está aqui, ela veio lhe visitar.— Com certo desinteresse, mas não de forma fria, Anne explicou. E como uma corça fugindo do caçador, Elizabeth saiu da sala. Deixando Alfred com seus dois caçadores, seus próprios irmãos mais novos.— Lord Hartford nos contou o que aconteceu nessa sala. Alfred, como você pôde aceitar uma coisa dessas?

Alfred bufou. Não não bastou a primeira sessão, ele teria uma bis?

— Eu não foi obrigado a lhes dar explicações sobre o que eu faço eu deixo de fazer.

— Realmente, não é mesmo. Mas nós nos sentimos obrigados a saber o que você faz e deixa de fazer.— Alfred odiava quando isso acontecia. Henry estava sério, e quando ele ficava assim, era algo muito importante.— Alfred, Niedersieg pode...

— Maria Theresa não seria tonta o suficiente para tirar nossa soberania, se é o que vocês pensam.— Alfred explicou, e Anne abriu a boca para protestar.— Tenho sim certeza disso, uma coisa é o que ela faz, outra completamente diferente e o que vocês acham que ela fará.

— Mesmo assim, Alfred. Não havia outra opção?

— Não, Anne. O que eu escolhi era a menos ruim.— As pontadas na cabeça viraram dor, uma dor de cabeça.— Não tem mais volta, aceitemos que será melhor. Creio que agora devemos esquecer de Niedersieg por um momento, e focar em Bristol.

Henry e Anne trocaram olhares confusos. Mas era sim, estava na hora de Niedersieg viver sozinho, sem ser a principal preocupação de Alfred.

— Você se refere a nossa popularidade?— Alfred assentiu para Henry. O príncipe mais novo por um momento ficou sério, até que seu habitual sorriso tolo surgiu.— Sendo assim, você e Elizabeth já tem mais popularidade do que mamãe teve na vida toda.

— Não vamos ofender mamãe nesse momento, Henry.

— Tudo bem, você que sabe.— Henry respondeu a irmã mais nova, e ele foi e sentou em uma das cadeiras.— Mas não deixa de ser uma verdade.

— Como exatamente você quer aumentar nossa popularidade, Alfred?— Anne decidiu não dar ouvidos a nado do que Henry falou. Uma boa ideia certamente.

Alfred olhou sério para Anne e depois tentou sorrir. Ela sabia, e sabia muito bem o que era necessário fazer, o que era necessário sacrificar. Bailes, opera, teatro, passeios, filantropia, esmolas. Era fazer tudo que os avós deles faziam, mas que a mãe deles deixou negligenciado. Uma expressão tensa, quase que amedrontada surgiu no rosto de Anne assim que ela percebeu. E Henry riu ao também perceber, Alfred teria um prazer de deixar o pior para ele.

— Vamos ser visíveis. Vamos buscar ter o favor dos britânicos.