Uma Era De Ordem E Honra

7 6. Casamento não é sorte, é consequência, que as vezes pode dar errado, mas não vai ser esse o caso.


01|04|1756 Residência dos Carlisle

Elizabeth nunca imaginou que realmente isso iria acontecer, que esse dia iria chegar e ela iria se casar com Alfred, se tornando uma princesa. Quando ela viu Alfred pela primeira vez, no dia em que sua mãe a levou junto com Anne para Hampton Court, ela não imaginava que iria se casar com ele, ela nunca nem mesmo achou que ele iria se aproximar. E principalmente, Elizabeth nunca imaginou que iria se tornar uma princesa. Só não saberia ela dizer se isso seria uma benção ou uma maldição. Mas de qualquer forma, Elizabeth estava disposta a fazer disso uma benção. Ela e Alfred seriam feliz.

Mas essas não eram preocupações que ela deveria ter no momento, sua preocupação era o casamento. Elizabeth balançou a cabeça discretamente e suspirou, voltando a olhar para o seu reflexo em seu grande espelho de corpo. Ela estava linda, seu vestido estava lindo.

Para falar a verdade, essa era a primeira vez que Elizabeth o via, e era impressionante. Era um rico vestido de cetim brocado da cor creme, com bordados em forma de rosas, o símbolo dos Tudor-Habsburg, e vieiras, um dos símbolos dos Howard de Carlisle. Ele sendo assim já seria muito bonito, mas esse vestido tinha algo a mais, algo que o fazia ser impressionante. Ele era enfeitado com pérolas, com mais de dez mil pérolas.

— Talvez seja uma tolice, mas pela primeira vez, eu realmente me sinto uma princesa.— Elizabeth tentou passar a mão no corpete, mas ela parou a apenas alguns centímetros, como se fosse uma ilusão que poderia logo acabar. Logo atrás de Elizabeth, as irmãs dela e as criadas a olhavam maravilhas.

— Realmente é uma tolice, você sempre foi uma princesa.— Frances disse mais atrás sorrindo para sua irmã mais velha.

— Mas nesse vestido, você está parecendo uma legítima princesa. Poderia até mesmo estar nos livros.— Elizabeth deu uma pequena risadinha para Juliana, mas sua irmã mais nova não deixava de estar certa, a única diferença era que Elizabeth não queria ser uma princesa dos contos de fadas.

— Vocês são... incríveis. Eu não vou esquecer. Mas será que o vestido não está muito exagerado?— Elizabeth falou se virando novamente para suas irmãs. Quando Amélia havia dito que o vestido seria enfeitado com pérolas, ela não pesou que fosse algo assim. Mas logo o olhar caiu em sua mãe, que havia acabado de entrar.— E você mamãe? O que acha? Estou bela?

Lady Carlisle estava cheia de emoção, talvez não de orgulho mas de emoção, Elizabeth quase poderia ver as lágrimas nos olhos dela, a perspectiva de ver sua filha mais velha se casar era emocionante, e talvez essa fosse a única parte de isso tudo que sua mãe iria gostar.

— Elizabeth, não há palavras para lhe descrever, você está belamente magnífica, Londres certamente não falará de outra coisa por muito tempo.— A condessa de aproximou já abrindo os braços para um abraço, mas ela logo desistiu. Isso decepcionou um pouco Elizabeth, mas sua mãe a aprovava e isso alegrava muito Elizabeth, alegrava a todo filho.— Mas certamente são muitas pérolas. E pensar que aquelas caixas eram tudo isso.

— Não foi muito caro?— E agora Anne fez essa infeliz pergunta.— Não é do tesouro de Niedersieg, ou é?

— Claro que não Anne, foi um presente de Niedersieg para Elizabeth, um presente.— E a condessa foi muito enfática nisso, fazendo a pobre Anne logo se afastar.— Além do mais não haviam pérolas soltas entre o tesouro. Pelo menos não entre as peças que a marquesa escolheu para não serem devolvidas.

— Mas isso é legal?

A jovem Juliana fez essa pergunta, trazendo olhares de suas irmãs para ela. Tão inocente a jovem Lady Juliana Howard.

— Sim Julie, é legal, tudo aquilo pertence ao príncipe de Niedersieg, a Alfred, não pertence a Niedersieg.— Por um momento Elizabeth teve que voltar ao espelho, sua criada iria lhe passar a tintura dos lábios.— Lembre-se que lá é a Alemanha, não a Inglaterra, então lá os príncipes tem poderes quase infinitos, ao contrário daqui.

Elizabeth estava sentindo uma grande satisfação com sua explicação, não envolvia política, mas ela ainda sentia, ela quase iria sorrir, mas havia a tintura. Felizmente, antes que esse assunto pudesse ser mais aprofundado, o conde entrou no quarto e pediu para seus irmãs saírem, sobrando apenas ele e a condessa.

Então era agora. Essa era a despedida. Não era necessário eles deixarem isso explícito, bastava olhar para eles, apesar de o conde estar com sua expressão usual, era possível ver um tom triste. Já a condessa, ela era menos impassível, ela estava quase chorando.

— Minha Elizabeth, minha filha doce e bela filha, você está magnífica, e tolo é quem falar o contrário.— Elizabeth também se emocionou, ela estava fazendo muito esforço para não derramar lágrima alguma. Não era sempre que o seu pai demonstrava amor e carinho por suas filhas e seu filho.— Olhe você, chegou em um lugar que nunca imaginamos que estaria, uma princesa. Seja sabia minha filha, aja bem e não se esqueça de nós.

— Não me alegra você se tornar uma princesa, mas se você mostrar a honra e a dignidade de uma, eu ficarei feliz. Ser dessa família não é fácil, Elizabeth, eu sou a primeira dama da marquesa, sei de tudo o que acontece.— Elizabeth iria tentar esquecer as últimas palavras de sua mãe. Ela iria seguir os conselhos dos dois, e teria cuidado. Mas um sorriso fraco surgiu no rosto da condessa.— Mas não vamos chorar, por favor. Temos um presente Howard para você, Elizabeth.

Um presente Howard? Só nesse momento Elizabeth pode perceber que seu pai tinha em suas mãos um caixinha prateada.

— Sua mãe me lembrou no momento certo.— O conde então abriu e caixinha e Elizabeth pode ver o que era. Uma aigrette de prata, enfeitada com esmeraldas e pérolas. Mas era impressionante.— Os Tudor-Habsburg não pediram o dote digno de uma princesa, mas você irá se casar com uma joia familiar digna de uma. É sua, Elizabeth.

Elizabeth novamente estava emocionada. Uma joia feita apenas para ela, para ela se casar. Ela sabia que os Tudor-Habsburg usavam muitas coisas como símbolos, as rosas, a águia imperial, laranjas, mas essa aigrette, essa joia, seria um símbolo para Elizabeth, a iria sempre lembrar de sua família, de sua família Howard. Elizabeth estava emocionada, e ela simplesmente abraçou seus pais, de forma desajeitada e barulhenta, mas abraçou.

— Não sei eu como agradecer. Vou sempre estar com isso.— Nada sumiu ou deixou de existir. Com um suspiro aliviado Elizabeth pôde concluir que não era sonho e nem uma ilusão, era real, e seus pais retribuiram o abraço.

Mas a emoção e o abraço não duraram muito, logo eles se separaram e a condessa chamou novamente as criadas e suas irmãs para a ajudar a colocar a aigrette. Não demorou muito e Elizabeth já estava pronta e na carruagem rumo a Capela Real do Palácio de St. James.

Assim que Elizabeth chegou e colocou seus pés na capela, uma ansiedade a atingiu, o lugar estava quase cheio, havia desde o rei George II, até os mais simples nobres da corte, havia um grande público para ver se ela iria cair ou vencer. Mas não era essa a única preocupação de Elizabeth, havia outras.

Conforme Elizabeth ia andando até Alfred, sua cabeça estava cheia de pensamentos e preocupações. Ela poderia tropeçar, poderia no momento dos votos falar William Alfred Frederick Ernest no lugar de Alfred William Frederick Ernest, ela poderia esquecer algum dos nomes dele, ou o bebê poderia se agitar e ficar poderia ficar enjoada, embora isso não acontecesse muito. Tantas coisas, tantos problemas.

Elizabeth também estava preocupada com Alfred, ele também poderia errar, não o nome dela, era apenas Elizabeth e não se poderia esquecer, mas ele poderia se enganar ou falar uma frase errada. Mas isso não aconteceu, nada de errado ou diferente aconteceu. Alfred não esqueceu nenhuma frase, nenhum nome e nenhuma pausa, e Elizabeth também, ela não tropeçou, nem ficou enjoada e nem mesmo falou o nome de Alfred na ordem errada, ambos foram perfeitos, e nada de incomum aconteceu, apenas a marquesa que ficou tossindo quase que todo o casamento.

Apesar de tudo, aconteceu. Elizabeth estava casada, ela era agora a princesa consorte de Niedersieg, e condessa de Rivers. Olhando melhor, era impressionante como ela passou de filha de um conde, a condessa, filha de um conde imperial e depois a princesa, esposa de um príncipe imperial. Agora as coisas seriam diferentes para Elizabeth, nada mais seria igual.

*****

Casados, finalmente casados, e o que aconteceu a algumas horas ainda estava muito bem marcado na mente de Alfred. Ele havia salvado a honra de Elizabeth, e juntos estavam salvando a honra dos Tudor-Habsburg e dos Howard, mas principalmente dos Tudor-Habsburg.

Mas se agora eles estavam casados, eles tinham responsabilidades juntos, e uma delas era de eles fazerem um bom casamento, um talvez como de William e Catherine, os avós de Alfred, um que seria feliz e duradouro.

— Um lindo casamento, Suas Altezas Sereníssimas. Jovens, bonitos, certamente terão lindos filhos.— Depois da cerimônia na Capela Real, todos se dirigiram para a recepção, junto com um jantar, no próprio palácio, uma honra dada pelo rei.

E logo após o jantar, a maioria dos nobres começaram a fazer fila para oa parabenizar. E os nobres da vez, foi a baronesa Wiston, junto com seu marido o 4° barão Wiston, mas mal sabia a baronesa que a primeira criança já estava a caminho. Alfred deixou para Elizabeth a obrigação de responder a essas felicitações. No momento ele não tinha cabeça o suficiente para agradecer. Sua cabeça só poderia pensar em uma coisa...

— Muito bem, Alfred. Está casado e está com uma grande beleza.— Mas havia uma pessoa que Alfred não poderia ignorar, seu amigo George, o príncipe de Gales, o futuro rei, que repentinamente apareceu ao lado deles sorrindo.— Sua Alteza Sereníssima, a marquesa, está linda, não é Alfred?

George olhou para Alfred, e esse olhou nos olhos de Elizabeth. Francamente, não era necessário nem mesmo pensar muito.

— Sim, está linda. O esplendor e o luxo apenas aumentam a sua beleza, Elizabeth.— Elizabeth sorriu e corou, e Alfred também se viu corando quando percebeu seu comentário. Mas ambos ainda sorriam. Um sorriso muito diferente de George, que era de diversão.

— O casamento já lhe fez um romântico, Alfred?

— Mas, Sua Alteza Real, creio que um casamento faz todos românticos. E eu agradeço por esses elogios, me sinto muito mais bela do que sou com eles.— Para Alfred, Elizabeth estava sendo modesta falando assim.

— Certamente, minha princesa. Mas Alfred também está certo, a princesa está espetacular.— O príncipe de Gales falou com animação, antes de inclinar a cabeça levemente.— Eu nunca vi tantas pérolas em uma única dama.

— As pérolas não foram uma decisão de Elizabeth, você consegue imaginar quem mandou colocar todas elas George?

Novamente um sorriso sem timidez surgiu no rosto de Alfred, e George quase riu.

— Claramente foi Amélia. Minha princesa não deve saber, mas sua cunhada mais nova tem uma grande obsessão por pérolas desde que meu professor mostrou a todos nós uma ostra ao explicar como as pérolas são formadas. Foi muito divertido.— Alfred concordava, foi muito divertido, aqueles dias eram todos muito divertidos.— Minha princesa, já teve a oportunidade de ver uma ostra?

Alfred pôde perceber que Elizabeth não parecia mais tão feliz, no lugar parecia até mesmo um pouco entediada e tensa, e apesar do sorriso ela olhava muito para os lados, quase que procurando uma fuga.

— Nunca tive. Na verdade não sou muito versada na arte do conhecimento.

Alfred nunca havia pensado nisso, mas Elizabeth nunca mostrou ser uma pessoa "versada ao conhecimento" , assim como também nunca havia mostrado o contrário. E infelizmente isso causou uma pequena sensação de desconforto. Elizabeth começou a rir desconfortável, olhando para Alfred pedindo ajuda. Mas o que ele faria? Alfred simplesmente deu de ombros confuso também, não tinha nada a fazer.

Mas pela graça de Deus esse desconforto foi destruído por Anne, que assim como George apareceu repentinamente.

— George como vai?— George apenas pode beijar a mão que Anne estendeu, ela não esperou uma resposta e foi logo pegando a mão da princesa.— Elizabeth, mamãe está lhe chamando.

E Anne levou Elizabeth, Alfred não conseguia nem imaginar o que ela desejava, mas sua mãe estava acompanhada por Lady Berland, Lady Rochford e Lady Cambridge, então poderia ser algo ruim, mas ao mesmo tempo algo bom. Alfred suspirou cansado, olhando Elizabeth desaparecer na multidão.

— Ela realmente está magnífica. Você tem uma grande sorte, Alfred.— Alfred pensou por um momento.

— Em alguns pontos tenho sim.— Ele pensou mais um pouco, e ele tinha muita sorte na verdade, mas ele não pôde dizer.

— Não é em poucos, mas sim em muitos. Você se casou com uma inglesa, de uma família inglesa, alguém conhecida e muito bela. Eu não terei essa sorte, não vou me casar com Lady Sarah, mas sim com uma princesa alemã, não muito rica e não muito bela, que Deus ajude para que pelo menos seja inteligente.— O príncipe de Gales falou com um certo pesar e decepção. Era uma tragédia. George estava muito interessado por Lady Sarah Lennox, mas nunca poderia se casar com ela.— Mas é assim a vida, eu nasci para a Inglaterra, minha alegria não é o mais importante, mas sim a da Inglaterra. As vezes fico pensando com será quando o rei morrer.

Essa era as vezes uma dúvida que Alfred também tinha. Um dia George iria ser rei, e Alfred iria ser marquês, e Niedersieg? Ele não importava.

— Tenho certeza que será glorioso.— E talvez tivesse falando isso não apenas para ele. Mesmo assim Alfred falou com muita certeza, uma que fez George rir com dúvida.

— Lord Bute sempre fala o mesmo.— Nem mesmo um sorriso George tinha mais.— O medo de ser infame é muito grande.

— Não vamos nos preocupar com o futuro distante. Além do mais, você não será infame, eu estarei aqui para lhe salvar.

George parece ter achado isso muito engraçado, ele o olhava de forma zombeteira.

— Mas você é mais novo!

— Não importa. Eu sou mais alto.— E também mais bonito, mas isso não importava. Embora Alfred desse para o amigo um falso olhar arrogante.

— Somos quase da mesma altura... Mamãe?— Eles não haviam percebido, mas a princesa viúva logo se aproximou para o lado do filho mais velho, e ela não parecia muito feliz. Não era uma visão incomum.— Há algum problema?

A princesa viúva de Gales olhou para os lados para por fim olhar novamente para o filho. Se havia alguém que conseguia ser pior que a mãe de Alfred, era Augusta, a princesa viúva de Gales.

— Creio que está na hora de voltar para Leicester House, está tarde e Newcastle também está aqui.— Era esse o motivo dos descontentamento da princesa viúva, ela e Lord Bute era Torys, o partido contrário ao do primeiro-ministro.

— Mas mamãe, ainda não aconteceu a cerimônia de cama.

A princesa viúva iria responder, quase irritada, mas antes a marquesa a interrompeu, com uma voz baixa e um olhar frio da princesa viúva na sua direção. Mas estava na hora da cerimônia de cama, e isso seria vergonhoso.

Alfred foi levado para seus aposentos, depois foi despido, vestido com sua camisola de dormir e esperou. Esse tipo de cerimônia servia apenas para garantir que o casamento iria ser consumado. Mas ninguém parecia ter um simples conhecimento: o casamento de Alfred e Elizabeth já foi consumado. Então no momento era apenas um gerador de vergonha e de uma frágil aparência de pureza.

Logo depois Alfred foi chamado para os aposentos de Elizabeth, e quando um envergonhado e tímido, Alfred entrou, ele pôde ver que Elizabeth também estava envergonhada, seu rosto estava vermelho e ela nem mesmo olhava para o rosto dele. Nem mesmo parecia que eles já conheciam o desejo carnal. Assim que eles foram colocados na cama, todos saíram, não sem antes o rei comentar que eles deveriam ter filhos bonitos.

E eles estavam sozinhos. Seria uma longa noite, e um longo casamento. Alfred olhou para o lado, para Elizabeth, e mesmo no escuro ele viu que ela fazia o mesmo. Elizabeth sorriu e Alfred retribui, começar assim era quase decepcionante.

Notas finais
** O link mostra como era a Capela Real de St. James no Casamento da Rainha Victoria, que era um pouco diferente do que era na Era Georgiana, e como é hoje em dia, mas acho que a foto pode ajudar a imaginar como era a Capela. Que é relativamente pequena, com 150 lugares apenas. ** Um aigrette é um ornamento de cabelo projetado para segurar ou retratar penas e geralmente é incrustado de jóias e às vezes montado em tremor . O nome vem da garça, as penas desta ave eram frequentemente usadas como adornos no cabelo e nos chapéus. É por isso que se você pesquisar simplesmente aigrette vai aparecer a foto de uma garça. Essa joia era muito usada no século XVIII. Eu queria uma joia de cabeça, uma tiara, mas eu logo percebi olhando as pinturas, que as mulheres não usavam muito tiaras nesse século.