Uma Era De Ordem E Honra
25 24. A história é feita de erros e acertos... casamentos que deram certo e outros errado... mas tenho o prazer de ter um certo.
Notas iniciais
Os olhos curiosos de Charlotte e Elizabeth cansavam a George, se não cansavam, faziam ele se sentir... impotente.
— Ocorreu pacificamente, embora os termos não sejam os mais agradáveis. Terrivelmente desagradáveis foram esses termos na verdade.— O rei fechou os olhos dolorosamente, só de lembrar era ruim.
— Quais foram exatamente esses termos?— George abriu os olhos e olhou para a esposa, Charlotte estava apreensiva, mas ao mesmo tempo curiosa.— Seria o...
— Vamos para dentro!— A proposta dita bruscamente pelo rei fez as duas damas quase pularem em seus lugares, e Alfred olhar para o amigo surpreso.— Digo, será melhor conversamos na intimidade de uma sala, isto é, se tiverem em Windsor salas próprias para uma conversa.
Charlotte e Elizabeth, que ainda estavam de braços dados, se entreolharam e assentiram ao mesmo tempo. A rainha então sinalizou para Lady Weymouth se aproximar, e quando a viscondessa assim fez, Charlotte lhe deu uma ordem:
— Lady Weymouth, fique aqui. E quando for a hora certa, diga para Lady Charlotte levar as crianças para dentro.— A viscondessa assentiu e deu alguns passos para trás. Com isso Charlotte soltou o braço de Elizabeth, e ofereceu sua mão ao marido.— Podemos ir então?
O rei pegou delicadamente a mão da esposa. Nesse simples ato, George sentiu os dedos de Charlotte apertarem os seus fortemente, e ao olhar para ela, depois de prender seu braço entre os dela, ele percebeu o caloroso e apoiador sorriso que Charlotte lhe lançava. Um sorriso que George retribuiu, embora mais pequeno e fraco.
Os quatro então foram para dentro, a procura de um lugar mais particular para conversarem. E nesse processo eles passaram por vários corredores, George desgostava muito de andar pelos corredores de Windsor, era horrível ver como o castelo estava dilapidado e malconservado. Era uma lástima isso, o Castelo de Windsor existia desde o reinado de William I, o primeiro rei normando da Inglaterra, e era habitado pela família real desde Henry I. E agora ele estava assim, George teria muito trabalho para arrumar esse lugar.
—... George!— O rei foi tirado de seus pensamentos por Alfred, que a muito tempo lhe chamava. Quando eles haviam parado?— George!
— Eu já ouvi, Alfred! O que foi?
— Talvez seja melhor irmos para o seu escritório. Com certeza esse é o melhor lugar para se conversar no momento.— Apesar da irritação que George mostrou, Alfred falou pacificamente.— Ainda mais sobre um assunto... um assunto como esse.
— Certamente será o melhor, não é?— O rei olhou para sua esposa assim que ela apoiou a sugestão de Alfred, e sua resposta foi simplesmente assentir.
Não demorou muito e Charlotte, Elizabeth e Alfred já estavam confortavelmente sentados no escritório do rei em Windsor, as damas de companhia da rainha e da marquesa ficaram do lado de fora. Sentada em seu lugar, ao lado do marido, Charlotte só imaginava que poderiam ser duas coisas: um assunto familiar, ou político, se bem que na posição deles qualquer assunto familiar se tornava polí...
— Agora que estamos em particular, diga-nos, George. O que aconteceu?— George, que estava de pé, ele não conseguia sentar, olhou para Elizabeth. Por que toda essa curiosidade da parte dela?— Tanto eu como Charlotte estamos curiosas. Espero que não seja outra guerra, não passou nem mesmo dez anos da última.
— Não sei se tenho o prazer ou desgosto de dizer isso, mas o problema está em casa.— Foi inevitável, George falou a última parte entredentes.
— As Treze Colônias?— George balançou a cabeça para a sugestão de Elizabeth. Ela olhou para Alfred e pediu uma melhor explicação com os olhos.
— Elizabeth, as Treze Colônias são um problema a parte.— Alfred respondeu a esposa, ele dividia seu olhar com Elizabeth e George.— George, vamos parar de mistério, o problema é...
— É familiar!— George falou olhando para Charlotte, era entre a família real.
— Você fala de Caroline Matilda, George?— Charlotte sugeriu com uma voz baixa, ela sabia como esse assunto era delicado.
George fechou os olhos fortemente ao ouvir o nome da sua irmã mais nova. Caroline era outro problema seu, na verdade da família toda, a mãe deles, a princesa viúva de Gales, até mesmo tinha ido ver a filha na Dinamarca, para a aconselhar sobre seu caso, internacionalmente conhecido, com o médico do rei.
— Os atos da rainha da Dinamarca não são problema meu, Charlotte. Se Caroline deu um golpe de Estado com o amante, e ele se colocou no poder, isso é problema da Dinamarca.— Talvez Struensee governasse melhor até que o louco Christian.— Não vamos falar de minha irmã.
Um pequeno momento de silêncio se instaurou no escritório, George estava tentando arrumar coragem para falar, mas enquanto isso as damas não tiravam os olhos dele. O rei olhou então para Alfred, e assentiu para o amigo.
— O problema foi Henry, o duque de Cumberland.— Rapidamente Charlotte e Elizabeth mudaram para Alfred.— Ele casou-se.
— Casou?— Charlotte repetiu baixo em seu lugar, depois ela se levantou rápido, e novamente falou, agora muito mais alto:— Como assim casou!? Com quem!?
— Mas ora com quem, uma plebeia claro.— Alfred respondeu com um tom quase irônico.— Uma tal Anne Horton, é uma viúva. O pai dela é barão, pelo menos há uma... "consolação".
Charlotte ouviu as palavras de Alfred em silêncio, ela estava tentando absorver todas essas informações. A rainha novamente sentou.
— O duque de Cumberland se casou com uma plebeia, embora filha de um nobre.— Lentamente Elizabeth repetiu para si as palavras de Alfred, antes de rir amargamente.— É tão irônico, como se uma história estivesse se repetindo... isso é um escândalo.
Nem George e muito menos Algum falaram algo, eles já haviam muito discutido isso antes. Mas Charlotte e Elizabeth não. A rainha novamente se levantou de seu lugar, e rapidamente veio até ele.
— George isso é um escândalo! O que o continente irá dizer disso!? Meus irmãos, França, Suécia, Espanha, Portugal, Áustria! Devemos fazer algo.— Os olhos da rainha se arregalaram logo em seguida, ela pensou em algo.— Nossos filhos, George, devemos protegê-los desse escândalo. Seria uma vergonha para mim ver um filho meu casar com...
— Charlotte, não vamos...
— Uma qualquer!— George até tentou impedir esse pequeno grito da rainha, mas no final foi impossível.
Novamente todos na sala de calaram, e a rainha voltou a sua expressão calma e impassível de sempre. Os humores estavam descontrolados hoje, certamente era isso. E os Bristol perceberam isso, Alfred e Elizabeth trocaram um olhar, e depois o marquês se levantou de seu lugar.
— Já discutimos essa situação, George. O melhor agora é você se acalmar.
— Não sei se consigo acalmar-me, Alfred. Você mais do que ninguém sabe que em minha posição não existe calma, mas sim terríveis momentos intermináveis de desprazer e horrores.
Alfred ficou calado, ele não tinha uma resposta. O casal Bristol fez uma mesura e então saiu, talvez essa fosse a melhor resposta. E George e Charlotte ficaram sozinhos, os dois calados e com seus próprios pensamentos. Com um suspiro cansado, George caminhou até uma poltrona e sentou, ele estava tão cansado, o seu juízo iria aguentar?
Todos os passos do marido foram observados por Charlotte. O seu suspiro, os passos dele em direção a poltrona, o momento em que George passou as mãos ansiosamente pelo cabelo. Ela viu tudo. Caminhando lentamente, Charlotte foi até o marido e o abraçou por trás. George fechou os olhos e levou sua mão até as da esposa.
— Ah George, meu George. Como as coisas são terríveis, não?
— Um dia eu ainda vou ficar louco, Charlotte. Todos esses problemas ainda irão me enlouquecer.— Bem eles não fariam a ninguém, George sentiu o aperto de Charlotte aumentar.— Se eu ficasse louco, o que você faria?
— Eu iria ficar muito preocupada, e sem saber ao certo o que fazer.— O aperto de Charlotte se afrouxou por um momento.— Mas não sairia do seu lado. Você certamente me faria a mulher mais infeliz do mundo. Não existe sofrimento maior do que ver a pessoa que você mais ama sucumbir a uma doença.
George abriu seus olhos e olhou amorosamente para Charlotte. Ele deu a esposa um pequeno, mas muito sincero, sorriso.
— Então vou me esforçar para permanecer em meu mais perfeito juízo.— A rainha também sorriu, e pegando o rosto de George, ela depositou um forte beijo na sua bochecha.— Vai dar-me apenas isso, Charlotte?
— No momento sim, você ainda tem que me dizer o que fará em relação a Henry.— George fechou os olhos novamente, agora por desgosto.— E a noite não esqueça que temos uma apresentação para ver com nossos filhos.
*****
Quando os Bristol chegaram em Hampton Court, depois de uma viajem longa e silenciosa, o sol já não mais reinava no céu, mas sim a lua. Foi um dia terrivelmente cansativo, e Windsor foi no mínimo terrível.
— Lady Lovell, leve as princesas para o berçário e as prepare para a lição de música.— Não muito depois de eles entrarem no apartamento deles no palácio, e a viscondessa Lovell ser chamada, a marquesa deu esse ordem.
— Não seria melhor encerar os estudos por hoje?— Assim que a viscondessa pegou a mão da pequena Charlotte e partiu em direção a escada com Katherine e Elizabeth atrás, Alfred perguntou a esposa.— Foi um dia muito cansativo, para todos nós.
Alfred ofereceu seu braço a Elizabeth, ela aceitou e prendeu seu braço entre o dele.
— Foi realmente um dia cansativo, mas as crianças sempre tem vigor para mais.— Enquanto eles caminhavam para a sala azul a marquesa respondeu.— Além do mais, nossas filhas devem ser brilhantes. Se a Providência não me abençoou com um varão, certamente irá me abençoar com filhas dignas do nome Habsburg.
— Certamente as melhores princesa do continente.— Atrás deles Lady Barnander comentou alegre, lembrando a Alfred a presença das damas de companhia.— Os Habsburg da Inglaterra nada tem de inferior aos da Áustria.
— Eles tem o título superior, Jane.— Atrás deles também vinham Lady Kent, que lembrou esse simples fato a Lady Barnander.
Ao entrarem na sala azul, nem Alfred e muito menos Elizabeth sentaram, mas sim as damas de companhia da marquesa. Havia entre os dois uma certa animosidade no momento, causada principalmente pelo que aconteceu em Windsor, e o silêncio de Alfred durante toda a viagem de voltar.
Alfred foi até uma mesa onde havia alguns livros e pegando um, ele começou a folhear. Os olhos de Elizabeth estavam no marido, ela estava se cansando do silêncio.
— Você ainda tem disposição para irmos ao jantar da nova Lady Everton mais tarde, Elizabeth?— Fechando o livro, Alfred perguntou com um tom cansado na voz, Windsor não era tão longe, mas não deixava de ser fatigante.— Perdão, mas esqueci-me o nome da nova condessa.
— Meu marquês, assim o senhor ofende minha boa família.— Lady Eugenie falou com falsa ofensa. Mas a nova Lady Everton era uma Leveson? Sim, era verdade, Alfred havia esquecido, o casamento do 5° conde, Christian Everton, foi tão discreto.— Adelaide, meu marquês, esse é o nome da nova condessa Everton, a minha irmã mais nova.
— E de Lord Leverson também.— Lady Barnander completou a baronesa.
De qualquer forma, Alfred voltou a olhar para Elizabeth esperando uma resposta, embora ele tenha percebido ela fazer uma careta ao ouvir a referência ao visconde Leverson.
— Iremos ainda ao jantar?— Com um sorriso Alfred a lembrou, e abriu o livro novamente.
— Apesar da fadiga é necessária a nossa presença em Everton Hall.— Alfred fez uma pequena careta ao folhear o livro.— Lady Everton convidou algumas pessoas que estão muito interessadas em ajudar a nossa causa. Lord Barnander comentou alguns nomes interessantes que estarão lá.
— Como por exemplo?— Alfred olhou para a esposa curiosamente, Elizabeth ficou por um momento calada.— Você se lembra?
— Confesso que não, havia outras coisas em minha cabeça naquele momento. O duque de Dorset vai estar lá, acho que um general da Guerra de Sucessão Austriaca também.— E qual dos dois estava interessado ao apoiar a Sociedade de Ajuda aos Pobres e Desabrigados?— Não importa! A posição de alguém ajuda, ou atrapalha em certos momentos. Mas o importante é ter apoio.
Alfred sorriu e assentiu para Elizabeth, se ela estava feliz e satisfeita, era bom. O marquês se preocupava apenas com uma coisa:
— É tão curiosa essa situação. Somos o marquês e a marquesa de Bristol, e Bristol é um dos maiores portos de navios negreiros da Inglaterra.— Elizabeth encarou o marido com essa fala.— Tome cuidado, Elizabeth. Muitos inimigos você vai ganhar, nos vamos ganhar.
E silêncio, um grande silêncio começou a reinar na sala por um momento. Elizabeth encarava o marido como se desejasse algo, e Alfred ora olhava para as páginas do livro em suas mãos, ora para a esposa tentando descobrir o que ela desejava. Para falar a verdade ele já tinha uma noção, algumas coisas não ficaram resolvidas entre os dois.
— Não me preocupo com isso, nenhum comerciante, fazendeiro ou bristolian pode fazer-me algum mal.— Alfred riu levemente, de fato ninguém poderia ferir a marquesa, mas poderiam fazer outras coisas.— E falando em mal, você não me disse o que George irá fazer em relação a Henry.
— Não?— Fechando seu livro, Alfred perguntou a esposa, ela balançou a cabeça negativamente.— Mas que coisa, não faço a mínima ideia de porque não ter feito isso.
— Imagino que você queria me poupar. Do estresse claro.— Alfred a encarou e assentiu lentamente.
— Acho que eu queria me poupar do estresse de relembrar.— Alfred admitiu colocando o livro novamente na mesa. As três damas de companhia de Elizabeth olhavam para eles.— Assim como nós tomamos ações para que não houvesse um segundo Henry em nossa família, George irá tomar ações para impedir que aja na família real futuros casamentos com... pessoas inadequadas para uma alta posição.
— Pessoas inadequadas? Casamento? Quem casou?— Os olhos de Elizabeth desviaram de Alfred e foram em direção a Lady Eugenie.— Minha marquesa.
A marquesa olhou para o marido, depois para a baronesa, ela estava perguntando se era permitido revelar o casamento do duque de Cumberland com Anne Horton. Alfred assentiu, não havia necessidade em esconder isso, as damas eram confiáveis. Percebendo isso, Elizabeth pôs-se a falar as damas sobre o que acontece no Castelo de Windsor.
— Por Deus! Uma viúva plebeia, não quero nem saber como a princesa viúva de Gales está.— Lady Kent comentou balançando assim que Elizabeth acabou.
— Mas qual o problema de uma plebeia se casar com um príncipe?— Lady Barnander perguntou, fazendo todos os olhares se voltarem para ela.— Digo, eu sei que o duque de Cumberland assim será excluído da linha de sucessão ao Eleitorado de Hanover, mas aqui é a Grã-Bretanha, sempre existiram casamentos da realeza com... nobres e plebeus.
— A questão é que esses casamentos foram erros, milady. Vivemos em um mundo onde cada um tem seu lugar. E por experiência própria eu posso dizer que quem ocupa um lugar que não lhe foi feito, sofre, e sofre muito.— Com um sorriso para disfarçar sua irritação, Elizabeth respondeu a baronesa.— Acho que irei me arrumar para o jantar de Lady Everton.
Elizabeth caminhou até Alfred e lhe deu um rápido beijo na bochecha. Depois disso ela saiu com as três damas, as outras estavam à esperando nos aposentos da marquesa. Agora Alfred estava sozinho, e suspirando cansado ele foi até uma poltrona.
Já não bastava os dele, ainda havia os de outros.
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