Uma Era De Ordem E Honra

2 1. Nunca aja, sempre pense, ou você verá as consequências.


04|01|1759 Palácio de Kensington

A vida de Anne, a marquesa de Bristol, se tornou muito agitada e cheia se acontecimentos horríveis nos últimos dois anos. Uma guerra, acusações de traição e por fim, a viuvez. Os dois primeiros, Anne suportou com grande força e coragem, mas talvez ela tenha gastado muita força e coragem, pois quando chegou o terceiro, Anne caiu.

Quando Anne se viu viúva aos 35 anos, sozinha com os filhos, agindo como regente para Alfred, e novamente perdendo um filho, todas as tristezas de Anne tomaram sua mente e seu coração.

Ela se trancou em seu quarto, e se recusou a receber qualquer visita, seja de aristocratas curiosos, alguns que a odiavam até dois meses atrás, de suas amigas, e até mesmo de seus filhos.

Mas depois de muito sofrer e pensar, Anne chegou a uma conclusão: isso não valia a pena. Primeiro porque isso não mudaria nada, Frederik ainda estaria morto, Anne viúva e seus filhos órfãos; segundo porque isso não estava fazendo bem a Anne, ela se sentia mais triste e desanimada do que antes; e terceiro porque Anne se lembrou que o mundo não parou e seus problemas continuavam, cabia a ela os resolver.

Então Anne voltou a sua vida normal, quase normal, considerando que ela estava viúva, estava sempre de preto, estava morando no Palácio de Kensington, já que Hampton Court lhe trazia muitas lembranças, e St. James também, e por fim, ela também tinha que "governar" um principado no lugar de seu filho. Certamente essa não era a vida normal de Anne.

Mas também ela voltou as suas funções como marquesa, que se resumiam a ler relatórios, administrar suas propriedades e cuidar de sua casa, a última uma coisa que toda mulher fazia. Anne também voltou a tentar melhorar sua relação com os britânicos, agora que parecia que eles estavam mais gentis, todos tinham pena de uma viúva afinal.

E Anne também teve que aprender a "governar", não realmente governar, o governar de verdade estava sendo feito em Niedersieg com o conselho, mas cabia a Anne ser regente e reinar em um sentido mais contido, embora Anne não estivesse acostumada com nenhum dos dois modos de governar.

— Minha marquesa, a senhora sabe onde está minha filha?— Com Anne voltando a sua vida normal, suas damas de companhia também voltaram, mesmo que algumas no momento estivessem no campo. E no momento Lady Carlisle era a única que estava com Anne, sendo sua secretaria, afinal era isso que a Primeira Dama da Marquesa fazia.

— Ela deve estar brincando com Annie e Amélia.— Afinal era por isso que Lady Elizabeth estava sempre em Kensington.

Mas fracamente, Anne não estava realmente muito preocupada.

— Mas as princesas estão em Berland House.— Anne havia se esquecido disso, mas novamente não havia preocupação, apesar de o Palácio de Kensington ser grande, e Lady Elizabeth poder se perder, assim como ela poderia estar em outro apartamento.

— A milady está livre para a procurar.- Era melhor do que Lady Carlisle ficar muito agitada a preocupada.— E se encontrar Alfred diga que desejo falar com ele.

Lady Carlisle fez uma mesura e saiu. Agora Anne poderia ler seus relatórios de forma mais pacífica.

Ela tinha uma grande problema, talvez na verdade Niedersieg tivesse um grande problema. Haviam rumores de que a Áustria e a Prússia desejavam invadir Niedersieg. A Prússia para se aproximar da Áustria, e a Áustria para afastar a Prússia. Isso fez com que os líderes de Niedersieg ficassem temerosos com esses rumores, e agora eles queriam tomar ações para se proteger.

Mas mesmo com essa preocupação, Anne não conseguia tirar de sua cabeça que Alfred estava demorando muito, Lady Carlisle já o deveria ter visto. Ela estava achando isso muito estranho. Mas o que Anne achou muito mais estranho foi ouvir Lady Carlisle gritar.

Isso sim era estranho e fez Anne ir ver o que estava acontecendo. E tudo ficou muito mais estranho quando ela pôde ouvir que Lady Carlisle estava brigando com alguém, parecia ela estar com raiva.

Logo porém, essa estranheza se tornou surpresa e curiosidade. Os gritos de Lady Carlisle vinham do quarto de Alfred. Lentamente Anne caminhou em direção a voz, a cada segundo as palavras incompreensíveis da condessa, ficavam mais fáceis de entender. O que de início motivou Anne a dizer algo:

— Lady Carlisle, qual o motivo...— Quando Anne entrou no quarto ela pôde entender o motivo da raiva de Lady Carlisle. E Anne desejou muito nunca ter visto ou feito isso.

Anne nunca iria se esquecer disso. Alfred, seu principezinho estava em sua cama, com Lady Elizabeth, ela estava abraçada contra seu peito nu. Eles estavam sem roupa, apenas um lençol cobria as suas intimidades, mesmo assim mostrando o resto, seus rostos estavam suados, desalinhados e também muito assustados e sem coragem alguma para tentar se defender. Mas nenhuma palavra precisava ser dita. Eles tinha feito...

— O que... o que está acontecendo aqui?— Era a única coisa que Anne poderia falar. Ela tinha que confirmar, mas Anne não sabia se olhava para os dois ou para a raivosa Lady Carlisle.

— Eu lhe digo minha senhora o que aconteceu! Seu principezinho seduziu minha filha e a desonrou. Como você teve a coragem de fazer isso seu...

— Mamãe, por favor! Não foi isso que aconteceu! Não pense assim.— Então Lady Elizabeth ainda sabia falar. Mas isso saiu tão choroso que apenas deixou a condessa mais irritada.

— Então o que aconteceu Elizabeth!? Foi o contrário!? Você se tornou então uma meretriz!? Acho que de qualquer forma foi realmente isso que aconteceu.

— Lady Carlisle, por favor, não fale mais, a milady não está ajudando.— Realmente não estava, isso foi o necessário para que Lady Elizabeth, que já estava antes com lágrimas nos olhos, as derramace.

Mas que situação horrível essa. Anne queria esconder seu rosto, mas ela não poderia, ela tinha que manter a fria calma. Todos pareciam muito exaltados no momento, mas, Alfred continuava calado, ele não falava nada. Apesar de a expressão dele mostrar muito de seus pensamentos, de que ele estava horrorizado, muito horrorizado.

— Não vai falar nada príncipe?- Agora que Lady Carlisle não poderia mostrar a sua indignação para sua filha, iria para Alfred.— Fale algo!

— Milady, eu peço também que tenha respeito pelo príncipe de Niedersieg.

— Ele tirou de minha filha sua honra, isso não se tira de uma dama, ele corrompeu ela! Minha senhora, eu peço perdão, mas seu filho é um desgraçado!

Lady Carlisle certamente não estava pronta para se acalmar, o melhor então era simplesmente a ignorar.

— Me diga Alfred, o que aconteceu?- Alfred parecia estar em outro lugar, parecia que tinha apenas seu corpo.

— Aconteceu o que parece que aconteceu. É simples e fácil de entender.- Pelo menos ele ainda sabia falar.— Peço perdão por lhe ferir Elizabeth. Merdão Elizabeth, perdão mamãe, perdão Lady Carlisle.

— Elizabeth!? Você não tem permissão para chamar minha filha pelo nome!

Anne se cansou agora. Estava na hora de Lady Carlisle sair. Havia muito para Anne conversar com Alfred.

— Lady Elizabeth poderia sair com sua mãe. Poderiam as miladys esperar na sala Azul?— Lady Carlisle ainda estava alterada. Mas pelo menos ela obedeceu, assim como Lady Elizabeth, que saiu da cama e começou a pegar suas roupas.— Lady Carlisle, pode entrar em algum dos quartos e os usar, creio que Lady Elizabeth queira é... se vestir.

Logo então Lady Carlisle e Lady Elizabeth saíram, agora Anne poderia conversar calmamente com Alfred.

— Você tem agora um grande problema Alfred, um muito grande.

*****

Alfred não tinha o que dizer, nem o que pensar. Havia acontecido e simplesmente isso. Alfred realmente estava perdido, tanto em sua vida, como em seus pensamentos.

— Alfred eu lhe fiz antes essa pergunta, e vou fazer novamente, o que aconteceu aqui?

— Eu já falei mamãe, aconteceu o que foi dito.— Ele não poderia ter uma outra resposta.

— Foi dito que você seduziu e desonrou Lady Elizabeth, eu desejo saber como isso aconteceu. Ou vai me dizer que não houve consentimento de ambas as partes.

— Eu nunca iria obrigar uma dama a fazer algo que não deseja. É desonroso e eu tenho... ou melhor, ainda me resta honra.
Essa pergunta de sua mãe irritou Alfred, ele nunca iria fazer isso com Lady Elizabeth. Foi algo com o consentimento de ambos e por mais doloroso que fosse admitir, Alfred apreciou muito o momento que eles tiveram.

— Claro que tem, você foi criado para ser um príncipe Tudor-Habsburg. Mas me diga como isso aconteceu? É me poupe dos detalhes.

Alfred realmente não desejava fazer isso, mas era preciso, sua mãe o iria obrigar de qualquer forma.

— Eu e Lady Elizabeth nos beijamos, e achamos de alguma forma que seria bom estar em um lugar mais reservado, e aconteceu o que aconteceu.— Era vergonhoso falar disso. Ele sentiu suas bochechas corarem.

Alfred realmente não entrou em detalhes, eles eram desnecessários, e era algo que apenas os dois iriam saber.

— Vocês sabem, Alfred, o que pode acontecer? Qual pode ser a... consequencia?

— Elizabeth pode... ficar grávida.- E era esse o detalhe que mais abalava Alfred. Ele havia desonrado Elizabeth, e ainda poderia ter destruído toda a vida e reputação dela.

Alfred se sentia horrível, uma canalha, um vilão, se sentia tudo, menos um príncipe ou cavalheiro.

— Exatamente. Mas eu me pergunto, o que você estava pensando quando trouxe Lady Elizabeth para cá?— Essa era uma boa pergunta. Uma que poderia ser respondida com Alfred falando que estava apaixonado por Elizabeth, e seus beijos e o desejo os fez acreditar que tudo eles poderiam. Mas não era isso que sua mãe queria ouvir.

— Fomos dominados pelo desejo, eu fui dominado pelo desejo, e não pensei antes de agir.

— E esse se provou ser uma grande erro. Alfred, nunca aja sem pensar, sempre pense, pense muito.— Foi essa a primeira vez que Anne mostrava alguma irritação.— Anote depois essa lição Alfred: nunca aja, sempre pense, ou você verá as consequências.

Realmente sua mãe estava irritada, mas como não estaria? Ela descobriu que ele se desviou de todos os preceitos que foram ensinados por ela. Apenas sobrava em Alfred tristeza, talvez arrependimento, arrependimento por ter causado todo esse sofrimento a Elizabeth e a sua mãe.

— Eu irei me lembrar disso mamãe. Eu peço perdão. Eu certamente a decepcionei muito.

Anne não demonstrou nenhuma reação, mas os olhos dela já faziam o trabalho da reação, todos diziam que eles eram frios como o gelo, e mesmo quando sua mãe não queria ser fria ela era fria.

— O que está feito, está feito.— E seus olhos somados com a forma desinteressada dela falar, aumentava tudo.

— Mas eu decepcionei a senhora, eu fiz o que não deveria. Me foi ensinado a ser honroso, ser um cavalheiro, a ter bondade, a nunca agir pelos meus impulsos, eu deveria ser um príncipe perfeito, e eu não fui.

— Realmente, você não foi perfeito. Mas não se pode esperar realmente perfeição, não se pode sempre agir com honra.— Isso contradizia o que ela mesma ensinou.— Você errou Alfred, e isso não pode ser mudado, mas você pode consertar isso, agindo com honra para salvar a honra de Lady Elizabeth. Apenas resta a pergunta, você quer fazer isso?

— Estou bem disposto. Não é de minha vontade destruir Elizabeth.— Seria a pior coisa para Elizabeth, todos os problemas dela iriam se originar nele, alguns já se originaram. Mas Alfred pelo menos iria resolver isso.

— Muito bem. Estarei na Sala Azul com Lord e Lady Carlisle, junto com Lady Elizabeth. Se vista e depois vá para lá, você sabe o que fazer.— Depois disso ela simplesmente saiu.

Alfred tinha muitos sentimentos em seu coração, os mais aflorados era de tristeza arrependimento e culpa. Mas ele sabia que também haviam alguns mais escondidos, alguns como desejo e paixão.

Tudo isso estava sendo muito estressante para Alfred. Mas ele antes de se vestir tinha um tarefa para fazer, antes que por causa de tudo ele se esquecesse.

Alfred tinha muitos diários, alguns para o fazer se lembrar de seus deveres, outros para ele mesmo escrever os acontecimentos de seu dia, alguns tinham suas ideias e haviam também os que Alfred colocava suas "lições", coisas que ele sabia que eram importantes, e que poderiam ser boas para seus sucessores.

E nesse momento ele tinha sim uma lição para escrever, algo que não poderia ser esquecido.

"04 de Janeiro de 1759

Depois de um acontecimento, um acidente, uma ação não muito bem pensada, pude descobrir o que acontece quando um Tudor-Habsburg não age com a honra de um. O resultado pode ser o mais terrível dos desastres, pode resultar em algo horrível, algo que não desejamos. Isso então mostrar para mim que honra, paciência ao agir e a contenção são virtudes que um Tudor-Habsburg deve sempre ter, sempre cultivar, os resultados de não fazer isso podem ser, novamente, horríveis. Eu pude provar disso."

Isso para Alfred era o necessário, não era precioso colocar tudo em detalhes, apenas alguns pontos, algo que fosse bem claro.

Depois de escrever, Alfred pode então se vestir, ou apenas tentar parecer mais apresentável. Foi um processo que demorou um pouco, não era muito fácil se vestir sem ajuda. Também não foi muito fácil conseguir disfarçar os perfumes de Elizabeth com os seus, principalmente considerando que eram quase os mesmos.
Por fim, Alfred conseguiu se vestir e pôde ir para a Sala Azul, o lugar onde tudo era decidido enquanto sua mãe era a marquesa, ela odiava caso escritórios, eram escuros e muito sombrios. O que poderia ser uma contradição com a própria personalidade dela.

Mas quanto mais perto Alfred chegava da sala, mais sua ansiedade aumentava, mais seus sentimentos de culpa eram alimentados. O pensamento de estar novamente com Elizabeth, de sentir o aroma de suas perfumes trazia a Alfred lembranças do que aconteceu, os beijos, as carícias o cheiro, e isso dava a Alfred prazer e alegria. E isso o culpava, sentir isso por algo que o causou muito mal, que causou muito mais mal ainda a Elizabeth. Era tudo tão instigante.

Mas ele tinha que esquecer isso, agora era entrar na sala e fazer o seu dever.

Notas finais
Hoje eu inicio uma coisa diferente. Agora os capítulos vão ter títulos. Eles vão ter uma relação com esses diários de Alfred, como que cada título sendo um pensamento dele. Essa foi uma das formas que eu encontrei de mostrar o que tem realmente nesses livros, coisa que não vou poder mostrar em todos os capítulos.