Uma Dose de Clichê

2 ♡ 2 "Sobre namoros e orelhas de abano"


Notas iniciais
Oláa! Obrigada pelos comentários e acompanhamentos, seus lindos ♥ Espero que gostem desse capítulo. Boa leitura!

2 — Sobre namoros e orelhas de abano

— Seu amiguinho está lá fora, Sam!

Lolla lavava a louça quando viu o garoto de cabelos negros e rebeldes parar com a bicicleta em frente a casa. Era tarde de sábado e achava até um milagre, Edward não ter aparecido ali logo pela manhã. Aqueles dois eram feito unha e carne, não se desgrudavam desde o maternal. Ela ficava feliz por Sam ter alguém que o defendia. Gostava daquele garoto e da família Logan, mas, mesmo assim, David implicava com aquela amizade.

— Sam! — Voltou a chamar.

Logo o filho desceu as escadas, quase tropeçando nos degraus. É claro que tinha ouvido o primeiro chamado, mas ao saber que Logan estava ali, ele se preocupou em buscar por algo que lhe cobrisse a cabeça.

— Qual é a desse chapéu? — Lolla perguntou ao ver o filho por cima dos ombros.

— Não quero que ele me veja careca… — Sam murmurou.

— Você não está careca, Sam. É só um corte baixinho. — A mãe voltou a atenção para as louças.

Depois da discussão, David decidiu que o filho não devia mais usar aqueles cabelos tão compridos, era um menino e devia andar como tal.

— Mas eu não quero que ele veja. — Sam encolheu os ombros e ajeitou o chapéu. — Estou indo. Beijo!

— Beijo! Toma cuidado! — Lolla alertou, sorrindo em seguida. Se o marido estivesse ali, provavelmente Sam não poderia sair.

— O que houve com o seu cabelo?

Foi a primeira coisa que Edward perguntou ao ver o ruivinho caminhando timidamente para fora da casa.

— Meu pai cortou… – Respondeu acanhado. Estava se achando horrível com aquele novo visual.

— Tira esse chapéu, Sam! – Logan implicou ao descer da bicicleta. — Eu quero ver!

— Não! 'Tá feio. – Sam segurou as abas do chapéu azul. — Minhas orelhas…

Edward parou ao ouvir a reclamação do amigo. O que é que tinha com as orelhas dele, afinal?

—Tá bom, não precisa tirar, mas… Eu gosto das suas orelhas. – Deu de ombros, atraindo a atenção de Sam. Os olhos escuros o encararam com certa surpresa. — Não me olhe assim, Mackenzie!

Sam acabou rindo, estava corado, tão vermelho quanto os cabelos, mas não sabia ao certo o porquê daquele calorzinho nas bochechas. Só acontecia quando estava com Edward.

— Vou usar chapéu mesmo assim. – Empinou o narizinho, tentando disfarçar a quentura do rosto. — Até meu cabelo crescer. – Só esperava que não demorasse muito, mas se Logan gostava de suas orelhas de abano, então estava tudo bem.

— Seu pai te bateu? – Edward resolveu perguntar depois de um tempo em silêncio. Os óculos de Sam estavam remendados e um curativo enfeitava o queixo. Sabia que aquilo se devia a briga na qual tivera que defendê-lo, mas o pai de Sam era alguém muito nervoso e vivia brigando com o filho.

— Não bateu. – O pequeno respondeu. — Ele disse umas coisas e… E cortou meu cabelo. – Havia chorado enquanto o pai se desfazia de seus fios, mas isso Edward não precisava saber. Sempre acabava chorando na frente do maior e queria que aquilo mudasse, era constrangedor.

Edward suspirou. Não tinha pai, não sabia como essa parte funcionava, mas achava que o pai de Sam pegava muito no pé do filho. Claro que sabia da história da irmãzinha do ruivo, mas uma criança não entendia muito bem como os assuntos dos adultos funcionavam.

— Vem, vamos lá pra casa.

— Minha irmã quer te conhecer e ela—

Os dois adolescentes no sofá, pularam quando a porta se abriu daquela maneira súbita e duas figuras pequenas passaram por ela.

Emília Logan se amaldiçoou por não ter trancado a porta e o garoto junto dela resmungou alguma coisa, irritado por ter sido interrompido. Os cabelos escuros da garota estavam bagunçados na trança e a blusa fina caía pelos ombros. O rapaz não estava muito diferente.

— Sabe que não pode trazer caras pra cá! – Edward repreendeu a irmã. O caçula falava como se fosse o mais velho ali. Os olhos azuis estavam pregados no garoto loiro descomposto ao lado da irmã.

— Não conta nada pra mãe! – Emília se ergueu, ainda um pouco zonza pelo que faziam antes de serem interrompidos. — O Jon é um… Amigo.

Jonathan Riley era mais que um amigo. Aqueles dois estavam sempre juntos e vinham matando aula para se enroscar nos mais diversos lugares. Claro que a mãe de Emília não poderia nem sonhar com o que a filhinha estava fazendo.

— Por favor… – Acrescentou ao ver que o irmão não parecia muito convencido sobre não contar para a mãe.

— É, carinha, a gente só tava conversando. – Jon resolveu se pronunciar. Não queria que Emi se encrencasse por causa de algo tão bobo quanto alguns beijos. Não eram namorados oficiais, mas estavam perto disso.

Edward apertou os punhos. Ele era o homem da casa, sua obrigação era proteger a mãe e a irmã, e deixar um garoto intrometido com ares de galã de novela mexicana agarrar Emília, era algo que ele não podia permitir.

— Se ele não for embora agora, eu vou contar tudo pra nossa mãe. – Ameaçou, mas sem a real convicção de que contaria qualquer coisa.

— É melhor você ir, Jon. – Emília tocou o braço do loiro, lançando ao quase namorado um olhar aflito.

— Sério? – Jon arqueou as sobrancelhas, mas logo desistiu de iniciar alguma discussão. — Te ligo mais tarde, então. Tchau pirralhos!

Quando a porta se fechou, Edward respirou fundo e só então olhou para Sam. O amigo não parecia nem um pouco incomodado, ele estava mais preocupado em procurar semelhanças entre os dois irmãos. Bem, ambos tinham os cabelos negros, mas Emília tinha olhos castanhos enquanto Edward tinha os olhos mais azuis que o ruivinho já havia visto.

— Ah, esse é o Sam? – Emília tratou de se aproximar, tentando quebrar o clima desagradável que pairava por ali. — Como você é bonitinho. – Se abaixou para beijar a bochecha sardenta do menino. — Meu irmão fala muito de você—

Sam estava encantado. Queria perguntar sobre o que Edward comentava a seu respeito, mas antes que pudesse formular qualquer pergunta, o pulso foi preso pela mão do amigo que tratou de arrastá-lo pelo corredor.

— Você fala demais! Ah, e depois vamos conversar sério! – Edward gritou para a irmã, deixando Emília sem reação por alguns segundos enquanto absorvia aquela informação.

— Irmãos… Resmungou antes de caminhar para a cozinha. Contanto que Edward não contasse nada sobre o que havia visto, estava tudo bem e continuaria tudo bem. Não perderia o futuro primeiro namorado por uma proibição boba da mãe.

— Você nem me deixou falar com ela! – Sam bateu o pé assim que foi solto por Logan, chateado com a atitude do amigo. Poxa, ele só queria conversar com a garota bonita e simpática lá na sala.

— Já conversaram demais. – Edward resmungou, jogando-se na cama de maneira preguiçosa.

Sam bufou e fez o mesmo que o amigo, empurrando-o um pouco para o lado para que pudesse se deitar também.

O quarto de Edward era o típico quarto de um garoto de nove anos. As paredes azuis possuíam pôsteres dos desenhos que ele mais gostava e os móveis brancos estavam repletos de carrinhos e bonecos de super-heróis. Não que ele se importasse muito em brincar com algo que não fosse a bola, mas a mãe adorava aquele quarto cheio de imagens infantis.

— Você ficou brabo? – Os olhos escuros de Sam encararam incisivos o rosto do maior.

— Ela não pode trazer um garoto aqui quando a nossa mão não 'tá. – Edward respondeu. Aquela era uma regra que Emília não podia quebrar. Garotos como Jon, só significavam uma coisa: problemas.

— Mas eles são namorados. – Sam argumentou, mas recebeu um olhar furioso em resposta.

— Quem disse? – Oras, sua irmã nunca ia namorar! Que ideia mais absurda.

— Eles 'tavam se beijando. – Todo mundo sabia que quando um garoto e uma garota se beijavam, é porque estavam namorando. Edward não assistia filmes e novelas?

— Cala a boca, Samuel! – Edward jogou o menor para fora da cama. Estava irritado e Sam o provocava dizendo aquelas bobagens.

— Seu grosseiro. – Sam resmungou. Tinham a mesma idade, mas Logan era muito mais forte e sabia brigar.

— Isso não é uma ofensa, Mackenzie. – Edward rodou os olhos. Era até bonitinho quando Sam ficava irritado e dispensava palavras bobas na tentativa de ofendê-lo. — E minha irmã não 'tá namorando com aquele idiota. – E estava decidido. Não havia namoro nenhum.

— Quando eu crescer, eu também vou namorar. – Sam voltou para a cama, o traseiro estava dolorido pela queda, mas estava sonhador demais para se importar.

— Vai é? – Edward encarou o ruivinho com apenas um dos olhos azuis, o outro estava fechado.

— Vou sim. – Respondeu, exibindo o sorriso banguelo. — Uma garota bem bonita como a sua irmã. – Sobre essa parte ele não tinha muita certeza, mas sentia vontade de externar aquele desejo ao amigo.

— Uh, que interessante. – Logan soltou o ar, dando a entender o quanto aquele assunto era tedioso.

— Você não vai namorar, Eddie? – A voz baixinha tinha uma curiosidade genuína. – Hein? – Reforçou, já que Edward não parecia muito propenso a lhe responder. Uma das mãos foi sorrateira para os cabelos rebeldes e negros do amigo, entrelaçando os dedinhos entre os fios espessos. Não se contentou somente em tocá-los, aproximou o rosto e inalou o cheiro suave que impregnava as mechas escuras.

— 'Tá fazendo o quê? – Edward abriu os olhos e encontrou Sam muito próximo.

— Eu gosto do cheiro. – Deu de ombros, ainda mantendo o sorriso.

— É o cheiro do shampoo. – Comentou sem dar importância.

— Não é não. – Sam se afastou. Era o cheiro de Logan. Não tinha nada a ver com shampoo ou outro produto para cabelo.

— Você fala umas coisas estranhas, Mackenzie. – Edward se ergueu, sentindo um estranho desconforto pelas palavras de Sam.

— Você não me respondeu. Não respondeu se vai namorar quando crescer. – Sam fez o mesmo e se sentou na cama.

— Eu não vou namorar. Garotas são chatas e falam demais. – Decretou. — Agora chega! Vamos comer alguma coisa. Depois te levo pra sua casa. Ah, e você tem que aprender a andar de bicicleta… Sem rodinhas! – Edward implicou, rumando para a cozinha.

Sam preferiu nem responder, mas claro, se Logan o ajudasse a andar de bicicleta, ele não se importaria de levar alguns tombos.

— Não sei a quem esse menino puxou...

Jonathan Riley, ou apenas Jon, tinha um irmão caçula. E naquele momento esse irmão era o assunto principal discutido no jantar.

— Como não sabe, benzinho? – Martha, a mãe, afinou ainda mais a voz. Ela servia o purê de batatas ao marido em uma quantidade exagerada. — Bruce só pode ter puxado o seu lado da família. O seu irmão, por exemplo.

Theodore estreitou os olhos para a esposa. Oras, falar assim de seu irmão...

— O que interessa de verdade, é que eu não estou criando filho burro. – Ele coçou a barba e pegou o prato com o jantar. — Se teu filho repetir o ano uma segunda vez, nem precisa voltar a estudar, levo ele pra trabalhar junto comigo.

Nosso filho, você quis dizer. – Martha reforçou. Claro, quando o caçula fazia algo bom, era o filho dele, mas quando tinha mal comportamento era somente filho dela. — Jon pode ajudá-lo. – Jogou a ideia. Oras, tinha dois filhos para quê se não prestassem nem para ajudar um ao outro?

— Eu não! – John foi logo tratando de deixar claro que não ajudaria ninguém. — Já tenho problemas demais. Eu também estudo, lembra? E tenho namorada. Isso já é bastante coisa.

— Jon tem razão. – Theo sorriu, satisfeito pelo filho mais velho. — Esse puxou o pai!

— Não inventa, benzinho. – Martha rodou os olhos. — Você nem gostava de estudar. – Acusou, afinal, estavam juntos desde o ensino médio.

— Quieta, mulher! Que coisa! – O marido repreendeu. — Arranje alguém pra ensinar seu filho a porcaria da matéria.

— Não diga porcaria. – Martha limpou o canto dos lábios vermelhos e pareceu pensar em algo por um momento. — Os vizinhos!

— O que é que tem aqueles esquisitos? – Theo perguntou de boca cheia.

— Chineses, benzinho. Gente que sabe tudo de números. – Martha garantiu, orgulhosa por saber tudo a respeito do povo chinês.

— Japoneses, mãe. – Jon corrigiu. — Os vizinhos são japoneses.

— Tanto faz. É tudo do mesmo lugar lá na ásia. – A mãe dispensou um aceno de mão. – Chinês, japonês e qualquer outro nês, eram todos a mesma coisa. — Esse povo do olho puxado é muito inteligente e não vão negar ajuda a um garotinho fofo como o nosso filho.

— Melhor ver isso logo, então. – Theo nem quis comentar sobre o fato do caçula ter sido chamado de fofo. Ele era tudo, menos fofo e bom em matemática.

— Amanhã mesmo eu vou lá. Eles têm um filho pequeno também. – Deu de ombros e encerrou o assunto.

Bruce, o caçula, o garotinho fofo e o pivô daquela conversa toda, comia sem muito ânimo o jantar, separando os legumes no canto do prato. Não dava a mínima para o que diziam, mas havia odiado aquela ideia de receber ajuda do garoto o qual ele tanto implicava no colégio.

— 'Tô sem fome. – Nem esperou que os pais dissessem algo a respeito, largou a comida e correu para o quarto.

Os pais que decidissem o que quisessem. Não seguiria nada mesmo. Principalmente com essa história de ajuda com a bendita matemática. Não seria ajudado por nenhum nerdzinho japonês. Os olhos castanhos encararam a janela, observando os vizinhos esquisitos. Pareciam a típica família de comercial de margarina.

Ridículos...

A persiana foi fechada e Bruce se jogou na cama, começando a tramar o que aprontaria na casa dos vizinhos perfeitos. Os Ogawa que se preparassem. Claro, a cabecinha loira só não funcionava para os números.

Notas finais
E aí, gostaram? O que acharam dos personagens novos? Sei que ainda não dá pra ter uma opinião formada sobre eles, mas conforme os capítulos forem rolando, isso melhora XD E já deu as caras o menino do outro casal, bem clichê, mas é um dos tipos que mais gosto. E teve os adolescentes também ^^ Bjuss galera ♥