Uma Dose de Clichê
13 ♡ 13 "Sobre os pensamentos não compartilhados"
Notas iniciais
Capítulo 13 — Sobre os pensamentos não compartilhados
— Hoje é dia de física!
A manhã trouxe um ar frio ao clima da cidade tropical. As folhas balançavam nas copas das árvores em um suave e deleitado farfalhar. Era o caminho de sempre, nem maior ou menor, embora parecesse diferente do habitual.
— Eu nem estudei. Acho que dessa vez eu posso me dar mal. — Sam continuou a falar. Havia aquele silêncio constrangedor entre eles e não queria que perdurasse por mais tempo. — E você? Não que precise estudar pra prova, afinal você—
— Você podia ter me contado.
Ainda era muito cedo para aquele tipo de conversa mais séria, mas os olhares receosos, o sorriso tímido e desconfortável e as mãos emboladas no moletom, deixavam mais que evidentes que a caminhada até o colégio não seria a mesma se não iniciassem logo aquele assunto.
Na noite anterior, Edward mal havia dormido. Muitas coisas rondavam os pensamentos e impediram que o sono chegasse como de costume. Não que tivesse pensado em Sam a maior parte da madrugada, mas era sobre aquilo. Aquela pergunta fora de contexto que a mãe insistiu em fazer. A pergunta que o deixou momentaneamente perdido e sem uma resposta rápida. O que era patético, já que sabia e a tinha na ponta da língua.
Com Sam não foi nada diferente. Ele ensaiou uma dúzia de maneiras para iniciar aquele assunto, mas não encontrou uma brecha nos cinco minutos de caminhada. Cinco minutos que pareceram uma eternidade. Seus dedos estavam refugiados no tecido molinho da jaqueta listrada, o que denunciava seu estado de nervosismo. Seus passos também eram mais retraídos e seu olhar seguia sempre para a calçada de pedras brancas. Os carros que passavam também pareciam muito mais interessantes naquela manhã. Mais interessantes que encarar os olhos azuis do melhor amigo.
Queria falar abertamente sobre o que sentia e ficar livre daquele peso que carregava no peito. Era seu sonho particular contar a Edward sobre os sentimentos e receber em troca aquele sorriso tão bonito e as palavras que ansiava ouvir. Eram três. Talvez soasse meloso e romântico demais, mas seria o paraíso se fosse recíproco. E como a única certeza que tinha era a de que o amigo não o via de outra maneira, preferia não ouvir que ele o amava como a um irmão. Era bonito, claro! Mas não era o que desejava dele.
Pensou bem antes de responder e se atrapalhar. Mesmo que não o encarasse de volta, sentia os olhos dele sobre suas costas, já que ia uns passos à frente. Novamente, não poderia simplesmente contar que guardou aquele segredo por nutrir mais do que um sentimento de amizade por ele. Não, não poderia. Então...
— Seria muito bobo dizer que eu fiquei com vergonha...? — A voz baixa e o tom acanhado não eram comuns quando estava com ele, mas as coisas não estavam em seu devido lugar. Tudo porque havia se deixado levar e contado, ainda que indiretamente, que gostava de garotos. Bem, garoto no seu caso.
A falta de resposta o fez se sentir tolo e constrangido e cogitou falar mais do que se permitia, mas Edward o alcançou e fez questão de encará-lo.
Vergonha parecia um sentimento ilógico entre eles que se conheciam e confiavam um no outro desde sempre. Ele não teria receios ou pudores de contar o que quer que fosse ao melhor amigo, mas julgá-lo por isso, também não faria parte do que eram. Sam era assim mesmo, com ressalvas acerca de muitos assuntos.
— Você 'tá bravo comigo? — O lábio inferior ganhou uma apreensiva mordida ao erguer os olhos. Era algo que não gostaria de ouvir, sobre Eddie alguma vez ficar zangado com ele. Não saberia lidar com algo assim.
— Não me lembro de já ter ficado bravo com você. — Edward respondeu, calmo, mas foi ele quem desviou os olhos e afastou o próprio toque. Não era como se não estivesse chateado. Chateado era a palavra certa. E curioso também. — Sabe que eu não vou te julgar nem nada assim. Só acho que eu merecia mais confiança da sua parte.
Sam se alarmou ao ouvir aquilo. Era igualmente ruim e fez seu coração acelerar. O amigo era digno de toda sua confiança, mas não exatamente naquela parte. Uma coisa era saber sobre sua orientação sexual, outra bem diferente era saber que gostava dele. E céus! Gostava tanto! Tanto que um mínimo toque o tirava de órbita.
— Eu sinto muito por não ter contado. — Os dedos tocaram sutis o braço que se afastou. — Isso vai mudar as coisas entre a gente?
— Fiquei pensando sobre isso. — O olhar recaiu na aproximação de Sam e, tão sutil quanto aquele gesto, ele se afastou uma segunda vez. Incomodado.
— E qual foi a conclusão...? — A apreensão tomou conta e a perspectiva de uma resposta desagradável o fez querer tocá-lo novamente. Estavam agora frente ao colégio, somente por isso se controlou. — Eddie? — Antecipou na falta de resposta.
— Estamos bem, Sam. Como sempre.
A resposta, ao contrário do que deveria representar, não fez com que os ânimos se acalmassem. Era bem capaz de não conseguir se concentrar nas aulas naquele dia.
♡
— Acho que eu 'tô apaixonado…
Estavam na casa da família Morgan, os ricos do outro lado da cidade. Era um bairro mais civilizado e cheio daquelas casas ostensivas e grama bem verde. Tinha mais segurança e mais gente metida do que em qualquer outro bairro.
Dante, ao soltar aquela frase estúpida, suspirou pela décima vez ao alisar a tela do monitor. Aquele era o plano de fundo mais gay e maravilhoso do universo.
— Olha esse rosto! Porra! Eu tô muito apaixonado!
— Apaixonado por um rosto, porque o temperamento do figura, cara, é uma desgraça. — Bruce comentou entre uma mordida e outra no bolinho de chocolate que havia trazido. Era uma cesta bonitinha que roubou da casa dos Ogawa, mais precisamente, do quarto do filho deles. Além de ter roubado os docinhos também. Kyle tinha as mãos ótimas para a cozinha e, bem, para muitas outras coisas também.
— Não fala assim dele. — Dante se ajeitou na cadeira, lançando um olhar estreito ao amigo. — Ele é perfeito. 'Tá, ele dá chilique a cada cinco minutos, ameaça de chamar o pai pra tudo, tem péssimo gosto pra moda e lê umas coisas suspeitas que deveriam ser proibidas, mas, cara, olha isso. Ele também deveria ser proibido... — E voltou a alisar o monitor, como se estivesse tocando o rosto de Miles Turner com toda a delicadeza do mundo. Delicadeza a qual ele não dominava.
— Cara, isso me dá medo. — Bruce falou de boca cheia. — Chega! A versão gay das Patricinhas de Beverly Hills, nem te dá bola, controla esses hormônios sentimentais, aí. — Ah, era um conselheiro nato. Se nada desse certo, seria psicólogo.
— Ah, claro, falou o cara que não sabe se 'tá namorando um japonês de meio metro há, quantos anos? Seis anos? E sem contar o temperamento filho da puta que o Kyle tem. — Dante alfinetou. E tão logo terminou, recebeu um famoso bolinho na cabeça. — Falar dos outros é fácil, né?
— Vai lá sofrer por filhinho de papai com rostinho de boneca, vai. — O loiro fez um gesto de desdém com a mão. Se não fosse Dante ali, um amigo de longa data, teria quebrado as fuças do infeliz que comentasse algo sobre sua relação com Kyle. Ela ia muito bem, obrigado.
— Acha que ele ia aceitar ir na sua festa surpresa comigo? — Dante perguntou sem se atentar a um importante fato. Miles causava aquele efeito de deixá-lo mais idiota.
Uma das sobrancelhas de Bruce se arqueou. Santa estupidez! Não era para ser surpresa?
— Ir na minha o quê?
— Na sua festa surpresa com o Sam e... Ah... — Um sorrisinho amarelo surgiu pela distração e ele coçou a nuca. Que fofoqueiro ele era. — Não conta nada pra galera, eles me confiaram esse segredo de estado e eu acabei estragando. — Kyle o esganaria se soubesse daquele detalhe.
— De quem foi a maldita ideia de ser festa a fantasia? — Era isso o que importava. Que ideia mais babaca!
— Foi do seu amigo, o Logan.
“Amigo”
— As ideias estúpidas só podiam ser desse aí... — Bruce retirou os pés da poltrona e abandonou a ideia de comer os bolinhos. Se a festa era em parte sua, deveria ser com as coisas que ele gostava, mas ao que parecia, teria uma festa com elementos que os outros gostavam. Não se importava de dividi-la com o Mackenzie, mas usar fantasia? Aí era outro assunto.
— Mas o Kyle e ele são tão próximos... — O tom foi levemente sugestivo. — O japa concordou. Na verdade, o Ogawa concorda com tudo o que o Eddie diz. — E sim, estava implicando.
— Eddie? — O azedume surgiu com a interrogativa. O que era aquilo? Traição? — E que merda de insinuação foi essa?
— Que insinuação? — Dante se fez de desentendido ou a ira do Riley poderia cair sobre ele. Era um dia tranquilo e sem maiores preocupações e desejava que continuasse assim. — Aqueles dois são amigos, 'cê tá cansado de saber. — Todos estavam, aliás.
Amigos… Claro! Bruce fechou a expressão e sentiu como se o dia estivesse nublado. Ele odiava dias cinzentos. E não, ele não entendia o que o Ogawa via no idiota do Logan e sempre torcia uma careta quando os via juntos.
— Vai com o Eddie também. Já que 'tá até usando um apelido carinhoso.
— Deixa de ciúmes, cara! — A profissão de Dante naquele dia, era somente implicar e observar o menino bonito na tela do monitor. E esses dois papéis, ele estava cumprindo muito bem, obrigado.
— Ciúmes? — Era só o que faltava. — Quem é que 'tá sentindo essa porcaria? Cala a boca e volta pro seu amor platônico. — Seria mesmo hilário se ele sentisse ciúmes. Nunca! Jamais! Ainda mais de alguém como o babaca do Logan. O cara era uma porta!
— Certo... — Com o pé, Dante aproximou a cadeira giratória do loiro na poltrona. — E o nanico? E ontem à noite? E a resposta? — Ele era sim, muito curioso. Só não era mesmo é discreto.
Bruce bagunçou mais os cabelos com os dedos em um gesto nervoso. Esperava que em breve tivesse novidades sobre aquela parte. Novidades boas, é claro.
E ainda havia marcado de “estudar” com a causa de seus pensamentos mais confusos.
♡
— You don't know how lovely you are. (Você não sabe quão adorável você é)
E novamente os dois estavam ali; “estudando” as matérias referentes às provas.
Kyle queria terminar logo e ir para a tevê a cabo esperar pelo retorno de sua série favorita, mas era golpe baixo quando aquele loiro idiota começava a cantar. E como se não bastasse a voz que era estupidamente afinada e gostosa de ouvir, a ideia era fazê-lo perder a vontade de estudar ao começar aquela música.
Aquela música que sempre pararia para escutar.
The Scientist do Coldplay.
Kyle bem quis ignorá-lo por ser tão inconveniente em um momento que exigia concentração e silêncio. Ele queria, mas se pegou admirando cada sílaba e até mesmo fechou os olhos ao se deixar embalar.
— Tell me your secrets and ask me your questions. (Conte-me seus segredos e faça-me suas perguntas)
O que eram os livros e as obrigações quando tinha um cantor particular em um show mais que especial? Não que fosse colocá-lo em um altar por isso, claro que não. Era só que... Depois de certas coisas na noite anterior, estava dividido. A letra era como se desvendasse seus pensamentos. Não contaria nada, assim como sempre fazia.
— Tell me you love me, come back and haunt me. (Diga-me que me ama, volte e me assombre)
Um toque caloroso o envolveu quando foi capturado em um abraço. Tinha evitado contato naquele dia, algo comum entre os dois. Era tão banal que em um momento estivessem discordando de tudo e no outro não conseguissem parar de se beijar. Dois idiotas no fim das contas.
Mas havia um ponto naquela relação descabida. Algo que o fazia pensar, embora não dedicasse mais que alguns minutos para lembrar do vizinho rebelde e sua falta de inteligência.
Logo sairiam do colégio; ele entraria para a faculdade e Bruce, bem, não era segredo para ninguém a maneira como o loiro queria levar a vida. Logo seriam pessoas adultas com caminhos diferentes e pensamentos tão destoantes.
— Nobody said it was easy. (Ninguém disse que seria fácil)
Aquela parte combinava tanto com seus pensamentos das últimas horas que se permitiu abrir os olhos e visualizar o rosto o qual aprendeu a se acostumar. Aquele cabeça de vento estava sempre por perto e não negava – ao menos não para si – que podia contar com ele. Não se lembrava, no entanto, do motivo de tê-lo deixado invadir sua vida. Eram opostos de uma maneira gritante. E não acreditava naquele clichê estúpido. Não com eles.
— I'm going back to the start. (Eu estou voltando para o começo)
Ele tinha cheiro de menta, cigarros e um perfume forte que irritava sua alergia. Ele era desbocado, despreocupado, não era a pessoa de maior QI e também não era engraçado. Conseguia contar as qualidades daquele garoto com os dedos de uma mão.
Mas então, por que era tão reconfortante estar com ele?
Não havia, definitivamente, nada que o atraísse a ponto de estar com ele. Certo?
O hálito quente o tocou na orelha e esquentou de maneira agradável a região. Quis encolher os ombros e brigar quando um beijo estalado causou irritação além de arrepios. Porém, a despeito do que pensou em fazer, seus dedos abandonaram a ideia de o afastarem e subiram para os lábios dele ao fim da canção. Foram sutilmente beijados e deslizaram para o rosto onde repousaram. Melancolia era tão sem graça quanto sua falta de tato para momentos assim. Pois tudo o que dizia, não era exatamente o que gostaria de dizer e também não era o que sentia.
Infelizmente não era tão bom com as palavras quanto era com a física.
— Por isso suas notas são péssimas. — Não podia evitar. Estavam ali somente para os estudos, não para músicas tristes e abraços.
— Não dá pra ser um Einstein e ter tanto talento como eu tenho. — Um leve dar de ombros de quem realmente não dava a mínima para o discurso já tão conhecido. Os braços o apertaram mais ao redor da cintura. — Por que nunca me conta nada?
Por quê?
— Se sabe que eu não vou contar, não devia se dar ao trabalho de fazer perguntas. — Não era nenhuma surpresa aquele tipo de questão. E muito menos uma questão a qual ele não daria uma resposta.
— É porque eu me importo, seu filho da puta. — Bruce não estava zangado ou mesmo chateado. Conhecia aquele projeto de Hobbit desde os tempos mais remotos. Estava acostumado com o jeito arredio e com a falta de palavras menos duras. Não que gostasse de ouvi-las, só havia se permitido acostumar. — Sua cara não 'tá das melhores. — Insistiu.
— Não pedi pra ficar olhando pro meu rosto. — A resposta ácida destoava da maneira com que os dedos ainda repousavam na bochecha do loiro. Bruce tinha razão, sua expressão não estava como de costume. Mas e daí? Era tão difícil entender que não queria tocar em um certo assunto? — Se te incomoda, pode ir. Já terminamos.
O calor da mão gordinha e macia perdeu contato com seu rosto quando Kyle se afastou e começou a arrumar os livros. Bruce queria entender os motivos, as sensações e queria que ele compartilhasse o que rondava aquela cabecinha asiática.
— É alguma coisa com os seus pais. — Afirmou ao vê-lo se erguer da almofada. A mesa a qual usavam para estudar, era típica das casas japonesas, segundo Kyle, tinha pertencido a bisavó.
— Pode ir, Bruce. — Novamente a evasiva. Já nem mesmo queria ver a série. O que desejava no momento, era ficar só e refletir.
— Você 'tá estranho desde cedo. Nem mesmo me ofendeu quando eu errei os exercícios. — Motivo mais que suficiente para saber que ele não estava em seu melhor dia. Até mesmo o sorriso não foi implicante ou debochado.
— Gosta quando eu te ofendo? — Kyle soou retórico, ainda na organização dos objetos de estudo. Queria terminar logo e ir para o quarto; o maior refúgio.
Sem respostas, o silêncio tomou conta da sala. Antes isso que ter que aturar o Sherlock Holmes em sua fatídica investigação sentimental, mas mesmo sem qualquer som, ainda sentia o olhar dele sobre suas costas; sempre insistente.
— Ninguém pode me acusar por ser um péssimo—
— Péssimo o quê? — Kyle se virou ao interromper o que não queria ouvir. — Porque se você quiser uma lista com tudo aquilo em que é péssimo, eu faço com o maior prazer.
Tão frio como sempre, embora sua pele fosse quente. Tão insensível como era de costume, mesmo o olhar sendo denso e cheio de conflitos não ditos em voz alta. Ele parecia um filhote de gato, mas atacava como um leão. Era arredio, ferino. Atacava para se defender do que poderia se tornar uma ameaça. No entanto, o pensamento de socar aquele rostinho bonito, jamais seria válido.
O que valia no momento, é que se era péssimo em todas as coisas que Kyle jogava em sua cara, era muito bom em tantas outras, como, por exemplo, aturar aquele humor dos infernos.
Naquela manhã, havia acordado na cama dele. Que péssimo ele era! Sempre escapulia algumas horas depois de volta para a casa, mas acabou pegando no sono por estar cansado. E ainda muito cedo, recebeu as doses de carinho do Ogawa o expulsando do quarto. Era banal que ele discutisse pelas mínimas coisas. E era banal que não desse maiores importâncias a esses detalhes.
Era um direito dele não querer falar sobre os problemas, mas também era um direito seu querer saber e se preocupar.
Kyle não o rejeitou como as palavras e a expressão faziam parecer. Ele prontamente se deixou envolver por suas mãos que subiram dos pulsos até o rosto, acariciando levemente as maçãs.
— Tell me you love me... (Diga que me ama) — Sussurrou ao beijá-lo na bochecha e arrastar o contato até os lábios que o esperavam.
Ele não recusou sua boca e aceitou sua preocupação e cuidado.
Silencioso. Amargo. Indeciso.
O beijou com calma. Com sentimento.
Recebeu uma dose tímida do que oferecia, mas aquele não seria o Kyle de sempre se lhe desse um arroubo de sentimentos.
Os dedos afundaram nos fios negros de corte irregular e os dedos dele subiram receosos por sobre suas roupas, mas não demoraram a apertarem o tecido da jaqueta, mantendo-o perto. Bruce se lembrava de ter implicado várias vezes com o fato de ele ser tão baixinho e que beijá-lo era quase um sacrifício ao ter que se curvar. Não era. Não se importava de ter dor nas costas se a causa fosse aquele japonês temperamental e sem coração. E sempre haveria a opção de nivelar as alturas ao segurá-lo nos braços e receber os protestos em resposta a sua ousadia.
O beijo dele tinha gosto de biscoitos de chocolate, não eram os seus favoritos, mas o lembrou de um detalhe. Algo bobo que, como de costume, havia levado para ele.
— 'Tá meio amassado, eu esqueci de dar antes. — Se desculpou ao encarar o embrulho delicado. — Espero que não tenha afetado o sabor.
Kyle recebeu a caixinha azul – sua cor favorita – com o símbolo da doceria que costumava ser sua perdição nos fins de semana. Era tão simbólico que ele soubesse de seus gostos. Não combinava com o garoto de conduta suspeita e rebeldia aflorada. Bruce não decorava sequer uma equação simples, mas sabia muito do que ele buscava não mostrar.
— Reclamo depois. — Deixou o doce sobre a mesinha e afastou o Riley pelos ombros. Claramente o convidava a se retirar, mas antes que ele seguisse para a porta, puxou-o pela jaqueta e enfiou um papel dobrado dentro de um dos bolsos e voltou a ajeitar as coisas.
Garoto esquisito! Cheio de manias e conflitos os quais não o deixaria saber nem sob ameaças.
Bem, ninguém havia dito que seria fácil.
Mas também, ninguém havia dito que seria tão difícil.
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