Uma Dose de Clichê
4 ♡ 4 "Sobre um dos motivos"
Notas iniciais
4 “Sobre um dos motivos”
— Isso é tão difícil…
A classe estava em silêncio, respondendo aos exercícios de matemática que o professor havia deixado no quadro-negro. Para alguns, números eram extremamente fáceis e não possuíam nenhum mistério, mas, para outros…
Kyle não aguentava mais ouvir o garoto ao lado reclamar da dificuldade da matéria. Ele tinha certeza de que o vizinho nem sequer havia tentado responder seriamente alguma das equações simples. Bruce não parava de suspirar, resmungar e de bater o lápis de maneira irritante contra o caderno.
— Olha, me ajuda aí, eu não sou chinês pra saber dessas coisas complicadas. — Acotovelou Kyle, espiando o que ele escrevia no caderno. Não adiantava, aquilo simplesmente não entrava na cabeça. Devia ser considerado um crime passar aquele tipo de coisa nas escolas! E o pior é que ele já havia visto aquela matéria no ano passado, mas como de costume, não havia prestado atenção em uma linha sequer. Aquilo não o ajudaria na vida e em nada que fosse fazer no futuro.
— E eu também não sou chinês. — Kyle respondeu de maneira calma, mas sua maior vontade era esganar aquele loiro irritante. Brigar, ele sabia, falar coisas constrangedoras e decidir, de repente, que ia protegê-lo, ah, isso ele fazia muito bem. — Sossega e tenta se lembrar do que eu estou ensinando nas nossas aulas. — E olhou para ver se havia algum exercício respondido, mas suspirou quando encontrou apenas um desenho torto e rabiscado e… Aquele desenho era ele?
— É sério, se eu forçar mais um pouco o cérebro, ele vai explodir. — Respondeu agoniado e coçou a cabeça. Os cabelos estavam um caos, mas combinavam com a situação de desespero. — Me ajuda aí. — Mostrou os dentes tortos em um sorriso amarelo.
Kyle rolou os olhos e se odiou por ficar com pena do delinquente mirim que estava se contorcendo para tentar roubar alguma resposta. Acabou sorrindo e afastando o braço, deixando que ele copiasse as tais equações.
— Na próxima, não serei tão bonzinho. — Ameaçou.
Fazia pouco mais de algumas semanas que o maluco do Bruce Riley, havia escancarado para todo o colégio a ameaça de que ninguém deveria tocá-lo e, bem, desde então, nenhum empurrão, nenhuma implicância ou apelido ridículo, nenhum hematoma. Estava funcionando e ele não reclamaria. Não gostava de apanhar e, mesmo não gostando da ideia de ficar para cima e para baixo com o Riley, era muito melhor do que ser chutado ou ter algum material depredado por qualquer um dos vândalos do colégio. E fazia uma semana que Bruce fora transferido para sua turma, com a alegação da diretoria, que o garoto mais velho precisava se afastar das más companhias e que Kyle Ogawa, o ajudaria a mudar a péssima conduta. E lá estavam eles...
— 'Tá me olhando estranho. — Bruce comentou enquanto caminhavam de volta para casa. Moravam perto, mas pegavam o caminho mais longo por algum motivo que ele não queria explicar.
Kyle sentiu o rosto esquentar por ter sido pego em flagrante enquanto analisava o rosto do vizinho. Enfiou as mãos na jaqueta do uniforme e fez a melhor expressão de desprezo que conseguia. Imagina, ele, olhando estranho para aquele garoto completamente fora dos padrões. Bruce Riley deveria ser proibido por alguma lei estadual.
— Cara, você 'tá vermelho. — Bruce o rodeou, sendo ele a analisar o japonês dessa vez. — Sabe, a gente pode ser amigos, tipo, sem brigas e sem os apelidos ridículos que eu te dou. — Deu de ombros e passou a caminhar ao lado do vizinho.
— Nós não temos nada a ver. — Kyle respondeu, menos constrangido. — Uma amizade não daria certo. Você é problemático e odeia estudar. Não daria certo.
— Meu pai diz que os opostos se traem, então—
— Atraem. — Kyle o corrigiu, balançando a cabeça em reprovação. — Os opostos se atraem. Nem isso você sabe. — Desdenhou. — E de qualquer forma, isso funciona para casais. Não somos um casal.
— Não, é claro que não. — Bruce se apressou em responder. Imagine só, ser um casal com aquele garoto baixinho, gordinho e metido a dicionário ambulante… Nem pensar. — Eu só achei que daria certo. A gente passa bastante tempo juntos, eu já te considero um amigo. — Soou dramático, era bom em dramatizar.
Kyle suspirou ao ouvir aquelas palavras e ver o vizinho tão cabisbaixo. Só faltava mesmo descobrir que, o valentão do colégio, era sentimental.
— Certo, mas sem visitas fora de hora. — Aquiesceu. Estava maluco, só podia. Eles não combinavam em nada!
— 'Tá! — Bruce deu o maior sorriso que havia ensaiado na frente do espelho e ajeitou a postura. — Mas você pode ir na minha casa também, jogar videogame, ver filme de terror e comer porcaria. Pode ir me ver jogar, também.
— Talvez algum dia, por que não? — É claro que só havia dito aquilo, para que o outro parasse de tagarelar e insistir ou a amizade que mal havia começado, terminaria minutos depois. — Mas por que está fazendo isso?
— Isso o quê?
— Sendo “legal” comigo. — Ele teve que fazer as aspas com os dedos. — Me protegendo e, querendo a minha amizade… Não é uma daquelas brincadeiras ridículas de filmes de comédia, é? — Estreitou os olhos, desconfiado.
— Não, Ogawa, tranquilo. — Bruce sorriu. Ele mesmo estava surpreso por manter uma conversa normal com o garoto que costumava implicar umas semanas atrás. — Eu só quero passar de ano, 'tô te usando pra isso. — Piscou para o asiático antes de subir os poucos degraus que levavam até sua casa.
— E nem assim vai conseguir. Coitado, é tão burro. — Kyle devolveu a provocação, sorrindo ao receber o olhar estreito do loiro. — Passar bem, Riley. — Desejou falsamente antes de abrir a porta, fechando-a rapidamente.
Bruce passou as mãos pelos cabelos e continuou sorrindo.
Ali estava um dos motivos para querer a companhia constante do nanico de olhos puxados. Sorrisos bonitos, eram um perigo.
♡
— Você é um chorão, Mackenzie!
O dia estava ensolarado e propício para aulas de bicicleta, mas era o terceiro tombo em menos de quinze minutos. Quinze minutos! Como alguém podia ser tão ruim com algo tão simples? Até uma garota sabia andar de bicicleta.
Os olhos escuros do ruivo, estavam vermelhos, na tentativa de conter as lágrimas, mas nem mesmo nisso ele obtinha sucesso, pois elas logo desceram, marcando as bochechas sardentas e escorrendo para o queixo.
— E-Eu não consigo. — Murmurou choroso e envergonhado. Oras, queria ser bom em alguma coisa, mas era um fiasco em tudo o que se propusesse a fazer. Queria ser como o melhor amigo e demonstrar habilidade em mil e uma atividades além daquelas passadas em sala de aula, mas ele era apenas bom nos estudos, nada mais que isso. Era frustrante, por isso o pai o odiava…
Edward suspirou, percebendo que, para dez anos, era muito maduro. Estava tentando ser um bom professor, mas Samuel mal conseguia sair do lugar e já ia ao chão, mostrando que ele não era lá muito bom instrutor no fim das contas. Com toda a paciência do mundo, ele segurou o ruivo pela mão, estarrecendo o amigo ao levá-lo até a torneira e começar a lavar o machucado que tinha no joelho.
— É só fazer um curativo. — Comentou como quem entende de enfermagem, secando o ferimento com a camiseta e sendo cuidadoso.
— O-Obrigado. — Sam fungou, limpando os olhos de maneira atrapalhada. O pai não poderia ver o estrago que um tombinho de bicicleta havia feito ou ganharia mais um daqueles sermões.
— De-De nada, Mackenzie. — Logan brincou, dando palminhas nas costas do amigo. — Você ainda quer tentar?
Sam mordeu o lábio inferior e pensou nos prós e nos contras de continuar praticando. Queria ser tão bom quanto Edward e levaria aquilo até o fim.
— Se você tiver paciência. — Encolheu os ombros e olhou para os tênis desamarrados e gastos.
Edward esboçou um sorriso que Samuel não viu. Aquele era um dos motivos por gostar tanto do ruivinho. Apreciava aquela determinação e força de vontade.
— Meu nome do meio é paciência, Mackenzie. Agora vem. — Bateu no banco da bicicleta e o ajudou a subir. Isso, depois de amarrar aqueles cadarços.
Seria uma longa tarde.
♡
— Você quer entrar?
O sol pincelava o horizonte com os tons de amarelo queimado, rosa purpúreo e um azul-cobalto que anunciava o céu noturno. Haviam praticado por horas e conseguido até um bom resultado, segundo Edward, mais um pouco e o ruivo logo estaria craque nas pedaladas. Claro, se ele ainda tivesse joelhos...
— O seu pai não gosta de mim. — Logan argumentou, enfiando as mãos nos bolsos da bermuda jeans e chutando uma pedrinha. O pai de Sam parecia não gostar de ninguém e ele preferia evitar confusão
— O meu pai foi trabalhar. — Sam fez bico, como sempre fazia quando queria alguma coisa. Até levou as mãozinhas aos ombros do amigo, chacoalhando-o de maneira irritante. — Vamos lá pro meu quarto. Quero te mostrar um jogo novo. — Era tão ruim não ter com quem dividir os brinquedos ou novidades. — Vem, Eddie…
— Se você parar de me chamar assim, talvez eu vá. — Logan bufou e rodou os olhos. Sam era mesmo um chorão que vivia dando apelidos para todo mundo. O que ele jamais admitiria que gostava. Era uma particularidade… Bonitinha.
Samuel abriu um sorrisão de dentes tortos e beijou os dedos cruzados, em uma promessa muda de que não chamaria mais o amigo por aquele apelido. Bem, ao menos ele tentaria não chamá-lo assim.
— Mas tem que ser rápido. Eu 'tô com sono e cansado. — Ainda resmungou, seguindo o ruivo para dentro da casa. Quis perguntar onde estava a dona Lolla, mas lembrou-se sobre uns tais remédios para dormir. Se funcionavam tão bem, ele ia querer uma porção, assim, conseguiria dormir pela noite toda sem ter que levantar para ir ao banheiro.
— Cansado? — Sam questionou, quase rindo da expressão do amigo. — Cansado de quê?
— Ser professor cansa, sabia? — E era ótimo naquilo que fazia, obrigado. — Ainda mais quando o aluno é péssimo.
— Ei! — A ofensa soou na voz esganiçada assim que passaram pela porta, mas nem de mira, Sam era bom, pois tentou acertá-lo com uma almofada e errou feio. — Senta, bobão. — Falou enquanto ajeitava o videogame e voltava para a cama. — Agora eu te mostro no que eu sou bom. — Entregou o outro controle a Logan que o pegou em desafio.
Foram duas longas horas que pareceram minutos, jogando e implicando um com o outro. Há tempos não faziam aquilo e se divertiram ou, no caso de Edward, se irritaram com as partidas perdidas. Sam era bom, mas algumas disputas foram roubadas.
— Eu vou buscar alguma coisa pra gente comer. — Sam pausou o jogo e se levantou, exibindo a animação que sentia somente por estar na presença do melhor amigo. — Me espera!
— Não, Mackenzie, eu vou preciso ir. — Edward balbuciou, mas permaneceu na cama, deitado de maneira preguiçosa enquanto uma das pernas balançava. Os olhos azuis piscavam pesados e os bocejos mostravam o quanto era verdade sobre estar com sono.
— Depois de comer, você vai. — Sam gritou já do corredor. Antes de alcançar as escadas, espiou no quarto da mãe e foi conferir se ela respirava. As vezes, ela parecia quieta demais e o estado era preocupante. Tocou o rosto calmo e afastou algumas mechas do cabelo dourado, aproveitando para cobri-la melhor.
Aquela era uma noite em que a mãe acordaria na madrugada, preocupada se ele havia se alimentado, tomado banho e feito as tarefas. Estava acontecendo com mais frequência do que parecia ser saudável.
Um beijo foi deixado na bochecha pálida e as luzes foram apagadas assim como a porta foi fechada, tudo com muito cuidado para perturbá-la. Eram somente ele e a mãe, pois o pai trabalhava a noite e parecia pouco se importar com ambos, sendo sempre aquele que dava broncas por qualquer poeira fora do lugar.
Assim que alcançou a cozinha, Sam buscou por uma bandeja no armário, subindo em uma cadeira e começando a despejar o leite nos copos. Pegou uma caixa com biscoitos de chocolate e, desajeitado, subiu para o quarto. Aquele seria seu jantar e ele não reclamaria. Quando a mãe o deixasse mexer no fogão, poderia até mesmo fazer algo para ela comer e surpreendê-la. Por ora, aquilo bastava.
Quando chegou na soleira da porta, no entanto, teve uma visão que o deixou paralisado por uns instantes. Edward ressonava tranquilamente sobre sua cama, a bochecha pressionada contra o colchão e os cabelos negros mais bagunçados que o de costume. Ele parecia tão bem e tão tranquilo, que não conseguiu despertá-lo, optando por continuar apenas o observando. A bandeja foi deixada sobre a cômoda ao lado do abajur e ele contornou a cama, aproximando-se no mais pleno silêncio.
Os cotovelos se apoiaram na maciez do colchão e os olhos negros contemplaram a serenidade no rosto pálido do amigo. Edward era tão bonito, como se tivesse sido desenhado. Quis tocá-lo na bochecha, mas achou melhor deixá-lo descansar. Era só um cochilo e… Que mal faria se ele também se aproveitasse e dormisse um pouquinho?
Com toda a calma do mundo, deitou no colchão e se aproximou, ouvindo Edward resmungar, mas como os olhos azuis não se abriram, continuou, apoiando o rosto bem próximo ao do amigo, sentindo cócegas quando a respiração dele acariciou sua face corada. Estava com o coração aflito e uma sensação que não sabia nomear, mas que sempre acontecia quando estava muito perto, quando Logan o tocava ou o chamava de Sam, era algo bom e só deles.
A cabeça ruiva se apoiou no braço de Edward e os olhos pretos se fecharam, sentindo o mesmo sono embalar os sentidos.
E quando tudo se tornou calmaria, qualquer alerta foi esquecido. E o esquecimento trouxe um pai zangado que havia saído mais cedo do trabalho.
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