Uma Dose de Clichê

3 ♡ 3 "Sobre o garoto mais idiota do país"


Notas iniciais
Tardo e falho, mas não desisto! Oi, galera! Espero que continuem lendo essa história ♥ Obrigada pelos acompanhamentos e a quem está lendo. Boa leitura!

3 — Sobre o garoto mais idiota do país

— Eu não vim aqui pra ficar ouvindo a sua voz horrível, Ogawa.

Os livros e cadernos estavam espalhados pela mesa de estudos da biblioteca da família Ogawa. Um prato com biscoitos e leite estava ao lado de Bruce Riley, o garoto loiro e mal encarado que não estava nem um pouco disposto a ter aulas de matemática com um engomadinho asiático.

Para falar a verdade, Bruce havia chegado naquela casa, com toda a vontade do mundo de zoar e aprontar com o japonês, mas era só olhar para aquele rosto de olhos puxados e incrivelmente brilhantes, que ele perdia boa parte da pose. Talvez estivesse ficando meio frouxo...

— Você vai fazer o meu dever de casa, filhote de Pokémon. E eu não quero ouvir reclamações. — Bruce deu um sorriso ameaçador de dentes tortos e comeu mais um biscoito de chocolate, fazendo barulho ao mastigar de boca aberta.

Kyle Ogawa ouvia aqueles apelidos carinhosos diariamente enquanto caminhava pelos corredores do colégio. Não se importava com aquele projeto de armário mirim. Podia até dizer que estava acostumado, mas fazer as tarefas daquele loiro idiota estava fora de cogitação. Não era certo e ele primava por tudo o que fosse correto. Mas é claro, tinha uma ótima educação, ao contrário daquele garoto rebelde e, completamente burro.

— Não posso fazer. Isso é sua responsabilidade. — O rosto redondo e branquelo estava avermelhado pela raiva e os cabelos muito lisos desciam pelos ombros e testa em um corte reto. Tinha dez anos, mas poderia ser facilmente confundido com um garotinho de seis, devido a baixa estatura e as bochechas fofas e rosadas.

É sua responsabilidade. — Bruce imitou o outro de maneira irritante. — Eu perguntei alguma coisa, comedor de peixe cru? — O loiro adorava chamar o japonês pelos mais diversos apelidos. — Eu não 'tô interessado em aprender essa porcaria. — Kyle fez uma cara horrorizada ao ouvir o que aquela cria de gorilas falava sobre a tão respeitada matemática. — Você faz o meu dever e eu não te quebro isso aí que você chama de dentes. — E estava decidido. As coisas funcionavam assim; os mais fortes mandavam e os fracotes obedeciam.

— Não é justo, Bruce! — Kyle resmungou. — Você está me ameaçando e eu não faço nada sob ameaças.

— Não faz o quê? — Bruce franziu o cenho. Estava com a boca cheia de biscoitos e jogou farelos sobre o japonês. — Você vai fazer o que eu mandar, Ogawa. Anda logo! Os biscoitos 'tão acabando e o seu tempo também. — Ameaçou. Sua maior especialidade era ameaçar. E era o seu verbo favorito também. Na verdade, socar, chutar, ofender e comer, estavam entre os verbos favoritos.

Kyle suspirou. O dever era algo bem fácil, mas não era nada justo o que Bruce estava fazendo. Não queria fazer aquilo, mas também não queria perder os dentes. O loiro era forte e mais velho e não poupava os punhos quando queria alguma coisa. Comprimiu os lábios e engoliu a vontade de discutir, tinha muitos argumentos para alguém de tão pouca idade e era inteligente o bastante para saber que tais argumentos não funcionariam contra os punhos do caçula dos Riley.

Aquele garoto era um verdadeiro terror. Em todos os sentidos da palavra.

— E faz tudo certo. Se tiver um errinho aí, vai conversar com isso aqui. — Fechou o punho e o levou até as fuças de um Kyle contrariado.

— Eu vou fazer, seu ignorante. — Kyle resmungou. — Será que poderia tirar esses sapatos imundos de cima da mesa? — Aquilo era um show de horror para sua mania de limpeza.

Bruce se irritava com aquela maneira do Ogawa falar. Um pirralho de nove anos que falava tudo certinho e andava para cima e para baixo com aquele nariz gorducho empinado. Por isso adorava implicar com ele; o garoto era cheio de chiliques e era péssimo em brigas. Também adorava quando ele ficava irritado e com o rosto todo vermelho. E achava uma graça como ele era baixinho e rechonchudo.

— Será que dá pra você fazer logo essa porcaria? — Kyle falava demais. — Eu tenho compromisso. — Retirou os pés da mesa e bebeu um pouco do leite.

— Compromisso? — O único compromisso de Bruce, Kyle bem sabia, era bater em qualquer um que o olhasse atravessado.

— Futebol. — Respondeu sorridente. Futebol sim era algo que ele gostava e entendia. — Você podia ir lá torcer por mim… — Se debruçou sobre a mesa, encarando os olhos puxados e de um tom de mel claro para um japonês.

Kyle parou com os exercícios de matemática e encarou os olhos castanhos do loiro com certa curiosidade. Era um pedido? Um convite? Uma ameaça?

— Por que eu faria isso? — Perguntou sem interesse. — Não gosto de você e não gosto de futebol. — Deu de ombros. Era só o que faltava, ele ir no campinho torcer por aquele loiro mandão e briguento. Preferia mil vezes ler um livro ou maratonar O Senhor dos Anéis pela sétima vez.

— Credo, que maldade. — Bruce fingiu estar magoado. Talvez estivesse, já que queria mostrar suas habilidades de artilheiro ao Ogawa.

— Eu sou bem sincero. — Kyle deu de ombros. Não gostava mesmo e não escondia de ninguém. Onde já se viu, gostar de alguém que te inventava apelidos ridículos e te jogava contra os armários do colégio! Não era masoquista.

Bruce ia dizer alguma provocação, mas a senhora Ogawa surgiu e ele engoliu qualquer gracinha, fingindo-se de menino estudioso. Um verdadeiro anjinho de cabelos loiros e sorriso simpático.

— E como estamos? — A mulher baixinha tinha uma voz doce e gentil. Era conhecida como a senhora Ogawa, pois os meninos do bairro achavam o nome da mulher complicado para se pronunciar. Os cabelos escuros estavam presos em uma trança e os lábios pintados de vermelho. Era muito parecida com Kyle, mas bem, na visão de Bruce, todos os olhos puxados eram iguais. — Meu mini-professor está se saindo bem?

— Kyle é ótimo! — Bruce respondeu de imediato, aprumando-se na cadeira de madeira. — É o garoto mais inteligente da escola! Quero ser tão inteligente quanto ele!

Kyle encarou o loiro com os olhos puxados ainda mais estreitos. Como aquele garoto era falso, que horror! Se o futebol não desse certo, Bruce poderia tentar seguir carreira como ator.

A senhora Ogawa abriu um sorriso brilhante ao ouvir aquilo. Que mocinho educado era o amiguinho do filho. Dava gosto de ter vizinhos como aquele. Kyle estava andando com as pessoas certas.

— Querem mais biscoitos? — Perguntou sorridente. Não queria atrapalhar os estudos e nem a amizade do filho. Kyle não era muito sociável com as outras crianças, preferindo sempre estar entre os adultos e conversar assuntos mais sérios e complicados. Um geniozinho.

— Eu aceito, obrigado, senhora Ogawa. — Bruce sorriu de volta e recebeu um afago nos cabelos loiros antes de a mulher sair para a cozinha.

— Sua mãe gostou de mim. — Sorriu de maneira presunçosa.

— É porque ela não te conhece de verdade. — Kyle rosnou, levemente enciumado. — Ela odeia garotos que se acham os mais fortes e vivem batendo nos menores. Esse é o seu tipo, logo, ela não gosta de você.

— Você parece até uma garota as vezes. — Bruce implicou. — Meu pai disse que tem uma época do mês que as mulheres ficam insuportáveis, talvez você tenha essa época também.

O rosto redondo de Kyle se avermelhou com aquelas palavras. Que história de época do mês era aquela? E que história de compará-lo com uma garota era aquela?

— Você fala demais e sua conversa não é nem um pouco interessante. — Empinou o nariz, virando-se para o lado oposto. — E eu preciso de silêncio se quiser que eu faça alguma coisa. Ou quer repetir o ano uma segunda vez? — Provocou. Quem é que estava vermelho agora?

— 'Tá legal, nanico. — Bruce se escorou na cadeira e teve a decência de pegar um livro e fingir interesse. — Eu não me importo com os estudos, mas os coroas não vão descansar enquanto eu não pegar um diploma… — Rodou os olhos. Qual é, os pais podiam dar um descanso, afinal, já tinha doze anos, não era mais criança.

— Não somos nada sem estudo. — Kyle acrescentou com ares diplomáticos, lançando um olhar reprovador ao mais velho.

— Você fala igual ao meu avô. — Bruce ergueu as mãos, fazendo um gesto dramático. — Por isso é o esquisito do colégio. — Sorriu de maneira maldosa.

— Antes o esquisito do que o valentão sem cérebro. — Kyle devolveu. Podia até não ter força ou saber como brigar, mas tinha a língua afiada e não ficava calado ao ser insultado. Mesmo que isso o levasse a perder os dentes.

— Se você não fosse tão metido, eu até podia te ajudar com a implicância dos garotos maiores, mas, pensando bem, o esquisito serve pra isso, pra ser a diversão do colégio. — Bruce alfinetou, pouco se importando se havia sido chamado de burro. Inteligência não livrava o Ogawa de levar uns socos.

Kyle revirou os olhos e pediu por paciência, inspirando o ar de maneira profunda. Poderia contar até cem que a paciência não retornaria.

Havia sido uma péssima ideia a da vizinha, de pedir para que ele ensinasse o filho burro a fazer contas simples.

Definitivamente, Bruce Riley era o garoto mais inoportuno e idiota do país.

E não, não estava exagerando.

— Bruce e o garoto chinês são amigos? — Edward perguntou ao ver um menino loiro e mais velho se despedir da mãe de Kyle Ogawa.

— Ele é japonês. — Sam corrigiu, mas estranhou que Bruce frequentasse justo a casa do garoto o qual adorava implicar. — Eles não são amigos.

— Que estranho… — Logan olhou atravessado para o loiro quando ele parou e mandou um cumprimento nada educado aos dois. — Ele é um babaca.

Sam concordou, embora cortasse volta daquele garoto alto e mal encarado. Apesar da valentia de Bruce Riley ser temida em todo o colégio, Edward não abaixava a cabeça para o garoto mais velho. Dava um orgulho. Queria ser igual a ele.

— 'Tá sorrindo por que, Mackenzie? — Edward franziu o cenho ao olhar para o lado e ver o ruivo exibindo a falta de dentes. Samuel era estranho…

— Você podia me ensinar a brigar. — Sam não respondeu, afinal, o amigo odiava quando começava com o sentimentalismo. — Assim você não precisa mais me defender.

Edward estranhou o pedido e desviou os olhos para o gramado, esticando as pernas de maneira relaxada. A tarde caía e o céu era uma mistura de tons que iam do laranja ao rosa em uma pintura surrealista.

— E o que é que tem eu te defender? — Perguntou com a voz levemente irritada. — Por acaso eu reclamei?

— Não! — Sam arregalou os olhos feito burcas e fez gestos desengonçados com as mãos. Como era fácil tirar Logan do sério. — Eu só… Não quero ser um inútil. Também quero defender você. — Sentiu o rosto esquentar ao admitir aquilo e puxou as abas do chapéu azul para esconder a face.

— Eu não preciso ser defendido. — Edward torceu os lábios. Sabia se virar muito bem e, embora andasse sempre machucado por alguma briga, estava tudo ótimo se pudesse defender Sam. — Você não é inútil, Mackenzie, bobo, mas não inútil. — Implicou, amenizando o tom de voz e olhando de esguelha para o amigo. Sam tinha aquela mania de dizer coisas estranhas e ainda ficar vermelho…

— Eu gosto quando você me chama de Sam. — O ruivo se aproveitou do bom humor de Edward e fez beicinho. Aquela carinha fofa sempre funcionava. — Fala. Me chama de Sam!

— Vai ter que fazer melhor que isso, Mackenzie. — Edward lançou um sorrisinho maldoso ao amigo, jogando-se de costas na grama. — Sua cara feia não funciona.

— Cara feia? — Sam se indignou. — A mamãe diz que eu sou o menino mais bonito do mundo. — Se a mãe falava, é porque era verdade. E fez questão de mostrar a língua a um Edward que faltava pouco para cair na gargalhada.

— A minha mamãe também diz que eu sou o menino mais bonito do mundo. — Se apoiou no cotovelo. — E aí, Mackenzie, qual mãe está dizendo a verdade; a minha ou a sua?

Sam fez bico e franziu o cenho como se pensasse em uma resposta complicada para uma pergunta difícil. Ele era bonito sim, mesmo com as orelhas de abano e as sardas, mas… Olhou para o lado, encontrando os olhos grandes e azuis de Edward. Suspirou.

— A minha mamãe não é mentirosa… — Defendeu antes de continuar. — Talvez seja um empate. — Apertou a barra da camiseta em um gesto nervoso, evitando contato visual.

— É, é uma boa resposta, Sam. — Logan nem percebeu que havia falado o apelido do ruivo, somente se deu conta ao vê-lo todo sorridente e emotivo. — Cala a boca, Mackenzie.

— Mas eu não disse nada… — Sam murmurou, ainda sorrindo de orelha a orelha. Estava todo bobo.

— Mas eu te conheço.

— Olha o esquisito.

Bruce ergueu os olhos ao ouvir a palavra que descrevia o adorável vizinho de olhos puxados e gosto duvidoso para moda. Torceu um sorrisinho maldoso e voltou a devorar um pedaço grande de pizza. Estava com os pés sobre a mesa e convidava a qualquer um dos colegas para obrigá-lo a se sentar direito. Sua péssima conduta era famosa por todo o colégio e ele era sempre o responsável por incitar brigas e provocar confusão. Não que ele se importasse, afinal, estudar era a coisa mais chata do universo e ele era o encarregado de agitar as coisas por ali.

Ele esticou o queijo do alimento e começou a brincar com a comida enquanto observava a implicância dos garotos maiores ao jogarem a bandeja de Kyle no chão. O vizinho era uma diversão para os valentões, inteligente demais para os padrões do colégio e com uma língua que não cabia na boca.

— Lá vem o defensor dos fracos e oprimidos… — Dante, o garoto que seguia Bruce para todos os lados, desdenhou ao ver a típica cena que ocorria a alguns metros dali.

Edward não se importava com outras pessoas, mas Samuel sempre dava um jeito de enfiá-lo em alguma confusão em prol do bem comum. E lá estava ele, ralhando com os meninos que não davam descanso a Kyle.

— Eu não preciso de ajuda. — Kyle se levantou, sendo amparado por Sam. Nunca haviam sequer trocado um bom dia, mas era óbvio que sabia quem era aquele garoto e também quem era o guarda-costas dele.

— E além de tudo ainda é mal agradecido. — Edward resmungou, mal humorado. Todos estavam olhando para eles e ele odiava chamar atenção.

— Eu não pedi ajuda. — Kyle devolveu, ríspido. Era péssimo em manter conversas e não queria conversar com aqueles dois. Sempre os via metidos em confusão, estava bem assim; sozinho.

— Você pode vir comer com a gente. Ali. — Sam ignorou o tom brusco do japonês, apontando para a mesa onde se sentava com Edward.

— Não, ele não pode. — Logan soltou o ar, intrometendo-se ao puxar Sam pelo braço.

— Mas, Eddie… — Samuel mordeu o lábio ao perceber a forma como chamara o amigo, mas Edward estava com raiva para prestar atenção. Ufa.

— 'Tá tudo bem por aqui, Ogawa?

A voz de Bruce atraiu a atenção dos três. O loiro parou ao lado de Kyle e passou o braço por sobre os ombros do japonês, assustando-o com a repentina aproximação.

— Nenhum problema. — Kyle tentou expulsar o braço do maior, mas não obteve sucesso, desistindo na terceira tentativa.

— Vocês são amigos? — Sam perguntou em genuína curiosidade. Por que simplesmente todo mundo não podia ser amigo?

— Não, não somos amigos. — Kyle se desvencilhou de Bruce com um safanão e ajeitou o uniforme. Já era suficientemente ruim ser obrigado a ensinar aquele irresponsável um pouco da matéria, mas ficar de risinhos e conversas, era ainda pior.

— Calma, galera, eu só queria saber se 'tá tudo bem. — Bruce ergueu as mãos em rendição. Tinha ido ali na paz e não para arranjar briga, o que era um milagre. Bem, lá no fundo, se simpatiza com a dupla Logan-Mackenzie. — Você pode ficar na minha mesa, japa.

Kyle até mesmo pensou em iniciar um embate verbal com o loiro descomposto e sem uniforme, mas antes que sequer pudesse abrir a boca para soltar alguma ironia ou mesmo algo bem ácido, foi puxado em direção a tal mesa onde o seguidor inseparável de Bruce, os aguardava.

— O que pensa que está—

— É o seguinte, a partir de hoje, o Ogawa aqui, é o meu protegido. — Bruce anunciou ao subir sobre o banco, atraindo a atenção de todos. — Se alguém encostar no baixinho, vai se ver comigo.

Kyle sentiu o rosto queimar de raiva e de vergonha. Quem aquele garoto metido pensava que era? Ele não precisava da proteção de ninguém, principalmente de alguém como ele.

Ah, se ele soubesse que aquela não seria a primeira vez que Bruce Riley diria aquilo, ele não teria se sentado naquele banco e “aceitado” a tal proteção.

Notas finais
Bruce e Kyle são puro amor, mesmo que não pareça ahuehueh Gostaram? Bjuss e até o próximo!