Uma Doce História
58 Uma pequena declaração
Notas iniciais

Tora se pendurou na sacada e pulou no galho mais próximo, o mesmo estralou fazendo com que a garota se agarrasse com força, morrendo de medo de cair. Ela não se atreveu a olhar para baixo, pois sabia que teria uma vertigem e acabaria caindo, se equilibrou e atravessou a árvore com dificuldade em fim chegando à sacada de Castiel. Meio desajeitada, ela jogou a maletinha na varanda e subiu pelo guarda corpo, escorregando para dentro como uma minhoca, ficou sentado por alguns segundos, tentando se acalmar e recuperar o folego. Definitivamente não era boa em escalada.
–- Certo, agora tenho que encontrar o traste – Tora se levantou pegando a maletinha, entrou no quarto silenciosamente, passo por passo, olhando para todos os cantos do cômodo – Mas que bagunça...
–- Você invade a casa dos outro e ainda tem a audácia de reclamar? – Castiel estava na cama, com as costas na cabeceira e as pernas esticadas. Na mão havia uma caneta e um bloco de notas, as anotações pareciam acordes musicais.
–- Ah! Que susto! – Exclamou Tora colocando a mão sobre o peito – Desde quando você está ai?
–- Desde que esse quarto é meu – Disse Castiel desviando o olhar para Tora – E o que você faz aqui? Achei que não gostasse de entrar pela sacada.
–- Vim cuidar de você – Respondeu Tora mostrando a maletinha de primeiros socorros.
–- Já disse que não precisa, você por acaso é surda? – Castiel colocou o bloco de notas sobre o criado mudo.
–- E você é teimoso! Não vê que tem sangue saindo pela sua cabeça?! – Tora foi até o rapaz, abriu a maleta e começou a preparar um curativo.
–- Não vou morrer por isso, e saia logo daqui – Castiel se preparou para levantar da cama, mas Tora o impediu.
–- Por favor, Castiel – Pediu Tora com a mão sobre o peito do rapaz – Deixe-me cuidar de você também.
–- Uhm... – Castiel ficou um pouco surpreso com o modo como a garota falou, tão calma e suplicante – Tudo bem...
Castiel permaneceu sentado enquanto Tora cuidava de seu ferimento, ele ainda estava bravo pelo que havia acontecido antes, mas ver Tora se preocupando com ele, de alguma forma o tranquilizava. Além disso, a garota parecia querer dizer algo, ela tentava manter a calma, mas seu queixo tremulo evidenciava que ela estava nervosa.
–- Está tudo bem com você? – Perguntou Tora terminando o curativo.
–- Sim... – Castiel relutou, mas por fim agradeceu – Obrigado... Tora.
–- Não tem de que – Tora fechou a maletinha – Castiel... Sobre o Nathaniel-
–- Não quero saber – Castiel disse seco – Bem... Você não precisa explicar, não tenho nada haver com-
–- Tem sim! – Disse Tora exasperada – Obrigada por conserta o bibelô...
–- Era o mínimo que deveria ter feito... – Castiel olhava para baixo.
–- Sobre Nath... – Tora tentou começar.
–- Por favor, não fale sobre ele... – Castiel pediu tristonho.
–- Por favor você Castiel, você tem que me deixar explicar, eu... – Tora sentiu os olhos umedecerem – Eu não quero que você entenda errado, eu não tenho nada com Nathaniel, eu apenas machuquei a cabeça e ele fez um simples curativo, somente isso.
–- Tora... – Castiel sabia que ela dizia a verdade, podia sentir isso e ele precisava saber daquilo, isso o tranquilizou – Tudo bem, eu acredito em você, só fiquei irritado por ele estar te tocando.
–- Castiel... – Tora sentiu seu coração pulsar mais forte com aquelas palavras – Ah Castiel! Você sumiu, não sabia onde estava e então te encontrei desacordado naquele lugar, naquele estado, eu realmente achei que algo ruim tivesse acontecido com você...
–- Tora... – Castiel levou a mão até o rosto da moça e enxugou uma lágrima.
–- Eu... Eu fiquei tão preocupada, e se não tivéssemos chegado a tempo?! O que aquele psicopata teria feito com você?! – O rosto de Tora era lavado pelas lágrimas – Eu teria me culpado eternamente!
–- Shhh... – Castiel fez sinal de silencio e então puxou Tora pela nuca, selando seus lábios num beijo acolhedor. Ele não aguentou ver aquela garota tão forte e inabalável se desmoronando na sua frente, aquela preocupação toda por um cara como ele, tinha que fazer algo.
Tora sentiu o calor dos lábios de Castiel, era como estar no paraíso, logo ele pediu passagem com a língua nervosa e ela a concedeu sem precedentes. Beijavam-se com calma, aproveitando cada segundo, como se aquele fosse o ultimo beijo que dariam. Castiel enlaçou a cintura da garota que lhe afagava os cabelos vermelhos, trazendo-a para mais perto de si, aprofundando mais o beijo.
Tora sentiu as mãos do rapaz em sua cintura, ele a puxava com força, segurando-a firmemente contra seu corpo. O beijo dele era um pouco grosseiro, mas demonstrava toda a paixão que sentia. Por fim o ar se fez necessário e então eles descolaram os lábios.
–- Castiel... – Tora havia parado de chorar, a única evidencia eram seus olhos vermelhos – Isso não é jeito de se resolver uma discussão.
–- Pelo menos deu certo – Disse Castiel acariciando o rosto de Tora.
–- Boboca... – Tora esboçou um sorriso singelo.
–- Baixinha fofa – Castiel a puxou para perto, fazendo-a pousar a cabeça sobre seu peito – Eu te adoro sabia?
–- E eu te odeio – Tora aconchegou-se e fechou os olhos.
Tora sentiu os primeiro raios de sol entrando pela sacada, iluminando lhe o rosto, ela se espreguiçou tocando uma jaqueta ao seu lado, ainda meio sonolenta, puxou-a para si e a cheirou. O perfume não era forte, mas era obviamente masculino e tinha algo a mais, um cheiro familiar, Tora abriu os olhos e identificou a peça, era a jaqueta de Castiel.
–- Ah! – Num susto Tora lançou a jaqueta longe, só então se dando conta de que não estava em seu quarto – Mas que diabos...
–- Bom dia dorminhoca – Disse Castiel da porta do banheiro, vestido apenas com uma calça de moletom, enquanto escovava os dentes.
–- Castiel? Oh meu deus! – Tora imediatamente olhou para si mesma, constatando que ainda vestia todas as peças de roupa, ficando um pouco mais aliviada.
–- Não se preocupe, você não me atacou – Zombou Castiel.
–- Como assim eu?! – Tora se pôs de pé rapidamente.
–- Ora – Castiel terminou de escovar os dentes e saiu do banheiro – Quem mais poderia ser?
–- Não se faça – Tora foi até a sacada, não queria ter que descer por ali – Droga!
–- O que foi? Vá em frente – Incitou Castiel – Ah você tem medo de altura, isso me faz perguntar o quão desesperada você estava ontem...
–- Arg! – Tora estava envergonhada por estar no quarto daquele garoto e ficando nervosa com suas provocações.
–- Certo tudo bem... Eu te mostro a saída – Castiel acompanhou Tora até a porta da frente – Tchau baixinha, te vejo na festa.
–- Há... Há... Desculpe-me pelo incomodo – Tora deu um sorriso torto e zarpou para casa.
–- Doida... – Resmungou Castiel fechando a porta.
Tora entrou em casa feito um tornado, batendo a porta e subindo as escadas desesperadamente.
–- Tora? – Perguntou Claire saindo da cozinha – Tudo bem com você?
–- Ah s-sim... – Respondeu Tora nervosamente.
–- Soube que dormiu fora, Castiel me contou – Disse Claire com um sorriso sinuoso.
–- Que?! – Tora corou violentamente – Não aconteceu nada! Foi apenas um descuido.
–- Se aconteceu ou não, isso não me importa – Claire dava de ombros – Mas com certeza, você será alvo de muitas chantagens de hoje em diante.
–- Como assim? – Perguntou Tora juntando as sobrancelhas.
–- Sei lá, só estou dizendo... – Claire voltou para a cozinha assoviando, como se nada tivesse acontecido.
–- Ah! Que saco! – Tora subiu as escadas e correu para o quarto, batendo a porta atrás de si e jogando-se na cama, escondeu o rosto quente entre os travesseiros e suspirou, aquilo não podia estar acontecendo. Mesmo ela, dona de uma personalidade forte, sentia-se envergonhada, como podia ter dormido na cama e no colo de um rapaz assim tão fácil? Ainda mais sendo Castiel... Ainda mais depois daquela declaração e daquele beijo.
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