Uma Dança, Uma Mudança - CIP
1 Capítulo Único - Uma Dança, Uma Mudança
Lápis estava sentada em uma pedra no fundo do laguinho atrás de sua casa. Não foi uma ideia dela fazer um novo lago depois de se mudar para o Mini Planeta Natal, sua namorada foi quem fez questão de reconstruir ao menos um pedaço do mundinho que elas criaram para si no campo quando moraram no celeiro.
Por um lado Lápis gostava de ter isso para recordá-la dos dias felizes que passara lá, mas por outro aquilo também era uma lembrança constante de quando abandonou sua companheira e ainda por cima roubou tudo o que construíram juntas. E mesmo que já tivesse pedido desculpa e Peridot a tenha perdoado bem mais que uma vez, ela não podia evitar se sentir mal com isso, estava em seu cerne demorar a deixar o passado para trás.
Mas esses pensamentos logo fugiram de sua cabeça, assim como todos os outros. Sendo o tipo de gem que era seus sentidos ficavam mais apurados quando estava submersa e por isso conseguiu sentir a movimentação da terra quando passinhos rápidos começaram a se aproximar do pequeno lago. Um riso anasalado lhe escapou por imaginar perfeitamente Peridot correndo com suas perninhas curtas e ofegando daquele jeitinho fofo tão dela.
Logo o corpo verde entrou em seu campo de visão, porém não com as “roupas” de sua regeneração atual e sim um biquíni verde bem escuro, quase preto, estampado com alienzinhos em um tom de verde mais claro. Depois de muito tempo treinando com as amigas Cristal Gems Ametista e Garnet ela estava conseguindo dominar bem a mudança de forma e agora fazia isso com relativa frequência só porque podia.
— Sabia que você ia aparecer aqui uma hora ou outra. — Lápis disse conseguindo fazer sua voz ser ouvida com clareza, também por sua ligação com a agua.
— Bolha. — Peridot pediu com a voz distorcida por fazer bolhas de ar ao falar.
— Ah, claro! — respondeu rindo enquanto fazia uma bolha azul grande o bastante para envolve-las e assim poderem conversar melhor, já que a gem verde não conseguia produzir uma deste tamanho ainda.
— Steven me contou mais ou menos o que aconteceu. Achei que você podia querer falar sobre isso. Comigo. — Peridot não se achava boa nessas coisas, porém amava Lápis o bastante para se esforçar.
— Eu não sei se quero. Mas... Eu vou. — ela murmurou abraçando as próprias pernas e olhando para o chão através da bolha. — Quando comecei a lutar com aquelas Lápis Lazulis foi... Incrível. Eu me senti... Poderosa e invencível. Eu podia ter acabado com elas. Por um instante eu quis isso, Peri. Quis de verdade. E isso é tão ruim. Parece que não importa quanto o tempo passe ou o quanto pareça que tá tudo bem, essa raiva toda continua aqui dentro de mim só esperando a hora certa pra explodir e vir à tona.
— Li sobre algo que acontece com formas de vida orgânicas depois que os machucados se curam. Diferente das gems, que se regeneram totalmente, eles ficam com uma coisa chamada cicatriz, que é uma marca permanente da ferida. Os humanos podem ter essas tais cicatrizes por dentro também, quando eles sofrem um trauma, decepção ou dano psicológico. E eles chamam isso de cicatrizes emocionais. Acredito que você ainda está se curando por dentro embora seja perfeita por fora. Sim, você é incrivelmente poderosa, já fiz cálculos de probabilidade sobre seus poderes e é de fato muito difícil vencer você, mas isso é uma coisa positiva. Quando se der conta disso os seus machucados vão começar a virar cicatrizes. Você ainda vai se lembrar de tudo, mas não vai mais doer tanto. Existem alguns humanos que podem ajudar com isso, são especialistas licenciados: os psicólogos.
— Só você pra conseguir me fazer sentir melhor e confirmar o pensamento que estava me fazendo sentir mal ao mesmo tempo, Peri. — Lápis disse sorrindo e enxugando as lágrimas que agora podiam ser vistas já que dentro da bolha não se misturavam com a agua.
— Ainda bem que disse isso porque conversar definitivamente é um tipo de tarefa que combina mais com o Steven, mas eu gosto de cuidar da minha Lazuli e te animar é minha melhor função. — a gem verde respondeu retribuindo o sorriso. — Quer entrar e dançar um pouco?
— Você detesta dançar.
— Isso não é verdade. Eu sou ótima fazendo Meep Morps, improvisações cômicas e, é claro, jardinagem. É um uso muito mais eficiente do meu tempo aperfeiçoar as coisas em que já sou boa e que gosto de fazer, mas eu gosto de dançar. O suficiente.
— Você é única, Peridot Faceta 2F5L Corte 5XG. Eu te amo.
— Eu também te amo. Agora vamos.
Lápis desfez a bolha, deixando que a agua voltasse a envolve-las ao mesmo tempo em que Peridot trocava o biquíni com estampa de aliens de volta para sua regeneração atual, então as duas deram as mãos e caminharam juntas para fora de seu amado lago menor que a média.
Havia uma porta na parte de trás da casa que dava para a cozinha que elas quase nunca usavam, mas tanto a gem azul quanto a verde gostavam de dar a volta e entrar pela frente para ter um vislumbre rápido do Mini Planeta Natal. Era um trabalho lindo que ambas se orgulhavam muito de ter ajudado a fazer, um pedacinho de paraíso para gems na Terra que um dia sua raça tentou destruir, em um tempo que agora parecia tão distante.
Já na sala decorada por muitos Meep Morps (a maioria envolvendo o campo ou celeiros) Peridot colocou uma música suave para tocar e repousou as mãos na cintura de sua namorada, o que ficou meio ridículo por um instante, então Lápis diminuiu alguns centímetros para nivelar mais ou menos suas alturas e as duas puderam dançar melhor. E por um tempo foi assim, com elas apenas se movendo em silêncio com os corpos coladinhos, mas depois de alguns minutos Lápis sentiu a necessidade de falar.
— Peridot. Te incomoda que que a gente nunca se funda?
Aquela pergunta martelava na cabeça da Lazuli desde que fusões passaram a fazer parte dos treinamentos Cristal Gems de sua namorada, parte da qual ela nunca quis participar e nunca a forçaram a fazer.
— Claro que não. Pra dizer a verdade, eu não me sinto à vontade em fusões. Gosto muito de mim e fico desconfortável desaparecendo para me tornar outro ser, outra gem. Acho quase superestimado, mas entendo os propósitos funcionais da fusão.
— Mas não acha que parecemos ser um casal incompleto? A Garnet é o exemplo mais perfeito e puro de amor gem na visão de praticamente todos que conhecemos. Ela é o próprio amor em forma, uma permafusão.
— A Besouro Terrestre e a Besouro Celeste são perfeitas também. A Pérola e a Bismuto são perfeitas também. E a própria Garnet passa um tempinho separada pra fazer suas atividades individuais na Mini Escola Natal de vez em quando. Não ser uma permafusão não é um defeito. Aqui na Terra existe um conceito que muitos humanos acreditam e eu passei a acreditar depois de passar um tempo com o Steven: ninguém é perfeito e tá tudo bem, todos já são bons do jeito que são. O jeito de amar da Garnet, da Fluorita e da Rodonita não está errado, mas o nosso não é errado também porque não existe uma só maneira de amar. E mesmo que eu de fato gostasse, você não se sente à vontade com a ideia de se fundir e eu nunca desrespeitaria a sua vontade.
— Eu amo a forma como você pensa. Aliás, tudo em você é apaixonante. Pra mim.
— Digo o mesmo sobre você, Lazuli.
— Você me faz sentir apreciada e completa. Eu não preciso estar em uma fusão pra isso.
— Sim, é exatamente isso o que eu sinto com você.
— Sabe... Existe outro jeito de selar um amor sem ser uma fusão.
— Espera. Você quer dizer o que eu acho que quer dizer?
Lápis se afastou um passo, só o bastante para olhar nos olhos da namorada da maneira mais profunda possível — Peridot Faceta 2L5F Corte 5XG, você quer se casar comigo?
Peridot sorriu ao mesmo tempo em que lágrimas de alegria começaram a se formar nos cantos de seus olhos. — Eu aceito.
O sorriso que Lápis retribuiu à sua agora noiva foi o mais sincero que já dera em toda a sua existência. Ela se inclinou para beijar a pedra verde na testa de Peridot e em seguida desceu os lábios para beijá-la na boca, então as duas permaneceram abraçadas ali, dançando por mais algum tempo, até que as músicas mais agitadas chegaram.
— Essa é mais uma música de festa. — comentou a gem azul rindo, seu riso estava fácil de tanta alegria.
— Festa! Precisamos ligar pro Steven. Ele com certeza vai querer nos ajudar a planejar tudo. Quer apostar que ele vai chorar quando ouvir a novidade? — a gem verde respondeu em tom tão animado quanto.
— Eu até apostaria, mas não gosto de perder apostas. Conhecendo o Steven sei que ele vai se desfazer em lágrimas. Como pode um diamante ter o coração de manteiga?
Ambas riram e trocaram mais um beijo antes de ir pegar o tablete não só para contar ao jovem Universo como espalhar para todo mundo.
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