Uma Criança Com Seu Olhar
23 Capítulo XXIII
Notas iniciais
Bonnie sentiu que algo estava pra acontecer quando Damon ligou na noite anterior dizendo que iria buscá-la e tomariam um café às seis horas da manhã e ela sabia o quanto ele detestava acordar cedo, então deduziu que seria importante.
A SUV preta estava parada na frente do prédio comercial que tinha pouquíssimo movimento, sem comparação com o estresse e a correria que acontecia durante o dia. Esse foi apenas mais um motivo que incentivou a ir para o turno da noite, e assim ter paz de espírito trabalhando junto com os morcegos.
Assim que sentou no banco de couro macio no carro, caiu no sono e despertou depois de Damon sacudir seu braço para entrarem na cafeteria.
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Ele não encontrou maneira boa o bastante para abordar o assunto durante as comemorações no fim do ano, sua relação com Elena estava ótima, David parecia mais conectado com ele e trazer esse tipo de assunto à tona poderia estragar o frágil relacionamento que mantinha com Elena.
Conhecia bem a morena, geniosa e orgulhosa.
– Vai falar o que quer ou já posso ir pra casa dormir? – Bonnie perguntou depois de beber metade do frappuccino.
Tirou toda os papéis de propaganda das casas construídas naquele condomínio e encontrou a foto da casa que comprara no ano anterior.
– Comprei essa casa para Elena e David no final do ano. Sabe aquele novo condomínio construído há um ano? Aquele do lado leste, uns vinte minutos do apartamento dela? – Ela acenou com a cabeça. – Quero dar a casa de presente, mas tenho certeza de que ela vai fazer caso por isso.
Bonnie demorou um bom tempo para responder.
– Ual. Só o valor do condomínio dessas casas custam quase meu salário e eu acabei de ter um aumento pela promoção. – Olhou nos olhos do amigo. – Ela vai fazer caso por você não ter contado antes de comprar e que pelo valor dessas mansões, compraria umas quatro casas normais.
– Dinheiro não é o problema. Só queria uma ajudinha, porque vou contar pra ela hoje. – Bebeu um pouco do chocolate quente. – Depois vou para Los Angeles por uns dois dias e isso vai dar tempo e queria que colocasse juízo naquela cabeça dura.
– Por que está fazendo isso?
– Pelo meu filho e depois por ela. Ter uma casa daquela não é luxo, se você pode pagar e eu quero dar o melhor pra eles. Fica em uma boa localização, um bairro tranquilo e não fica tão longe da escola. Sei que não seria bom trocá-lo de lá, está perto dos amigos dele e não quero mudar tanto a vida deles.
– Ela vai querer cortar meu cabelo quando descobrir que falou comigo primeiro. A sua sorte é que vou te ajudar. – Bonnie disse enquanto pegava um pedaço de brownie no prato de Damon.
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Damon disse que a levaria em um lugar para mostrar alguma coisa. Tudo muito suspeito e a ansiedade estava dominando seu corpo. Suas pernas estavam impacientes e louca para sair do carro o mais rápido possível para aliviar a tensão.
David cantava algo inaudível em sua cadeirinha no banco de trás.
Vinte minutos depois estavam chegando na parte nobre da cidade – não que morasse em um lugar ruim -, mas aquele lugar era para atores de Hollywood, empresários bem sucedidos, jogadores de futebol americano e cantores de sucesso, como Damon.
Pensou que deveriam visitar um amigo rico.
A estrada de entrada do condomínio era ladeadas por casas incríveis e Elena sentia vontade de descer e bater de porta em porta, ver quem morava no local e se a casa dizia mesmo sobre a personalidade do dono.
Damon estacionou a SUV no início de uma estrada de pedras e deu a volta no carro para abrir a porta. Quando ele tinha se tornado esse homem? Não que estivesse reclamando.
Ele abriu a porta traseira e soltou o cinto de David:
– Quer uma carona? – Sentou no banco de costas para o filho e esperou que subisse.
– Não fica cansado de novo tá? – David respondeu enquanto passava os bracinhos em volta do pescoço do pai.
– Quer dizer que eu canso rápido? – Damon segurou sua mão. – E estou velho?
– Não. – Respondeu rindo.
Andaram os três pelo caminho de pedras até passaram por um pequeno portão e saírem na casa que parecia inabitada. Ao final das pedras a casa contava com uma piscina que cobria toda a frente, precisando circular para chegarem a porta.
O muro da casa era apenas cerca viva, as folhas verdes e bem cuidadas. Os mármores claros do primeiro andar davam um belo contraste com o segundo andar de madeira. As janelas eram tão grandes que dariam boas portas, provavelmente posicionadas para captar toda luminosidade do próprio ambiente. Dividida em três partes, era como olhar para três pequenos castelos juntos que formavam a casa. O principal que localizava a cozinha era oval dando o destaque e charme da construção.
– Quem viemos visitar? Parece vazia. – Perguntou assim que pegou David e o colocou no chão.
– Já mãe? Eu quero mais. – Resmungou e olhava para Damon com expectativa.
– Vamos entrar para conhecer. – Damon ignorou a pergunta e pegou o garoto no colo.
Ficou na dúvida se o lado de fora ou dentro era mais bonito. Também teve a confirmação de que ninguém morava ali, não havia móveis, apenas a casa vazia. O que era um desperdício, na opinião dela. Quem não gostaria de morar ali?
O segundo andar disponibilizava de quatro quartos e o principal ficava exatamente no castelo oval.
David saiu em direção do primeiro andar.
– Não pode sair de casa, David. – Gritou. – O que estamos fazendo aqui?
Damon estava próximo a janela e olhava para o jardim.
– O que acha daqui?
– É perfeito, bem parecido com você. Vai me dizer que está pensando em se mudar para San Diego. – Sorriu achando a ideia divertida.
– Daqui um mês e meio começam os shows e não vou morar em lugar nenhum, a não ser em quartos de hotel ou no avião. Comprei essa casa.
– Pra que?
– Quero que venha morar aqui.
– Eu tenho uma casa, você sabe. – Respondeu se sentindo um pouco agitada com o que viria a seguir.
– Comprei uma casa maior, ficaria melhor aqui com essas acomodações maiores e David teria muito espaço. Também deve levar em conta de que não fica tão longe da escola dele, seu trabalho e terá tudo que precisa aqui por perto.
– Pare! Não fale comigo como se estivesse me vendendo esse lugar. É seu e pode fazer o que quiser com ela.
– Eu comprei e estou dando a casa para o David e você morarem, é bem simples. – A calma lhe dava essa aura de confiança.
– Não pedi pra que me comprasse uma casa, você não acha que já tenho o suficiente com aquela pensão absurda que me obrigou a aceitar? Tenho meu apartamento e somos muito felizes lá. – Estava tendo dificuldade para pensar com o sangue borbulhando em sua cabeça.
– Sei que o apartamento é especial para você, o presente dos seus pais e não quero te tirar isso. – Damon se aproximou. – Quero te dar o melhor, um novo lar para um novo começo.
– Nunca quis seu dinheiro. – Rosnou em resposta.
– Se quisesse, não seria você. As pessoas já sabem onde mora, aqui é um condomínio bem exclusivo e vai ter mais segurança e privacidade aqui. Talvez continuem te importunando depois que eu viajar, então aqui seria um bom lugar para ter mais tranquilidade. – Passou as mãos em seus ombros.
– Como pôde fazer isso pelas minhas costas?
– Quando pedi a Vicki para procurar as casas, elas eram em Los Angeles. Ela me falou que você não aceitaria se mudar e largar tudo pra trás.
– Garota esperta, aonde a encontro para dar os parabéns? Ela pensa melhor do que você.
– Vou para Los Angeles depois de amanhã e isso vai te dar tempo para pensar.
Quando ele se aproximava para lhe dar um beijo, ambos escutaram um grito.
– David! – Seu coração passou de raiva para desespero em um segundo.
Chegaram no primeiro andar e David estava levantando com os olhos cheio de lágrimas.
– O que aconteceu? – Agachou na altura do filho e verificava a procura de algum ferimento.
David continuou chorando por alguns minutos e colocou a cabeça em seu ombro, pela visão periférica viu que ele segurava a mão de Damon.
– Eu tropecei na porta. – Disse soluçando.
– Aonde tá doendo, filho?
– Aqui. – Mostrou o braço.
Tentou esticar o braço, mas o menino recuou e voltou a chorar.
– Acho que ele quebrou ou torceu o braço. – Disse para Damon. – Precisamos levá-lo para o hospital.
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Damon dirigiu o mais rápido e ela optou por ir no banco de trás com David que ainda suspirava entre os soluços. O GPS avisou que o hospital mais próximo da área ficava há uns dez minutos.
– Vai ficar tudo bem, meu amor. – Passava as mãos no cabelo do filho.
Teve que deixar David com Damon por alguns minutos enquanto assinava a papelada para dar entrada na emergência e o médico fazer o procedimento necessário. Quando voltou o filho estava deitado e olhava diretamente para o pai, até que notou Damon cantando para ele.
– Shh. Você tem que ficar bom logo, senão quem vai jogar beisebol comigo? – Damon passava a mão no rosto do menino e lhe secava as lágrimas
– Mas tá doendo, pai.
Ela percebeu uma demora por resposta.
– Prometo que vai passar.
O médico logo chamou David para dar entrada no consultório. A queda foi mais séria que pensavam e o menino teve que engessar o braço esquerdo, por sorte.
Os remédios diminuíram a dor e o filho apenas aceitou a sopa.
– Quer ir pra cama? – Damon perguntou quando David mostrava sinais de estar pegando no sono deitado no sofá.
O filho fez que sim com a cabeça.
– Boa noite, mãe.
Se aproximou e deu um beijo na testa do menino.
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Damon colocou David na cama e observou o filho com uma adoração que ele não sabia que poderia ser tão forte.
– Me conta uma história?
– Qual você quer?
– Aquela da baleia.
– Moby Dick.
Leu por uns vinte minutos até as pálpebras do filho venceram, diminuiu a luz do abajur e colocou o livro na estante. Quando estava prestes a sair do quarto:
– Boa noite, pai.
Sempre imaginou o dia que David o chamaria de pai, mas nunca sabia que tipo de sensação esperar e agora mesmo depois de acontecer, não sabia como reagir. Era pura e s simples felicidade.
Chegou no quarto e Elena já estava deitada na cama e com a expressão mais tranquila do que aparentava mais cedo. Sentou na beirada da cama e sorriu:
– Você parece mais calma.
– Ele é uma criança, vai se machucar. Não que quebrar algum osso seja normal. – Ela respondeu colocando o livro ao lado da cama.
Optou não falar da casa pelos próximos dias e dar tempo suficiente pra que ela pensasse no assunto. Pressionar não resolveria a situação do que jeito que desejava.
Sentia todo seu corpo dolorido e exausto, o dia foi mais cansativo do que esperava. Até o simples ato de levantar as cobertas o deixava com preguiça e talvez escolher dormir na cama do jeito que estava.
Entrou debaixo das cobertas e puxou Elena para seus braços, quando suas mãos deslizaram para a cintura dela, notou a falta de qualquer tecido e teve de olhar embaixo.
Oh!
– Você está assim só por espontânea vontade ou quer me matar? – Já estava se livrando de qualquer empecilho para ambos.
Ela o beijou em resposta e tirou sua camisa com a velocidade de namorados que não se viam há um mês.
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