Uma Criança Com Seu Olhar
17 Capítulo XVII
Notas iniciais
Ele não sabia se ficava surpreso ou satisfeito. Muito satisfeito. Ok, ele sabia qual era a sensação que venceria essa queda de braço. Satisfação. Não que ele tenha orquestrado toda situação para que acabasse na mesma cama que Elena.
Tê-la em seus braços novamente o fez entender o motivo das outras serem só sexo vazio. Com eles era tão diferente que se tornava difícil colocar em pauta e Elena não merecia comparação com as outras mulheres.
Não houve muita conversa. Eles não precisavam de mentiras ou meias palavras. Seus olhos e corpos demonstravam perfeitamente as reações.
Agora ele percebia o quanto ainda estava interessado nela. Apenas interessado. Ele não colocaria adjetivos ou sentimentos demais.
Até parece.
Uma voz soou bem longe em sua mente.
Elena estava com uma das pernas no meio das suas e o braço apoiado em seu abdômen.
Olhando desse jeito ele não conseguia se lembrar o porquê não ter dado certo.
Ele resolveu beijá-la outra vez, só pra saber se era real ou que Elena mudasse de ideia e se arrependesse de tudo o que aconteceu nas últimas horas. Pensar na segunda hipótese o desagradava totalmente.
– Hm. – Elena resmungou quando estava desperta. – Não é um jeito tão ruim de ser acordada.
– Admita, é o melhor jeito de ser acordada.
Ela sorriu antes de beijá-lo de novo.
No fundo Damon sentia que ela também estava com medo de que se conversassem demais, teriam que responder o que diabos estava acontecendo e eles não tinham uma boa resposta.
– Odeio estragar sua diversão, mas nós temos um encontro com meu advogado daqui a pouco. – Damon falou depois de receber o terceiro alerta de mensagem de Mason que já estava acostumado com seus atrasos.
Elena riu e levantou da cama:
– Claro! Só eu me diverti por aqui.
Damon apoiou os braços atrás da cabeça e a observou jogando as roupas pra fora da mala em busca de algo apresentável para se encontrar com o advogado. Ele a achava apresentável em qualquer roupa ou sem nenhuma peça, mas jamais a deixaria sair de casa nesse estado.
– O que vai acontecer de agora em diante? – Ele perguntou sem conseguir manter a boca fechada por mais tempo que deveria.
Elena o olhou com um misto de surpresa, receio, medo e até mesmo tristeza.
– Vou tomar banho. Você também deveria se arrumar. – E assim ela saiu fechando a porta do banheiro. Um anúncio claro que não desejava companhia. Também não lhe daria resposta alguma.
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Elena entrou no chuveiro sem se preocupar que não deveria molhar o cabelo novamente ou que o shampoo estava caindo em seus olhos a fazendo chorar. Ou eram lágrimas estúpidas escapando de seus olhos.
Estragar as coisas não estava nos planos de se entender com Damon. E sexo sempre estraga as coisas. Transar com seu ex-namorado já é um tremendo erro, quando ele era pai do seu filho era duas vezes pior e quando eles tentavam manter uma relação equilibrada e saudável era uma tremenda merda que ela acabara de fazer.
Se você é só amigo de alguém sem nenhum tipo de “benefício”, a relação costumava se estreitar e não havia frustração. Agora depois de ir pra cama com alguém, mesmo que não seja em si um relacionamento, as pessoas ficam divididas entre a linha fina a amizade e um possível interesse maior de conhecer a outra pessoa. E ela já conhecia Damon.
E onde ela estava com a cabeça em aceitar ir para o Canadá? Reencontrar Edna, ver novamente o não-amigável Joseph e ainda carregar David pra essa tumultuada vida familiar.
Ela não mentira sobre considerar uma boa ideia que David conhecesse essa parte da família, mas ainda era complicado. E agora era complicado por ambas as partes. Tanto para o filho, como pra ela.
O que Damon estava fazendo com ela? A levando pro lugar que esteve antes e a experiência era tão louca, excitante e viciante.
Saindo do quarto, a cama estava arrumada, suas roupas dobradas e Damon não estava em nenhum lugar visível. Aparentemente ele deixou tudo como se nada tivesse acontecido e a ideia a deixava com um gosto esquisito na boca.
Seu celular tocou cinco minutos depois que havia terminado a maquiagem leve que realçava o tom bronzeado que sua pele adquirira mais cedo.
– Vejo que está se divertindo. Os sites não falam de outra coisa. – A voz de Klaus soou no celular e isso a fez sorrir de alívio.
– Pura diversão, sol, praia e mil reuniões que tenho em apenas um final de semana. O que mais uma garota pode desejar?
– Alguém legal ao lado dela.
– Eu já tenho o cara mais legal de todos ao meu lado. Minha vida é perfeita. – Elena comentou revirando os olhos.
Ele o escutou suspirar ao celular.
– Não achei que sapos fossem caras legais. Se bem que você nunca soube escolher muito com qual idiota se envolver.
– Estava falando do David. E sobre minha inabilidade de escolher uma pessoa legal, é você sempre me jogando praga. – A morena resmungou baixinho quando furou o dedo no fecho da sandália.
– De verdade, como estão as coisas?
– Resolvendo muitas pendências. E você?
– Estou sentindo sua falta. Queria conversar com você quando voltasse, pode ser? – Klaus perguntou e sua voz parecia um pouco tremida mesmo ao celular. O que era estranho já que ele era o Sr.Autoconfiança.
– Também sinto falta. Conversamos na segunda. Até te deixo pagar um almoço no Fênix.
– Estou atrapalhando ou podemos sair? – Damon perguntou recostado no batente da porta.
Elena se perguntou sinceramente se havia algum problema com aquelas portas silenciosas ou se deveria amarrar um sino no pescoço de Damon para que assim o ouvisse se esgueirando pelo seu quarto.
– Tenho que ir. Te vejo segunda. – A morena colocou o celular na bolsa que havia deixado na cama. – Podemos ir, mas preciso acordar o David.
– Está tudo bem, a Liz vai ficar aqui essa noite e pode cuidar dele enquanto resolvemos as pendências. – Os olhos de Damon dançavam por todo quarto, mas de modo algum encarava Elena.
Ser mãe gera um enorme conflito de interesses. A mulher poderia estar interessada em sair, mas se ninguém digno de confiança pudesse ficar com o filho ela simplesmente desistiria. Se houvesse uma festa de trabalho e a criança adoecesse, os planos seriam automaticamente cancelados.
Era ter duas vidas dentro de uma só, literalmente.
– Eu não a conheço! Ela é de confiança? – A morena pegou a bolsa e seguiu em direção ao quarto próximo ao fim do corredor com tapete vermelho e felpudo. Seus pés nadavam em uma fofura trançada quase os massageando mesmo que estivesse calçada.
Ao abrir a porta percebeu o motivo de nunca escutar a aproximação. Cara, aquelas portas eram realmente silenciosas.
David estava abraçado com Jimmy – o sapo -, e dormia profundamente. Deveria estar exausto do dia que passara na praia.
– Jamais deixaria meu filho com alguém que não confio. Podemos?
Ela pensou no assunto e ele estava sendo sincero. Suspirou e voltou para o batente. Damon fez o caminho oposto e caminhou lentamente até a cama de David, se inclinou e passou as mãos no cabelo bagunçado do garoto.
– Voltamos logo, campeão. – Damon sussurrou. – Não tenha pesadelos.
Foi preciso um tremendo esforço para Elena escutar a última frase.
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A reunião falou dos aspectos legais do resultado do exame, da inclusão de Damon como pai no registro de nascimento de David e de um cálculo base para o valor da pensão que Elena se recusava terminantemente a receber.
– Se você não aceitar, eu vou entrar com um processo que vai te obrigar. – Damon retrucou bebendo um pouco de cappuccino.
A segunda parte da reunião era realmente com o relações públicas que Stefan enviou para ter uma conversa de algumas dicas e conselhos.
Era basicamente um pedido para que Elena ficasse calada ou fosse o mais discreta com esse assunto. As pessoas não eram confiáveis quando se tratava de ganhar fama através de outra pessoa.
Elena já não se sentia confortável com a posição de mãe de filho de um astro do rock. Ela não se imaginava falando do assunto aos quatro ventos, mas se viu atenta aos detalhes e informações para que ninguém se aproveitasse de sua falta de atenção.
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– Finalmente! – Damon se jogou no sofá. – Acho que já podemos ir.
Elena sabia que as coisas não estavam bem e talvez a tendência era piorar se ela ficasse parada esperando todo esforço escorrer entre seus dedos.
Depois de todo rancor, ressentimento e passado terem dado uma trégua no corpo e coração de Elena, ela não poderia deixar tudo se voltar contra eles por atitudes impensadas.
– Ou podemos ir em algum lugar. – A morena segurou as chaves das mãos dele.
Damon pareceu duvidar por alguns instantes, mas acabou cedendo:
– Onde você quer ir?
– Essa é a cidade das estrelas. Me guie por elas.
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Elena não se interessava muito em super máquinas de quatro rodas, mas teve de admitir que dirigir um Porsche era semelhante a sentar em uma nuvem motorizada. Não que ela já tivesse andado em uma, mas imaginava desse jeito.
– Pra onde estamos indo? – Elena questionou enquanto guiava a pequena nuvem amarela por uma estrada estreita beirando uma montanha.
– Para as estrelas!
Virando algumas curvas que formavam um S, Elena se deparou com muitas tochas que davam a impressão da areia – da praia que acabara de surgir -, pontilhada com luzes se parecerem com o céu. Uma visão e tanto.
Os carros fizeram uma das curvas mais abertas coberta de pedregulhos, de um estacionamento improvisado.
Um homem passou pelos seguranças apenas com um aceno de cabeça.
– Achei estranho você ligar. – O homem abraçou Damon. – Ultimamente você anda recluso.
A morena achou o rosto conhecido, só não conseguia se lembrar de onde.
– Queria trazer a Elena para conhecer o “The Sky”. Lembra dela?
O alarme disparou dentro da cabeça de Elena, lembrando que aquele era Stefan. Stefan, o cara que alavancou a carreira de Damon e o acontecimento que destruiu toda confiança que um dia existiu no relacionamento deles.
Era quase impossível negar a dorzinha incômoda que essas lembranças lhe traziam, mas fez questão de engolir seco e sorrir.
– Elena Gilbert. – O sorriso parecia sincero. – Cadê o pequeno Gilbert?
– Em casa. Dormindo. Tudo bem?
Stefan esticou os braços em direção ao vale abaixo deles:
– Maravilhoso! Primeira vez que trazemos o “The Sky” aqui. Um sucesso.
– O que é isso?
Damon se intrometeu e a segurou pelo cotovelo:
– Vou te mostrar.
Pra resumir era um luau com várias celebridades e mundo da música em peso vestindo roupas simples, brincando com jogos que Elena nunca havia jogado ou visto, músicas aleatórias eram tocadas e sincronizadas por um DJ em cima de um palco em formato de píer. Sem contar as almofadas gigantes espalhadas pela areia.
– Nós nos juntamos aqui duas vezes por ano e essa festa nunca é anunciada por ninguém, não postamos fotos em redes sociais e alguém só pode ser convidado por outra pessoa de dentro.
– É como a máfia? – Elena soltou uma risada.
– Nós só queremos privacidade. Ter uma festa normal é algo quase impossível.
– Mas não é a vida que você tanto sonhou?
Elena esperava não ter soado rancorosa com a sentença, mas ele sonhou tanto com ter reconhecimento pela sua música, ter fãs e o pacote completo. Não parecia motivo pra alguém não ser feliz.
– Quando você vê alguém fazendo sucesso com o que ama sempre imagina mais fácil. Ou talvez um pouco menos difícil. Ninguém te dá um manual dizendo as coisas da qual vai ter que abrir mão ou das exigências. – Os olhos de Damon pareciam tão distante que era quase impossível alcançar.
– Você é feliz?
– Eu era feliz com você. – Ele não fez menção de olhar Elena nos olhos. – Só não percebia o quanto, até deixar tudo pra trás. Agora? Não posso reclamar do que tenho, afinal eu desejei e trabalhei tanto por isso.
Ela gostaria de não ter ficado chocada com o que ouviu, mas concordava com Damon. Mesmo que jamais dissesse isso em voz alta. Eles foram tão felizes quanto um casal poderia querer.
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