Uma Criança Com Seu Olhar
27 Capítulo XXVII
Notas iniciais
Klaus chegou à redação e caminhou como se fosse natural comparecer na sessão de entretenimento. Eles odiavam o termo fofoca. Como se eles não fossem exatamente aquilo: fofoqueiros com um diploma de jornalismo.
Escondeu a careta de desgosto e tentou relaxar os ombros e encontrou Elijah editando alguma publicação bombástica que estaria prestes a abalar as estruturas de alguém. Se você queria uma informação quente, contato ou investigar a vida de alguém era só procurar Elijah e torcer pra que o preço não fosse alto demais.
– Elijah, quanto tempo. – Tamborilava os dedos na mesa. – Posso me sentar?
Olhando de outro ângulo você até o consideraria um jornalista de respeito, sempre bem vestido, com um ar sério e refinado.
– Por favor! – Estendeu a mão na direção da cadeira. – Em que posso ser útil?
– Acha que vim te pedir algo?
– Posso ver nos olhos o quanto se detesta por estar fazendo isso e ainda ter que me pedir, mas não existem muitos motivos pra alguém da coluna de saúde vir até aqui. Veio jogar conversa fora?
– Não temos problemas com nenhum colega que seja de outra coluna.
– Sabe o que mais gostamos sobre o nosso trabalho? – Perguntou com um sorriso que esteja deixando Klaus com vontade de vomitar.
– Saber a notícia de primeira mão?
– Os fofoqueiros se divertem quando vocês precisam de alguma informação. De qualquer forma, meu tempo é precioso demais pra me vangloriar e vamos direto ao ponto.
– O que você sabe sobre Damon Salvatore? Algo importante?
Elijah pensou por um instante e depois se virou para o Mac e digitou algo no campo de pesquisa. A pasta parecia não ter fim pelo que pode enxergar por cima do ombro do jornalista.
– Canadense. Mora em LA, mas foi descoberto aqui em San Diego e é onde tem passado bastante tempo nos últimos meses. Recentemente divulgou ter um filho, o que foi uma decepção pra nós não ter descoberto antes. Prestes a começar sua turnê mundial e acabou de lançar um novo CD. Está namorando a mãe do filho dele, Elena Gilbert. – Olhou para Klaus por cima dos óculos. – Acho que já ouvi esse nome. – Digitou no Google e apareceram algumas fotos das festas da revista e a página de crônicas que ela escrevia.
– Quero saber algo que não esteja nos jornais. – O cortou antes que continuasse falando de Elena.
– Nossa colega de trabalho sabe que você está espiando o namorado dela?
– Você sabe ou não?
– Tudo isso que eu falei deveria ser um choque. Um filho de quatro anos, primeiro relacionamento publicamente assumido e afins. Mas ele anda dificultando as coisas por falar em aberto sobre esses aspectos e isso diminui os podres. Ele é um típico astro da música, bebe muito, se droga, vai a inúmeras festas, foi visto com muitas mulheres e todo pacote. Nada de surpreendente, se não contar o fato de que desde a aparição desse filho e a namorada ele parece bem calmo. Quase outra pessoa.
– Obrigado pelo seu tempo. – Klaus ia se levantando.
– Quer que eu ligue meu radar?
– Só não quero uma amiga envolvida com alguém errado.
– É com isso que se convence? – Elijah tirou os óculos. – Fica com o meu cartão, tenho o pressentimento de que vai precisar. Nos falamos em breve.
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Elena acabara de deixar David e na escola e foi uma tremenda dificuldade conseguir passar despercebida. No geral em San Diego ela conseguia manter uma distância considerável dos paparazzis, mas hoje eles estavam descontrolados como se algo muito importante estivesse acontecendo.
Fez uma consulta de rotina e só teve o tempo exato para voltar na escola e buscar David. Os paparazzis estavam esperando por ela então ter um pátio interno só para os responsáveis buscarem seus filhos e isso impediu que chegassem muito perto. O que diabos estava acontecendo? Sua viagem para Disney havia acontecido sem muita atenção para eles.
– Mãe, tem três carros do lado da gente. – David falou da cadeirinha infantil no banco de trás.
Elena viu os três carros em sua cola e uma moto um pouco à frente do lado direito. O próximo retorno daria na autoestrada que levava vinte minutos extras para chegarem ao apartamento, mas parecia a melhor solução.
– Por que eles ‘tão tirando foto?
– Eles querem a foto do menino mais bonito do mundo. – Sorriu para o filho através do retrovisor.
Saindo do retorno entrou na faixa do meio que parecia ter o menor fluxo de carros naquele horário. Deu um suspiro de alívio quando conseguiu se livrar da moto.
Olhando para o lado direito a motocicleta estava alguns metros na frente do seu carro, o carona tinha uma câmera profissional e de alguma forma fazia um malabarismo para fotografar e não cair da moto. O que ela internamente desejou que acontecesse.
Buzinou para que saísse da frente, sem resultado resolveu ligar a seta e mudar de pista. O motorista que vinha atrás devia estar muito distraído para não notar. Teve que frear rápido para evitar que a frente do carro colidisse no outro. Seu coração começava a martelar alto em seus ouvidos.
O carro estava apenas dez centímetros do motorista desatento até que por muito azar naquele dia o motorista que vinha atrás não conseguiu frear com espaço o bastante para bater na sua traseira.
– David, você está bem? – Olhou para trás apenas para ver o filho de olhinhos arregalados.
– Quero sair daqui. – Disse com a voz chorosa.
Tudo aconteceu em questão de minuto e suas mãos ainda tremiam. Segurou o volante com força e sua cabeça foi ao encontro da superfície.
– Fica aqui, tudo bem? – Elena saiu do carro e soltou o cinto de segurança que prendia David na cadeira.
– Não, quero ficar com você. – Ele agarrou em sua mão.
– Filho, a mamãe já volta. Pode ser corajoso igual ao Ben por mim? – Beijou os dedos do menino e marchou em direção a moto. Os dois motoristas dos carros pareciam muito surpresos ou assustados com a cara que estava.
– Que merda vocês estão pensando? Tudo isso pra uma droga de foto?
– Esse é o nosso trabalho. – O piloto da moto tinha a pele morena e os olhos pretos brilhavam beirando ao divertimento.
– Seu trabalho é tentar me matar ou machucar o meu filho? – Se aproximou com o sangue bombeando tão alto que fazia eco em seus ouvidos. – Estou com uma criança no banco de trás e vocês querem brincar de polícia e ladrão?
– A senhorita poderia facilitar tudo se tivesse parado na escola.
– Então é minha culpa? – Apontou o dedo no rosto do piloto. – Não sou cantora, atriz ou celebridade. Nada da minha vida é interessante, então dê o fora e nunca mais tente se aproximar de mim outra vez.
– Você é namorada do Damon e com a matéria que saiu essa manhã te deixou nos holofotes. – Agora era o fotógrafo se manifestando pela primeira vez.
– Às vezes esqueço o quanto vocês são doentes. – Murmurou entre os dentes e tirou o celular do bolso da calça jeans que vestia. – Podem aguardar uma medida de restrição chegando à casa de vocês.
Tirou foto dos dois, a placa da moto e iria prestar queixa daqueles abutres.
– Não fica nervosa, mãe. – David beijou seu rosto quando chegou ao carro para pegá-lo no colo.
Ser mãe era o desafio de criar, educar e fazer o melhor para os seus filhos. Não vendia um manual de instruções que ajudasse no processo, mas você nunca poderia mostrar desespero para uma criança. Era obrigação dos pais serem fortes e não chorar em situações extremas, mas nesse momento se sentiu tentada a cair em prantos.
– Estou orgulhosa por ter sido tão corajoso. – Apertou o filho nos braços.
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David estava agitado demais para pensar em dormir, demorou mais de uma hora até que conseguisse convencer o filho deitar para assistir o desenho e finalmente cair no sono.
Abriu o notebook e digitou seu nome no Google. Nunca se imaginou fazendo isso, mas a matéria estava lá, algumas horas atrás e teve vontade de vomitar lendo toda aquela baboseira sobre si.
Em resumo a matéria descobrira sobre a casa que Damon havia comprado e estipulava uma pensão com resumos dos lucros de todos os trabalhos que ele vinha fazendo no último ano. Com outras palavras insinuava que era uma golpista ou que pelo menos estava muito feliz com toda essa “vida boa”.
Quando estava prestes a fechar a página viu quem assinava aquilo que chamariam de matéria. Elijah Mikaelson. Ele era da coluna de entretenimento e da mesma editora em que trabalhava.
Ligou para April e pediu para que ficasse com David por algumas horas até resolver o problema.
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Elena sentia falta de caminhar em meio a tantas pessoas quando chegava ao prédio da editora. Saudades de ter trabalho para ocupar sua mente, mas não podia negar que curtia ter tanto tempo disponível para ficar com David pela primeira vez em 5 anos.
Eles passaram por tantas dificuldades que de um modo geral só tinham mais tempo juntos quando ela estava de férias. Era bom ter a chance de levá-lo para viajar, ter um tempo em família, verem desenhos juntos e até mesmo cozinhar para ele.
Não admitiria que ninguém ameaçasse a vida de seu filho e os colocasse em risco por uma matéria idiota.
– Décimo quinto andar, por favor. – Disse para a controladora do elevador.
Esse horário a maior parte já tinha voltado do almoço, então no elevador só estava ela, a controladora e dois sócios da editora que já conhecia de vê-los passar.
O elevador deu aquela guinada e parou no 12º para os sócios descerem e um loiro de olhos verdes sorriu assim que a porta se abriu.
– Bom ver você. – Klaus segurou sua mão e depositou um beijo em seu rosto. – O que está fazendo aqui?
– Também é bom te ver. Vim conversar com o Elijah.
Klaus acenou com a cabeça, mas pareceu assumir uma postura séria.
– Algum motivo em especial?
– Sei que não gosta da coluna de entretenimento, mas deveria ler a de hoje. Elijah escreveu sobre mim e os paparazzis me perseguiram que acabei me envolvendo em uma batida. – A garota de uniforme escuro deu um sorriso profissional e indicou que acabavam de chegar no 15º andar.
– O David está bem? Vocês se machucaram?
– Não, mas esse cara vai se machucar se não me deixar em paz. – Elena saiu batendo os saltos no piso de carpete escuro. Klaus segurou seu pulso.
– Tem certeza de que é o melhor?
– O que quer dizer? Eu sou uma profissional séria, não quero meu nome nesse tipo de matéria e muito menos arriscar a minha vida ou das pessoas que eu amo por idiotices. Você concorda com ele? – Perguntou incrédula. Como seu melhor amigo não daria apoio?
– Discordo totalmente. Só acho que você pressioná-lo vai instigar mais ainda a escrever assuntos do tipo. Eles perseguem as pessoas que se sentem incomodada.
– Vou falar com ele, Klaus. Quer você concorde ou não. – Puxou o braço e foi andando até o final do andar.
Elijah não estava na mesa e em nenhum lugar no seu campo de visão. Sentou na cadeira de frente a mesa e esperaria até que voltasse. Vinte minutos depois Elijah voltou à mesa e sua surpresa se tornou divertimento depois de reconhecer Elena. O que a deixou mais furiosa.
– Boa tarde, estava te esperando para conversarmos. – Elena disparou sem tempo para brincadeiras Klaus estava em pé ao seu lado. Ele tinha mudado de opinião depois ver que ela não desistiria.
– Rápida e objetiva. Você é das minhas. Em que posso te ajudar?
– Quero saber o motivo de ter escrito aquela matéria sobre minha vida pessoal.
Elijah cruzou as mãos em cima da mesa e sorriu como o diretor que está prestes a castigar um dos alunos que sempre sonhou em pegar no flagra.
– Não é nada pessoal. A informação surgiu e escrevi apenas isso.
– Me pintando como uma golpista? Bela matéria. Vocês tratam o trabalho como se fosse só uma forma divertida de fofocar. Sofri um acidente de carro graças a sua matéria. Se estiver envolvido com aqueles fotógrafos saiba que já fiz queixa na delegacia e pedi uma medida restritiva. – Klaus passava as mãos em suas costas na tentativa de acalmá-la. – Acha que a vida das pessoas vale tão pouco assim? Meu filho estava no carro.
– Eu não tive nada a ver com essa parte.
– Sua matéria desencadeou isso. Se vai te fazer dormir melhor de noite, é um pouco responsável.
Levantou da cadeira puxando a alça da bolsa que havia prendido em algum lugar.
– Elena, você deveria ter mais cuidado. Olhe para os lados primeiro.
– Está me ameaçando? – Sibilou.
– De forma alguma. Olhe para os lados e vigie suas costas. É um conselho e sinto muito pelo acidente. Não me envolvi em nada disso e lamento.
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David estava deitado em seu colo depois de ter contado sobre o acidente e como havia sido corajoso. Sentiu que Elena não conversaria sobre o assunto na frente do filho, então ela cozinhou e fez breves comentários durante o jantar. O aborrecimento era notável apenas de sentar no mesmo cômodo que ela.
– Mãe, você ‘tá chateada com o papai? – O filho perguntou quando ela escolheu sentar na poltrona ao lado da tv e evitar o sofá que eles estavam deitados.
– Só estou cansada, amor.
– Falta muito para terminar de embalar as coisas para a outra casa? Acho melhor mudarem mais rápido. Vai evitar um pouco da confusão. – Damon disse na tentativa de tratar de assuntos mais leves e esperar para a conversa mais séria.
– Acho que três dias são suficientes.
– Então vou ligar para a empresa e confirmar para o caminhão vir na sexta.
Ela murmurou um ok. Caíram no silêncio até David pegar no sono depois de Scooby Doo. Pegou o filho no colo e o levou para dormir na própria cama com a nova colcha do Ben 10.
– Vamos deitar? O dia foi longo e cansativo. – Disse assim que voltou para a sala.
– Podemos conversar primeiro?
– Imaginei que ia preferir relaxar, mas podemos falar aqui.
Elena decidiu finalmente mudar de sofá e aproveitou para se juntou à ela. Será que o acidente havia sido mais grave do que David notara? Algo pior aconteceu naquele dia? Segurou a mão dela para que começasse a falar.
– Tudo que passei hoje me fez perguntar se é uma boa ideia.
Ela puxou a mão de volta e a colocou sobre o colo e conseguiu olhar de verdade em seus olhos pela primeira vez na noite. Não parecia um bom sinal.
– Acha que deveríamos trocar o David de colégio?
– Não. – Suspirou. – Acho que são mudanças demais para pouco tempo.
– A nova casa melhora uma parte da questão e podemos contratar alguém que o leve e busque.
– Esse é o problema, Damon. Quero ser normal e essa obsessão é demais. Não sei se posso aguentar. – Ela o olhava como se implorasse para ser entendida.
– O que isso significa? Que está terminando comigo de novo por algo que não posso controlar? – Sentiu seu sangue esquentar e se desse espaço o bastante acabaria perdendo a paciência e dizendo alguma merda.
– Só quero pensar, ok? – Seus olhos estavam brilhantes como alguém a beira das lágrimas. – No que é melhor pro David e pra mim.
Damon levantou para ter algo com o que se distrair.
– Se fosse possível pagar para essas pessoas nos deixar em paz, eu pagaria. Você acha que meu trabalho é fácil? Eu saio em turnê e durmo em uma cama diferente a cada dois dias, fico meses sem ver meus poucos amigos, lido com o fuso horário dos países, tem pessoas que querem saber a cor da minha cueca, componho durante a turnê, faço divulgação, dou entrevistas, canto toda noite pra um público diferente e preciso ter cuidado com a minha voz. – Respirou fundo e esfregou as mãos no rosto. – Tento dar atenção aos meus fãs, atendê-los sempre que possível e crítica sempre quer comer meu fígado. Esses abutres não me dão um dia de folga. Nos dias que estou morto de cansaço eu simplesmente bebia até cair pra não ter forças no dia seguinte e não conseguir sair de casa ou do hotel. Eu sei que se sair vou encontrá-los.
– Olha... – Elena começou.
– Eu avisei que não queria te trazer pra essa vida. É muito difícil, sabia? Amo o que faço, mas às vezes me pergunto o que teria sido se tivesse escolhido uma profissão normal. Os outros trabalham e voltam para as suas casas e família, eu volto pra uma cama de hotel e empregados. Sou Damon Salvotore sete dias por semana. Quando estamos juntos posso ser só Damon.
– Sei disso. – Ela murmurou com certa dificuldade para falar.
– Sinto muito pela matéria, pelo acidente e pelo susto. Você não é a mulher que eles descreveram, nada daquilo é verdade. O problema é que está sendo covarde em fugir de nós dois na primeira oportunidade. Você quer seu tempo?
– Quero o equilíbrio. – A morena parou de frente e o fez parar de caminhar de um lado para o outro.
– Não sou relógio pra dar um tempo. Preciso cuidar do cenário do meu show. O novo diretor criativo estava quase finalizado e só vou poder voltar no final de semana. Isso vai te dar o que pensar. – Beijou a bochecha de Elena e bateu a porta da sala com mais força do que pretendia.
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