Notas iniciais
É uma prévia do capítulo de Natal. Boa leitura!

Elena estava deitada no colo de Damon aproveitando o momento em silêncio que não estragava nada da paz que agora reinava entre os dois.

A morena circulava a ponta dos dedos pelos traços das tatuagens que cobriam o lado direito de Damon.

– O que elas significam? – Ela murmurou.

– Isso é uma desculpa pra você me ver sem camisa?

Ela riu e levantou a cabeça para revirar os olhos.

– São as minhas músicas.

– Só? – Não era surpresa que uma das coisas mais importantes ganhassem uma marca permanente no corpo, mas as pessoas costumavam fazer tatuagens de tudo que consideravam importante.

– Nos últimos cinco anos foi tudo que tive. – Damon se mexeu parecendo sem nenhum conforto: — Você ainda tem a sua?

Não, eles não fizeram tatuagens bregas com nome um do outro no passado. No dia do aniversário de um ano de namoro eles foram ao estúdio de tatuagem – um pouco bêbados -, com a intenção de fazer tatuagens individuais. E fizeram.

O estranho é que de alguma forma elas combinavam, conversavam ou até mesmo se completavam. Elena levantou a camiseta e olhou para a tatuagem na altura das costelas e encontrou os traços que formavam um pedaço de papel e uma caneta ao lado.

Ela soube desde criança que escrever era seu dom e ter começado seu estágio na revista naquela época a incentivou com a tatuagem e de que poderia viver de seu sonho que agora era um pouquinho mais real.

Levantar a camisa de Damon e não ter vontade de tirá-la totalmente era um desafio humanamente quase impossível. Elena se controlou. Mais tarde lembraria de se vangloriar de seu autocontrole.

A única tatuagem mais afastada das outras que cobriam parte de seu torço era uma guitarra e dela saiam algumas notas musicais.

– Todas as músicas precisam de alguém para escrever. – Damon circulava a ponta dos dedos no contorno da tatuagem e a admirava. Ele cutucou a costela de Elena que apenas sorriu em resposta: — Você me inspira e o que escreve também.

Ela ficou um tempo calada.

– Estar apaixonada por você me deixa assim.

– Sua tatuagem diz muito sobre a minha. – Damon beijou a pele avermelhada onde agora estava desenhada a tatuagem.

Elena piscou várias vezes e entendeu que estava totalmente alheia. Onde essa lembrança estivera durante todos esses anos? No fundo da caixa empoeirada que ela tentava manter trancada. Nunca foi uma tarefa bem sucedida por cada vez que olhava pra David via aquele sorriso torto de Damon.

Na teoria era bem mais fácil. Na prática ela tentava apenas olhar pro Damon pai de David e não como o cara que ela havia amado. Talvez o único.

– O Natal é na próxima semana. – Ele comentou tentando parecer casual, mas Elena o conhecia bastante pra saber que tinha algo mais. – A Edna, quer dizer, minha mãe pediu pra passarmos lá. Podemos voltar logo depois.

– Sempre passo com a Bonnie, nós somos uma família. Não quero deixá-la sozinha.

– Se você quiser, posso comprar uma passagem pra ela passar com a gente.

– Eu não sei. Primeiro você teria que falar com ela também. Não gosto que qualquer coisa que eu fale você vá fazer, comprar ou me trazer. Você não tem que fazer nada disso pra mim. – Ela disparou se sentindo desconfortável com esse novo mundo de ter quase tudo à sua disposição na hora que quisesse. Pessoas normais trabalhavam e se esforçavam muito para ter um pouco e ela não achava justo.

– O que eu tiver pra te oferecer do mundo, vou te dar. Quero ver você feliz. – Damon beijou os cabelos de Elena.

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Elena não queria que Damon a acompanhasse até a escola para buscarem David. Algumas vezes na última semana ela viu fotógrafos ao redor da escola e isso estava totalmente fora da vida estava acostumada. Se vissem ela e Damon juntos com certeza seria capa da revista do dia seguinte com alguma matéria sensacionalista.

Damon era bem teimoso para lhe dar ouvido.

O sorriso de David se iluminou quando os olhos bateram em Damon encostado no carro.

– Oi. – O garoto sorriu e subiu no colo de Damon.

– Você está crescendo muito rápido. O que sua mãe te deu? – O moreno bagunçava o cabelo do filho que balançou a cabeça assim como um cachorro faria logo depois do banho.

– Toddynho. – David riu e continuou a detalhamento de seus dois dias. – A mamãe deixou eu ir no zoológico com a Jasmin. Agora tem focas e pin...pin? Aquele bichinho do gelo que é preto e branco.

– Os pinguins? Eles são muito legais mesmo. Como tá a Jasmin? – Damon virou de lado no banco do carona e prestou atenção em cada palavra do garoto.

– Hoje ela fez cupcake. Coisa de menina. – David revirou os olhos como se aquilo fosse demais pra ele. – E me deu um azul. Você quer também?

– Claro. Quando nós chegarmos em casa.

Elena ignorou o frio no estômago quando o moreno disse casa. Ele poderia ter dito na sua casa, mas agiu como se o apartamento fosse a casa deles.

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Bonnie recusou o convite de passarem o Natal juntas e disse que trabalharia e no fim da tarde almoçaria com a família do médico.

– As coisas parecem que estão finalmente dando certo pra gente.

As amigas de longa data caminhavam na área de lazer do condomínio em que Elena morava. Damon parecia mais interessado em assistir Rio com David.

– Você está gostando dele? – Elena questionou Bonnie depois de ver a amiga se envolver com caras problemáticos e terminar o final de semana no sofá com um pote de sorvete nas mãos.

– Não sei. Por enquanto eu gosto de estar com ele. É diferente e ir com pressa pode estragar tudo. – Pela primeira vez em anos ela parecia um pouco mais madura para encarar qualquer tipo de relacionamento.

– Então é só aproveitar o momento. Jantar de Natal em família hein. Sabe o que vai vestir?

– Droga! Droga! Que merda. Esqueci totalmente que preciso de uma roupa nova pra encontrar meus – talvez futuro – sogros e não tenho nada discreto. Quero causar uma boa impressão. – Ela fez questão da ênfase no talvez futuro.

A morena apenas riu do desespero da amiga e sentou no banco ao lado do parque infantil que estava vazio essa hora do dia durante a semana.

– Espera. E você? Preparada pra encarar as feras e passar o Natal com os lobos?

– Só espero não ser o jantar. Com o resto posso lidar. E também estou um pouco preocupada com o David e que talvez seja coisa demais para ele absorver. – Uma ruga surgiu entre suas sobrancelhas.

– Não acho que seja tão complexo assim. É muita coisa acontecendo, mas David parece se entender muito bem com o Damon. Já viu como os dois ficam juntos? Parece a coisa certa e vocês dois também estão juntos. Acho que o David também o ama. – Bonnie sentou no balaço de frente para Elena: — Quando vai contar pra ele?

– Ainda é muito cedo. Se der errado? Não quero confundir meu filho com meus problemas.

– Se você acha que o David não percebeu alguma coisa. O jeito que vocês estão se olhando é quase uma confissão.

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Damon não estava exatamente feliz por voltar pra casa. O lugar era exatamente como se lembrava da última vez que visitara a casa alguns anos atrás. A casa imponente e um pouco isolada ficava no fim da estrada de um condomínio luxuoso de Toronto.

As chamas crepitavam nas duas tochas na entrada casa e refletiam na água. Edna surgiu de uma porta lateral e sorriu ao notar o filho, Elena e David no primeiro degrau da entrada no jardim.

– Aí estão vocês. – Abraçar Damon foi a primeira reação que a mulher teve. Logo depois bagunçou o cabelo do filho. – Como está querido?

– Estou bem, mãe. – Damon segurou a mão de Elena. – Lembra da Elena?

– Você era só uma garota e se tornou uma mulher muito bonita. Como foi a viagem? – Edna cumprimentou Elena com dois beijos em cada do lado do rosto.

– Correu tudo bem.

– Entendo. E quem é essa menino grande?

David se escondeu atrás das pernas de Elena e encarava Edna com os olhos curiosos e desconfiados de quem poderia ser aquela mulher bem vestida e presença esmagadora.

Damon sabia que a mãe não era assim por opção e sim por costume. O jeito que ela se vestia, sorria e conversava era elegante de uma forma que fazia qualquer ser humano normalmente se sentir esmagado pelo poder de sua presença.

– Esse é o David. Meu...

Damon a interrompeu quando percebeu que ela diria meu filho.

Nosso filho. David, essa é a minha mãe. Diz oi pra ela.

– Oi.

Ele não parecia que diria algo tão cedo. Também não o culpava. Se pudesse não teria dito nada por anos naquela casa, mas dessa vez era diferente. Ele estava com Elena e David numa missão e tentaria controlar todas as lembranças ruins. Se deixasse que elas assumissem o controle acabaria tomando as mesmas atitudes que tomou no passado.

Queria fazer diferente dessa vez e talvez dar um Natal descente para o filho com uma família não tão disfuncional.

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– Eu arrumei seu antigo quarto pro David. Porque não o leva pra conhecer? – Edna disse depois de tomaram um chá no jardim nos fundos da casa.

Aquela era uma ótima ideia. O que talvez não fosse uma ideia tão boa era deixar Elena sozinha com Edna por tanto tempo. Damon não acreditava que a mãe pudesse fazer ou dizer algo ruim, mas aos primeiros encontros ela era um pouco difícil de estar perto sem se sentir desconfortável.

– Você vai ficar bem? – Damon perguntou enquanto segurava a mão de Elena.

Ela sorriu:

– Claro.

O moreno deu um beijo no rosto de Elena e saiu da cozinha.

Damon caminhou sem pressa pelo corredor imenso que passava pelo salão de jantar ou pequenas festas.

Aquilo lhe lembrava os banquetes de negócios que Joseph costumava dar e o mandava se comportar.

No segundo andar seu quarto era o último e o único que dava vista para frente da casa, ao contrários dos outros seis.

O quarto estava arrumado, perfumado e exatamente como deixou quando saiu de casa aos dezessete anos e nunca mais voltou. Nunca. Das outras vezes que visitara a casa fez questão de se hospedar em um hotel da cidade e assim poderia ver a mãe e não precisaria lidar com a casa, lembranças e com ele.

A sensação era boa. Aquele lugar estava cheio dos versos que rabiscava nas paredes. Um pôster dos Beatles. Os livros que lia na época e todo tipo de tralha que costumava atolar seu quarto de forma mais desordenada do que agora. No passado ele só permitia que entrassem para limpar o quarto uma vez por semana.

Reparou uma espécie de mural com ingressos de bandas locais que costumava ir e fotos do colégio.

– Não acredito que ainda está aqui. – Damon passava o dedo pelo ingresso da vez que foi no Leeds Festival. – Olha filho. Esse foi o melhor show da minha vida.

Ele não conseguiria conter o sorriso. Foi um dos dias mais felizes que teve na sua adolescência.

Reparou no garoto magrelo, pálido que destacavam ainda mais seus olhos azuis. Damon e Matt do passado sorriam para a fotografia que ele ao menos se lembrava quem havia tirado. Eles estavam tão bêbados naquela altura do festival que muitas lembranças estavam borradas pelo álcool.

Ele e Matt eram melhores amigos na época. Um cara engraçado que talvez fosse uma das poucas amizades que salvavam sua adolescência de ser um total desastre. E quando Damon se mudou para NY não teve o mínimo de consideração pra se despedir.

Belo amigo ele foi.

Damon estava tão distraído com a enxurrada de pensamentos que demorou pra perceber que David o olhava curioso.

– O que foi? – Ele se sentou na cama e esperou que o filho seguisse.

David sentou na cama e olhou Damon fixamente:

– Você me chamou de filho? – Sua voz infantil parecia firme agora.

– Porque sou seu pai. – Ele não tinha percebido que era a primeira vez que o chamava de filho. – Você não quer que eu chame?

O garoto passou uns dois minutos calado e balançando os pés.

– Pode sim.

Será que um dia David o chamaria de pai?

Ele esperava que pudesse merecer esse tipo de tratamento.

Notas finais
HO HO HO Feliz Natal atrasado. Espero que a passada de ano de vocês tenha sido maravilhosa porque a minha foi. Obrigada por me acompanharem até aqui. Esse ano a fic terminará (amém, né?vão se livrar de mim.) O capítulo real do Natal será o próximo. As coisas estavam se ajeitando e não teria como adiantar. Vejo vocês quando menos esperarem.