Uma Chance para Reconciliação
8 Capítulo 8
Notas iniciais
O dia seguinte correu como de costume. Ele preparou-lhe o café, preparou seu almoço também e a ajudou quando ela precisava de ajuda. O dia passou sem que acontecesse nada particularmente interessante. E então a noite chegou.
Após tomar banho, Sakura perguntou se ele podia levá-la para sala, pedido que Sasuke prontamente atendeu. Ele então a deixou no sofá próximo à lareira e lhe entregou algumas revistas para passar o tempo já que ela não estava com vontade de trabalhar com o tricô.
Só voltou na sala quando o jantar estava pronto. Dessa vez ele preparara macarrão ao molho branco e bolinhos de carne.
— Eu adoro esses bolinhos que você faz. – Comentou ela enquanto admirava as bolas de carne em seu prato – Independentemente do sabor, sempre ficam tão gostosos!
— Fico feliz em saber que gosta tanto – Sasuke sorriu.
— Depois que eu for embora, vou até pensar em te contratar como meu cozinheiro pessoal – brincou ela.
— Estarei sempre à sua disposição.
Riram um para o outro e não tornaram a se falar mais enquanto comiam. Essas brincadeiras bobas ditas sem pensar deixavam-lhes ligeiramente desconcertados.
Se fosse há algum tempo atrás, quando ainda estavam juntos, Sasuke provavelmente teria feito alguma piada tosca sobre comida envolvendo sacanagem só pra garantir sua diversão na cama mais tarde. Sakura teria emburrado a cara, fingindo impaciência ante as besteiras dele, mas no fim acabaria rindo. Já agora, sorrisos forçados e sem graça era tudo que mostravam um para o outro.
Ele recolheu tudo assim que terminaram de comer e subiu as escadas. Sakura pegou uma das revistas e começou a folheá-la monotonamente. Ela queria tanto que suas pernas melhorassem. Não aguentava mais ficar incapacitada de fazer qualquer coisa e, principalmente, odiava o fato de ser um fardo para Sasuke.
Ele então voltou para a sala e parou atrás do sofá, curvando-se pra frente, de modo que entrasse no campo de visão dela.
— Sakura, olha o que tenho aqui – Falou Sasuke de maneira animada.
Sakura virou-se para ele, olhando-o com desinteresse.
— Canetas. – Murmurou, vendo dois bastões em suas mãos – Uau, que legal.
Sasuke suspirou e deu a volta, ajoelhando-se no chão próximo a ela.
— Nossa, Sakura, você não precisa ser sempre tão seca.
Agora fora a vez dela de suspirar. Fechou a revista, olhando-o de relance.
— Desculpe. É só que... Você não sabe como é chato e frustrante ficar sem fazer nada. Estou entediada e isso me deixa de mau humor.
— É por isso que estou aqui. – Disse ele sorrindo – Para colorir a sua vida!
Ele então enfiou as canetas no nariz e fez uma careta. Sakura, que tentava não rir, acabou não conseguindo se segurar.
Sasuke retirou as canetas do nariz e entregou uma a ela.
— Você fica com a preta. Dessa vez a rosa será minha.
— Hm... – Murmurou ela, limpando a caneta no sofá – E o que faço com isso?
— Vamos escrever no seu gesso, ora. – Falou ele como se fosse óbvio, começando a riscar-lhe a perna logo em seguida.
— Sasuke, não! – Ela tentou puxar a caneta de sua mão – Ei!
— Está tudo bem, Sakura. É legal, você deveria tentar também.
Sakura mordeu o lábio inferior e relaxou o corpo, encostando-se ao sofá. Ela não desenhou, apenas o observava. Sasuke desenhava uma bonequinha de cabelos curtos.
— Essa é você, Sakura – Anunciou ele.
— Poxa, eu não sou assim tão feia! – Reclamou ela vendo o desenho.
Sasuke sorriu de canto e voltou a desenhar. Afastou-se assim que terminou. Agora havia desenhado um cachorro cheirando uma flor. Ou era o que ele pensava ser. Suas habilidades com desenho não eram as melhores.
Repentinamente ele então pegou a mão dela, apoiando-a no gesso.
— Desenhe! – Ordenou.
A rosada suspirou e apoiou a caneta no gesso, riscando um traço tímido. Retirou a caneta logo em seguida. Poucos segundos depois ela tornou a riscar, no entanto, não desenhou. Escreveu a frase "quero ficar boa logo".
Sasuke virou a cabeça de lado para poder ler o que ela havia escrito.
— Oh, hm... – Murmurou ele – Tudo isso é pressa pra se livrar de mim? Ok, entendi.
— Não é isso. – Falou ela rindo – Eu só quero poder voltar a andar com minhas próprias pernas.
Ele assentiu, também rindo, voltando a riscar o gesso. Dessa vez não desenhou, escrevera uma frase também. "Eu gosto de cuidar de você e não me importaria em continuar a fazê-lo, independentemente do tempo que levasse".
Sakura sorriu e escreveu "obrigada, mas não gosto de incomodar".
"Você não incomoda. Na verdade, eu adoro o fato de poder te ver todo os dias, mesmo que seja apenas para te ajudar na sua recuperação".
Sakura arregalou os olhos. Se manteve imóvel por alguns instantes e por fim escreveu "sinto falta do seu sorriso". Essa frase soava ligeiramente tola visto que Sasuke estava sorrindo pra ela a todo instante. Mas ele provavelmente não percebeu o que ela realmente queria dizer com aquilo.
O Uchiha estava a um passo de escrever "e eu sinto falta de você", porém se refreou, escrevendo "vou sorrir pra você há cada minuto".
Assim que finalizou a frase, virou-se para ela, exibindo seu sorriso de canto que ela tanto adorava. Sakura não se conteve e sorriu de volta. Ela então riscou o gesso, escrevendo "obrigada".
Sasuke voltou a desenhar. Desenhou uma nova bonequinha, acrescentando uma saia, cabelo curto e duas bolinhas minúsculas representando os seios. Sakura deu-lhe um tapa de leve e ele riu.
— Me empreste a preta, por favor – Pediu ele.
Ao lado da boneca, próximo o suficiente para ficarem de mãos dadas, ele desenhou um boneco. Desenhou nele apenas calça. Em seguida desenhou um sol e grama ao redor. Assim que terminou, afastou-se um pouco.
— O que é isso? – Sakura perguntou.
Ele riu e falou, olhando-a diretamente nos olhos:
— Somos nós, Sakura. Vamos andar pelo campo depois que você melhorar.
Sakura abriu a boca em formato de “o” e em seguida sua expressão se suavizou num sorriso trêmulo. Estava segurando a vontade de chorar.
— Você promete? – Perguntou ela.
— É uma promessa.
Enquanto se falavam, inconscientemente iam aproximando um do outro.
— E se... – Ela sussurrou curvando-se um pouco mais para frente – ... você se esquecer?
— Eu não vou – Sussurrou ele de volta.
— Vamos caminhar por um campo... – Ela lhe apertou a mão levemente. Estavam agora há poucos centímetros de distância e seu rosto bem próximo ao dele – ... bem grande e verde.
— Sim. – Sasuke apoiou a outra mão no sofá, aproximando seu rosto do dela ainda mais – Só nós dois.
Estavam agora tão próximos, que era possível sentir a respiração quente e acelerada um do outro. Faltava pouco mais de cinco centímetros para os lábios se encontrarem.
— Nós dois... – Ela repetiu, fitando os lábios entreabertos dele.
Um beijo, claramente almejado por ambas as partes, estava perto de se concretizar. Não havia nada que pudesse impedi-los.
E então o telefone tocou. O barulho fez Sakura se assustar, afastando-se dele bruscamente. Ela o olhou com o ar alarmado, desviando os olhos em seguida.
Droga! Sasuke emitiu um suspiro pesado e levantou-se do chão, indo até o insistente aparelho. Sentiu uma enorme vontade de chutar alguma coisa.
Sozinha na sala, a rosada colocou uma mão sobre o peito enquanto respirava profundamente tentando se acalmar. Onde estava com a cabeça? Havia se deixado levar e quase o beijou. Oh, Deus, não. Onde estava seu autocontrole e pulso firme?
— Era sua fisioterapeuta – Sasuke repentinamente falou.
Ele, que havia encerrado a ligação, parou atrás do sofá. Sakura deu um pulo ante o susto que levou.
— Me pergunto por que ela não ligou mais cedo... – Murmurou ele dando a volta e assentando-se no lado aposto do sofá – Ela pediu pra avisar que o horário da sua consulta mudou. Geralmente é 08h30, mas amanhã será às 09h30.
— Oh, sério? Que bom! Mais tempo pra eu dormir – Ela forçou uma risada.
Ficaram então em silêncio. Sakura mantinha os olhos baixos enquanto mexia os dedos discretamente, ação que denunciava seu nervosismo. Parecia uma adolescente boba e apaixonada prestes a dar o primeiro beijo.
Sasuke colocara o cotovelo no sofá, apoiando a cabeça sobre o punho fechado enquanto a observava pelo canto do olho. Repentinamente ela falou:
— Uh, Sasuke... Será que você pode me levar para o quarto? Eu... Hm, pretendia dormir...
Ele, que acendera a chama da esperança no momento em que ela lhe chamou, ficou ligeiramente frustrado, mas assentiu.
— Claro, Sakura – Falou ele levantando-se e pegando-a nos braços.
Subiu com ela e a colocou na cama. Ela imediatamente se virou, dando as costas para ele. Sasuke suspirou, desejou-lhe boa noite e saiu.
Nenhum dos dois dormiu, ao menos não de imediato. Ficaram pensando no que ocorrera na sala minutos antes. O que teria acontecido se de fato tivessem se beijado? Teria sido um passo em direção a uma possível reconciliação entre eles? Sasuke teria tentado algo mais além de um simples beijo? Apesar do estado de suas pernas, Sakura não tinha certeza se conseguiria dizer "não" caso ele tentasse avançar.
Perguntas, perguntas... Perguntas as quais não teriam respostas já que nenhum dos dois sequer voltou a tocar no assunto. Mas ambos tinham certeza de uma coisa: não seria mal se tivessem se beijado.
****
Por volta de 07h50, Sasuke acordou. Fez sua higiene matinal e se arrumou, indo ao quarto de Sakura logo em seguida.
Ela estava em um sono tão profundo que demorou um pouco para acordar. Após sacudi-la algumas vezes, Sakura finalmente despertou. Ela não havia dormido bem, estava bem letárgica e com os olhos inchados.
Sasuke entregou-lhe a roupa que ela pediu, desta vez seria um vestido vermelho de mangas — ela sempre ficava tão bem de vermelho -, e desceu para a cozinha, levando a cadeira de rodas consigo.
Descascou algumas laranjas para o suco. Enquanto o liquidificador fazia seu trabalho, tornou a subir. Pegou a rosada nos braços e a levou para a cozinha.
— Uh, não precisava se preocupar em fazer tanto suco. – Falou ela vendo a quantidade de líquido que ele despejou na jarra – Na verdade, se não se importar, eu queria cereal com leite...
— Oh, claro que não me importo, Sakura. – Sorriu ele, soltando a jarra – Como quer o leite? Frio? Quente?
— Morno está bom.
Sasuke preferiu ovos mexidos e o suco.
Eles não se falaram muito. Sakura sempre tinha o humor ruim quando dormia mal, então Sasuke preferia não incomodar. Além de que tinha receio de mencionar o ocorrido da noite anterior e deixá-la desconfortável, ou pior, irritada com ele.
Deixaram a casa assim que terminaram o café. Era cerca de 08h20 e o trânsito já estava começando a se agitar. Seria bom se apressar ou então ficariam presos nele.
Sakura, como de costume, mantinha o rosto virado para janela, no entanto, dessa vez não era para evitá-lo. Estava com sono, então aproveitou para dormir no trajeto.
Chegaram ao consultório por volta de 09h10. Sasuke acordou Sakura e a colocou na cadeira, indo para a sala de espera. Tinham ainda cerca de vinte minutos até a consulta programada.
Ele então se levantou, ficar sentado ali era tedioso demais.
— Aonde vai? – Perguntou Sakura.
— Uh... – Sasuke se espreguiçou – Ainda está cedo pra sua consulta e ficar aqui parado é bem tedioso... Vou lá fora, ou algo assim.
— Quero ir também – Falou ela prontamente.
— Mas, Sakura, se te chamarem você não vai estar aqui e...
— Ainda está cedo, você mesmo disse – Sakura cruzou os braços bastante decidida.
Sasuke suspirou rendido, passando a mão pelos cabelos e sorrindo levemente. Ele sempre perdia para ela. Empurrou-lhe então a cadeira para a primeira saída que viu. Na verdade, não era uma saída, era uma porta que dava acesso à uma sacada.
Havia um banco ali e uma pequena flora, dando vida ao local. O sol batia diretamente no banco, então era óbvio o motivo de o terem posto naquela posição.
Sasuke, no entanto, não se assentou. Empurrou a cadeira de Sakura próxima a grade da sacada e debruçou-se em seguida. Ficaram em silêncio apenas aproveitado os fracos feixes de luz que os atingiam e o canto dos pássaros. Sakura até estranhou o fato de ele ter se mantido em silêncio. Parecia bem imerso em pensamentos...
— Sasuke, você... Você está bravo comigo? – Sakura só se deu conta da pergunta depois de tê-la feito – Uh, quero dizer...
Ele então virou-se pra ela, fitando-a como se não entendesse o porquê da pergunta.
— Por que estaria, Sakura?
Sakura mordeu o lábio inferior antes de responder. Ela se odiava internamente por ter-lhe feito aquela pergunta.
— Você está quieto hoje... Você está sempre puxando assunto, tentando me animar, mas hoje está bem... Distante. E também, uh, você sabe... O divórcio... Geralmente as pessoas guardam mágoa do cônjuge quando se separam e essas coisas... Tsc, não sei nem porque estou falando disso. Deixa pra lá.
Sasuke, que ouvia a tudo, começou a rir. Uma risada tão gostosa que chegou a formar covinhas ao redor de seus olhos. Oh, como Sakura adorava aquilo.
— Claro que não, Sakura. – Falou ele com voz branda – Só é... diferente... toda essa coisa da separação e tudo mais. Eu sinto mágoa, mas não de você e sim da situação. Porque, veja, estivemos juntos por tanto tempo... E então de repente tudo desmoronou. Mas eu entendo e respeito a sua decisão. Só leva um pouco de tempo para... adaptar. – E então ele se virou de perfil, de modo que evitasse olhá-la nos olhos, falando em seguida: – Além do mais, mesmo que eu quisesse — e até tentasse — sentir raiva, eu não conseguiria. Eu... Eu definitivamente não consigo ter esse tipo de sentimento por você.
Sakura mantinha as mãos sobre a boca numa tentativa de reprimir os soluços. Droga! Por que Sasuke tinha que ser assim? Por que sempre falava a coisa certa no pior momento possível?
Ele então tornou a virar-se pra ela, fitando-a com aqueles olhos tão negros, como se sondassem o fundo de sua alma.
— Eu não posso te culpar, na verdade. – Falou por fim – Tenho uma enorme parcela de culpa nisso tudo também.
A rosada sequer teve tempo de se pronunciar, pois naquele mesmo instante a recepcionista apareceu na porta da varanda, informando que sua sessão já iria começar.
Passou a mão pelos olhos discretamente, escondendo as lágrimas que estavam a um passo de rolar, e se permitiu ser levada para dentro.
****
Como nas vezes anteriores, Sasuke não entrou no consultório. Ele pensou ter visto Sakura relutar por alguns instantes antes de entrar, como se quisesse dizer algo. No entanto, nada aconteceu. A enfermeira de sempre empurrou sua cadeira e ela desapareceu porta adentro.
Talvez fosse só sua imaginação.
Sentado na sala de espera, Sasuke pensava sobre como aqueles dias correram rápido. Sakura parecia tão melhor desde que fora buscá-la no hospital... Ele sentia que ela estava se recuperando rápido. Mais rápido que o convencional, talvez.
Isso o deixou bastante contente. Estava feliz por saber que ela estaria boa em breve. O bem-estar de Sakura era o que mais lhe importava. Ao mesmo tempo, se sentia bem agoniado também. Ela logo partiria, assim que estivesse capaz de andar novamente, voltaria à sua vida. Sua vida sem ele.
Mas o que ele podia fazer afinal? Eles já haviam "colocado tudo em pratos limpos", já haviam esclarecido todos os mal-entendidos sobre a relação deles, e nada mudara desde então. Sasuke devia era aceitar de uma vez que ela não o queria mais.
Ou então, quem sabe devesse falar com ela? Falar sobre o quanto ela lhe era importante, sobre o quanto a amava — dessa vez com todas as letras — e sobre o quanto ela o fazia feliz? Ele não queria vê-la partir mais uma vez sem ao menos tentar impedi-la.
Sasuke enfiou as mãos no cabelo, bagunçando-o furiosamente. Sua mente fervilhava. Deveria falar com ela? Ou deveria deixar pra lá e cada um de fato seguir a sua vida?
Mas eles estiveram juntos por quatro anos. Deveria jogar fora toda sua vida, suas lembranças e momentos bons com ela sem ao menos tentar mais uma vez?
— Ok, eu vou falar com ela! – Gritou ele, colocando-se em pé.
A recepcionista o olhou assustada, o que fez com que Sasuke se encolhesse. Pediu desculpas e tornou a se assentar.
Bem, o "não" ele já tinha sem ao menos tentar. Sim, deveria arriscar. Sakura lhe era importante demais, valia o "risco".
****
— Sr. Sasuke, poderia me acompanhar? A dra. Tsunade quer lhe falar por alguns instantes.
A enfermeira que auxiliava nas sessões de Sakura havia ido até a sala de recepção chamá-lo. Sasuke assentiu e prontamente a seguiu.
Pela primeira vez pôde entrar no consultório. Mas não passou dali. Havia uma segunda porta, provavelmente a entrada de um ambiente mais amplo onde os pacientes podiam fazer os exercícios, mas se encontrava fechada.
Tsunade estava sentada à sua mesa enquanto conversava com Sakura, a qual tinha sua cadeira parada próxima a ela.
— Sr. Sasuke! – Tsunade cumprimentou polidamente ao vê-lo passar pela porta.
Sakura virou-se na direção dele, sorrindo-lhe levemente. Por mais que tentasse esconder, ela sempre ficava muito feliz por vê-lo. E queria que tivesse sido assim agora também. No entanto, dessa vez não houve tempo para fechar a cara e fingir indiferença. Ela já deveria saber que a primeira coisa que ele faria ao entrar seria procurar por ela.
E foi exatamente assim.
Assim que passou pela porta, aqueles olhos profundamente negros imediatamente focaram nela. Diferente de Sakura, ele não tentava disfarçar o quão feliz ficava a cada vez que a via. Ele então lhe sorriu antes de responder a fisioterapeuta.
— Por favor, me chame apenas de Sasuke. – Ele riu de forma educada – Acho que não precisamos de tanta formalidade.
— Oh, tem razão – Assentiu ela fazendo um gesto com as mãos, convidando-o a se sentar na cadeira próxima à sua mesa.
Sasuke prontamente aceitou o convite.
— Então... – Começou Tsunade – Pedi para chamá-lo porque tenho uma pequena tarefa para o senhor.
— Claro.
— Que gracinha, tão prestativo. – A fisioterapeuta riu – De qualquer modo, as pernas de Sakura têm feito um progresso muito bom em relação a cicatrização — um progresso inacreditável, eu diria -, por isso pedi para que voltassem antes do previsto. Retiramos a imobilização da perna direita dela.
O rapaz de cabelos negros então se virou para Sakura, olhando suas pernas. A perna direita se encontrava livre agora. Ela tinha o pé tão pequeno e delicado.
— E é aí que você entra, Sasuke. – Tsunade completou – Quero que você ajude sua esposa com alguns exercícios simples. Como ela esteve se locomovendo durante esses dias?
— Quando não estava na cadeira de rodas, eu a carregava nos braços.
— Além de prestativo é cavalheiro. Que sortuda, Sakura – Brincou a fisioterapeuta.
A rosada corou levemente, sorrindo de modo acanhado e desviando os olhos.
— Imagine, não era trabalho algum. – Sorriu ele, olhando Sakura de relance – No que eu puder ajudar...
— Sobre isso – Retomou Tsunade –, como eu disse, quero que você ajude Sakura com alguns exercícios. Não é nada pesado, obviamente, mas vamos tentar, gradativamente, excluir a cadeira de rodas da rotina dela. E o fato de ser carregada também. Se ela tiver que, por exemplo, ir à cozinha, quero que você seja o suporte dela, mas não quero que a pegue no colo. Esteja lá para apoiá-la e ajudá-la caso precise. Aliás, encomendei muletas para ela, então ela terá essa “perna extra” além do seu apoio.
— Claro! Com certeza – Falou ele prontamente.
— E ainda – Tsunade continuou –, precisamos estimular as pernas delas, devolver o hábito de andar, de se equilibrar sozinha... Por isso quero também, Sasuke, que você saia com ela todos os dias e a ajude com caminhadas curtas. Não precisa ser em longas distâncias, no quintal de casa é suficiente. O importante é que ela se esforce ao menos um pouquinho por dia.
Tsunade então se levantou de sua cadeira, dando a volta na mesa. Pegou um par de muletas encostadas à parede e entregou a Sakura.
— Se tudo correr bem, na semana que vem, quando vocês voltarem nós vamos tirar o gesso da perna esquerda. Não digo que será fácil, mas posso contar com seu esforço, Sakura? – Perguntou ela olhando solidariamente para a rosada.
Sakura assentiu sorrindo levemente. Despediram-se e deixaram o consultório.
A Uchiha tinha as muletas apoiadas horizontalmente sobre as pernas enquanto Sasuke empurrava sua cadeira em direção ao estacionamento. Repentinamente ela falou:
— Minha fisioterapeuta estava dando em cima de você ou é apenas impressão minha?
— Oh, ela estava? – Perguntou Sasuke rindo – Eu nem raparei.
Sakura inclinou a cabeça para trás levemente, fitando-o com um ar de dúvida. Murmurou um "hm..." e voltou a se assentar corretamente na cadeira.
Não, Tsunade não estava fazendo isso. O que havia ali era o ciúmes disfarçado de Sakura. Mas mesmo que a fisioterapeuta estivesse, Sasuke realmente não teria reparado.
Ele não conseguia ter olhos pra mais ninguém quando Sakura estava por perto.
****
Naquele mesmo dia, Sakura pôs-se a trabalhar na sua recuperação.
Assim que chegaram em casa Sasuke deu a volta no carro, abriu a porta e esticou os braços para poder pegá-la.
— Não. – Ela empurrou as mãos dele – Nada de me carregar, esqueceu?
— Oh, é mesmo. – Ele riu e pegou a cadeira de rodas – Eu só vou guardar sua cadeira e já volto pra te ajudar.
Sasuke entrou com a cadeira e voltou instantes depois. Pegou as muletas no banco traseiro e parou à porta do passageiro a espera de Sakura. Com certo receio ela lhe estendeu a mão direita, a qual ele prontamente segurou.
Respirou profundamente e, com certo esforço, colocou a perna agora livre para fora do carro, apoiando-a lentamente no chão. Repentinamente sorriu orgulhosa, o qual se tornou numa risada alegre e melodiosa.
Sasuke quase teve uma síncope. Fazia tempo que não a ouvia rindo. E ele adorava presenciar aquilo, aquela risada alegre e tão melodiosa. Não se conteve em sorrir ao vê-la tão radiante.
Ainda rindo, ela só fazia encarar a própria perna como uma criança a encarar um brinquedo novo — e era quase isso.
— Sakura… – Chamou ele – Você...
Ela de imediato ergueu os olhos para ele, olhos alegres e entusiasmados.
— Oh, claro. Por favor, me ajude a ficar em pé.
Ligeiramente receosa, Sakura colocou certa força na perna direita, forçando-se a se levantar. Após alguns segundos, com a perna trêmula, ela conseguiu ficar ligeiramente em pé. E no instante seguinte desequilibrou-se, indo de encontro ao chão.
Ou foi o que pensou. Sasuke, que em momento algum soltara-lhe a mão, segurou-a antes que caísse.
— Você está bem? – Perguntou ele com certa preocupação na voz.
Com os olhos ligeiramente arregalados pelo susto, Sakura balançou a cabeça em afirmativa.
— Talvez essa seja uma boa hora de usar a muleta – Sugeriu ele ajudando-a se sentar novamente no banco do carro.
— Eu não poderia ter sugerido ideia melhor – Ela emitiu uma breve risada envergonhada.
O Uchiha então lhe entregou uma muleta, a qual ela pegou com a mão esquerda.
— Eu... Eu vou tentar mais uma vez – Sakura apertava a mão dele com força como se tivesse medo de soltá-lo e cair novamente.
— Leve o tempo que precisar – Falou ele de maneira encorajadora.
A rosada suspirou profundamente, posicionou a muleta e novamente fez um esforço para erguer-se. Dessa vez Sasuke a puxou levemente, ajudando-a no “pontapé inicial”.
No instante em que se viu de pé, um enorme sorriso brotou nos lábios de Sakura. Virou-se para Sasuke rindo animada e orgulhosa.
— Eu consegui! – Anunciou ela – Querido, eu consegui!
Sasuke arregalou os olhos levemente. Ele podia jurar que as batidas de seu coração falharam por alguns instantes quando ela o chamou daquela maneira. O mesmo tratamento carinhoso que ela normalmente usava quando ainda estavam bem. Sakura provavelmente não notou, afinal falara no calor do momento, mas ele não deixou de reparar.
— Sim, você conseguiu! – Falou ele igualmente animado.
Sakura permaneceu pelo menos um minuto encarando o próprio pé e sacudindo a mão dele tamanho era seu entusiasmo.
— Vamos entrar! – Ela repentinamente anunciou – Sinto como se pudesse dar a volta ao mundo apenas caminhando!
— Com certeza você pode! – Sasuke riu – Acho que hoje não, mas com certeza amanhã. – Fechou a porta do carro – Pronta?
— Pronta!
O percurso da garagem até a porta de entrada, que levava pouco mais de trinta segundos, foi feito em quase cinco minutos em meio a cambaleadas e osciladas. Por sorte, Sasuke era paciente e a incentivava a todo instante, sempre agindo como suporte caso ela precisasse.
Já dentro de casa, ela parou ao pé da escada. Encarava-a como se fosse um desafio impossível demais.
— Acho que não vou conseguir. – Sussurrou Sakura – Você pode me carregar?
Sasuke a olhou surpreso. Não esperava que ela fosse desistir.
— Mas sua fisioterapeuta disse...
— Ela não precisa saber. – Encarando o chão, ela pediu. Dessa vez parecia implorar – Por favor.
— Claro...
O homem de cabelos negros então tomou-lhe a muleta, apoiando-a na parede, e a pegou nos braços, subindo com ela em seguida. No instante em que a colocou na cama, ela se virou, dando-lhe as costas. Sasuke havia aprendido que não deveria insistir quando sua esposa ficava em silêncio ou dava-lhe as costas.
Deixou então o quarto, fechando a porta atrás de si.
****
Sasuke não voltou ao quarto dela pelo restante da manhã. Passou o restante do dia trabalhando em seu computador, parando apenas para preparar o almoço. No entanto, esteve sempre atento caso ela o chamasse precisando de algo, o que não aconteceu.
Por volta de 12h40 ele subiu com a bandeja do almoço.
— Oi – Cumprimentou ele.
Sakura estava encostada à cabeceira da cama trabalhando numa nova peça de tricô. Ergueu os olhos e sorriu quando o viu.
— Oi – Respondeu ela soltando as agulhas.
— Trouxe seu almoço. Já está com fome? – Sasuke apoiou a bandeja sobre o colo dela – O cardápio de hoje é sopa de tomate. Coloquei também alguns pedaços de pão, caso queira.
Ele então se assentou na sua cadeira usual.
— Desculpa não ter feito algo mais decente. – Pediu ele vendo-a molhar um pedaço de pão na sopa – Eu estive bem atarefado hoje com um trabalho de programação que estou fazendo.
— Está tudo bem, não há pelo que se desculpar. – Sakura sorriu levemente – Muito obrigada, Sasuke.
Ficaram então em silêncio por alguns segundos.
— Acho que não vou conseguir… – Murmurou ela repentinamente – Voltar a andar.
— Claro que vai. – Sasuke riu de maneira incrédula – Por que está dizendo isso?
— Você viu. Eu sequer consegui colocar o pé no primeiro degrau…
— Não seja tão dura consigo mesma, Sakura. Hoje foi só a primeira tentativa. Nós podemos tentar amanhã de novo e de novo.
Sakura tornou a ficar em silêncio, misturando sua sopa distraidamente. Repentinamente ergueu os olhos fitando-o.
— Muito obrigada. – Falou ela com um leve sorriso – De verdade.
— Sempre que precisar. – Falou ele levantando-se – Uh, eu tô um pouco ocupado hoje, então já vou descer, mas se precisar de algo é só chamar.
Sakura assentiu, levando a colher à boca mais uma vez, e Sasuke então deixou o quarto.
Pelo resto do dia ele também não voltou, ela tampouco o chamou. À noite, por volta de 19h00, ele voltou para ajudá-la com o banho antes de servir o jantar.
Ele lhe estendeu a mão para auxiliá-la a se levantar da cama. Um tanto temerosa, Sakura segurou a mão dele e com a outra mão segurou a muleta. Levantou-se em seguida, embora ainda sentisse sua perna trêmula.
— Um passo de cada vez. – Disse ele caminhando ao seu lado em direção ao banheiro – Viu? Eu disse que você iria conseguir.
A rosada riu levemente e assentiu com a cabeça, ainda se esforçando na breve caminhada. Como já vinha acontecendo há alguns dias, ele a esperou do lado de fora enquanto ela tomava banho. Terminado o banho, Sasuke estendeu-lhe a mão para ajudá-la a caminhar de volta para a cama.
— Você pode me carregar? – Pediu ela – Eu... Acho que já me esforcei muito hoje, me sinto cansada.
— Oh, claro... – Falou ele, pegando nos braços logo em seguida.
Colocou-a de volta na cama e pegou a bandeja que deixara lá no horário do almoço.
— Só não conte à sua fisioterapeuta, ok?
— Minha boca é um tumulo – Sakura passou dois dedos sobre a boca como se fingisse que um zíper fechava seus lábios.
Sasuke riu e caminhando pra fora do quarto. Voltou uma hora depois com o jantar, mas naquela noite não se falaram muito durante a refeição. Nada além do trivial.
O Uchiha perguntou se ela gostaria de tentar caminhar pelo quarto um pouco, no entanto, Sakura recusou dizendo-se cansada. Ele não insistiu.
Deixou o quarto, voltando aos seus afazeres, e não votaram a se falar mais naquele dia.
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