Uma Chamada de Socorro
2 Capítulo 1 - O Chamado
Notas iniciais
Osaka, 19 de janeiro de 2015.
Eu me lembro de cada detalhe: quando e como tudo começou. Foi um dia comum de trabalho, apesar de sempre enfrentar a rotineira dificuldade de alcançar meus pacientes num diálogo amigável, a fim de aliviá-los de suas cargas por enfrentar o que vulgarmente se chama de “mundo cruel”. Só que havia algo em Inari que fazia com que a barreira que tínhamos no início das consultas – a qual eu achei que já tivéssemos superado – se reerguesse mais espessa e impenetrável. Ele estava mais evasivo que usualmente e mais quieto também.
— Como foi seu final de semana, Inari? – disse me sentando ao seu lado no sofá azul Oxford. Meu consultório é simples, porém aconchegante e bem pensado desde a fachada. Tudo para torná-lo receptivo e confiante. Tudo para deixá-lo com cara de qualquer coisa, menos como a de uma clínica. Mas Inari estava resistente e eu percebi a força que ele fazia para conter as lágrimas.
Após alguns meses da perda do pai, – um policial respeitado que sofreu um latrocínio – sua mãe o trouxe, pois havia se tornado um garoto solitário e pessimista. Na primeira consulta ele não falou comigo, mas permiti que ele escutasse suas músicas favoritas sem os costumeiros fones de ouvido, onde tive minha primeira pista de um possível Transtorno Depressivo Maior. Sua mãe havia me dito que ele sempre fora um garoto difícil, e agora na puberdade estava pior, mesmo antes do falecimento do pai. Ela me contou que Inari estava sempre irritado e distante, e tinha um péssimo relacionamento com seu progenitor, alegando que este trabalhava muito e não ligava para a família, o que infelizmente é um problema muito recorrente aqui no Japão. O excesso de trabalho.
Entendi que na verdade Inari sentia um pesar extremo por ter desvalorizado o pai em vida e ter tido a compreensão de que ele trabalhava tanto em prol do bem-estar da família. Certo ou errado, aquela era a verdade, e Inari, lamentavelmente a captou tarde demais. Eu o diagnostiquei com Transtorno de Personalidade Anti-Social, onde o quadro de depressão foi agravado devido a este último acontecimento. Só que já fazia um ano desde a morte de seu ente querido, e seis meses que ele tinha consulta comigo; Naquele momento me questionei onde estava o progresso que havíamos tido até então.
Ele encolheu os ombros e não me respondeu. Percebi que tremia excessivamente.
— O que houve? – perguntei calma ao ver as primeiras lágrimas caírem. Era raro ele não se emocionar nas consultas.
Ele mexeu a cabeça em negação, como se falasse algo consigo mesmo e eu o assisti lendo seu corpo carente e temeroso.
— Tenten-san... Você... Você acredita... – falava com a voz embargada, tentando conter o choro para não gaguejar. – Você acredita em vida após a morte?
Eu não acreditava, e é complexo dizer exatamente no que creio agora. Mas naquele dia, para aquela pergunta, a resposta era não. Todavia, eu não a disse.
Deduzi aonde ele queria chegar e tentei ganhar tempo elaborando uma resposta imparcial.
— Hum... É uma boa pergunta... – coloquei o indicador nos lábios simulando uma expressão pensativa. Inari me encarou curioso por uma resposta e eu me lembro bem da sua expressão suplicante. Ele queria que a resposta fosse sim. – No que você acredita?
Aproveitei a porta que ele abrira para um diálogo para tentar descobrir o que havia com ele. Porém Inari apenas abaixou a cabeça e murmurou um “eu não sei”. Estava mais perdido do que quando o conheci.
Eu sempre fui uma péssima profissional, daquelas que se envolve intensamente com os casos que lida, porém, não obstante, absorve em grande parte a dor dos pacientes e, nas horas vagas, gosta de tomar um vinho barato para aliviar a sensação de impotência. Patético, não?
Sentei-me na mesinha de centro e me inclinei pra ele, fitando-o serena.
— Quer saber? Eu acredito sim. – sorri, tentando parecer o mais convincente possível. Inari enxugou as lágrimas com as mangas da blusa de moletom que sobejavam escondendo suas mãos.
Ele fungou e manteve a expressão séria de sempre.
— Fomos no cinema. – respondeu minimamente. Fiz uma expressão confusa e ele continuou – Você perguntou como foi meu final de semana.
— Ah sim, exato! – me levantei e fui até o armarinho no canto da sala pegando alguns salgadinhos de lá. Ele se tornava mais receptivo enquanto comíamos e conversávamos, porque não me enxergava mais tanto como uma psicóloga, mas como uma colega.
Medindo as palavras de maneira sempre monossilábica, a consulta fluiu com ele me contando sem animação como foi sua semana, o que fez, como se sentia etc. Percebi que a barreira de antes era apenas ilusória, e a vi se desfazer no momento em que menti para ele, dizendo o que ele gostaria de ouvir. Eu mal sabia que aquela tinha sido a pior resposta que poderia ter dado naquelas circunstâncias.
Só que eu percebi duas coisas naquela noite: a primeira era que aquela projeção estranha na minha mente estava real demais, como um sonho lúcido; a segunda era que tinha algo estranho com Inari. Meu erro foi desconsiderar as duas ideias. Vou explicar melhor.
Eu moro sozinha em um apartamento pequeno, mas que tem o seu encanto, com uma vista linda no meu quarto para a cidade iluminada durante a noite.
Depois de algumas taças de vinho, — confesso que tenho um hábito de beber vinho como se bebe água – ao invés de me sentir mais alegre e risonha como era de costume, senti um sono pesado e fui me deitar mais cedo. Tentei considerar que por estar um tanto ébria pudesse estar tendo algum tipo de ilusão ou algo do gênero, mas a recorrência dos fatos me fez aceitar que meu estado alcoolizado não se transportava para os sonhos. É óbvio, mas eu me apegava a isso para não compreender aquilo como real ou como uma esquizofrenia.
Lembro-me que dormi rápido, e de repente senti a grama acariciar meus pés. Foi o tempo de abaixar o olhar para encará-los e erguê-lo de volta ao céu que percebi a paisagem extraordinária de um jardim tomar forma ao meu redor. Até hoje, toda vez que sonho com o Éden, me sinto deslumbrada, e a maior de todas as blasfêmias seria tentar descrever aquele lugar com meras palavras humanas. Perdoe-me, mas é impossível. Simplesmente não dá.
A única coisa que posso usar para relatar aquela visão sobrenatural é a sensação extrema de paz. Uma paz que inunda, transborda, preenche e satisfaz toda a alma. Aquilo era demais, era tremendo e me fazia querer ficar ali pra sempre. Eu descobri o que significa a palavra plenitude, pois é assim que me sinto lá. Plena.
Foi quando o avistei a poucos metros de mim. Sentia-me tão fascinada que demorei a perceber a presença dele ali, paciente, com um sorriso mínimo desenhado sobre a expressão serena. Tinha os olhos perolados, incomuns; os mais lindos que já vi na vida. Vestia branco; eu não via tecido ou formas precisas, eu só via o branco que reluzia sem ferir minhas vistas. Os cabelos acastanhados escorriam lisos por seu largo tronco, alcançando sua cintura. Tinha a pele impecavelmente clara e uma marca na testa.
Acostumando-me a sensação da perfeição, tive vontade de abraçá-lo, mas a visão maravilhosa me mantinha estarrecida. Senti uma bondade emanando dele e logo me simpatizei com sua figura.
— Olá, Tenten. – sua voz parecia um sussurro. Eu puxei o ar com leveza e suspirei com calma e satisfação. Quão bom era estar ali.
Eu não conseguia desviar o olhar dos olhos dele. Aquele foi o primeiro momento em que temi acordar.
— Oi... – o olhei esperando uma resposta e ele completou:
— Meu nome é Neji.
Seu sorriso em uma linha fina não deixava em nenhum momento o rosto doce que tinha. Que tem.
— Onde estamos Neji? – franzi de leve o cenho, desprendendo meus olhos dele para fitar aquele jardim, que é o que encontrei de mais próximo no nosso vocabulário para me referir aquela miragem maravilhosa.
— Aqui é o Éden, Tenten. Creio que já ouviu falar deste lugar.
— Éden? O paraíso? – ele apenas assentiu. Ocorreu-me uma ideia e, sem peso algum na voz o questionei mais uma vez – Eu morri?
— Não. Você está aqui por que tenho uma mensagem para lhe entregar.
Sem que ele desse mais detalhes, obtive a convicção de quem era O Remetente. Alguém que eu nunca havia crido na existência queria falar comigo e senti que, por existir um obstáculo que eu mesma criara, Ele não o faria “pessoalmente”, como sei que Ele faz nos dias de hoje.
A todo o momento eu sentia o que descrevemos como “em paz” e “feliz”. Eu queria sair dançando por toda aquela “campina”, saltando e correndo. Eu queria voar e tive a convicção de que ali eu o poderia fazê-lo. Não havia limites naquele lugar.
— Aqui será o nosso ponto de encontro. Mas o que tenho para te mostrar não pode ser compreendido aqui. – ele se virou de costas me olhando de soslaio. – Vem.
Eu o segui relutante vendo a imagem sumir com sopros do vento. Caminhamos um pouco e ele subitamente parou. Estávamos num quarto pequeno e escuro, mas eu conseguia distinguir os móveis e a figura de Inari encolhida entre o canto da parede e a cômoda. Ele tinha a cabeça entre os joelhos e puxava os próprios cabelos, corroído por fúria. Naquele momento, saí completamente do meu estado extasiado de segundos atrás e senti toda a fúria e tristeza que Inari exalava em frenesi.
Caí de joelhos chorando copiosamente e entendi que eu jamais poderia me compadecer com a dor dele se ainda estivesse no Éden. O esplendor daquele lugar não me permitiria sentir nada que fosse ruim ou que me fizesse mal.
— É assim que Inari se sente. Remorso. – Neji estava sério e se agachou ao meu lado. Percebi que ele não tirava os olhos do garoto e parecia muito preocupado com aquela situação. – Lamento que tenha que ser assim, Tenten, mas logo você entenderá.
Ergui os olhos ainda chorando e aquele desalento parecia aumentar a cada segundo que fitava a cena deprimente de Inari. Ele estava com os fones de ouvido e soluçava tanto que devia ecoar por toda a pequena casa. Vi alguns tufos de cabelo caídos sobre suas pernas e ele os puxava com tanta força que minha cabeça latejava. Engatinhei-me para mais perto dele, tentando algum contato, embora soubesse que não seria possível; Foi então que vi a figura horrenda montada nas costas dele, emitindo um odor putrefato que me fez vomitar no mesmo instante. O ser lambeu a orelha de Inari e disse-lhe alguma coisa, embora eu não conseguisse enxergar uma boca. Aquilo não me via, mas sei que via Neji. E entendi que aquilo temia Neji.
Meu estômago continuava embrulhado e me senti fraca. Comecei a me questionar até que ponto aquilo que estava vivendo era real ou apenas um sonho, e tentei acordar, sair dali, mas não consegui. Senti a mão de Neji nas minhas costas e me assustei com o primeiro contato físico – se assim posso chamar – que tivemos. Parte daquela sensação pavorosa esvaiu-se e senti que ele estava dividindo o fardo daquele momento comigo. Senti que com ele, qualquer dor era mais do que suportável.
— O que é aquilo? – perguntei enojada, sentindo a tontura me deixar aos poucos.
— Há uma guerra constante travada entre anjos e demônios nas regiões celestiais. Aquilo é um demônio. – explicou com naturalidade, mas havia um tom de seriedade na sua voz. – Eles têm o poder de influenciar as pessoas, e este tem influenciado a mente de Inari.
Virei para Neji com um turbilhão de informações se debatendo em minha cabeça.
— Onde está o anjo? Por que existe essa guerra?
— Inari rejeitou o anjo enviado para acudi-lo. Ele tomou uma decisão. – Neji fitou com pesar a Inari, que se levantava com aquele ser pendurado em suas costas, indo em direção ao porão da casa. Parte da alvenaria do teto daquele cômodo estava exposta e vi o garoto amarrar uma corda naquelas madeiras. Ele parecia em transe.
— O que ele vai fazer...? – falei num fio de voz, desesperada com a resposta que eu já sabia qual era. Naquele momento, pela primeira vez na vida, senti o medo angustiante da morte me alcançar. – Neji!
Eu gritei, fechei os olhos e tapei meus ouvidos, tremendo freneticamente. Queria sair dali, e queria sair viva. Eu havia chego ao meu limite. Enquanto escrevo cada palavra aqui, agora, molho meu colo com grossas lágrimas, chorando amargamente. É difícil para eu rever e registrar toda essa experiência de novo... É como se ela se reprisasse agora, bem diante dos meus olhos.
— Abra os olhos. – pediu Neji gentilmente e eu o fiz, ao passo que senti de novo aquela plenitude me transbordar. Foi como se nem tivéssemos saído dali; estávamos no Éden mais uma vez. Foi inevitável sorrir. – Tenten, por favor, preste atenção.
Sua voz foi firme apesar do tom gentil ser conservado. Eu obedeci e olhei em seus olhos, tomando o cuidado de não me perder dentro deles.
— Você tem um chamado precioso, Tenten, e chegou o tempo de você escolher vivê-lo ou não. Você pode ajudar as pessoas mais do que imagina simplesmente por que foi lhe dado o maior de todos os dons espirituais: o Amor. Você ama as pessoas e sente empatia por cada uma delas, e isso a tal ponto que sofre a dor delas de maneira intensa. E Ele viu isso e se agradou com seu coração caridoso. Foi por isso que Ele te chamou.
Neji me deu alguns segundos para processar cada informação. Senti um alívio quando vi o sorriso voltar a emoldurar seu belo rosto. Fiquei maravilhada com aquelas palavras, pois jamais imaginei que alguma divindade existisse, e menos ainda que me visse e se alegrasse comigo. Senti vontade de chorar mais uma vez e o fiz; sei que só foi possível que essa sensação me ocorresse no Éden por serem lágrimas de felicidade. Uma felicidade transbordante.
— Mas... Eu? – sibilei ainda emocionada e ele assentiu.
— Você nunca esteve só e não é agora que ficará. Você tem toda a capacitação DEle para cumprir com esse chamado, se assim você escolher fazê-lo. – ele se aproximou e pegou em minhas mãos. – É por isso que esta guerra existe. Porque amamos vocês e queremos que vocês vivam, e vivam plenos. — Sorri para ele, pois sentia a sinceridade de cada uma de suas palavras. Eu já havia tomado uma decisão. – Você precisa estar ciente de que te mostrarei muitas coisas, como as que viu hoje. Você vai sentir o que as pessoas sentem, como sentiu hoje. Tome uma decisão bem pensada, Tenten.
Eu ia prontamente respondê-lo, mas fui impedida propositalmente. Ele queria que eu tomasse uma decisão prudente.
Porém assim que acordei e senti a cama molhada e o cheiro fétido subir as minhas narinas, levantei em choque e trépida. Saltei da cama e encarei o leito molhado com meu suor e meu vômito. Passei as mãos pelo rosto ainda abalada e fui tomar um banho gelado. Lembro-me que despertei na madrugada e, depois de uma limpeza superficial no meu quarto, fiquei na sala refletindo sobre aquele devaneio e demorei a pegar no sono novamente.
Tudo ainda estava muito estranho, a minha mente não funcionava direito apesar de que eu me recordava detalhadamente de todo o evento daquela noite. Apesar de ficar um tanto perturbada com o que vira a respeito de Inari, ignorei crendo na obra da minha imaginação; como um simples pesadelo.
Fui trabalhar pensando nas palavras daquele rapaz, Neji. Seria Deus de fato real? O que Neji era? Ri de meus próprios pensamentos, que por um momento, vacilaram em acreditar naquele ideal de divindade; entretanto, relembrar e pensar a respeito das sensações mais indescritíveis da vida, das quais tive oportunidade de deleitar quando estive naquela espécie de jardim, foram reconfortantes e me fez desejar sonhar mais vezes com aquele lugar e com Neji.
Foi uma semana árdua, e eu havia desconsiderado tudo o que me remetia ao sonho em relação a Deus, à Neji e a Inari, vivendo a vidinha banal de sempre, a qual eu até gostava. Foi quando no sábado à tarde, Tsunami, a mãe de Inari, me telefonou, divulgando a morte do adolescente de quinze anos encontrado enforcado no escuro porão de casa.
Eu fiquei estática.
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