Uma Certeza - Ernesto e Ema
1 Uma Certeza
Estava cansada, a noite já estava alta e a situação estava ficando incômoda. Ela ainda sentia algumas sensações ante a sua presença, porém, infelizmente muitos outros sentimentos estavam sempre se sobrepondo ultimamente como culpa e constrangimento.
Respirou fundo.
— Ora, Jorge... Fui visitar Amélia, simplesmente porque... — ela pensou nas palavras certas. — Eu e Amélia éramos amigas antes de... de toda essa confusão e... — Ema estreitou os olhos por cima dos ombros de Jorge. Uma espécie de agitação se via na entrada do cortiço. E entre tudo aquilo, ela percebeu. — Ernesto!
— O que? — ouviu Jorge perguntar, porém já tinha passado por ele e seguido em direção aos amigos.
— O que houve? — perguntou um tanto exasperada com a cena em que Elisa apoiava Ernesto em seus ombros e Darcy praticamente carregava Camilo.
— Ah, era só que faltava! — disse Ernesto, aparentemente odiando a presença dela e de Jorge que também já se aproximava naquele momento. — Não houve nada, Baronesinha! Au... Nada que deva gastar sua preciosa preocupação! — ele fazia careta ao falar, aparentemente mancava de uma perna, tinha o supercílio e o lábio cortado.
— Ora, o senhor parece que foi atropelado por uma locomotiva desgovernada; Camilo nem acordado parece está, e não houve nada?! — retrucou ela. As mãos já tremiam.
— Talvez seja melhor levá-los ao hospital! — disse Jorge.
— Isso, isso é o melhor...
— Não, nada de hospital! — interveio Ernesto novamente. — E por favor vocês dois, poderiam fazer o favor de saírem dá frente? Camilo precisa de cuidados!
— Mal educado! — Ema ainda ralhou, enquanto um tanto encabulada dava passagem para Darcy, Jorge foi em seu auxilio, ajudando a subir Camilo escada acima. E Ema se ateve ao outro lado de Ernesto, para ajudar apoiá-lo.
— Cuidado para não sujar seu vestido, Baronesinha!
Ela grunhiu e enfiou-se com força por baixo do braço dele, fazendo-o se apoiar em seu ombro.
~
— Quem é ela? — Ema perguntou a Elisabeta, enquanto via Ernesto ser vistoriado por Mariko.
— É a doutora Mariko. Ela é médica.
— Médica? Uma mulher?! — perguntou, duvidando.
— Aí Ema, não estou acreditando no que estou ouvindo...
— Eu só estranhei, Elisa! Não precisa alarmar! — disse e tornou a observar atentamente a cena.
— Bem, o remédio você já sabe! — dizia a doutora. — Repouso, e não se deixar mais socar!
Ernesto sorriu.
— Eu vou tentar, doutora!
Ema odiou aquele sorriso. Por algum motivo algo doeu em seu peito. Estava o perdendo?!
— Nada mais? — perguntou ela, a voz falhando a principio. — Uma infusão, analgésicos, nada?!
— Ele vai ter que aguentar a dor. — respondeu Mariko e voltou-se para ele. — Pra ver se aprende!
Ela odiou mais ainda que a intimidade com que a doutora ralhou com ele. Apenas ela podia fazer isso!
— Obrigada — disse Elisabeta. — Mais uma vez! Vou ver como está Camilo! – anunciou e acompanhou a doutora até a saída.
Ema aproximou-se da cama dele, os braços cruzados, apreensiva. Já ele tinha os olhos fechados. Ema sabia que ele tinha ciência da presença dela, porém queria ignorá-la. Não o culpou, mas não deixou de se entristecer, porque a preocupação com ele estava tomando conta de todo seu coração no momento. Não resistiu, sentou-se ao seu lado; acariciou-lhe o rosto, tocando delicadamente no corte dos supercílios, descendo lentamente até o corte no lábio. Os lábios que ela rejeitara. Uma pontada no peito. O arrependimento lhe perpassando por aquele segundo.
— O que aconteceu com você? — ela sussurrou.
Ele respirou fundo.
— Como se você se importasse! — ele disse, ainda os olhos fechado.
— Não diga isso! Me importo... — ela sentiu os olhos marejarem, parou o carinho que fazia e cruzou os braços querendo proteger-se de seus próprios sentimentos. — Me importo tanto.
Ele abriu os olhos, a mirou, ela realmente tinha uma dor estampada na face. Algo que ele odiava ver ali. E lá foi ele, toda a sua resistência ruindo como sempre quando o assunto era ela, para consolá-la. Acariciou-lhe a face.
— Estou bem! Não fique assim.
Com aquele carinho que recebia dele, quando deveria está sendo o contrário, tudo doeu dentro dela. Porque aquele toque era tão intenso, que transpassava a pele, adentrava por seu corpo, atingia seu coração e mais ainda, podia alcançar sua alma e tornar agitada e calma ao mesmo tempo. Como viver sem aquilo? Como viver imaginando aquele toque sendo de outra? O pensamento intruso foi extremamente doloroso, tão insuportável, que ela preferiu desviá-lo para outra dor.
— Eu queria tanto não sentir o que sinto por você. — disse, de repente. Os olhos fechados ainda deleitando-se do carinho que era dela e só dela. — Queria tanto, tanto, tanto que dói. Se eu pudesse fazer um desejo agora e ele fosse se realizar, eu não pediria nada, nada, há não ser não sentir o que eu sinto por você!
— Por que é tão difícil assim, Baronesinha? Por que?
— Porque eu nunca vou conseguir viver com isso, Ernesto! Eu sinto, eu vejo! Com Jorge ou com qualquer outro. Aqui, no Vale ou em qualquer lugar, eu não vou conseguir me livrar disso nunca!
— Oh minha Baronesinha...
— O que faço? Você que sempre tem todas as respostas me diz o que eu faço...
— Viva! Ema, viva! Tem medo que se entregar-se irá acabar? Deixa eu te dizer uma coisa, você tem razão, não vai passar, não vai acabar nunca! Porque eu não vou deixar. Porque não é só paixão. — ele sorriu. — Você me ama, Baronesinha! E o que sente por mim é mais complexo do que qualquer outra coisa que já sentiu não é? — ela assentiu derrotada, enquanto as lágrimas lhe escorriam. — É por isso que você descreveu como paixão, porque você não entende. Mas, é o amor que não se explica, Baronesinha. O amor não é quieto, tedioso, cansado, não é só... um sentimento que não cabe dentro do peito, que explode ou que constrói. O amor é tão mais além disso, tão mais... Que se você não consegue descrever o que sente, é a maior prova de que é amor.
Ela finalmente abriu os olhos e estes pareceu clarear-se, Ernesto pôde ver lindamente a constatação e o entendimento adentrando no olhar dela. Por um momento ela pareceu petrificada, respirava com dificuldade. Depois relaxou e entregou-se a um choro que despertaria piedade em qualquer cristão.
— Venha aqui! — ele pediu, a puxando para um abraço, a segurando firme em seus braços lhe beijando os cabelos. — Está condenada, meu amor. Está tão condenada quanto eu.
Ele deixou que ela chorasse, deixou que seu peito fosse seu lenço e seu abrigo e por fim, tão imersos um no outro acabaram adormecendo. Nenhum dos dois, no entanto, antes de perder a consciência, viu quando a porta se fechou e um Jorge com lágrimas nos olhos e arrependimento nas veias afastou-se de tal cena duplamente dolorosa para ele. Ele entendeu enfim, o que Ema sentia por Ernesto, ninguém precisava explicar-lhe, ele tinha visto e entendido no mesmo momento que ela.
~
A madrugada os alcançara, Ernesto despertou com a porta sendo aberta. Era Elisabeta que entrava de mansinho. Sorriu para ele, e ele retribuiu. Ela indicou Ema que dormia tão serena aconchegada ao peito dele.
— Pode deixá-la! — ele sussurrou para amiga, que assentiu. — E Januário?
— Não voltou para o cortiço. — os dois se olharam meio maliciosos. — Bem, eu vou me recolher então. Quando ela acordar é por sua conta e risco. — sorriram novamente. — Boa noite!
— Boa noite!
Elisabeta os deixou. E Ernesto nunca se sentira tão em paz na vida, a sensação do corpo dela junto ao seu, tão frágil, tão pequeno, tão divino. Algo forte atravessou o seu peito em ternura. A amava, provavelmente a amava mais que tudo. E como ela disse, aquilo doeu, doeu muito. Ela iria embora no amanhecer, por sua teimosia se casaria com outro, e seria infeliz, doeu ainda mais. Beijou-lhe os cabelos.
— Não faça isso, minha Baronesinha! Pelo amor de Deus não faça!
Ela mexeu-se, levantou a cabeça lentamente e ainda de olhos fechados procurou os lábios dele, encontrou e o beijou. Ernesto só precisou de um segundo para se ater e corresponder.
— Você está certo — ela disse quando enfim soltaram-se. — Eu o amo! O amo, simplesmente, o amo com uma paixão descabida. — sorriu melancólica. — E não sei o que será de nós.
— Será o que nós escolhermos.
— Eu não tenho escolha, Ernesto! — os olhos marejando novamente.
— É claro que tem! Pode ser e fazer qualquer coisa, Baronesinha! Acredite em você, como eu acredito! — ele lhe segurou a face via nos olhos dela toda a tortura que a acometia naquele momento. – Ema... É tão mais fácil se entregar.
Aquele olhar penetrante, aquela certeza que ela via nos olhos dele, a voz rouca e cheia de emoção lhe dizendo com convicção que acreditava nela, ninguém nunca havia lhe dito aquilo, mas ela via que ele não mentira; Ernesto acreditava nela... Como não se entregar?
— Eu já estou entregue, não vê? Não me resta mais nenhuma resistência.
Ele entendeu. Por um momento o medo perpassou pelo seu corpo, mas nada podia ser mais forte do que a emoção do amor e da paixão trabalhando juntos em seu corpo naquele momento. Ele rolou na cama, ficando por cima do corpo dela. A olhou profundamente e... Deus! Teve vontade de chorar. Tão linda ela era, tão meiga, tão sua naquele momento. Não iria permitir. Não iria permitir-se perdê-la. Que se dane orgulho ou qualquer outra coisa, lutaria por ela, nem que fosse a última coisa que fizesse em sua vida. Dissera a ela que não precisava de muito para ser feliz, e ali percebera, precisava dela e apenas dela.
Beijou-a.
— Fica! Fica comigo!
— Fico! Uma noite, uma vida... eu fico!
E sim ela ficaria. Entregou-se a ele sem reservas e sem pudores. Sentiu-se morrer naquela noite, e reviver segundos depois, porque ele tinha esse poder sobre ela. E não só o físico se uniram ali, algo da alma também, porque no momento que o sentiu aquecer-se dentro dela, foi como se ele tivesse adicionado um pouco de sua coragem em seu ser. Experimentou tantas novas, fortes e incríveis sensações que não podia duvidar do que ele falará, o amor ia muito além de qualquer coisa. Entendeu que o amor era realmente um salto no precipício, era desconhecido e ao mesmo tempo tão familiar.
Ema não sabia como, mas sabia que lutaria, que tinha que lutar por ele, por ela. Faria diferente. Cumpriria sua promessa a sua mãe, mas cumpriria da maneira mais digna que fosse. Não abdicaria de um amor em prol de outro. O amor não era assim, não era competitivo e não exigia sacrifícios. Não, o amor era divino e sublime; ela entendeu aquilo quando fora levada bem perto do céu por ele.
"Você usou a coragem que eu te emprestei!" ela lembrou-se daquelas palavras, enquanto estava ali recostada no peito nu do dono delas, que ressonava suavemente, afagando seus ouvidos. Ela o faria de novo, usaria a coragem dele. Sabia que ele a tinha em suficiente, e também sabia que ele jamais a negaria. Beijou-o na face e se aconchegou mais aos braços dele, sorriu ao se entregar a inconsciência. Finalmente, nunca tivera tanta certeza na vida.
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