Depois

As lágrimas não param de surgir nos meus olhos e acabo por deixá-las correrem livremente.

Folheio as cartas novamente, uma a uma. As palavras de ódio se prendendo à minha mente como uma goma viscosa de mascar. Ameaças dolorosas saltam do manuscrito e eu as pronuncio a mim mesma em um tom alto o bastante para serem ouvidas por quem está próximo, irritadas e absurdas. Frases chocantemente malvadas que disparam correntes elétricas e fazem meus joelhos vacilarem. Eu não gosto nem um pouco de pronunciá-las. Detesto ainda mais a maneira como soam na minha voz.

Os papéis estão com uma boa aparência, mas foram datados há quase dez anos. Supus que era ele quem os mantinha guardados, sem sequer ousar tocá-los. Talvez estivesse tentando simplesmente se esquecer. Estou com uma vontade descontrolada de acender as luzes e faço um grande esforço para enxergar enquanto lágrimas persistem em desfocar minha visão. Tiro uma foto de uma das muitas cartas com o meu telefone para inspecioná-la mais de perto.

Sinto-me tão nauseada, trêmula de espanto, como se alguém houvesse me golpeado brutalmente na boca do estômago. Uma sequência de socos duros e intensos. Meu coração está acelerado e, por um segundo, torna-se fisicamente impossível respirar. Então eu olho outra vez o nome assinado ao final, uma onda de desespero corre por mim, depois de fúria. Preciso de toda a minha força para recuperar o ar e devolver as cartas de volta ao gabinete sem que eu tenha um ataque de nervosismo.

— Você não devia ter tocado nisso.

Eu congelo.

Estremeço drasticamente, como um gato, assim que consigo identificar a sombra de Cole na parede à minha frente, mas não tenho coragem suficiente para olhá-lo. Eu suspiro, isso é o mais perto que consigo chegar de um pedido de desculpas por vasculhar o seu quarto. Posso imaginá-lo encostado na ombreira da porta, olhos azuis ligeiramente cerrados em minha direção e mãos nos quadris, enquanto me assiste recolocar aos prantos os documentos na gaveta do seu gabinete e diz coisas como "Acho que você acabou de aprender uma lição". Mas nada disso aconteceu. Cole permanece em silêncio e faz com que eu sinta uma pontada de culpa. Pelo que exatamente?

— Por que não me conta nada? — digo, entre uma série de soluços. Neste instante sou uma bomba de nervos prestes a estourar. — Eu tinha o direito de saber dessas cartas.

Eis que sou delicadamente puxada para trás, rumo ao corpo de Cole. Uma de suas mão segura minha cintura e eu sinto o pedaço de pele que ele encosta fervilhar sob a blusa. Facilmente destrutível. Dou um passo às costas instintivamente, indo ao seu encontro. Fico mais irritada ainda, em parte por estar parecendo vulnerável em sua frente, em parte por ser difícil não parecer vulnerável.

De repente penso em Cole aos seus quinze anos, seu corpo enfraquecido enrolado sobre cobertores enquanto lamenta a morte da irmã por vários e vários meses. Penso em Cole aos dezesseis, testemunhando taciturno enquanto a polícia invade a sua casa e algema seu pai, tão bêbado e violento, de maneira que mal conseguira se lembrar no dia seguinte. Penso em Cole aos dezessete, completamente solitário, e em como as pessoas mais importantes de sua família haviam sido tiradas dele com uma impressionante facilidade. Penso em como ele deve estar se sentindo nesse momento e se ele também me responsabiliza por tudo o que aconteceu.

— Eu sei, só estava esperando o momento certo. Não queria que passasse por isso.

Sua voz é suave e, ao mesmo tempo, dolorida. Parece que está tentando evitar que eu perca o controle.

— Cole, me tire daqui. Agora.

Ele concorda com a cabeça e me olha com um ar de quem pede desculpas. Não parece estar aborrecido comigo e nem chateado. Sua expressão é tensa e preocupada, o que me deixa impressionada. A maneira como sua mão encobre toda a minha, quente e firme, é reconfortante. Ele guarda as cartas com um cuidado hiperbólico, como se protegesse um tesouro, faz uma pilha com elas e depois tranca a gaveta. Duas giradas de chave. Eu começo a chorar de novo, dessa vez com mais intensidade.

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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.