Uma Carta do Destino
1 Capítulo - Único - Uma Carta do Destino
Notas iniciais
Sentada a uma pedra no quebra-mar, em uma pequena cidade localizada na costa americana, estava Rosalie contemplando a beleza e a tranquilidade do lugar. A brisa quente de verão soprava seus cabelos dourados, presos em um rabo de cavalo, tendo alguns fios esvoaçantes. O oceano, refletindo a cor do céu, lembrava um espelho d’água. As ondas rolavam em direção a areia em uma sequência regular.
Ela estava de férias na cidade há dois dias com a irmã, o cunhado e dois sobrinhos pequenos. Não sentia vontade alguma de retornar a Boston onde trabalha a maior parte do tempo como corretora de imóveis.
Mesmo ali, de onde estava, podia ouvir o riso dos sobrinhos – Murilo, de sete anos, e Violet, de cinco – que jogavam frisbee na areia com o cachorro, um Beagle chamado Ozzy.
Pensou em ir se juntar a eles. Adorava crianças, e brincar com os sobrinhos era sempre uma diversão. Sonhava em constituir família, mas, embora sendo tão bela, jamais tivera sorte no amor. Todos os homens com quem se envolveu ao longo dos anos, tinham apenas duas coisas em mente: exibi-la como um troféu e levá-la para a cama. Nem um deles levava a sério quando o assunto era casamento.
Começava acreditar que seria vitima de sua própria beleza, que se tornaria uma solteirona eremita. Que seu destino seria nada menos que a solidão.
Depois de pensar um monte de bobagens, ficou de pé e começou a caminhar sobre as pedras, sempre prestando atenção aonde pisava para evitar uma surpresa desagradável, como uma torção no pé. Um brilho estranho alcançou seus olhos, mesmo usando óculos de sol, aquilo a incomodou. Piscou os olhos com força e ao abri-los novamente, notou algo diferente em meio às pedras. Ao se aproximar, pode perceber que era uma garrafa. Talvez esquecida ali por algum outro turista.
Sobre o biquíni, Rosalie usava um short jeans e uma camiseta lilás. As sandálias, ela as carregava em uma das mãos. Em um movimento cauteloso se abaixou para pegar a garrafa, mas ao fazer isso, porém, surpreendeu-se ao perceber que estava arrolhada. Pegou-a cuidadosamente, ergueu à luz do sol e viu no interior um canudo de papel preso a uma fina fita azul.
A curiosidade em descobrir o que continha o tal papel, falou mais. Começou tentar tirar a rolha, mas estava encravada, e seus dedos escorregavam quando tentava puxá-la. Tentou varias vezes, quando estava prestes a desistir, a rolha cedeu um pouco. Continuou tentado, usando as unhas como base, depois de mais algumas tentativas a rolha enfim saiu com facilidade.
Virou o gargalo da garrafa na palma da mão e surpreendeu-se com a facilidade com que o canudo de papel caiu em sua palma estendida. Analisando o papel percebeu que a fita estava apertada. Percebeu também que não era um papel qualquer, mas sim, um papel de carta muito bonito, com uma figura de um farol gravada no canto superior esquerdo.
Só percebeu que prendia a respiração quando soltou o ar devagar pela boca. Desde pequena havia ouvido inúmeras historias sobre garrafas que chegavam à praia depois de séculos no mar, quem sabe esse fosse o caso agora. Mas ao abrir a carta percebeu que estava enganada, não era antiga – apenas alguns dias –, muito menos era de longe dali. Havia uma data recente impressa no papel. O farol, aquele farol, tinha certeza de tê-lo visto em um cartão postal da região.
Rosalie teve um estremecimento de curiosidade, e foi nesse momento, à luz do sol de um dia quente de verão, que leu pela primeira vez a carta que o destino se encarregou de por em seu caminho. A carta que a guiaria por um caminho desconhecido, e, sobretudo, cheio de surpresas.
Querida,
Essa foi mais uma noite em que sonhei com você. Mais uma vez não pude ver seu rosto, contudo, algo em mim diz para não me preocupar com isso. É sempre tão doce e carinhosa em cada um dos meus sonhos, que mesmo que não fosse bela, a te eu amaria. Sinto saudades daquilo que nunca tive, e, talvez, jamais terei. Não me jugue insano, por viver na esperança de que o destino um dia te traga para perto de mim.
Querida, sequer sei seu nome. Ainda assim, anseio a chegada da noite para que possa voltar sonhar com você, com a delicadeza de seu toque.
Sou apenas um tolo a te esperar, mesmo sabendo, que, possivelmente, nunca chegue o dia. Eu existo para te amar. Eu existo por você, e estou aqui por que não há outro lugar que eu possa estar.
Emmett
Rosalie fechou os olhos com força quando os sentiu arder. Tornou a ler o conteúdo da carta mais duas vezes, emocionada com a veridicidade daquelas palavras. Chegou até mesmo se imaginar como sendo a garota dos sonhos daquele homem que assinava como Emmett.
Tentou imaginá-lo várias vezes, não chegando à conclusão alguma a respeito de seu tipo físico ou idade. Apenas que era um homem apaixonado... Amando uma mulher que talvez apenas existisse em seus sonhos.
E, afinal, qual a intensidade desses sonhos, para fazê-lo acreditar que era um aviso do destino?!
Por um fugaz momento chegou a pensar que fosse um louco, mas, estranhamente, algo em seu coração gritava que não. Que havia sim uma razão para aquela carta ter chego até suas mãos.
Era uma carta do destino...
[...]
Ali, na mesma região em que estava Rosalie, também estava o homem que assinava a carta como Emmett. Por obra do destino, apenas alguns quilômetros os separava.
Um grande farol se destacava ao fundo. Emmett caminhava a beira-mar, ao seu lado um cachorro Pastor Alemão trotava esperando que o dono desse início a brincadeira do dia.
Zeus correu animado quando Emmett jogou um graveto em direção as ondas que lambiam a praia preguiçosamente.
Ele observava o animal correr quando ouviu alguém gritar seu nome. Virou-se para olhar, reconhecendo imediatamente o garoto que trabalhava em seu pequeno bar, não muito longe dali. O local estava sempre cheio de turistas na temporada de verão. O cardápio se resumia a frutos do mar e bebidas fossem alcóolicas ou não.
Não tinha muitos amigos, era um homem solitário por assim dizer. Há muito tempo não namorada ninguém, embora muitas moças tivessem interesse em estar ao seu lado, fosse por muito tempo ou apenas uma única noite.
Seus poucos momentos de distração estava no mar – na pescaria ou em um simples passeio de barco. Ou apenas levar o cachorro para correr atrás de gravetos, como estava fazendo agora.
Depois da morte do pai se tornou o único responsável pela irmã caçula – uma adolescente de treze anos – que lhe dava muita dor de cabeça. Sua mãe há muitos anos havia abandonado a família para fugir com outro homem. Desde então nenhum deles soube dela.
– Emmett você precisa vir rápido, Anna está brigando novamente com uma das clientes – ecoou a voz do rapaz, se misturando ao som das ondas.
Emmett deu dois passos na direção do bar, e, então, chamou por Zeus.
– Vem garoto! Precisamos conter a Anna outra vez.
Zeus largou o graveto no meio do caminho. Latiu duas vezes e seguiu os passos do dono.
Ainda um pouco distante era possível ouvir rumores da discussão. Ao chegar ao bar se deparou com Anna agarrada aos cabelos da outra garota, ambas gritando ofensas para todos os lados.
A garota, dois anos mais velha, a chama de louca, esquisita. Anna usava de palavrões, totalmente sem papas na língua.
Zeus latiu e correu até elas. Emmett se apressou chegando à varanda do bar, agarrando a irmã pela cintura, afastando-a da outra garota raivosa que continuou insultando Anna até sumir de vista.
– O que deu em você, Anna? – pediu Emmett, tentando contê-la.
Anna ainda se debatia enraivecida. Emmett a levou para a parte de trás do bar, onde havia um atalho até a casa. Zeus os seguia o tempo todo. Anna continuou gritando, exigindo que o irmão a soltasse. Ele a abraçou e a manteve presa em seus braços até que se contivesse.
– Calma Anna – ele pedia, se mostrando preocupado.
– Me deixa!
– Não até me dizer por que estava brigando com aquela garota?
– Até parece que você não sabe.
– Não, eu não sei.
– Você não quer mesmo saber... – ela resmungou.
– Claro que quero saber. Eu sou seu irmão, caramba, me preocupo com você.
Anna respirou fundo, soprou os cabelos que cobriam sua boca e, por fim, respondeu:
– Ela me chamou de esquisita. Depois começou zombar de mim com as amigas... Elas não se cansam de fazer isso. São umas ridículas.
Anna parou de resistir então o irmão a soltou.
– Quando você vai pôr nessa sua cabeça que é melhor que qualquer coisa que digam a seu respeito.
– Eu odeio essas pessoas. Essa vida. Esse lugar... – gritou Anna, arfando de raiva, seus cabelos negros como a noite, na altura dos ombros, completamente bagunçados.
Usando um short jeans rasgado, uma blusa preta de uma banda de rock, maquiagem escura nos olhos, unhas pintadas com esmalte preto e converse all star cano longo, Anna parecia não se encaixar ali.
– Odeia a mim também? – o irmão pediu.
– Eu não o odeio apesar de ser um idiota romântico que escreve cartas para uma garota que só existe em seus sonhos.
– E odeia o Zeus?
Anna rolou os olhos, não acreditando na pergunta.
– Zeus é um cachorro – ela alertou. Como que para provar algo, Zeus a olhou, com a cabeça levemente inclinada para o lado, e deu três latidos.
Emmett a olhou com uma expressão que dizia: “Viu só, ele entendeu e não gostou nada do que você disse”.
Anna deixou que os braços caíssem ao lado do corpo.
– Tá legal – ela anunciou. – Eu não odeio o Zeus, satisfeito?!
Zeus tornou a latir, agora, dando voltas ao redor dela. Anna lhe afagou a orelha. Satisfeito, Zeus abanou o rabo.
Um pouco mais relaxado, Emmett passou o braço direito em volta dos ombros dela, trazendo-a para perto de seu corpo novamente.
– Mas ainda odeio esse lugar...
– Tem certeza de que odeia o lugar, ou as coisas que tem passado aqui...? – ele murmurou.
– Isso da na mesma – esclareceu Anna.
– Tudo bem, deixa isso pra lá. Agora me explique porque anda mexendo nas minhas coisas?
– Eu percebi que você sempre escreve algo naqueles papéis de cartas bonitos. Aqueles que você compra na lojinha de cartões postais. Então entrei no seu quarto e fui ver do que se tratava – ela explicou como se fosse normal fuçar nas coisas do irmão, um homem adulto.
– E quem te deu permissão pra isso?
– Eu dei permissão a mim mesma.
Emmett bagunçou os cabelos dela com a mão livre, e então prosseguiu:
– Esses dias eu lancei uma ao mar... Não deve ir muito longe, não estava em mar aberto quando fiz isso. É muito provável que fique presa a uma rede de pesca. Não encontre nenhuma corrente marítima que a leve pra longe. O mar estava muito revolto ontem à noite, pode ser que tenha ficado presa entre as rochas.
– Espero que ninguém a encontre, ou do contrário, podem achar que você é algum tipo de louco, apaixonado por sereias.
– Duvido muito que alguém vá encontrá-la... – ele arriscou, embora não muito certo disso. Sabia que, mesmo que levasse anos, alguém, em algum lugar do mundo, acabaria encontrando sua carta.
[...]
Rosalie ainda segurava a garrafa e a carta entre as mãos. Olhou para o céu quando uma andorinha-do-mar sobrevoou sua cabeça. De repente, Kate, sua irmã mais velha, estava parada ao seu lado, olhando-a com curiosidade.
– Ei, vamos almoçar – chamou-a. Olhou os objetos que ela segurava e disse. – Aonde encontrou isso?
– Aqui – explicou Rosalie, inconscientemente olhando para o espaço entre as pedras onde havia encontrado a garrafa. – Alguém, um homem, a jogou no mar, e, por alguma razão, ela não foi muito longe. Deve ter ficado presa aqui nas pedras ontem à noite. Bem, desde que chegamos, foi o único dia que o mar esteve revolto.
– É. Realmente não é de muito longe... – concordou Kate. – Posso jurar que esse papel de carta foi comprado em uma cidadezinha próximo daqui. Esse farol – ela encostou o dedo indicador da figura – veja, ele estampa alguns cartões postais encontrados aqui na região. Eu já estive lá certa vez com Garrett. Fica a apenas alguns minutos daqui, de carro.
Rosalie a olhou demonstrando certo interesse, porém, nada disse.
– Então o que diz a carta? – sondou Kate. – Sempre imaginei que fossem coisas românticas. Sabe; cartas lançadas ao mar em garrafas...
– E é – admitiu Rosalie. – Ouça.
Novamente ela leu o conteúdo da carta, dessa vez em voz alta para que a irmã pudesse ouvir as palavras de amor que aquele desconhecido escrevera.
– Que coisa estranha... – sentenciou Kate. – O cara é apaixonado por uma mulher que vive em seus sonhos, e, como não bastasse, sequer consegue ver seu rosto quando sonha com ela.
– É lindo... – divagou Rosalie, encostando a carta ao peito.
– Oh, não. Não me diga que está apaixonada por um homem que nunca viu. Isso é loucura, Rosalie.
– Não estou apaixonada, apenas acho romântico.
– Esquece essa carta – exigiu Kate. –Vamos almoçar que as crianças e Garrett estão nos esperando, e acredite; cheios de fome.
– Me leva até lá...? – arriscou Rosalie.
– Até lá aonde? – a irmã pediu, com expressão de dúvida.
– Lá, exatamente onde fica esse farol. Onde você disse que esteve certa vez com Garrett.
– Está louca – esbravejou Kate, começando a andar de volta a praia, tomando cuidado ao pisar nas pedras.
Rosalie a seguiu. Ao alcançar a faixa de areia seus passos se tornaram mais rápidos.
– Por favor... – implorou sem interromper a caminhada.
– Ele pode não estar lá, Rose.
– Eu sei Kate. Mas, mesmo assim, me leve até lá.
– Até onde sei esse cara pode estar agora do outro lado do mundo.
– Não está – discordou Rosalie, seguindo os passos da irmã.
– Ele pode ser um velho maluco ou pior ainda, um sociopata, psicopata, talvez. Não vou te incentivar em uma loucura dessas. Não mesmo.
– Então eu irei sozinha...
A afirmação da irmã fez Kate parar abruptamente, girar nos próprios pés, e segurá-la pelos ombros.
– Rose isso é sério. Tudo isso pode ser uma furada. Um erro sem volta.
– Eu só preciso ir até a cidade onde fica esse farol. E talvez, quem sabe, descobrir quem é ele. Pouco provável, mas, ainda assim, quero ir até lá.
Kate soltou os ombros da irmã, passou a mão no próprio rosto afastando alguns fios de cabelo que o vento insistia em soprar.
– Tá, suponhamos que você vá. O que vai acontecer quando chegar lá? Vai sair perguntando para todos os turistas e moradores locais, qual deles foi quem escreveu a tal carta?
– Falando assim até parece idiotice – admitiu Rosalie.
– E é – afirmou Kate. – Idiotice total.
Rosalie voltou a encarar a carta entre as mãos.
– Preciso encontrá-lo...
– Rose, eu sei que você sonha um dia encontrar um amor de verdade, se casar e ter filhos. Morar em uma casinha de cerca branca. Mas isso que você quer fazer é muito arriscado, minha irmã. Ele pode ser o contrário de tudo o que você espera encontrar.
– Ei sei que existe uma razão para eu ter encontrado essa carta. E não irei desistir até encontrar quem a escreveu. Com ou sem sua ajuda.
– Que Deus me perdoe – desabafou Kate. – Tá, eu te levo de carro até essa bendita cidadezinha onde fica esse farol do papel de carta. Mas – frisou ela –, não posso ficar por muito tempo por causa das crianças e do meu marido. É, tipo, bate e volta.
Um sorriso esperançoso curvou os lábios de Rosalie. Entusiasmada, ela saltou abraçando a irmã com força.
– Quando você pode me levar? Mas que seja logo.
– Amanhã, bem cedo. Eu darei um jeito pro Garrett ficar com as crianças sem que desconfie de nossos planos malucos.
– Certo – aceitou Rosalie.
O que Kate não sabia era que os planos da irmã não se resumiam a um bate e volta. Rosalie estava decidida a ficar e sondar tudo o que pudesse a respeito daquela carta e do homem que a escreveu.
[...]
Emmett e Anna estavam sentados à mesa, na pequena cozinha, almoçando. A janela perto da pia estava aberta permitindo a entrada da brisa quente de verão.
Zeus havia terminado sua ração e estava agora deitado aos pés da cadeira do dono.
– O que vai acontecer se um dia você se casar? – perguntou Anna, subitamente.
– Serei um homem casado – ele respondeu com o garfo a meio caminho da boca.
Anna suspirou insatisfeita.
– Eu quis saber sobre mim – esclareceu ela.
– Independente de eu me casar ou não, você vai continuar aqui me enchendo o saco até ir pra faculdade.
– Eu não quero ir pra faculdade... As pessoas me acham esquisita, não gostam de mim.
– E vai fazer o que da vida? Vai ser uma insignificante como eu? Vai envelhecer aqui, trabalhando em um bar?
– Você não é um insignificante, ok. E eu realmente não quero ir pra faculdade.
– Quando chegar o momento você vai, Anna.
– Não vou – retrucou, ficando com raiva, em seguida saiu da mesa.
– Anna hoje é seu dia de lavar a louça.
– Eu lavo depois – ele a ouviu gritar antes de a porta do quarto bater. Zeus se assustou com o barulho e rapidamente ficou de pé.
Emmett suspirou. – O que faremos com a Anna? – disse ele ao ficar de pé, com o prato na mão. Zeus latiu. – É eu também não sei – acrescentou, como se o cachorro estivesse falando com ele.
Ele ouviu a porta do quarto ser aberta novamente e a voz de Anna ecoar pelo pequeno corredor.
– Emmett você não vai se casar, não é mesmo?
Enquanto jogava as sobras do prato no lixo, ele respondeu:
– Eu não sei Anna. Eu sequer tenho namorada. Porque de repente ficou tão preocupada com isso?
– Não quero qualquer um aqui, você sabe; me dizendo o que fazer.
– Anna vem logo lavar a louça – ele parecia estressado agora. – Eu preciso voltar pro bar.
– Deixe aí, depois eu os lavo.
Emmett suspirou quando a ouviu bater a porta do quarto novamente. Não demorou muito, o som de uma banda de rock estremeceu as paredes da casa.
Ele secou as mãos no pano de prato e se afastou da pia. Bateu a mão ao lado de uma das pernas, chamando por Zeus, que o seguiu porta a fora rumo ao bar.
[...]
No dia seguinte, Rosalie, ansiosa, levantou aos primeiros raios de sol.
A irmã bem tentou fazê-la desistir de ir atrás do tal homem que assinava a carta como Emmett, mas, não conseguiu.
Por volta das 8h35 as duas chegavam à cidadezinha onde se encontrava o farol impresso no papel de carta.
Kate estacionou em uma vaga próximo a orla marítima. Era manhã de sábado, com a chegada da temporada de verão, havia um movimento considerável de pessoas.
Um grupo de turistas, usando chapéu e óculos de sol, com câmeras fotográficas, caminhava sem pressa. Um rapaz local os conduzia aos principais pontos turísticos da cidade.
As duas louras saltaram do carro ao mesmo tempo, quase como se tivessem ensaiado. Com bolsa embaixo do braço e óculos escuros. Kate usando um vestido de verão florido. Rosalie novamente usando shorts jeans e uma camiseta branca.
Kate fechou a porta e esperou que a irmã se juntasse a ela.
– Ainda insisto que isso é loucura – alertou, passando a mão nos cabelos, afastando alguns fios que a brisa insistia jogar em seu rosto. – Se a mãe e o pai souberam o que estou apoiando, eles me deserdam. Eu sou a mais velha, o que se presume que seja a sensata.
– E você está sendo. Sou eu quem está te forçando – admitiu Rosalie.
– Os faça acreditarem nisso depois, princesinha.
– Não começa... – resmungou ao parar ao lado da irmã, não se importando nenhum pouco com o vento que soprava seus cabelos. – Se isso te tranquiliza, eu assumo quaisquer responsabilidades, ok.
– Ok. Mas o que pensa em fazer agora que está aqui?
– Vamos seguir o grupo de turistas senão encontrarmos nada, vamos à lojinha onde eles vendem esse mesmo tipo de papel de carta e sondamos algo por lá.
– Certo. Mas, independente de encontrarmos algo ou não. Voltaremos para casa antes do jantar. Lembre-se tenho dois filhos e um marido ciumento me esperando. Não estou pronta para as perguntas que possa me fazer quando voltar, caso volte fora do horário previsto.
Kate só se deu conta de que Rosalie já seguia o grupo de turistas quando parou de falar. Ela maneou a cabeça, não acreditando que estava mesmo fazendo aquilo. Seguindo os planos malucos da irmã.
– Rose! – gritou ela, indo apressada.
[...]
Passaram toda a parte da manhã indo de um lugar a outro. Pararam para almoçar no mesmo restaurante, simples, porém agradável, que os turistas também almoçaram. Logo depois do almoço retomaram com o passeio.
Dessa vez, o grupo se dirigiu ao farol. Enquanto outras pessoas estavam interessadas em tirar fotos, as duas irmãs apenas olhavam em volta em busca de uma pessoa que sequer tinham ideia de sua aparência: se velho ou jovem demais. Tinham que se preparar para qualquer surpresa, e estar prontas para virar as costas fingindo que nunca estiveram ali.
Rosalie retirou a carta da bolsa, olhou para o farol, depois para o papel, confirmando que era sim o mesmo.
– Isso é loucura. Nunca vamos encontrá-lo – dizia Kate, certa de que tudo aquilo era uma perda de tempo, cansada.
E quando olhou em volta em busca da irmã a encontrou no meio das pessoas, paralisada, olhando fixamente para um homem alto e forte que sustentava seu olhar. Kate foi até ela e puxou pelo braço.
– Pare com isso – exigiu.
Depois de usar de muita força de vontade, Rosalie quebrou o contato visual com o homem desconhecido e olhou confusa para a irmã.
– Isso o que? – pediu ela.
– Você está secando o cara.
– Estou?
– Sim. Você está. E o que é pior, ele também não para de te olhar.
Kate tentava tirá-la dali puxando seu braço, mas Rosalie não aceitou, puxando o braço de volta. E quando tornou a olhar na direção de onde deveria estar o homem, ele não estava mais lá. Virou-se bruscamente para sair dali e acabou batendo de frente com ele, seu rosto colidindo contra os músculos do peito dele.
– Me desculpe – pediu ela, sem ao menos olhar quem era. Seus olhos se ergueram lentamente. Perdeu o ar ao perceber que era o mesmo homem.
Ele usava uma bermuda escura e uma camisa branca sem mangas. Na cabeça, um boné preto. E segurava algumas sacolas nas mãos. Ele a encarava de um jeito que parecia ver além de seus olhos, quase como se pudesse desvendar sua alma.
Sua grande mão foi erguida para acariciar uma mecha dos cabelos dourados. Rosalie ainda o encarava sem saber em que ele estava pensando.
Em meio a tudo aquilo Kate olhava para os dois sem saber que decisão tomar a seguir. Enquanto isso, a mente de Emmett trabalhava vasculhando a imagem de uma cena de seus sonhos. Por incrível que pareça, acabou de se tornar real quando Rosalie, desconcertada, virou as costas dizendo que precisava ir.
Ele voltou a si, puxando-a de leve pelo braço.
– Não vá – pediu.
– Me desculpe, estou procurando por uma pessoa – ela se explicou afetada pela sensação que a presença dele lhe causava.
– Eu posso te ajudar – ofereceu, hipnotizado. Novamente uma cena de um de seus sonhos clareou sua mente. Os cabelos dourados, eram iguais aos da mulher que habitava seus sonhos cujo nunca vira o rosto. – Só preciso ir até minha casa deixar essas sacolas com minha irmã – suas mãos se ergueram brevemente evidenciando as sacolas do mercado.
– Não podemos nos demorar – Kate interviu antes que fosse tarde demais.
Pela primeira vez ele tomou consciência da presença dela.
– Tudo bem – explicou –, minha casa fica perto daqui.
Desesperada para ficar, Rosalie o apoiou.
– Ele mora na região, pode muito bem nos ajudar.
Kate lhe lançou um olhar que a acusava de ser louca. Rosalie, no entanto, não se importou. No minuto seguinte, as duas irmãs seguiam os passos do homem desconhecido.
– Então, você vive só com a sua irmã? – sondou Rosalie. Kate rolou os olhos, levando a mão à cabeça, discretamente.
– Sim. Meu pai morreu há alguns anos já. Minha mãe nos abandonou quando minha irmã era ainda um bebê.
– Quantos anos ela tem agora?
– Treze anos.
– Deve ser difícil. Digo, pra você cuidar sozinho dela.
– É sim – ele afirmou. – E antão, de onde vocês são? Nunca as vi por aqui antes.
– Boston – Kate foi quem respondeu.
– Mas estamos de férias na cidade vizinha. Nossos pais mantem uma casa lá – apressou-se Rosalie. – Era de nossos avós maternos.
– São irmãs – ele pensou em voz alta. – A pessoa a quem estão procurando, ela veio com vocês, ou é da região?
– É daqui, provavelmente – respondeu Rosalie sem pensar.
Ele estava prestes a fazer mais uma pergunta, mas, ao se aproximar da casa, Zeus, que estava deitado na varanda, ficou de pé, deu um latido, e veio trotando até ele.
As irmãs se assustaram, encolhendo-se uma ao lado da outra.
– Tudo bem, ele não ataca. A menos que eu dê o comando.
Emmett afagou a cabeça do cachorro quando ele chegou perto o bastante.
As duas ficaram mais confiantes ao ver que o animal parecia dócil. Zeus surpreendeu Rosalie indo até ela, empurrando sua mão com o focinho.
– Ele gostou de você – concluiu, abrindo um sorriso de covinhas.
Rosalie afagou as orelhas do cachorro e ao tornar olhar para Emmett, ficou fascinada com as covinhas de menino que marcavam seu rosto. Tornando-se impossível não retribuir o sorriso.
– Vamos entrar – ele convidou, dando alguns passos na direção da varanda.
– A sua irmã, ela está em casa? – pediu Rosalie.
– Provavelmente enfurnada no quarto dela.
– Ah – foi tudo o que conseguiu dizer. Não entendia porque uma menina da idade de Anna estava trancada no quarto, com um dia tão bonito lá fora.
– Ela costuma dizer que não gosta de sol. Que deve ter genes de vampiro – comentou casualmente, enquanto deixava as compras sobre a mesa.
Como a cozinha e a sala eram conjugada, Kate ficou parada próximo ao sofá tendo praticamente uma visão de toda casa. Rosalie andando de um lado para o outro, encantada com a simplicidade e aconchego do local.
Ao notar que ela observava a casa, Emmett comentou:
– É tudo muito simples aqui.
Um sorriso curvou os lábios dela quando virou o rosto para olhá-lo.
– Eu adorei, de verdade. É tudo muito aconchegante.
– Eu vou avisar a Anna que as compras já estão aqui, e então posso ir com vocês. Para ajudá-las encontrar a pessoa que estão procurando.
De onde estava Rosalie concordou com um movimento de cabeça. Ele seguiu na direção do pequeno corredor até que as duas irmãs não podiam mais vê-lo, entrando na última porta.
Rosalie começou ir na mesma direção, quando Kate tentou interferir.
– Volte aqui. Aonde você pensa que vai? – sua voz não foi mais que um sussurro.
Zeus se aproximou e encostou o focinho à mão de Rosalie.
– Acho que ele quer que eu o siga.
– Ele é um cachorro – emendou Kate.
Rosalie não deu importância aos avisos da irmã. Continuou seguindo em frente, quase matando a irmã de nervoso. Kate olhava de um lado pro outro, como se estivesse estudando uma rota de fuga, e, claro que Rosalie estava dificultando.
Zeus parou de andar assim que se aproximou da porta do quarto que estava aberta. Rosalie olhou para o vão.
– Você quer que eu entre aí?
Zeus deu alguns passos à frente e entrou no quarto. Ela o seguiu. Ele deitou-se aos pés da cama com o focinho sobre as patas dianteiras e ali ficou.
A curiosidade falou mais alto, Rosalie logo começou a inspecionar o pequeno cômodo: uma cama de casal, duas mesinhas de cabeceira. Cortina azul. Uma poltrona com algumas peças de roupa jogadas em cima. O guarda-roupa, com uma das portas aberta. Mas o que chamou mesmo sua atenção foi a escrivaninha de madeira talhada.
Sobre ela, vários papéis de carta idênticos ao que encontrou na garrafa. Agindo quase que automaticamente, abriu a gaveta encontrando várias outras cartas dentro dela. Seu coração passou a bater em um ritmo frenético ao notar que a letra era idêntica, e também assinava com o nome de Emmett.
Ela não resistiu à curiosidade, lendo as primeiras palavras da carta mais recente.
Querida,
Novamente sonhei com você. Meu coração ficou desolado porque, mesmo que eu tente, não tenho ideia de onde você possa estar. Ainda assim, sinto que a cada dia estamos mais perto um do outro...
Parou de ler assim que notou a presença dele no quarto. O coração batendo desesperado. Ao erguer o olhar, encontrou com o dele. Suas mãos trêmulas se ergueram o suficiente para evidenciar as cartas que segurava; a que estava na gaveta e a que encontrou na praia.
Emmett olhou das cartas para ela. Seu peito arfando com a certeza de que tinha encontrado a mulher de seus sonhos, literalmente. Sua mão se ergueu até encostar à face dela, pálida pelo espanto.
– Era você o tempo todo... – ele sussurrou, afagando o rosto dela.
– Você escreveu todas essas cartas? – sua voz soou quase como um murmúrio.
– Sim... Sempre depois de sonhar com você. Mesmo nunca tendo conseguido ver seu rosto, sabia que existia...
– O seu nome...? – ela pediu, enquanto sua garganta parecia se fechar.
– Emmett – respondeu ele.
– Não... – ela deixou as palavras morrerem, tomando distância. – Isso é loucura.
– Não tenha medo – ele implorou.
– Não estou com medo. É só... É só que é tudo muito... surreal. Maluco. Quer dizer, você, as cartas, eu, aqui. É como se o destino tramasse... Como se ele tivesse me trazido até aqui.
– Acredita em destino?
– Mais do que nunca – ela afirmou.
Pouco a pouco ele quebrou a distância que ela causou. Levou a mão à nuca dela, mergulhando os dedos por entre os fios dourados. Seus rostos, cada vez mais próximos. Rosalie podia sentir o hálito quente dele contra seu maquicilar. Fechou os olhos respirando fundo, prevendo o que iria acontecer. Estremeceu quando os lábios dele encostaram aos seus; macios e convidativos. Sem muito pensar, permitiu que seus lábios se abrissem recebendo o beijo, que a cada segundo se tornava mais intenso. Despertando milhares de borboletas adormecidas em seu estomago.
Afastaram-se apenas quando Anna parou no umbral da porta, exigindo uma explicação.
– Quem é ela?
Ambos olharam imediatamente na direção do som da voz. Rosalie se surpreendeu ao ver a garota de pele pálida, embora morasse em cidade litorânea, de cabelos negros, usando uma maquiagem escura nos olhos ofuscando muito de sua beleza natural. Unhas pintadas de preto. Foi então que ela chegou à conclusão, Anna era diferente. Diferente de tudo o que imaginou.
Emmett não soube o que responder, sequer sabia o nome da mulher a quem estava beijando.
– Eu me chamo Rosalie – ela esclareceu. Ele sorriu ao ouvi-la pronunciar o próprio nome. – Mas, pode me chamar de Rose. Você deve ser a Anna?...
– Que se dane – Anna contestou, virando as costas.
Ao passar pela sala gritou com a visitante que lá estava.
– Pegue sua amiguinha, ou seja lá o que ela for sua, e deem o fora daqui.
A porta da frente bateu fazendo Kate saltar no lugar. Não estava entendendo nada. Porém, uma certeza ela tinha, iria dar o fora dali.
Ainda no quarto, Emmett se desculpou com Rosalie.
– Me desculpe por isso. Anna às vezes extrapola.
– Não tem problema. Imagino que esteja passando por uma fase complicada.
– Eu costumo pensar assim às vezes. De repente tudo é uma droga pra ela. Vive dizendo que odeia esse lugar, mas eu sei que não é verdade. Apesar de seu comportamento arredio é uma boa garota.
Rosalie olhou novamente na direção da porta, porém, dessa vez não era Anna, era Kate quem estava lá.
– Vamos, Rose. Vamos embora daqui, agora.
Emmett segurou as mãos de Rosalie, que ainda mantinham as cartas, entre as suas, e fez um pedido.
– Não vá...
– Vamos, Rose – Kate insistiu.
Rosalie olhou de um para o outro. Ela havia tomado uma decisão.
– Eu vou ficar.
– Você não vai – afirmou Kate. – Eu não vou te deixar aqui com um completo estranho e uma garota pirada.
– Kate... – Rosalie suspirou. – Foi ele quem escreveu aquela carta. A carta que encontrei na praia...
– Mais um motivo para eu te levar pra longe daqui.
– Eu vou ficar – ela reafirmou.
– Rose você sequer tem roupas para vestir.
– Eu as trouxe, estão no seu carro agora.
Kate ficou ainda mais surpresa.
– Parece que você pensou em tudo, não é mesmo?!
– Me desculpe Kate, mas, eu vou ficar sim.
– Eu não posso acreditar no que estou ouvindo. E mais, devo ser completamente louca por deixar que você fique aqui. Eu deveria te arrastar até o carro e te levar pra casa a força. Quem sabe até ligar para o papai e a mamãe.
– Você não vai fazer isso... – disse Rosalie, em tom de suplica.
– Não, não vou. Mas também não me perdoarei jamais se algo te acontecer.
Mais relaxada, Rosalie foi até ela e a abraçou.
– Obrigada por confiar em mim – sussurrou ao ouvido dela.
– Eu confio em você. É nele que não confio – Kate sussurrou de volta.
– Eu confio – garantiu Rosalie.
– Você é louca, se quer saber.
[...]
Minutos depois, Kate estava dentro do carro acenando com a mão enquanto se afastava.
Emmett pegou a mala de Rosalie e a levou até uma pequena pousada local, cuja dona era uma senhora de meia-idade, divertida e de bom caráter. Ela ficou com um quarto por tempo indeterminado, uma vez que não sabia quanto tempo iria ficar na cidade. O combinado foi que o aluguel seria pago somente no dia de sua partida.
Depois de se instalar e tomar um banho, ela encontrou com Emmett na portaria e foram juntos jantar em um pequeno restaurante da cidade. O jantar foi à base de camarão salteado na manteiga, arroz, salada e vinho branco. De sobremesa, uma taça de Tropicália para cada um – receita geladinha, intercalando camadas de doce de banana, geleia de maracujá e creme branco feito com clara em neve, com um toque de limão e hortelã.
Para finalizar a noite juntos deram uma volta a pé pelo centro da cidade. Ele a levou de volta para a pousada por volta das 23h40. Antes de partir se despediu com um beijo idêntico ao que deram no quarto, cheio de sensações e desejo.
Em casa, ele tentou contar para Anna o que estava acontecendo entre ele e Rosalie. Anna não quis falar muito a respeito, no meio da conversa foi para o quarto batendo com a porta.
Naquela noite nem ele nem Rosalie conseguiram pregar o olho, pensando um no outro e em tudo o que estava acontecendo. Rosalie aproveitou para ligar pra irmã, deixando-a mais tranquila, pelo menos, por aquela noite. Conseguindo assim evitar que ela ligasse para os pais, Carlisle e Esme, em Boston.
Na manhã seguinte, Emmett não foi trabalhar no bar. Foi a pousada buscar Rosalie e a levou para um passeio de barco. O barco não era seu, contudo. Era de um amigo.
Ela estava linda em um vestido leve de verão que não chegava a cobrir seus joelhos. Cabelos presos em um rabo de cavalo e óculos de sol. Uma bolsa de acordo com a ocasião, levando os itens que certamente precisaria.
Ele usava uma bermuda de sarja, camisa cinza sem mangas, boné e sapatos mocassins. Sua pele naturalmente bronzeada lhe dava um ar sexy.
– Onde está a Anna? – pediu Rosalie, depois de cumprimentá-lo com um beijo.
– Em casa com Zeus. Ela não curte muito esse tipo de passeio – comentou, abraçando a cintura dela.
– Que tipo? – pediu, com uma sobrancelha levemente erguida.
– De barco.
– Você tem um barco?
– É de um amigo meu. Ele me emprestou – ele selou seus lábios aos dela, depois continuou. – É um passeio a dois, Anna não podia estar junto segurando vela.
Rosalie rolou os olhos. – Nossa, se você não me dissesse nem tinha percebido – seu tom foi de total zombaria.
Emmett sorriu e lhe roubou um beijo, apertando de leve as laterais de sua cintura. De mãos dadas, eles seguiram até a caminhonete preta estacionada do outro lado da rua.
Não levou muito tempo para chegarem ao atracadouro. Sempre atencioso, ele fez questão de ajudar Rosalie embarcar. O passeio foi tranquilo. O mar estava calmo, ele até se atreveu deixá-la no comando do leme por alguns segundos. O papo foi agradável. A química entre eles fluía naturalmente. Em clima de romance, claro que alguns beijos foram trocados.
Por volta de meio-dia eles estavam de volta. Depois de deixar o barco devidamente atracado, e trocarem algumas poucas palavras com conhecidos, seguiram para a casa de Emmett, onde tinham planejado almoçar com Anna.
Zeus os recebeu na varanda com um abanar de rabo frenético. Ao se aproximar, teve as orelhas afagadas pelos dois que chegavam.
A primeira coisa que Emmett fez ao entrar em casa foi lavar as mãos para dar início ao preparo do almoço. Durante esse tempo, Anna fez questão de ser grosseira com Rosalie. Embora Emmett estivesse sempre se desculpando pelas grosserias da irmã, Rosalie dizia não ser necessário.
Depois do almoço sentaram-se na varanda e jogaram conversa fora, ouvindo o barulho do mar, apreciando a brisa que soprava. Vez ou outra, uma ave marinha sobrevoava próximo à residência. Zeus esteve o tempo inteiro deitado em um dos degraus da varanda. Anna, sentada ao batente de uma das janelas.
Foram muitos os momentos em que Anna se viu sorrindo. E isso se devia apenas ao fato de ver o irmão feliz. Assistiu Rosalie acariciar o rosto dele varias vezes, para depois beijá-lo, cheia de carinho.
Viu o modo como o irmão entrelaçava os dedos aos dela. O brilho novo em seu olhar toda vez que ela sorria.
Á noite, durante o jantar, Anna esteve muito calada. E quando chegou o horário de Rosalie voltar para a pousada, ela a surpreendeu com um “até logo”.
Nem Emmett nem Rosalie questionaram sua mudança de comportamento. O fato é que tinham gostado bastante.
No dia seguinte, Emmett não pôde encontrá-la pela parte da manhã, fato que o incomodou muito. Precisou resolver algumas coisas relacionadas ao bar, até antes do horário do almoço. Horário esse estipulado para buscá-la, deixando a escolha do restaurante a critério dela.
Rosalie, no entanto, quis lhe fazer uma surpresa, indo até a casa dele, preparar o almoço. E, quem sabe assim, tentar uma proximidade com Anna. Antes de seguir para lá, passou no mercado e comprou os ingredientes que precisaria para o preparo de sua receita.
Zeus estava tirando um cochilo na varanda quando ela chegou. Acordou aos sons dos passos dela, ficou de pé e foi recebê-la com o rabo abanando.
– Olá garoto – saudou Rosalie, lhe afagando a cabeça. – Anna está em casa? – perguntou mesmo sabendo que Zeus não responderia, subindo os poucos degraus da varanda com ele ao seu lado.
A casa estava silenciosa, porém, as janelas estavam abertas. Dando mais alguns passos à frente, ela bateu na porta com a mão.
– Anna...? – ninguém respondeu. – Anna, abre a porta pra mim, por favor.
Como ninguém respondeu, ela deixou as compras na cadeira de balanço e chegou mais perto da janela. Com muito cuidado sentou ao batente passando as pernas para o lado de dentro.
– Anna, eu estou entrando – avisou.
Uma vez do lado de dentro, chegou perto da porta e a destrancou. Pegou as compras na cadeira de balanço e as levou até a mesa da cozinha. Zeus aproveitou e entrou também, deitou-se ao lado do sofá onde ficou tirando um cochilo.
Após uma breve olhada em volta, Rosalie decidiu ir até o quarto de Anna. Bateu duas vezes na porta. Como ninguém respondeu, levou a mão à maçaneta e a girou abrindo a porta.
Anna estava deitada na cama, com fones de ouvido. Seu rosto mostrava sinais de choro recente. Olhou em volta buscando conhecer o local.
O cômodo era pequeno, porém, organizado. Não tinha muitos móveis. Apenas uma cama de solteiro perto da parede, um guarda-roupa na parede oposta. Uma escrivaninha com computador perto da porta e uma prateleira de livros. As paredes eram cobertas por posters de banda de rock. A colcha da cama era em retalhos. Na cadeira em frente à escrivaninha havia uma mochila preta com estampas de caveirinhas.
Anna só se deu conta da presença de Rosalie, quando ela se aproximou de sua cama.
– O que está fazendo aqui? – exigiu Anna, puxando um dos fones do ouvido. – Por onde você entrou?
– Eu entrei pela janela. Estava te chamando. Acho que você não deve ter me ouvido. Bem, eu vim fazer uma surpresa para seu irmão. Vou preparar o almoço para ele, não gostaria de me ajudar?
– Não, estou muito ocupada – Anna respondeu sem ao menos pensar, levando o fone de volta ao ouvido.
Ignorando sua indiferença, Rosalie sentou na beirada da cama, constatando que a colcha era bem macia, aliás. Anna a encarou retirando os fones do ouvido.
– O que está fazendo? – pediu ela.
– Estou te esperando – avisou Rosalie, olhando na direção da janela.
– Que parte do “estou ocupada” você não entendeu?
– Ah, eu entendi sim – disse Rosalie, com tranquilidade. – Você está ocupada vendo a vida passar. Não se preocupe só estou tentando entender onde está à diversão de tudo isso.
Anna rolou os olhos com desdém.
– Porque você não sai daqui? – agora Anna não a encarava, em vez disso olhava para o lado oposto, o lado da parede. – Só porque fui razoavelmente legal com você no outro dia, não te dar o direito de vir no meu quarto se intrometer em minha vida.
Rosalie reconheceu no tom de sua voz, tristeza e ressentimento.
– Só estou tentando ser sua amiga...
– Por quê? – pediu Anna. – Ninguém gosta de mim. Jamais gostou.
– Seu irmão gosta. Eu também, Anna. Só preciso que me dê uma chance para provar isso.
– Não posso gostar ou me apegar a ninguém, porque, no final, de uma forma ou de outra, todos vão embora... – sua voz soou trêmula.
Rosalie segurou o tornozelo dela afagando-o de leve.
– Só me deixe tentar... – Anna enfim tomou coragem para olhá-la novamente. – Por favor... Uma chance apenas.
– Tudo bem – ela concordou.
– Vem cá – pediu Rosalie.
Anna se sentou e ao fazer isso Rosalie a puxou para um abraço. A garota se surpreendeu com o gesto de carinho, mas, logo em seguida, um sorriso curvou o canto de seus lábios e seus braços finos retribuíram ao abraço.
– Você tem o cheiro bom – comentou em um fio de voz, fazendo Rosalie sorrir.
– Anda! Vem me ajudar com o almoço.
– Tá legal.
Quando Anna saiu da cama Rosalie lhe deu um tapinha na bunda. As duas saíram do quarto sorrindo. Anna parecia bem menos arredia agora.
Não levou muito tempo, estavam as duas na pequena cozinha, cercadas de panelas e condimentos. Anna mostrando onde estavam os objetos que precisava, ajudando também com o corte dos alimentos.
Horas depois. Por volta de 13h35, Emmett chegou do bar. Zeus o recebeu como sempre fazia.
O aroma do almoço imediatamente alcançou seu olfato. Surpreendeu-se ao ver a mesa posta, idêntica a de um restaurante, minuciosamente detalhada, refinada.
– Anna...? – ele a chamou, tendo uma sobrancelha levemente erguida em sinal claro de desconfiança.
Ouviu vozes, vindo através do pequeno corredor dos quartos, caminhou até lá. A porta do quarto de Anna estava entreaberta, ele pôde vê-las sentadas na cama, uma de frente para a oura. Anna se encontrava de costas para a porta. Rosalie usava o que parecia ser um lenço, para limpar a maquiagem escura nos olhos dela.
Seria mesmo real? , ele pensou.
– Você tem o rosto tão delicado, Anna. Não entendo porque se esconde atrás dessa maquiagem pesada...? Sem todo esse preto nos olhos, parece uma bonequinha.
– Eu não sei... – a garota sussurrou.
Rosalie finalizou o que estava fazendo, depois lhe deu um beijo no rosto. Somente então Emmett avisou de sua presença, dando três leves batidas na porta.
As duas olharam naquela direção, abrindo um sorriso enorme ao vê-lo. Anna saltou da cama sem prévio aviso.
– Eu vou tomar um banho – ela explicou. Ao passar pelo irmão tocou em seu braço.
– Está uma gatinha – ele elogiou.
Anna sorriu satisfeita, e, no minuto seguinte, não estava mais ali.
– Obrigado, por isso – ele murmurava vendo Rosalie se aproximar devagar.
– Não me agradeça...
– Você é uma mulher incrível, sabia?
Ele segurou o rosto dela entre as mãos.
– Sou?
– É sim – ele afirmou, para logo depois tomar seus lábios em um beijo. – Eu te amo – sussurrou em meio ao beijo.
– Eu também te amo – dessa vez, foi ela quem o beijou. – E então, vamos almoçar. Eu preparei o almoço pra gente.
– Quando vi a mesa posta daquele jeito, soube de cara que não tinha sido Anna. Ela mal coloca os pratos.
– Ah, mas ela me ajudou bastante. Você precisava ver. Acho que estou conquistando um espacinho no coração de sua irmã.
Ele a beijou novamente.
– Estou adorando vê-las assim, se dando bem. Vou só tomar um banho antes de o almoço ser servido. Enquanto Anna está usando o banheiro, eu vou buscar uma roupa no meu quarto.
– Eu vou com você.
– Tomar banho? – ele sondou, usando de uma expressão sem vergonha.
– Não, seu bobo. Até o seu quarto.
Emmett passou o braço em volta da cintura dela enquanto caminhavam.
– Mas seria interessante... – ele sussurrou ao pé de seu ouvido.
[...]
Algum tempo depois...
Após terem almoçado e deixado à cozinha em ordem – cada um havia se encarregado de uma coisa. Emmett e Rosalie saíram para um passeio na praia. Anna ficou na varanda, sentada na cadeira de balanço, lendo um romance que Rosalie lhe deu de presente.
De mãos dadas, o casal caminhava desfrutado do sol de um fim de tarde, pisando na areia macia e morna. Apreciando o barulho das ondas, e a brisa que soprava com leve frescor de maresia.
Sentaram-se na areia, juntinhos um ao outro, onde ficaram comtemplando a natureza. Em pouco tempo, o céu começou escurecer e um relâmpago ecoou ao longe.
– Acho melhor voltarmos – sugeriu Emmett –, vem tempestade por aí.
Novamente outro clarão, e logo depois o trovão. As ondas começando se agitar além do normal. O vento que vinha do mar soprava com força curvando a vegetação rasteira.
– Eu concordo com você – acrescentou Rosalie.
Em questão de segundos, a chuva começou a cair em pingos grossos. O casal correu de mãos dadas em busca de abrigo. Correndo até alcançar a vegetação mais alta.
Emmett sabia exatamente onde encontrariam um local para se abrigar. Uma velha cabana de pesca que costumava usar como deposito localizada há alguns metros da casa.
Ele empurrou a porta com força. A chuva chicoteando com fúria suas costas. Quando a trava cedeu, o vento fez com que a porta batesse na parede velha de madeira. Deixou que Rosalie entrasse primeiro. Depois disso, lutou contra o vento pra fechar a porta novamente. Raios e trovões cada vez em menos intervalo de tempo. Um ribombar constante no céu.
Tremendo, Rosalie se chocou contra ele na luta para fechar a porta. Emmett olhou para ela, pela primeira vez notando o tecido do vestido grudado em cada curva de seu corpo. Delineando meticulosamente os seios.
Ele passou a mão na cabeça, tentando enviar pra longe as bobagens que começava pensar. Mas ela estava ali, bem a sua frente, linda e insuportavelmente sexy. Tremendo, olhando-o com inquietação.
O primeiro movimento foi febril. Emmett a puxou contra seu corpo envolvendo-a em um forte abraço de urso. Sentindo cada curva contra seus músculos, irradiando calor. Segurando o queixo dela com uma das mãos, tomou seus lábios em um beijo cálido.
Enquanto a chuva castigava as paredes da cabana, e trovões ribombavam no céu, roupas foram jogadas no chão coberto de maresia e poeira. Um barco inflável que estava preso ao teto foi derrubado ao chão por Emmett. A manta que ficava dentro de um armário velho foi usada para forrá-lo e usá-lo como cama.
O mundo lá fora foi completamente esquecido. Eram apenas os dois. A chuva que fustigava a cabana e o desejo imenso de se amarem pela primeira vez.
Fizeram amor devagar, sem pressa, desfrutando de todas as sensações que despertavam um no outro. E quando seus corpos se deram por satisfeitos permaneceram juntinhos, ouvindo a chuva cair, esperando o momento que pudessem voltar para casa. Trocaram beijos e carícias até que, por fim, acabaram cochilando.
Quando conseguiram voltar pra casa já era tarde da noite. Teriam passado a noite na cabana, não fosse Anna sozinha em casa.
Emmett encontrou a irmã dormindo no sofá. Zeus no tapete ao seu lado. Com cuidado a pegou no colo e levou para a cama, cobriu-a e fechou a porta ao sair.
Naquela noite Rosalie não voltou para a pousada. De portas fechadas, no quarto de Emmett, voltaram a fazer amor. A explosão de química entre eles era completamente viciante. Lá fora, a chuva voltou a cair com a mesma intensidade.
[...]
Uma semana se passou desde a chegada de Rosalie a cidade. Ela havia deixado à pousada, no dia seguinte ao que fizeram amor pela primeira vez, para ficar na casa de Emmett.
Os dias felizes foram passando e suas férias chegaram ao fim. Com isso seu retorno a Boston, também.
Kate, Garrett e as crianças fizeram questão de ir buscá-la para irem embora juntos.
– Nos vemos dentro de alguns dias – ela sussurrou.
Emmett mantinha o rosto dela entre as mãos depois de beijá-la.
– Não sei se irei aguentar tanto tempo... – ele confessou.
– Vai me ligar todos os dias?
– A cada minuto, querida.
Beijaram-se mais uma vez e então foi a vez de Anna se despedir.
Anna a abraçou sem conseguir esconder as lágrimas. Durante os dias que passaram sob o mesmo teto tornaram-se grandes amigas.
– Não vá... – ela pediu entre um soluço e outro. – Você é o que mais perto tive de uma mãe.
Rosalie se inclinou um pouco para poder beijar seu rosto.
– Eu volto Anna. Eu juro que volto.
Anna se afastou o suficiente para olhá-la nos olhos.
– De verdade? Jura que volta?
– Eu juro.
– Tá – Anna concordou, secando o rosto, chegando um pouco para o lado.
Novamente Emmett tomou Rosalie em um abraço forte, erguendo-a do chão dessa vez. Beijaram-se novamente. Somente então a deixou ir.
Ele abriu a porta do carro para ela entrar. Ficou observando-a sentar ao lado das duas crianças, seus sobrinhos.
Ela abriu o vidro da janela e Emmett segurou sua mão. Beijou seus dedos e disse que a amava. Emocionada, ela também disse que o amava.
Ele ficou ali, ao lado de Anna, sentindo um aperto no peito, vendo o carro se afastar, acenando da calçada de cascalhos.
Dentro de alguns minutos, ela estaria embarcando em um avião de volta a Boston.
[...]
Dez dias depois...
Durante esses dias Rosalie falou com eles por telefone varias vezes, e também pelo Skype. Estava esperando apenas um tempo livre para poder ir vê-los novamente.
A saudade os consumia a cada segundo, tornando tudo ainda mais difícil.
Agora, sozinha em seu apartamento em Boston, falando ao telefone com a mãe, o som da campainha chamou sua atenção.
Abriu a porta sem ao menos perguntar quem era. Deixou o telefone cair de suas mãos quando percebeu quem estava ali. Eram Emmett e Anna, sorrindo para ela.
– Viemos te buscar – avisou Anna.
– Rose, querida, você aceita se casar comigo? – pediu Emmett, estendendo a mão com uma caixinha vermelha, de tampa aberta, revelando um lindo anel de noivado.
Rosalie o abraçou sem ao menos pensar. Sorriso e lágrimas se misturaram em seu rosto.
[...]
Aproximadamente um ano depois...
Na varanda da casa de Emmett estavam os três agora. O casal sentado juntos em um banco de madeira pintado de branco. Anna sentada na cadeira de balanço e Zeus perto dos degraus.
Duas novas amigas de Anna passaram em frente da casa e a chamaram para se juntar a elas. Anna olhou para o irmão e a cunhada, ambos confirmaram com um movimento de cabeça. Ela desceu os degraus correndo e foi se juntar as amigas.
As três garotas saíram conversando entre si, sorrindo.
– Ela está feliz – anunciou Rosalie.
– Você não mudou apenas minha vida, a dela também – acrescentou Emmett.
– Eu não, o destino... – divagou ela. – Antes de conhecer vocês, eu também não estava feliz.
Com um sorriso de covinhas estampado no rosto, Emmett selou seus lábios aos dela. Ao se afastar, afagou o barrigão, de sete meses, que Rosalie agora carregava. Sentiu o bebê mexer enquanto a esposa afagava de leve seu rosto. Curvou-se sobre o barrigão e afastou a blusa, depositando um beijo bem ao lado do umbigo onde havia um montinho em movimento. O fruto de um grande amor...
... Unidos pela força do destino.
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