Capítulo 64

Tot anirà bé

I

Barcelona, Catalunya, Espanha

Madrugada do dia 3 de agosto de 2016

Os furgões dos Mossos d’Esquadra deixaram o local e a cúpula vermelha que a Ordem havia levantado começava a desaparecer. Sakura e Tomoyo correram para tentar ajudar Kero de alguma forma, mas já estava tudo bem com o guardião. Ele começava a despertar aos poucos do intenso combate. Dom Miquel fechou os olhos e procurou sentir as presenças próximas. Sua aura brilhou em branco, enquanto Dom Felipe estava atento à tudo.

— Pode vir, Gotzone. Eles já foram. Não tem ninguém mais por perto… — disse Dom Miquel.

A loira de tranças deu um salto do teto da catedral até as escadarias. Ami, que a acompanhava, também apareceu, para espanto de Sakura e Tomoyo.

— Dom Miquel, que negócio é esse? Ami, até você? Você também é da Ordem? — perguntou Sakura.

— Sou sim, Sakura. Sou sub interventora de Lleida. — respondeu a médica de cabelos azuis.

— Sub interventora de Lleida? Que palavra grande que me lembra tanta coisa ruim pelo que eu passei! — disse Sakura, tensa.

— É grande, mas é o que eu sou. Eu também tinha sido convocada pra lutar contra você e a Meiling em Osaka.

— Como é que é? Então você… — disse Sakura.

— Sim, sim, eu já sei de toda a história do David Bel, do Jordi Bonvehi, do Ferran Adrià, da Miriam Budó, da Mercè Mas, do Damià Colomines e da Marta Carbonell que tentaram pegar as cartas há seis anos atrás. Eles foram meus amigos na Ordem e eu conversava muito com eles. Inclusive, foi o Jordi Bonvehi quem foi meu professor na Ordem… — explicou Ami. Sakura ficou tão irritada que se levantou das escadarias e queria partir para cima da mulher por ela não ter dito aquilo antes. Tomoyo segurou o braço de Sakura e impediu que ela desse mais um passo.

— Sakura. Vamos escutar o que ela tem a dizer, vamos?

— Até você, Tomoyo, tá nessa? — perguntou Sakura.

— Não é só ela não… Eu também tô, Sakura. E olha que sou o responsável por te proteger… — disse Kero, despertando por completo. Ele brilhou e ficou em sua forma verdadeira.

— Hoe!!!

II

Madrid, Espanha

Na cozinha da enorme mansão em Madrid, que Syaoran e Gotzone tinham na capital, o chinês bebia um copo de água preocupado. Estava sentado na mesa de vidro, olhando para uma mensagem que a jogadora havia enviado no celular.

— Shoran, o Chi já tá aqui… — disse Nakuru trazendo o menino pelas escadas modernas da casa. O pequeno ainda esfregava os olhos por causa do sono. Ele sorriu para o filho.

— Filho, tudo bem? Ainda tá com sono?

— Não papai. Eu vou ter o dia todo para dormir. Eu estou de férias ainda. — disse o rapazinho, se aproximando do pai. — O que o senhor queria falar de tão urgente comigo?

— Bom… — Syaoran levantou-se da mesa e pegou o filho no colo. — Vamos ver sua mãe em Barcelona?

— Barcelona? Como assim? — perguntou o rapaz. Nakuru brilhou e se transformou em Ruby Moon, com suas longas asas de borboleta.

— A gente explica no caminho, Chi, vamos lá… — disse Nakuru. Ela pegou Syaoran pelas mãos e os três flutuaram pelos céus madrilenhos em alta velocidade.

III

Barcelona, Catalunya, Espanha.

Nas Escadarias da Catedral de Barcelona, Sakura olhava contrariada para os degraus.

— Então essa é a história é? E você enganou o Kero-chan com isso? — perguntou Sakura.

— Eu nunca quis enganar ninguém. Eu que fui enganada. O Interventor chefe reuniu os Interventores e sub interventores dos países catalães no Palácio da Ordem em Barcelona e disse que a gente precisava pegar as Cartas Clow. Ele mostrou aquele pergaminho branco, de trezentos anos atrás com a assinatura do Mago Clow, e a gente achou que fosse a coisa certa a fazer. Todos nós. Só que, o David Bel e a Miriam Budó já pensavam outra coisa. Eles queriam usar as cartas pra acabar com os comuns. Eu pensei que aquele papo fosse brincadeira deles, mas não era. Foi aí que eu comecei a me tocar que tinha alguma coisa de errado naquilo tudo… — explicou Ami.

— Sei… A gente tinha que ter combatido esse pensamento extremista na Ordem desde cedo. Qual deles era mago puro sangue que nem eu? Dá até pra contar nos dedos quem é sangue puro na Ordem… — disse Gotzone.

— O problema era que ninguém combateu. Ainda mais, nosso comandante. Como é que a gente ia desconfiar? Foi então que, quando eu vi o Jordi morrendo em Osaka por conta dessas cartas, eu percebi que tinha outra coisa de errado. Eu vi você, Sakura, eu vi o Kero. Eu tava tentando me esconder e vingar o meu professor. Foi nessa hora que vi a sua confusão, se você era dona das cartas ou não. Foi então que, eu dei chance pra minha dúvida e conversei com o Kero. Ele me falou tudo. Tudo mesmo. Me explicou até o motivo do Clow ter assinado aquilo, a chantagem que ele passou… Tudo pra salvar o Yue no passado. — disse Ami.

Sakura olhou de esguelha para o guardião.

— Tô vendo que ser espionada é normal pra mim, seja lá quem for que coloquem atrás de mim pra me vigiar… — desabafou Sakura, olhando para Gotzone. — Já devem até saber a cor da minha calcinha!

— Não leva a mal não, Sakura. Eu fiz o que eu fiz pra tentar te proteger. Só que agora, eu não sei como te proteger mais, Sakura. Eu não conheço o inimigo e nem sei como ele vai agir. Por isso, quando esse momento chegasse, sabendo que a Ordem tava dividida, eu pedi ajuda pra Ami, já que você e a Gotzone não se dão bem… — explicou Kero.

— Não liga com isso mais, Kero-chan. Eu já sei como eu vou me proteger. Eu não vou querer proteção da Ordem, nem do ministério da Beatriz. Eu vou atrás desses caras sozinha… — disse Sakura, séria.

— Sozinha, Sakura? Você tem ideia do que você tá dizendo? — disse Tomoyo, desesperada.

— Sei sim. Dom Miquel, uma vez falou pra mim, que eu só começaria a me desenvolver se eu tivesse que usar meus poderes na prática. É isso que eu vou começar a fazer. Vou ir atrás deles e ver no que vai dar…

— Sakura, eu sei que eu disse isso, mas em momento algum quis te lançar diante do perigo. Se você continuar a fazer os exercícios que eu te passei, agora com uma dificuldade aumentada, pois já vi que você é capaz de usar uma grande soma de energia, acredito sim, que é possível você se desenvolver sem se expor tanto… — disse o cardeal.

— Eu sei, Dom Miquel, mas eu preciso fazer isso, eu preciso ir atrás deles sem comprometer a Tomoyo, o senhor, a Ami e até mesmo essa loira aguada da Gotzone, que protege meu filho! Fico imaginando que agora eles vão vir com tudo. Por causa disso quero deixar vocês longe de problemas. Vocês não vão saber onde eu estou, nem tão pouco eles vão vir atrás de vocês. Que eles venham atrás de mim e eu vou partir pra cima deles! — disse Sakura, com firmeza no olhar.

— Eu já imaginava que você ia dizer isso, Sakura, por isso, eu chamei eles aqui… — disse Gotzone.

— Eles quem? — perguntou Sakura.

IV

Uma nuvem de borboletas começava a descer dos céus. À medida que descia, o enxame de insetos dissipou-se aos poucos, revelando as pessoas dentro daquela nuvem.

— Syaoran! — disse Tomoyo.

— Ruby Moon! Chitatsu! — exclamou Sakura.

— Vejo que você não caminha sozinha, Sakura… — disse Dom Miquel, sorrindo.

Os três pousaram no chão e Chitatsu correu para abraçar a mãe.

— Mamãe, tá tudo bem com a senhora? Por que a senhora está toda arranhada? — perguntou o pequeno, preocupado.

— Filho, a mamãe tá tendo que lutar contra uns caras realmente maus mesmo, tá certo? A mamãe vai precisar ficar um tempo longe de você, está bem? — disse Sakura, com o peito apertado.

Chitatsu ficou pensativo, como quando a mãe disse que estava se separando do pai. Ele olhou para Gotzone com a armadura vermelha como sangue, olhou para Tomoyo e Felipe com a armadura dourada e o rastro de fuligem e cinzas que estava naquelas escadarias, além do cheiro de queimado saindo do ambiente. Uma lágrima saiu dos olhos do rapaz.

— Mamãe, isso não é tão fácil quanto pegar uma Carta Clow, né? Até a Gotzone tá aqui, com essas roupas diferentes… Tenho medo, mamãe, medo pela senhora, pelo papai… — disse Chitatsu, com as lágrimas escorrendo dos olhos. Sakura e o resto do povo não deixou de reparar na inteligência do rapaz.

— Você é muito inteligênte, Chi! A mamãe e o papai amam muito você, sabia? — disse a Cardcaptor, dando um beijo longo na testa dele. Ela tentou fazer cócegas nele para ver se ele se animava mais. Tudo o que ele fez foi dar um tímido sorriso. — Chi, tempos difíceis chegaram pra gente, tá?

— A senhora não vai poder falar comigo todo dia, não é?

— Sim, filho, não vou poder. Por isso, eu peço que você continue estudando matemática pra ser um grande homem na sua vida e continue jogando futebol com seus irmãos, porque vai que você queira seguir os passos do papai, não é? Por isso, tem que praticar todo dia… — disse Sakura, se emocionando também com o próprio discurso. Syaoran apareceu e pegou o menino do colo dela.

— Chi, o pai vai tá aqui com você. A tia Meiling, quando voltar, vai ficar aqui com você também. Tem a Gotzone, tem todo mundo. Mas vai ter tempos que a gente não vai poder ficar com você direito. Então, quando esse momento chegar, a tia Nakuru vai estar com você. Obedeça à ela, está bem? — disse Syaoran.

— Tá bom, papai, eu já entendi. É pra continuar, não é? — perguntou o rapaz.

— Sim, e não pare por nada desse mundo! — disse Syaoran, entregando o menino para Nakuru. O chinês levantou os olhos e disse para Sakura:

— Não pense, Sakura, que esse é um problema que só seu. Eu vou me envolver nele sim. A Meiling ia fazer a mesma coisa também se estivesse aqui… Afinal, são as nossas cartas, os nossos filhos… A gente também é alvo fácil deles… — disse Syaoran. Fazia tanto tempo que não tinham uma conversa decente que aquelas palavras aqueceram o coração da Cardcaptor. Ela deu um tímido sorriso para ele, para depois voltar a ficar olhando para as escadas. Tomoyo também reagiu.

— Eu também, Sakura! Não pense que eu vou ser a mesma Tomoyo de antes e vou ficar parada com uma câmera nas mãos! Antes, eu não podia te ajudar, mas agora eu posso! A Marcela me ensinou um monte de coisas, como atacar, como me defender. E agora, eu tenho essa armadura dourada de rainha. Se é para ser rainha, então, vamos eliminar essa ameaça do reino juntas e viver em paz de uma vez por todas! — disse Tomoyo, apertando com força as mãos da Cardcaptor.

— Bela surpresa você me preparou, Gotzone, sua bruxa! Envolvendo meu filho no meio… — disse Sakura, serenamente, soltando um fio de lágrimas nos olhos. Ela deu alguns passos para fora das escadarias e ficou olhando para todo mundo, da calçada. — Só tenho a agradecer por ter a ajuda de todo mundo aqui hoje. Obrigado por me mostrar que eu não tô sozinha nessa e que eu posso ficar um pouco mais sossegada com o meu filho.

— Você pode pedir a nossa ajuda também, Sakura. Essa é uma guerra que envolve todo mundo daqui… — disse Gotzone. Sakura não contestou as palavras dela. Limitou-se a sorrir timidamente, como quando escutou as palavras de Syaoran.

— Obrigada. Agora é hora de eu começar a caminhar sozinha… Não me telefonem, eu vou telefonar pra vocês. Não quero ajuda da Dona Beatriz, nem da Ordem do Dragão. Quero ver por mim as dificuldades que me esperam. Quero enfrentar de uma vez por todas o que tá querendo me derrubar… Eu vou ficar bem, eu vou ficar bem… Dena ondo egongo da! Tot anirà bé (vai dar tudo certo)! — disse Sakura, nas línguas que aprendeu a falar no seu tempo na Espanha. Tomoyo correu e deu um abração na cardcaptor, chorando nos ombros dela todas as lágrimas que ainda não chorou. O abraço foi tão forte que demoraram-se minutos naquela conversa sem palavras que só as duas sabiam o que significava.

— E quando isso acabar, promete que vamos conversar sobre tudo mesmo, Sakura? Acho que a gente tem muita coisa a acertar, não acha? — disse Syaoran, assim que acabou o abraço das duas amigas.

— Sim, sim, vamos acertar tudo… Temos que conversar, né, Shoran? Não podemos parar. Temos que ver como vai ficar o Chi, em que casa ele vai ficar, como vai ficar essa coisa das visitas… A gente tem muita coisa a conversar… Eu não tô com pressa ainda… Vamos, Kero…

O guardião alado, em sua forma falsa de boneco de pelúcia, saudou todo mundo antes de pousar no grande bolso da jardineira de Sakura.

— Gotzone, muito obrigado mesmo por me convidar pra reunião da Ordem. — A loira fez um sim com a cabeça. — Obrigado, Ami, pelos doces gostosos que você preparou pra mim e por toda a conversa que a gente teve. Tomoyo, Felipe, Miquel, Shoran, Nakuru… A gente vai, mas a gente volta! Se a gente tá indo agora, é pra não precisar ter que se despedir mais! — disse Kero. Nesse momento, Chitatsu correu até o guardião.

— Kero-chan, traz a mamãe de volta, está bem? Me promete… — disse Chi, tentando não chorar.

— Já tá prometido, pirralho! Agora vai dormir! — disse Kero, tentando segurar as lágrimas. — Se você não melhorar no futebol, vou morder seu dedo… — disse Kero, se escondendo no bolso da jardineira de Sakura. Os dois começaram a correr, sem rumo, sem direção pelas ruas da cidade condal, somente com o mesmo sentimento dentro deles, somente com o desejo de apagar aquele peito quente, recheado de dor por causa das despedidas e da incerteza se vão voltar a ver o menino ou não.

“Filho… Tomoyo-chan… Eu prometo que eu vou voltar, pode acreditar! Eu vou voltar sim!”, pensou Sakura, segurando aquela palavra dentro da mente como um mantra.

Continua…