Uma Canção de Sakura e Tomoyo: Finalmente Juntas
82 Eu não disse pra você?
Capítulo 82
Eu não disse pra você?
I
Salamanca, Espanha
Noite de 2 de agosto de 2017
A lança negra de Victor tintilou na maça estrela vermelha de Ágatha. Sakura olhou apreensiva, com uma carta nas mãos.
— É tão absurdo os reinos de Castela e Leão lutarem um contra o outro! — comentou Victor.
— Castela e Leão já lutaram uma vez! Leão já era reino antes que Castela fosse alguma coisa! — disse Ágatha. Victor sorriu. Uma explosão de chamas atingiu o ex-interventor pelos lados. Metade da armadura negra derreteu e parte do seu rosto ficou chamuscada. Sakura já estava com o báculo da estrela em mãos, apontando para ele.
— Você evoluiu muito, Sakura. Muito mesmo. Cadê aquela menina que morria de medo quando via a gente? — perguntou-se Victor.
— Ela tá enterrada no fundo do mar onde você tentou me afundar hoje de manhã! — disse Sakura. Ela levantou o báculo para o alto e uma cúpula em forma de estrela envolveu aquele subúrbio de Salamanca. Depois, lançou uma carta no ar e gritou. — Espada! Escudo! — O báculo da estrela se transformou na carta espada e um fluxo de penas cresceu ao redor do pulso da cardcaptor.
Victor tocou a lança no chão e os paralelepípedos da rua se ergueram, formando uma linha de estalagmites que corria onde Sakura e Ágatha corresse. Ele aproveitou a distração delas e lançou uma magia com a mão livre. Uma nuvem de morcegos voou contra as duas, batendo nelas. Ágatha investia ferozmente com a maça estrela contra a nuvem de mamíferos voadores. O ar começou a se encher de fuligem. Sakura ergueu a carta Escudo e apontou a espada para ele, dizendo:
— Windy! — A carta vento saiu da ponta da espada, carregando os morcegos e a nuvem de fuligem consigo, pelos ares da cidade.
— Eu tô vendo que estragaram a minha estratégia… Não é à toa que disseram que essas cartas eram perigosas demais pra Ordem… Luna Hernández, minha antecessora, morreu lutando contra elas…
— No tempo da tal de Neus Artrells, não é? — disse Sakura. — Eu sei de toda a história. Vamos ver se ela se repete…
— O que me surpreende é ver você com essas cartas na mão, cartas que a gente teve tanto trabalho pra pegar. — disse Victor. Ele deu um salto no ar e tentou acertar Sakura com a lança em mãos, mas a maça de Ágatha atingiu em cheio o rosto do ex-marido.
— Sua luta é comigo, Victor! — disse a mulher.
— Eu luto contra um monte de coisas! Muitas coisas mesmo que vocês não tem ideia! — disse Victor, rodopiando a lança. Sakura e Ágatha voaram contra ele. A lança bateu na espada da jovem médica e a fez recuar. Ágatha fez uma curva e acertou na lança, apenas para ser repelida por ela. O ex-interventor investiu ferozmente com a ponta da arma contra a interventora de Leão. Ela se defendia de todos os golpes. Vez ou outra, a mestra das cartas tentava acertá-lo, mas o homem era mais rápido, batendo o cabo da lança contra ela, na barriga e no queixo dela. Afastaram-se.
Victor cerrou o punho e ergueu o punho, fechando-o. Um golem de pedra enorme se levantou das ruas.
— É tão injusto uma luta de dois contra um. — disse ele.
— Isso não é problema pra mim! — Grande! — disse Sakura, se transformando em um titã de dez metros de altura. As mãos grossas de pedra se encontraram com as mãos delicadas de cirurgiã aprendiz, que era a cardcaptor. O gigante de pedra tentava forçar a barra contra ela, mas Sakura resistia. Gotas de suor escorriam por sua franja e seus dentes trincavam com o esforço. Ágatha e Victor se encararam, andando em círculos um contra o outro.
— Isso, no final, era só uma luta minha contra você, não é? — disse Ágatha.
— Isso é a luta de um homem que se recusa a ser escravo do mundo injusto dos comuns contra quem acha que é muito bom viver nele! Que é muito bom passar fome e desistir dos sonhos de uma vida melhor em prol de uma paz que não existe! — disse Victor.
— Eu amava você, Victor! Eu amava de verdade! Você nunca mostrou que tinha essas ideias doentias dentro de você! Jamais! O que deu em você? — perguntou Ágatha.
— Experimenta passar fome uma vez pra você ver que a coisa não é assim como você sonha! Esse mundo é injusto! O que impede que nós, magos, façamos umas mudanças nele? Somos melhores que os outros, por que temos que nos comportar como ratos? — indagou Victor. Ágatha fazia não com a cabeça, não acreditando no que ele falava.
— Você tá querendo espalhar a miséria que você tanto odeia entre gente que não tem nada a ver com os seus problemas! Os magos vêm dos comuns também! Minha mãe, minha irmã, não tem magia nenhuma, Victor e tivemos dois filhos com magia! Como você diz uma coisa dessas! — disse Ágatha, desesperada.
— Quando a gente eliminar os comuns, o sangue ruim vai finalmente ser arrancado da terra. Então, não vai ter essa coisa de magos nascerem dos comuns. Vamos ter uma única raça mágica imortal, invencível e poderosa! Nossos filhos vão ser exemplo desse novo alvorecer! — disse Victor, apontando a lança para ela.
— Seu fascista de merda! Eu não vou deixar que você passe suas ideias doentes pros nossos filhos! Eu te odeio, Victor, eu te odeio! — disse Ágatha. lança bateu contra maça mais uma vez.
II
Kero voou com as crianças até o centro da cidade. Pousou os pequenos em cima de um dos prédios históricos e olhou mais uma vez para o horizonte, onde estava a cúpula que Sakura havia criado.
— Crianças, fiquem aqui! Eu vou ver como está o pai de vocês! Qualquer coisa, eu volto aqui pra ver vocês. — disse o leão dourado.
Bernardo e Ariela se encararam.
— A gente já sabe que nem a mamãe, nem o papai vai voltar… — disse Ariela.
— Crianças! Não digam bobagens! Como vocês podem dizer uma coisa dessas! O papai de vocês virou um mostrengo mal mesmo! Muito mal! Ele vai ser preso pra pagar pelos crimes dele! — explicou Kero.
— Eu não sou bobo! Tenho onze anos e a Ariela tem dez! — disse Bernardo, com raiva.
— A mamãe falou que a Torre Negra pode matar ela! O papai falou que não garantia voltar vivo! Esse dia chegou! Não mente pra gente! — disse Ariela, com uma lágrima no olho.
“É a mesma idade que a Sakura, Tomoyo e o pirralho tinham quando começou essa história de Cartas Clow! Essas crianças tão cada vez mais precoces…”, pensou Kero. — Crianças… Veja bem…
— Veja bem, você, Kerberos! A gente é parte da Ordem desde os sete anos! Não vem esconder as coisas da gente! — disse Bernardo.
— Mas eu vou deixar vocês aqui, quer sim, quer sim! Tenho mais de trezentos anos de idade e acho bom vocês respeitarem seu veterano! — disse Kero, orgulhoso, discutindo com as crianças. Os dois filhos de Ágatha se olharam mais uma vez.
— Desculpa, Kerberos. A gente tem que ver… A gente tem que ajudar o papai e a mamãe… Eles não podem se matar! — disse Ariela. As duas crianças levantaram as mãos para o alto e uma nuvem azul-esverdeada em forma de fantasma sobrevoou a cabeça de Kero.
— “Sueño!” — disseram os dois. Kero ficou zonzo e tombou no telhado.
— Desculpa… — disse Bernardo. Ele pegou nas mãos da irmã e os dois flutuaram pelos céus.
III
O enorme titã de pedra deu um murro na cara de Sakura. Ela ficou tonta e caiu por cima das casas ao redor.
Felizmente, a barreira evitava que algum comum se machucasse nesse tipo de ataque mágico e impedia que as tropas do ministério de assuntos especiais interferisse de alguma forma. Além disso, qualquer prédio destruído dentro da barreira era restaurado assim que o mago que a criou vencesse a luta. se perdesse, a destruição que ficava era transportada para o mundo fora da barreira.
Victor reparou no que o golem havia feito. O monstro de pedra se preparava para dar uma sequência de socos na Cardcaptor.
— É incrível o que as Cartas Clow podem fazer, não é? Não é à toa que eu fui premiado com um poder que consegue lutar contra elas… — disse Victor, dando estocadas com a lança contra Ágatha. Ela se defendia com a maça estrela.
— Você tem certeza, Victor? Não podemos com essas cartas no passado, você não pôde com a Sakura de manhã, não pense que vamos poder com ela agora! — disse Ágatha, golpeando a ponta da lança de Victor com a maça estrela.
A
Ao longe, Sakura se levantava. Ela girou o corpo para o lado antes que aquele brutamontes pudesse acertá-la com uma porrada. À medida que rodopiava, Sakura voltava ao tamanho normal.
— Hoe! Quase que eu me ferro! Uma porrada já me deixou grogue! Com outra, eu tava lascada! — disse Sakura, limpando o sangue escorrendo de sua bochecha. O golem de pedra ainda a olhava. Sakura sacou mais uma carta de sua bolsinha. Olhou pra ela e disse:
— Carta criada pela valente Sakura, abandone sua velha forma e venha servir sua dona! Areia! — A mulher vestida de roupas árabes, ícone da carta, transformou a rua inteira numa imensa caixa de areia. Quanto mais o Golem andava, mais ele afundava. A rua se transformou num redemoinho e acelerou o processo de queda do golem. Em poucos segundos, o monstrengo que Victor havia criado já não era mais nada. A carta voltou para as mãos de Sakura e a rua voltou ao normal.
— Eu tenho que ajudar a Ágatha! — disse Sakura, correndo para o lugar onde estava a colega.
B
Na outra rua, Ágatha e Victor viram o golem de pedra afundando.
— Tá vendo por que você nunca vai ser páreo pra esse poder? — disse Ágatha. — É por isso que seu chefe manda você ir atrás dele, não é? — Os olhos da Interventora de Leão brilharam em vermelho. Raios saíam de seus punhos cerrados.
— Não é questão de ser páreo ou não! É questão de não deixar um poder tão grande nas mãos de quem não sabe usar… — disse Victor. Uma espada rosa atingiu o peito dele. Um fluido preto escorreu de sua boca. O ex-interventor arregalou os olhos. — Eu vejo… você usou a carta “apegar” pra apaga sua presença pra chegar de surpresa até aqui! Cadê a sempre doce Sakura que era incapaz de uma maldade dessas? — perguntou Victor.
— Ela tá debaixo da sola do seu pé, miserável! — disse Sakura, com raiva no olhar.
— Você é diabólica, Sakura! Conseguiu recuperar suas cartas de dentro do livro sem precisar abrir ele…
— Se não fosse pelos poderes dessa aqui que “não sabe usar as cartas”, eu não teria recuperado elas, não é?
— Pois é… Eu também tenho uns truques na manga… Não é esse golpe que vai me matar! — disse Victor. Ele encolheu o corpo e uma explosão de eletricidade se expandiu de dentro dele. Ela atingiu Sakura e arremessou-a contra a parede, inconsciente. A Cardcaptor arregalou os olhos e um rastro de sangue escorreu pela parede.
— Sakura! — gritou Ágatha.
— Vou aproveitar pra derrubar essa parede… Raitei Shourai? — Victor estendeu a mão para Sakura e uma rajada de eletricidade atingiu o corpo desfalecido de Sakura. Ágatha estendeu a mão para ele e Victor conteve o ataque da ex-mulher com a mão livre. A interventora de Leão se aproximou aos poucos dele, passo a passo, sem medo no olhar. Victor ficou preocupado.
O ferimento que Sakura lhe causou não era fatal, mas minou as forças dele. Ele não podia manter dois ataques ao mesmo tempo. Parou de golpear Sakura e agarrou a lança que tinha cravado no chão. Ágatha parou de soltar a rajada de raios. Os dois voltaram a se encarar com armas nas mãos.
— Desista, Victor! Pelos nossos filhos, não vamos nos matar! — disse Ágatha.
— Mas é por eles que eu não posso parar! Ou ele mata o Bernardo e a Ariela também! — disse Victor, chorando lágrimas negras.
— Então, vamos resolver isso com um golpe só! — disse a Interventora de Leão. O ex-interventor concordou.
Ágatha e Victor correram um contra o outro, como numa justa. O interventor de Castela foi mais rápido e cravou a lança na barriga da mulher. A loira tremeu de dor com o golpe. Nesse instante, Bernardo e Ariela apareceram.
— Papai, mamãe! — gritaram os dois. Sakura abriu os olhos com a presença mágica dos dois.
— Eu sou um monstro agora, Ágatha! Eu morri pra Ordem do Dragão! Eu deixei meus preconceitos superarem a lógica e aqui estou! Esse corpo não vai durar muito, que nem aconteceu com o corpo do Ignacio! Mate-me!
— Não! — gritaram as crianças, correndo até eles. Kero surgiu na frente deles, erguendo as asas.
— Vocês ficaram loucos, é? Vocês podem se machucar!
— Kero-chan… — disse Sakura, se levantando.
O ferimento que Sakura fez no peito de Victor começou a despejar um fluido negro. O homem começou a ter convulsões e soltou a lança. As crianças ficaram boquiabertas. O ex-interventor teve espasmos violentos nos braços e pescoços. O ombro estourou e um tentáculo cresceu no lugar. O pescoço também estourou e outro tentáculo cresceu, agarrando a cabeça ao corpo. Kero virou-se e soltou uma bola de fogo contra ele. Ágatha, com muito sofrimento, tirou a lança da barriga e voou para o alto, com suas asas transparentes vermelhas. Ela chegou até a cabeça de Victor e acertou um golpe. Ela deu outro e mais outro até que a cabeça de Victor caiu no chão, em meio ao corpo em chamas.
Em minutos, tudo aquilo havia se transformado em uma massa de fuligem e geleia. Das chamas, uma aura cinzenta se levantou de lá. Era Victor.
— Hoe! Isso é um fantasma! — disse Sakura, tremendo-se toda ao ver a cena.
— Finalmente… Eu estou livre… Bernardo… Você é o novo Interventor de Castela agora… proteja o reino, proteja a Rainha Sophia… — disse ele, se despedindo. Bernardo tentou correr até as chamas, mas Kero o impediu. A armadura da Ordem do Dragão em Castela voou até eles e explodiu no ar, colando no corpo pequeno de Bernardo.
— Papai! — disse o menino, aos prantos.
IV
Uma fina chuva começava a cair naquele início de madrugada. Deitada na rua de paralelepípedos, Ágatha estava cercada de seus filhos. Sua irmã, Adriana também estava lá, junto com Kero e Sakura. A Cardcaptor fazia uma compressa na região da barriga, tentando estancar o sangramento.
— E então, doutora? — perguntou Adriana, nervosa.
— A lança atingiu a artéria… Ela perdeu muito sangue quando voou… — disse Sakura, lamentando-se. Ela tentou fazer um último esforço e sua mão brilhou em verde mais que nunca.
— Sakura… Não precisa me falar que eu vou morrer… Eu já sabia disso quando o Victor me acertou com a lança… — disse Ágatha, de olhos fechados.
— Mamãe, não fala isso! — disse Bernardo aos prantos, ajoelhando-se e segurando a mão da mãe. Ela soltou os dedos das mãos dele e apertou o ombro do filho.
— Lembre-se filho, o que é usar essa armadura do dragão: proteger o reino, a Rainha, de todas as ameaças de dentro e de fora, nem que a gente tenha que dar a nossa vida em troca… — disse Ágatha, respirando com dificuldade.
— Mamãe! — disse Ariela, deitando-se no peito dela.
— Filha… Você vai ser a próxima Interventora de Leão… Você aceita essa responsabilidade? — perguntou Ágatha.
— Eu aceito, mamãe! Eu já tenho 10 anos, vou fazer onze em setembro, sei o que quero pra minha vida…
— Ajude seu irmão no que for possível… Castela e Leão sempre se ajudaram e isso tem que continuar… — disse Ágatha, em um último suspiro. O tratamento de Sakura só deu para cicatrizar a ferida. A Interventora de Leão fechou os olhos e a armadura saiu de seu corpo, colando no corpo pequeno da filha, que estava ao lado dela. Ariela não chorou mais. Segurou as mãos do irmão, e os dois andaram até a Cardcaptor.
— A mamãe morreu por você… A gente tem que te proteger, não é? — disse Bernardo.
— Diga… Diga o que a gente tem que fazer pra te ajudar… — perguntou Ariela.
Sakura sentiu uma faca rasgar o coração vendo aquelas crianças segurando responsabilidades tão grandes em tão terna idade.
— O que vocês podem fazer pra me ajudar? Bem, vejamos… Primeiro, vocês vão estudar pra arranjar um bom emprego e dar uma casa nova pra tia de vocês. Depois, vocês me prometem que não vão dar trabalho pra ela, viu? — disse Sakura, segurando as lágrimas e a dor de perder uma paciente. As crianças se olharam, pensativas com aquele pedido.
Continua…
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