Uma Canção de Sakura e Tomoyo: Finalmente Juntas
71 Ele foi meu mestre, mas agora é meu inimigo
Capítulo 69
Ele foi meu mestre, mas agora é meu inimigo
I
Ceuta, Espanha
25 de setembro de 2016
Heliporto.
O helicóptero onde estavam Tomoyo e Marcela oscilava, graças aos ventos saídos daquele ponto de encontro entre o mar mediterrâneo e o oceano atlântico. A costureira terminou a viagem nunca mais querendo voltar a pisar naquele veículo, por mais seguro que o piloto dissesse que era aquilo.
— Marcela, será que não tem um jeito mais fácil de a gente vir para cá, não? A Sakura me falou que a professora dela viajou de Bilbao para Madrid num segundo… Que Deus a tenha, Professora Begoña…— disse Tomoyo.
— Eu não sei me teleportar, Tomoyo. Isso precisa de muita concentração. Coisa que eu não tenho… — respondeu Marcela.
— Não tem é? Como é que você consegue ler mentes? — perguntou Tomoyo.
— Oras, lendo, ue! — respondeu Marcela — Eu nasci assim, não é tão difícil… Por isso, que eu fiz direito…
— Você fez direito para se concentrar? Uma carreira que você já precisa ter máxima atenção para aprender a se concentrar? — perguntou Tomoyo, incrédula.
— Claro que sim! Foi fazendo direito que eu aprendi magia branca! Se esqueceu? — disse Marcela, sorridente. Tomoyo bateu com a palma da mão na testa. — E outra, Tomoyo, a gente tá aqui pra investigar um crime e não falar do que eu sei ou do que eu não sei, né?
— Pois é, Marcela, quando eu falei que era da Catalunya me perguntaram se eu sabia dançar sardana. Eu fiz uns passos e ele acreditou em mim… Nem desconfiou que, na verdade, nasci em Kyoto… — respondeu Tomoyo, mandando uma indireta para Marcela. A advogada entendeu.
— Sei… Pois deviam perguntar pra você se você sabe Judô! Aí sim, ia querer ver se você era japonesa de verdade! — respondeu Marcela, já estressada. Tomoyo não deixou de gargalhar com aquilo. — Não pense que todo mago sabe se teleportar que não sabe! — concluiu Marcela. A roxinha parou de rir e apontou para um homem de jaqueta, na porta do saguão do heliporto.
— Marcela, olha lá, olha lá.
— É o nosso contato… — disse a sósia de Sakura, apontando para um homem de pele morena e cabelos aparados.
II
Dentro do saguão do Heliporto, o homem reservou uma mesa num restaurante próximo para os três se sentarem. Dava para ver a pista e o pátio de decolagem de lá e sentir o aroma da comida marroquina do lugar. Tudo o que Tomoyo sentia era um frio na barriga com aqueles helicópteros.
— Ora, Tomoyo, ainda tá com medo? Cuidado que a comida vai esfriar… — disse Marcela, rindo um pouco dela.
— Então, mudando de assunto, pois nosso assunto é outro não é, Marcela, eu nunca poderia acreditar que um professor de escola primária fosse Interventor da Ordem. — disse Tomoyo.
— Sou sim, sou Marcos Nuñez, o menor dos interventores da Ordem. Não sou como os peixes grandes da Ordem, mas estou aqui, protegendo a fronteira africana de Espanha! — disse Marcos, Orgulhoso.
— Vocês levam a sério esse negócio de “proteger a Espanha” com esse patriotismo todo, né? — perguntou Marcela, admirada com o que ele disse.
— Não digo “patriotismo”. Tem gente nacionalista basca também, como a Gotzone, e todo mundo se dá bem aqui e ninguém torce o nariz. A Ordem é uma fraternidade, uma coisa que Pi Sunyer criou há uns 900 anos atrás pra tentar ajudar quem tinha o lado atrasado, uma coisa que surgiu pra livrar a Espanha dos árabes no começo e ficou por aqui quando esses árabes se foram.
— Você não acha isso não é meio racista? Eu, como judia, me sentiria excluída ouvindo uma coisa dessas! E olha que sou de uma família tradicional judaica que sempre viveu na península ibérica desde os tempos de Paulo, o apóstolo, e sofreu muito com as perseguições contra os judeus durante a reconquista… disse Marcela.
— E olha que eu sou filho de pais árabes do magrebe! — disse Marcos, sorrindo — Não, a Ordem não é racista não, a Ordem sempre foi uma coisa antissistema, sabe? Nos tempos de Pi Sunyer, o sistema eram os Califas de Córdoba, hoje é o ministério de assuntos especiais tentando abafar a gente e quem mais estiver controlando o Interventor da Catalunha e os asseclas que o seguem. O pior é que tem gente no ministério que pensa igual à eles. A nossa missão é ir contra isso, ainda mais quando tentam atrasar nosso lado…
— Agora entendi… Isso significa também ir contra Ignacio Diaz? Perguntou Marcela.
— Ele foi meu mestre, mas agora é meu inimigo. Não importa com quem a gente tenha que ir contra, o que importa é que qualquer um que tente ir contra a gente vai ser o nosso inimigo. Como a Ordem é uma coisa só da Espanha, qualquer um que tente ir contra o reino é nosso inimigo também. Daí vem essa coisa do “nacionalismo” que você falou, que também é parte da nossa história.
— Você quis dizer, gente como Lluis Soler, Xosé Ponton, Gerard Bernat e Meritxell Puigdemont? — perguntou Tomoyo.
— Vejo que você sabe bastante da nossa história, Tomoyo. Sim, eles são parte do que nós somos e membros da Ordem também. A Gotzone deve ter confirmado com vocês. Você podia até ser professora, Tomoyo, já parou pra pensar? — respondeu Marcos.
— Obrigada, professor! Meu negócio são as artes mesmo! — respondeu Tomoyo, sorridente.
— Agora, voltando ao assunto da “questão de ser ou não inimigo da Ordem”, seja como for, o Jordi, o David, o Ferran e o Damía, foram jogados contra Sakura no Japão sem poder lidar nem com ela, nem com as cartas. Depois que eles morreram, a Mercê e Marta já viram a Sakura como inimiga e tentaram lutar contra ela. Eu mesmo pensei que fosse isso mesmo, mas tô vendo que o buraco é mais fundo… — disse Marcos.
— E quando foi que você percebeu que o buraco era mais fundo, Marcos? — perguntou Marcela.
— Vai fazer uns dois anos… Faz um ano que o ataque contra a Sakura foi planejado. Eu pensava que o negócio era só pegar as cartas Clow, mas… A coisa também era pegar as cartas e acabar com os comuns… Pode um negócio desses? Essa nunca foi a ambição da Ordem…
De repente, uma voz apareceu no teto do Heliporto.
— Pois deveria ter sido há muito tempo, Marcos. Olha como o planeta está agora… Depois de tanto tempo sob controle dos comuns que você tanto defende…
— Ignacio! — disse Marcos, levantando da cadeira. Com um só golpe, as janelas de vidro do saguão do heliporto foram arrebentadas. Era Ignacio Diaz, com um enorme saco nas costas.
— Barreira! — gritou Marcela, levantando as mãos para o alto. Uma cúpula branca preencheu todo aquele espaço, afastando qualquer presença comum.
— Barreira? Pra que barreira? Pra que esconder dos vermes dos comuns o que nós somos? Somos a forma de vida suprema desse planeta! E o que nós devemos fazer é usar todos a mão de obra comum para botar o planeta de volta nos eixos! — disse Ignácio, jogando no chão o imenso saco que tinha nas costas. Tinha uma pessoa lá dentro. Era Larissa, aliada de Tomoyo. Ela estava com o rosto todo ensanguentado, trêmula, os óculos quebrados.
— Lari! — berrou Tomoyo.
— Foi você quem colocou essa teleguiada atrás de mim, é? Toma ela aqui, de volta pra você… — disse Ignacio.
— Tomoyo, acho que a minha hora chegou, né? Eu fiz o melhor de mim, isso que importa… — disse Larissa, com um sorriso no rosto. Ignacio sacou a imensa arma das costas e decepou a cabeça dela. Tomoyo arregalou os olhos na hora. E gritou:
— Aparezca, Dragón! — A armadura dourada de rainha, que Gotzone havia lhe mostrado na câmara subterrânea nos fundos do palácio, cobriu o corpo de da roxinha em questão de segundos. — Espada santa del dragón! — A mesma espada branca que Dom Miquel usou, para atordoar os soldados da Ordem em Barcelona há um mês, apareceu nas mãos dela. Com as asas brancas transparentes em suas costas, ela cortou a distância que a separava do Interventor e rasgou o corpo dele no meio, do ombro até a barriga. Ignácio sentiu o impacto e um grande corte surgiu no lugar.
— Mas… Que golpe fraco é esse que eu recebi… De olhos arregalados, o ex-interventor da Andaluzia começou a se regenerar. Ele cerrou os dentes e uma espécie de fibra negra viscosa começou a religar as partes separadas do corpo.
— É fascinante ver como a Ordem caiu tanto a ponto de deixar uma arma poderosa dessas na mão de uma comum que nem sabe o que é magia direito. Mas eu vou mostrar pra você, Tomoyo, o que é magia de verdade… — disse Ignácio. Ele jogou a arma que tinha nas mãos na barriga da costureira. O golpe foi tão rápido que nem Tomoyo, nem Marcela, perceberam quando o golpe bateu. A morena voou longe no saguão, tão longe que ficou inconsciente em seguida. Mas a arma não perfurou o corpo dela.
— Tomoyo! — gritou Marcela.
— Ora, ora. Essa aí até que aguentou. O meu assunto não é com vocês, é com aquela comum que tá tentando investigar onde é que eu tô. Me dêem licença…
Marcos parou na frente de Ignácio, interrompendo o caminho dele.
— Você vem aqui na minha cidade, vem perturbar a paz do único heliporto daqui e ainda por cima ataca uma cidadã espanhola na minha frente! Isso eu não vou permitir! Aparezca, Dragón! — disse Marcos. A armadura da Ordem revestiu todo o corpo dele, acompanhada de uma capa que, no geral, a armadura de Ceuta não tinha.
— Eu já disse, Marcos. O meu alvo não são vocês! O meu alvo é a Tomoyo. Eu estou dando um tempo para que vocês, sendo magos, se arrependam do mal caminho que estão seguindo e enxerguem a realidade.
— Mas que realidade doente é essa que você tá imaginando? — perguntou Marcela.
— A realidade de que todos os comuns vão morrer para esse planeta, mais cedo ou mais tarde! Eles são uma espécie em extinção, vocês não percebem?
— E você não percebe que atacou aquela com a armadura da Rainha da Espanha? Isso é imperdoável! Contra esse pensamento doente de tentar acabar com os comuns, da qual Pi Sunyer também era parte e não sabia disso, eu vou acabar com você! Em nome da Rainha de Espanha! — disse Marcos. Ignacio gargalhou.
— Depois eu quem sou o doente? Pi Sunyer era uma mulher fraca que não enxergou o imenso potencial que tinha. Você acha que pode me enfrentar? O homem que te ensinou tudo o que você sabe? — perguntou Ignacio, debochando.
— Eu acredito na Ordem! Eu, como professor, acredito nas pessoas! — disse Marcos.
— Pois eu vou tratar de sepultar essas suas crenças! — disse Ignácio.
III
Barcelona, Catalunya, Espanha
A delegacia dos Mossos d’esquadra de La Barceloneta estava toda revirada. A mobília estava quebrada, lascas de madeira estavam espalhadas por toda parte, da mesma forma que as folhas de papel do escritório. Havia um rombo enorme na parede. Algumas faíscas elétricas e jatos de água, saindo dos canos e fios rompidos, eram vistos por toda a parte.
No meio do caos, uma mulher caminhava sobre a pilha de escombros.
— Dona Beatriz, os comuns pensam que foi uma explosão de gás. Pra deixar tudo mais verídico, explodimos a cozinha também. — disse um agente dos Mossos.
— Excelente, agente. Me falaram que a agente Larissa Lewis foi sequestrada. Alguém me confirma a informação? — perguntou a Ministra. Nenhum dos agentes dos Mossos que estavam com a ministra conseguiu confirmar a informação. Até que um deles trouxe um agente algemado consigo.
— Ele deve saber, Ministra. Ele tava com a Larissa antes de ela sumir. — disse o agente, jogando o colega Mosso no chão. Era o Agente Albert Braun.
— Eu vejo, agente, que uma coisa incomum aconteceu por aqui e você deve saber. Você sabe quantas desculpas vamos ter que dar pra abafar o caso? — disse Beatriz.
— Eu não sei de nada! Só sou um comum! — respondeu o agente Albert.
— Um comum que sabe demais sobre os magos. Ou o senhor coopera com a gente ou vamos ser forçados a ler a sua mente.
— Mas isso é um absurdo! Isso é ilegal! — disse o Agente Braun.
— Você quem escolhe, Agente… Você sabe que eu posso fazer isso e você não vai poder fazer nada contra a gente… — disse Dona Beatriz, segurando o queixo dele.
A face do agente Braun era feita de raiva pura.
IV
Heliporto de Ceuta
Os punhos de Marcos Nuñez e Ignacio Diaz colidiram no ar. Parecia até que o braço rompido do ex-Interventor estava mais forte. Ficaram assim, tentando empurrar com um só punho um ao outro, até que Ignacio conseguiu afastar o ex-discípulo.
— Que vergonhoso, Marcos! Cadê a força pra defender a “sua Rainha?” Cadê que não estou vendo… — disse Ignácio, andando até o antigo discípulo.
— Ele não tá sozinho nessa! Photon Bean! — disse Marcela. Uma esfera de luz do tamanho de uma bola de basquete surgiu em suas mãos. De lá, saiu um raio de luz forte o bastante para atravessar o corpo de Ignacio como um raio-X. Ignacio curvou-se quando recebeu o golpe, mas depois se recuperou.
— Você pensa mesmo que um golpe desses é capaz de me deter? Esse novo poder que eu tenho é o mais próximo do absoluto que eu já pude sentir! — disse Ignacio, sorrindo. Marcela e Marcos ficaram chocados, mas depois de uns segundos, o sorriso nos lábios do ex-interventor sumiu. O braço que Tomoyo tinha decepado parcialmente, e que Ignacio apertava o punho com orgulho no ar, começou a se descolar. As fibras negras viscosas que o prendiam ao corpo já não conseguiam sustentar o membro partido.
— Mas… O quê? — disse Ignacio, surpreso.
— Asas de Dragão! — disse Marcos. Tão rápido como uma rajada de vento, asas de dragão apareceram nas costas dele. Ele correu até o mestre e arrancou o braço dele. Tomoyo começava a despertar, vendo o terrível espetáculo na sua frente.
— Esse é o poder absoluto? — perguntou Marcos. As mãos dele viraram garras de dragão. Com um aperto, ele liquidou o braço de Ignacio, como se esmagasse uma fruta nas mãos.
— Você não faz ideia! — disse Ignacio. As fibras negras saídas da cicatriz do braço se tornaram tentáculos e mais tentáculos. Eles agarraram o pescoço, a cintura e as pernas de Marcos. Eles agarraram também Tomoyo e Marcela antes que elas fizessem alguma coisa — Eu vou fazer com vocês três o que você fez com o meu braço!
— Jamais vou permitir isso! — disse Marcos — Quetzalcoatl, Viracocha, me emprestem o seu poder! Sei que sou o mais fraco dos Interventores da Ordem, mas sei que sou capaz de enfrentar até mil, se eu acreditar nesse pouco de força! Aparezca, Dragones! — Uma aura vermelha tomou conta do corpo de Marcos. Ele agarrou os tentáculos negros e viscosos que saiam da ferida de Ignácio e eles começaram a queimar. Viraram cinza apenas com um toque das garras dele. Os olhos de Marcos ficaram vermelhos e ele começou a puxar para si os tentáculos de Ignacio. Era tanto calor e agonia que sentia que o mago não conseguiu segurar mais Tomoyo e Marcela. Ele soltou as duas de imediato e furou a testa e o peito de Marcos com esses tentáculos que sobraram. O Interventor de Ceuta não mudou a feição, apesar dos golpes.
— Vê? Eu não sinto nem a dor mais… — disse Marcos, orgulhoso. O corpo dele começou a se encher de escamas. Rosto, pescoço, pernas, tudo começava a se deformar. O rosto de Marcos começou a se transformar e um imenso focinho surgiu aos poucos onde estava a mandíbula. Gritos horrendos saíam do homem. Marcela e Tomoyo estavam paralisadas, vendo a transformação.
— Você é um tolo, Marcos! Se transformando em dragão pra tentar me deter, é sério isso? Sabia que você nunca vai voltar ao normal? Como você não é forte o bastante, não pense que vai manter a consciência intacta… — disse Ignácio. Marcos, já transformando em dragão, não falava nada. — É isso que a Ordem faz com seus magos é? — perguntou Ignácio.
— Pelo menos… Pelo menos… Eu vou parar suas ideias doentes aqui… — disse Marcos, soltando uma voz gutural horrenda. Ele abriu a boca e uma luz vermelha saiu de lá. Um jato laser vermelho atingiu o chão do saguão e perseguiu Ignacio, quebrando o piso como uma britadeira. Tomoyo e Marcela correram para se salvar. Ignacio aproveitou a fuga para recuperar a arma perdida. Ele dividiu-a em duas, criando uma tesoura.
— Vou te cortar pela metade! — disse Ignacio. Com os tentáculos em um anel da tesoura e a mão que sobrou em outra, ele pulou contra a cintura de Marcos, enquanto o raio vermelho estava sobre ele. Aos saltos, ele conseguiu cravar a arma na armadura de Marcos, na altura da costela. O Interventor de Ceuta gritou de agonia com o impacto do golpe. — Excelente! Agora vá pro inferno, Marcos! — disse Ignacio. Ele colocou pressão na tesoura e um jato de sangue vermelho respingou em seu corpo. O jato estava tão quente que saía vapor dele. O sangue era tão ácido que corroeu o piso. Ignácio não se importava. Estava disposto a cortar o corpo dele ao meio. E conseguiu. E sorriu por pouco tempo. Assim que cortou o corpo de Marcos ao meio, um jato de sangue quente e ácido atingiu seus olhos com violência. Agora era Ignacio quem gritava de agonia. — Meus olhos! — gritou o ex-Interventor.
— Você tá sofrendo, Ignacio? Quem vai pro inferno agora? — disse Marcos, em um lampejo de lucidez, provocado pela dor. Ele agarrou o corpo de Ignacio com as duas garras e cuspiu um jato laser na cabeça dele. O crânio virou pó na hora. Marcos jogou o corpo destruído de Ignacio na parede. O golpe foi tão forte que a parede desabou. Marcos tombou no chão, cansado por causa do ferimento.
— Marcos! — gritaram Tomoyo e Marcela. As duas correram até o homem e tentaram juntar as duas partes separadas do corpo de dragão dele. Sem sucesso.
— Mas que droga! Eles deviam colar! A Ordem do Dragão tem um poder de regeneração absurdo! Por que não tá funcionando? — perguntou Tomoyo, agoniada. Nem um pouco de magia branca que aprendeu a fazer com Dom Miquel conseguia fazer Marcos voltar. Ele piorava cada vez mais.
— Tomoyo, Marcela… Não dá mais pra mim… Acho que essa arma nova que eles criaram… Não consigo regenerar! — disse Marcos.
— Calma, Marcos, não é assim! Você tem muita aula pra dar pros seus alunos! — disse Tomoyo, desesperada.
— Eu sei, Tomoyo… Garanta que meus alunos tenham essas aulas amanhã… A arma… A arma dele… — disse Marcos. Marcela rapidamente pegou a tesoura de Ignacio e entregou para o professor. Ele arrancou as asas de dragão das suas costas e elas grudaram na tesoura. Bastou uma batida de asas para que a arma de Ignacio voasse nos céus longe daquele heliporto.
— A minha parte… Eu já fiz… Agora é com vocês! Vamos ganhar essa guerra! — disse Marcos. Ele virou a cabeça para o lado e morreu. Tomoyo agarrou o corpo dele e chorou. Ele ainda estava quente. Marcela estava com uma cara horrível também. Ela tentou pegar os ombros de Tomoyo, mas um estampido a fez virar para os lados e ver o que era. Era Ignacio, saindo dos escombros onde Marcos havia jogado-o com a cabeça restaurada, mas sem o braço direito. Uma mancha negra estava no lugar onde deveriam estar seus olhos.
— Não pense, Tomoyo, que isso acaba aqui… Eu vou voltar… Desde que você continue me seguindo… — disse Ignacio, envolvido por uma capa negra. Ele flutuou no ar e desapareceu de vista.
[...]
Dentro da barreira mágica que Marcela havia levantado, os soldados de farda branca entraram aos poucos, com fuzis nas mãos, vasculhando os destroços do heliporto.
— Tomoyo! Vamos ser descobertas! Precisamos fugir! — disse Marcela.
Do nada, um dragão zumbi, de escamas vermelhas, totalmente magricela, apareceu por lá. Ele estava só pele e osso, mas conseguiu intimidar os guardas. Os soldados de farda branca tentaram mirar e atirar, mas o dragão foi mais rápido. Ele abriu a boca e soltou uma rajada de gás tóxico. Os soldados de farda branca afastaram-se na hora. Eles tossiam e lacrimejavam. Dona Beatriz, que estava entre eles, criou uma máscara de cristal para proteger a boca e os olhos. Antes que pudesse ver quem estava lá, o dragão recolheu Tomoyo e Marcela nas garras enormes e saiu de lá, batendo as asas desgastadas pelo tempo.
— Atrás deles! Vejam quem ele está carregando! — gritou a ministra.
V
Costas de Málaga, Espanha
— Tomoyo… Tomoyo! — disse Marcela, dando uns tapas na cara da amiga. A costureira dormia, estirada na areia. Ela ainda estava com a armadura dourada de rainha da Ordem do Dragão no corpo. Depois de uns tapas de Marcela, a arquiteta despertou, ainda tossindo o gás tóxico que o Dragão Zumbi soltou nos agentes do Ministério.
— Marcela? Onde é que eu estou?
— Málaga. Eu gosto dessa cidade… — disse Zigor. Ele estava sentado ao lado delas, bebendo uma garrafa de uísque escocês no gargalo.
— Zigor? Zigor Iñigitz, você por aqui? Era você quem era o Dragão Zumbi? — perguntou Tomoyo.
— Pois é, eu dou uma de Tuxedo Kamen de vez em quando… — disse Zigor, entornando a garrafa de uísque por completo. Ele jogou a garrafa vazia num rochedo próximo e ela espatifou.
— Então, em nome do meio ambiente, eu vou punir você! — disse Marcela.
— Foi você quem nos resgatou? — perguntou Tomoyo.
— Era isso ou ficar doze horas numa sala, respondendo àquela mulher… — disse Zigor. — Veja bem, pelo menos a viagem não foi de helicóptero, não é? — disse Zigor. Tomoyo e Marcela se olharam. — Me diga uma coisa: o que vocês duas estavam conversando com o Marcos? — perguntou Zigor.
— Eu só estava tentando fazer alguma coisa, Zigor. — explicou-se Tomoyo. — Eu estava tentando ajudar a Sakura a combater essa coisa contra a qual ela tanto luta…
— Esse é seu erro, Tomoyo: você não precisa lutar. Não agora. Você precisa treinar.
— Mais do que eu já treinei quando a Ordem apareceu da primeira vez? Eu já estou cansada disso! A gente precisa agir! — disse Tomoyo.
— Eu sei que a gente precisa agir, mas enquanto a gente tá vivo, na atividade, nunca faz mal treinar de vez em quando… Eu não tenho quatrocentos anos e não estou vendo acontecer um monte de coisas que eu nunca vi antes? — perguntou Zigor, sorrindo, enrolando a barbicha com o dedo. Tomoyo se calou e baixou a cabeça.
— Não pense que a Dona Bea não vai vir te perguntar o que aconteceu no heliporto. É o papel dela. Ela já sabe que o Agente Albert e a Larissa tem contato contigo…
— Lari… Precisou morrer assim? — perguntou- se Tomoyo.
— Lembre-se, Tomoyo, numa guerra, a gente não escolhe o jeito de morrer, só o motivo por que a gente luta. Se ela morreu por você, pode ter certeza que ela morreu feliz. — disse Zigor.
— Assim eu espero… Pois tudo o que eu quero agora é ter forças para lutar… Pela Sakura, pelo Felipe… Pela Sophia… — disse Tomoyo, apertando firme o punho….
— Então, continua treinando, Tomoyo, continua caminhando até o dia que aquela bruxa chegar em você pra perguntar… Garanto que você não vai se arrepender… — disse Zigor, se levantando da areia da praia. — Não são vocês, japas, que dizem “Zettai Akiramenai?” — disse Zigor, sorrindo. Asas transparentes vermelhas apareceram nas costas de Zigor. — Cuida dela, Marcela, afinal, ela é a rainha.
— Pode deixar! — respondeu a advogada, dando uma piscadela para ele. A roxinha ficou envergonhada. Zigor deu um salto no ar e sumiu.
Continua…
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