Uma Canção de Lobos e Centauros
2 Catelyn I
Winterfell era um lugar grande, mas o povo tinha a língua maior ainda. E os boatos surgiam em todos os lugares, boatos menores, boatos maiores. Mas havia um que estava pairando sobre seu coração: Ned dormia com uma moça da cozinha.
Levantou-se fatigada na manhã anterior e pegou a cozinheira de mexericos com as lavadeiras, falavam de que um cavalariço havia visto Ned sair da Torre Quebrada com a moça de cabelos ruivos, uma criada de catorze anos, magra, alta e de cabelos ruivos, iguais ao seu. Catelyn convivia com a sombra da mãe de Jon Snow, uma mulher que Ned se apaixonara durante a rebelião, originou um bastardo, esse qual Ned cuspiu aos quatro ventos que era seu, para que todo o Norte pudesse ouvir.
Não podia acontecer de novo. Ouviu o nome de Ashara Dayne por tempos, até manifestar a dor e o desgosto ao marido, e tudo o que viu foi uma fúria desconhecida nele.
E agora pairava Lyarra em Winterfell. No lar de seus filhos.
Foi até a Torre Quebrada e passou por seus escombros, ninguém mais limpava aquela ruína, e pensava alto enquanto ia subindo as escadas de pedra arrasadas. Chegou a uma parte onde viu um colchão de penas estirado no chão. O quarto cheirava a vela queimada e flores que murchavam num jarro velho. Viu o colchão com repulsa, fitou- o por alguns minutos. Perscrutou em volta daquele cômodo esquecido, pedras enegrecidas por um incêndio à muito tempo. De uma pequena janela via-se o castelo e sua grandeza, viu septã Mordane e Arya tendo uma conversa, podia ver o pátio de treino, o bastardo e seu primogênito treinavam com espadas de torneio, guiados por Rodrik Cassel, enquanto Theon Greyjoy observava com seu riso zombeteiro tudo ao redor.
Ashara. Um gosto amargo subira a boca, o nome da bela donzela de olhos assombrosos púrpura, a senhora que Ned tinha amado. Viu ao longe a criada Lyarra, cabelos ruivos esvoaçantes, e um rosto longo igual a Ned, duro e sombrio. Trajava um vestido surrado, e seus belos seios brancos igual leite, brotavam do decote. Deu um longo suspiro, até que decidiu virar o colchão,e viu uma mancha de sangue seco entre as penas brancas. Olhou em volta calmamente para o covil dos amantes e deixou-se cair ao lado do colchão, as lágrimas escorreram fortes. Amargas.
Já era a tarde quando entrou na cozinha, todas fizeram um reverência minuciosa, até mesmo a criada de cabelos ruivos. Tentou lhe falar algo, palavras que Catelyn não fazia questão de ouvir, não se importava com o que seria servido no jantar à noite. Tomara sua decisão.
Estavam à mesa Ned, Robb, Jon Snow e Theon Greyjoy,no grande salão de Winterfell, discutiam sobre a invasão dos selvagens guiados pelo Rei-Para-Lá-Da-Muralha quando foram surpreendidos por uma voz carregada de ressentimento.
— Quero a garota fora deste castelo, Eddard. — todos na sala pararam e olharam-na. A boca de Ned se contorceu em repulsa e olhou-a melancólico.
— Robb, Jon e Theon, saiam. — Ned deu as ordens, mas Catelyn num ataque de fúria se interpôs entre eles.
— Deixe-os para que escutem. Ou eles já devem saber o que está acontecendo.
— Catelyn, está fora de si. Isso não é assunto para os rapazes.
— Do que estão falando? — perguntou Robb
— Obviamente de quem estão falando. — Theon Greyjoy mostrou um sorriso afetado.
— Seu pai se envolveu com uma moça da cozinha.
— Não é verdade. — Ned mostrava fúria em sua voz, e também nos olhos frios.
— O que fazia na Torre Quebrada? Porque há um colchão de penas manchado de sangue? Era o sangue de donzela dela?
— Catelyn, você não sabe o que está dizendo. Não é nada disso que está pensando... eu fui vê-la...
— Lyarra é minha mulher, mãe. Estamos apaixonados. — Robb falara alto, e todos se calaram, e Catelyn não sabia o que dizer. — Eu levei o colchão para Torre Quebrada para namorarmos à noite.
— Você sabia disso, Ned? — Deu um olhar de repugnância a Ned, não sabia o que era pior, uma serva dormir com seu marido, ou ter seduzido seu primogênito.
— Soube. Mas meus motivos de ter ido falar com Lyarra são outros. Quando estiver mais calma minha senhora, podemos conversar. — Ned deixou-a ali com toda a sua perplexidade.
Robb caminhou até Catelyn, Jon Snow e Theon Greyjoy foram saindo lentamente até que os dois ficaram sozinhos.
— Foge do seu quarto na calada da noite para dormir com uma serva da cozinha, Robb.
— Eu a amo. Ela é doce, carinhosa e corajosa, minha mãe. — ele a ama. Podia sentir a voz do filho, tão aveludada quanto o dia que Petyr Baelish lhe dissera que a amava de todo o coração.
— Seu pai lhe prometerá a alguma moça nobre. Alys Karstark talvez, ou quem sabe alguma donzela do sul. Ela não será sua esposa Robb, ela... — as palavras iriam doer a seu filho, mas precisavam ser ditas- não tem nascimento. Não é como uma senhora deve ser.
Seu rosto estava baixo demais para que pudesse ver algum sinal de lágrimas, mas a voz saiu chorosa.
— Disse que tinha sangue no colchão mãe.
— Sim.
— Preciso resolver uma coisa, mãe. — deu um beijo estalado na testa de Catelyn, e foi em direção a cozinha.
Foi encontrar o senhor seu esposo nos aposentos do casal. Ned a encarou por um breve momento até que as palavras chegaram aos ouvidos de Catelyn.
— Compreende que o que fez esta tarde foi errado e precipitado, minha senhora?
Catelyn apertou a mão contra o pescoço, procurando alguma defesa, mas não havia nada que pudesse fazer para reverter a situação.
— Foi vê-la após ela e Robb... Por quê?
Seu marido caminhou lentamente até a janela, a brisa fria do crepúsculo encontrou seus cabelos, e em algum lugar, corvos crocitavam.
— Ouvi um cavalariço cobiçar a garota. Gabava-se de como ela tinha cabelos tão ruivos como o da senhora Catelyn, e que não era comum ver uma beleza como ela no Norte. Pedi a mestre Luwin mandar um corvo para Praça Torrhen, afim de saber da onde ela era, e quem ela era. Seus pais, e sua vida. Ela foi abandonada pela mãe após a morte do pai, um homem que vivia em bordéis e tabernas, falando coisas inescrupulosas...
Catelyn ouvia atenta a cada palavra de Ned, ele se preocupava com seus senhores e homens, mas nunca havia demonstrado algo por um servo.
— ... Fui além, e descobri que a garota não é de Praça Torrhen, mas fora deixada na porta do pai por uma figura encapuzada, que voltou para o Tridente.
— Meu senhor... eu... não sei o que dizer. Porque alguém traria uma criança tão longe?
— Talvez ela seja bastarda de algum Senhor das terras fluviais. Ela estaria protegida no Norte, caso alguém não tivesse filhos, e ela fosse a única herdeira. Há tantas possibilidades.
Fitou-o por um longo momento, Ned amara uma mulher apenas uma vez, e sentia-se amada depois de dar-lhe cinco filhos, construíram uma relação duradoura ao longo dos anos, e confidencializam tudo. Vira nos olhos dele melancolia e pesar por uma garota abandonada, uma garota que encantou Robb.
— Como descobriu que ela estava com Robb na Torre Quebrada?
— Jon me disse que vira Robb esquivar-se até a ruína, muito cauteloso, e viu ambos saírem juntos, de mãos dadas após a chegada da manhã. Fui falar com ela na noite anterior a essa, estava enrolada em um lençol, olhando para o horizonte.
Cerrou os lábios repentinamente, e Ned acalmou-a
— Eu não a vi nua, se é o que pensa, minha senhora. A garota não me atrai como os outros homens.
— Ela é bonita, meu senhor. — engoliu em seco.
— Sim, ela é bonita. Me lembra Lyanna em alguns momentos, jovem, impetuosa, e tão gentil.
— Fala demasiado bem da garota. A conhece a tanto tempo assim? Robb está encantado por ela, e você se enche de compaixão. O que acontece?
Nunca vira os olhos de seu senhor tomarem um brilho sombrio e triste, mas os viu de maneira tão clara como a primeira luz do archote do castelo.
— Ela salvou a vida de uma menina que estava nas mãos de um ladrão. Uma garotinha de apenas nove anos, como Arya.
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