Uma Brincadeira de Verão...
3 Capítulo 3
Notas iniciais
O loiro caminhava sozinho pelo bosque escuro, era como se já fosse tarde de uma noite onde a lua não havia ido iluminar o solitário céu. O garoto continuava a andar sem rumo até que parou à beirada da queda que o levaria até a represa que estava alguns metros abaixo, foi então que ouviu o som de um galho seco sendo pisoteado e as folhas começaram a voar todas em sua direção. Ele se livrou das mesmas com o braço direito, ao olhar para cima viu a lua surgindo por entre as nuvens, iluminando um único ponto. Ele olhou com curiosidade, mas seus olhos se arregalaram com puro espanto.
Ali estava Ana, suas roupas estavam meio rasgadas, seu rosto baixo e escondido pelo cabelo, na mão direita a boneca Serafina da qual tanto gostava, atrás de si estava André com uma camisa de mangas longas vermelha e uma calça jeans clara, estava enforcado numa árvore.
– Ana...? – foi a única coisa que o jovem conseguiu dizer
– Você esqueceu de mim.
– Do que você...?
– Vocês dois me esqueceram! Agiram como se eu fosse apenas um bichinho que desapareceu e logo vocês poderiam substituir.
– Ana, eu não...
– Vocês me feriram, muito.
– Não foi de propósito... nós éramos crianças!
– É verdade... mas vocês cresceram. E eu fiquei no passado.
– Você nunca ficou no passado, você sempre esteve presente em tudo o que fazíamos!
– Carlos...
– O que foi?
– Me ajuda... – a garota disse baixo e num tom quase inaudível.
– O que?
– Carlinhos, me ajude! – a garota o encarou, estava com os olhos totalmente negros e chorava lagrimas de sangue, esta andou até o mesmo e parou bem à sua frente.
– Ana... – o loiro estava perplexo diante daquilo
– Vai, me ajuda! – a garotinha gritou alto, isso fez com que o rapaz caísse do penhasco onde estava
– Carlos! – o moreno sacudia o amigo já preocupado, o mesmo estava suando e murmurando coisas incompreensíveis havia algum tempo – Carlos! Acorda!
– Hum...? – o loiro se sentou num pulo e abraçou o moreno com força.
– Calma... tudo bem...
– André... foi horrível.
– Foi só um sonho...
– Aquilo foi muito real.
– Calma, eu estou aqui... sempre vou estar aqui com você.
– Promete isso pra mim?
– Sim, eu sempre te protegi... não é agora que vou parar.
– André... eu quero ir até a casa da Ana.
– Mas o dia é só amanhã, o que faremos lá hoje?
– Serafina...
– O que?
– Eu me lembrei de algo, vista-se e vamos.
– Temos que pegar a chave com sua mãe.
– Não. Ela me entregou. – o jovem abriu uma caixinha de cor branca e retirou de lá chaves – Podemos ir.
– Tem certeza?
– Tenho sim.
– Carlos...
– Sim.
– Ficaremos juntos, para sempre. – o moreno segurou a mão do mesmo e a beijou
– Para sempre. – o loiro fez o mesmo que o outro
O casal trocou de roupa e desceram as escadas correndo, se despediram rapidamente dos pais do loiro que tomavam café em silêncio, subiram a rua, pararam em frente à casa de André, o menino entrou e saiu rapidamente com uma mochila azul nas costas, atravessaram a rua e pararam em frente ao grande portão de ferro.
– Pronto? – Carlos empurrou o grande arco branco
– Sim, e você?
– Estou.
Os dois entraram devagar, caminharam pela estrada curta de pedras que agora estava sem vida, repleta de mato. Pararam novamente por conta da porta de madeira que bloqueava seu caminho, Carlos retirou as chaves do bolso traseiro de sua calça. Um forte cheiro de mofo entrou por suas narinas, juntamente com um cheiro de alvejante velho. A casa estava mergulhada em uma terrível penumbra.
– Tome. – o moreno entregou uma lanterna ao outro
Os dois prosseguiram a passos lentos até o quarto da menina. O loirinho empurrou a porta devagar, o mais novo segurou sua mão e ambos entraram. O quarto da menina estava como anos atrás, uma cama de solteira, envolta em lençóis cor-de-rosa e com uma bonequinha de pano sobre ela, do outro lado uma cômoda com varias gavetas e uma prateleira lotada de bonecas e ursos de pelúcia.
– Serafina... – o loiro disse
– O que você quer com a Serafina depois de tantos anos?
– Eu tive um sonho...
– Hum...?
– Nesse sonho a Ana me pediu pra salvar ela.
– E o que a boneca tem a ver com isso?
– No meu sonho ela estava segurando essa boneca, mas eu me lembrei que quando ela sumiu, a boneca foi a única coisa que encontraram.
– Você acha que isso foi algum recado dela?
– Pode ter sido... ela sempre foi mais esperta que nós dois juntos.
– Garotas... Runf!
– Isso não é hora pra machismo, não.
– Tá, tá... mas como essa boneca pode ser útil?
– Isso nós teremos que descobrir. — o loiro pegou a bonequinha, olhou, a colocou de ponta cabeça, sacudiu e nada.
Foi a vez do moreno, este não sacudiu, apenas apalpou o objeto. Ao mexer na barriga desta sentiu algo que não eram os tufos de algodão.
– Carlos.
– Sim?
– Acho que tem um pedaço de papel dentro dela.
– Dentro?
– Sim.
– Mas como ela fez pra enfiar isso aí? E quando enfiou?
– Isso eu não sei.
– Bem... me perdoe Ana... – o loiro pegou um canivete na mochila do companheiro
– O que vai fazer com isso?
– Precisamos ver o que tem nesse pedaço de papel.
– Mas essa boneca era a favorita dela!
– Ela vai entender.
– E se não entender?
– Eu dou minha alma pra ela.
– Que horror, Carlos! Você não vai se ferrar sozinho.
– Eu nunca te prejudiquei por querer...
– Eu sei disso, mas mesmo assim... – o moreno colocou sua mão sobre a do outro – Eu sempre me ferrei pra te livrar.
Os dois, juntos, começaram a fazer um corte na vertical (N/A: De cima para baixo) na barriguinha da boneca. Logo apareceu uma folha de caderno cor-de-rosa .
– O que será isso?
– Vamos descobrir isso agora.
O papel foi desdobrado, uma letra de criança feita com sangue colocou na folha um único nome que nenhum dos dois garotos reconheceu.
Baltazar da Rocha
– Você sabe quem é esse homem, André?
– Eu não faço a menor ideia.
Naquele momento, a janela se abriu sozinha, os raios solares penetraram no ambiente junto com um vento gélido e mórbido, um arrepio subiu pela espinha dos garotos.
– Que-Quem abriu a janela? — mais velho perguntou
– Só sei de uma coisa... não fui eu.
– Vocês estão se metendo em uma estrada sem volta. – o olhar de ambos se voltou para uma mulher, pálida, de cabelos e vestimentas negras.
– Quem é você? – o moreno quis saber
– Eu sou aquela que você nunca vai querer conhecer.
– Você... você éa morte?
– Quem me dera conseguir ser cruel como ela. Eu fui apenas uma das mensageiras dela, em vida.
– E o que uma mensageira da morte quer com dois adolescentes? – o loiro finalmente disse algo
– Vim para lhes dizer que devem deixar a criança descansar. Ela já cumpriu sua jornada, sobre as frias correntezas seu corpo sempre irá repousar, agora deixem de intromissão... Afinal, da verdade não irão gostar. – assim como surgiu a figura de negro desapareceu.
– Isso está ficando cada vez mais estranho... – o mais velho disse
– Eu sei. Quem é Baltazar? O que aconteceu com a Ana? Quem ou o que era essa coisa? Por que não podemos descobrir? É coisa de mais pra minha cabeça...
– Tem uma Lan House na próxima quadra, podemos pesquisar lá sem que nossos pais se intrometam.
– Vamos lá então. – os dois saíram do locam e deixaram tudo como estava, exceto pela boneca que levaram consigo.
Andaram um pouco, sem pressa e sem tocar no assunto sobre o acontecido, entraram no Cybercafé e pegaram um computador para ambos. Os dedos ágeis de André logo digitaram “Baltazar da Rocha” na pagina inicial do Google. Vários links surgiram, mas Carlos selecionou um que lhe chamara a atenção, era uma noticia de um jornal antigo.
O Bandido Sanguinário ataca novamente – Desta vez as vitimas são outras.
O já conhecido, Baltazar da Rocha (25), atacou novamente. Depois de passar seis meses preso na penitenciaria federal foi solto há dois dias, hoje a policia já o intimou novamente com acusação de porte de armas, trafico de drogas, estupro e morte de uma garota de doze anos.
O corpo da mesma foi encontrado esquartejado e dentro de sacolas plásticas que foram deixadas por vários cantos da cidade, o homem ainda sorri para a câmera quando fotógrafos e jornalistas se aproximavam com maquinas fotográficas.
Esse louco não pode ficar livre e perambulando junto as pessoas normais e inocentes, prendê-lo não basta. Nossos policiais pensam em pedir um laudo medico que comprove a loucura do mesmo, e assim poderão mandá-lo para o insanatório.
– Tem outra coisa sobre ele aqui, e é de dez anos atrás... dia 17 de julho. – André observou
– Três dias antes de...
– Isso aí.
Quatro Anos depois o Terror volta às ruas
Depois de cumprir uma sentença de dez anos, Baltazar da Rocha (34) foi solto nesta manhã de verão. O bandido pegou seus pertences, saiu sorridente do local onde estava. Quando um jornalista lhe perguntou o que faria agora que estava livre e que rumo daria para sua vida, o homem abriu um sádico sorriso e respondeu alegre: “Eu vou matar, trarei mais sofrimento às pessoas inocentes.”, o jornalista insistiu e perguntou o motivo, como se não fosse obvio ele respondeu: “Porque eu gosto. Adoro olhar naqueles olhos puros enquanto vejo suas vidas se esvaindo. Mas não será apenas isso que farei, eu vou arrumar um jeito de eu ficar rico... afinal todos sabemos que vida de pobre é uma desgraça.”
Nosso entrevistador disse que conseguia ver a mais pura maldade nos olhos daquele ser e que o lugar dele realmente seria em um hospício.
Novamente surge a pergunta: Onde está a nossa justiça e os policiais que se importam de verdade com a segurança de seu povo?
– Isso é muito tenso... – o moreno disse
– Também achei.
– Eu ainda não entendi o que esse cara tem com o que aconteceu aquele dia...
– Nem eu... opa! Abre isso aqui.
A morte do terror, o fim do assombro do povo
Nesta manhã do dia 22 o corpo de Baltazar da Rocha foi encontrado em sua residência. No corpo haviam aparentes sinais de luta e um buraco de bala. Essa morte pode ter trazido muito alivio para milhares de pessoas, porém pode ter complicado o trabalho dos policiais, ele seria um dos principais suspeitos de um assalto que havia ocorrido dois dias antes, no dia 20. A rota de fuga utilizada no roubo foi o bosque local, o mesmo onde foi relatado o desaparecimento de uma menina, mas os policiais pensam ter sido apenas uma grande coincidência, entretanto, nem a menina e nem o dinheiro do roubo foram localizados.
Os policiais agora focarão na garota enquanto os cidadãos poderão andar livres pelas ruas.
– Carlos, Baltazar está morto...
– É, eu sei disso.
– Com ele morto, de que vai adiantar? Por que a Ana queria que soubéssemos o nome dele?
– Eu acho que ela quer que nós descubramos algo... mas não sei o que.
Ali atrás dos dois a garotinha parada sem que ninguém a visse observava os dois com um sorriso nos lábios.
– Vocês estão quase me encontrando... continuem.
– Carlos... preciso te dizer algo, sei que não é momento, mas... tá me sufocando.
– O que foi, André?
– Bom... você já sabe que eu gosto muito de ti, né?
– Claro, também gosto muito de você.
– Eu pensava que não passaria disso, mas eu descobri que eu te amo... eu te quero oficialmente comigo.
– O que quer dizer com isso?
– Carlos, você quer namorar comigo? — o mais novo retirou do bolso da jaqueta duas alianças prateadas de compromisso.
– Se eu quero? É claro.
– Eu te amo Carlos... – aquela foi a primeira vez que o loiro viu o amigo corar em todos aqueles anos.
– Também te amo.
A menininha riu baixo, mesmo que ninguém podendo ouvi-la.
– André, eu descobri!
– Eu acho que já sei o que aconteceu também... vamos!
Os dois se levantaram e saíram correndo pela rua, já tinham suas respostas. Agora sabiam onde deveriam ir e o que deveriam fazer.
Continua...
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