Notas iniciais
Então, depois de anos de bloqueio, decidi publicar a minha primeira história original. Ainda estou com certas dificuldades para escrever, então sejam pacientes. Espero que gostem. ♥

França, 1943.

Não conseguia dormir há dias. Todas as vezes que fechava os olhos, sonhava com os gritos ensurdecedores das vítimas de uma tragédia, ou revivia cada cena de sangue derramado. Alguns diriam que era impossível, mas lembrava-se de cada uma das suas vítimas. Isso o aterrorizava. A maldade. A cor vermelha. A tristeza. A dor. Como era possível que as pessoas ao seu redor se acostumassem a viver naquelas condições? Um desespero iminente a cada segundo. Uma vida interrompida a cada momento. Ser considerado sortudo por ter sobrevivido mais um dia. Era um privilégio estar acordado todas as manhãs. Sabia que precisaria aprender a viver com esse fardo e talvez com o tempo, os gritos viessem a se transformar em sussurros, mas nunca seriam apagados de sua mente por completo.

Há dias que não reparava no céu estrelado. Mais uma noite em que agradeceria por sua vida. Sentia falta de sua família, de seus amigos. Será que estavam bem, ainda que em um continente afastado? Os terrores da guerra o preenchiam com incertezas que não sanariam tão cedo, inseguranças que o assombravam toda noite. Olhou ao redor, grande parte dos soldados pulavam, bebiam e comemoravam a alegria de mais um dia de vida — de mais um milagre. Ele, por sua vez, perguntava-se até quando seria um sobrevivente. Uma vida de incertezas o atormentava todas as vezes que o era permitido ter uma mente vazia, teoricamente despreocupada.

Mas quem diria que em meio a um caos sem fim, uma vila na França faria soldados americanos cantarem alto e saltitarem por mais uma conquista. O rapaz olhou ao redor, discreto. Parado próximo a um tanque de guerra, capturou aquela paisagem como um retrato, um dos poucos que desejava guardar daquela guerra. Analisando o ambiente ao seu redor, percebeu uma pequena roda repleta de indivíduos batendo palmas em volta de uma fogueira. Não conseguira identificar qual era a atração, mas estava curioso o suficiente para descobrir.

Caminhou lentamente, rumo à pequena aglomeração de pessoas não muito distante. Infiltrou-se pelos pequenos espaços vazios que encontrava, esbarrando em alguns indivíduos por vez ou outra. Por fim, conseguira avistar a atração que tanto chamava a atenção. E era bela. Era uma bailarina que ele chutaria ter por volta de seus vinte anos.

Seu corpo movia-se majestosamente, com uma leveza impressionante. O vestido branco movimentava-se graciosamente a cada passo que dava. A sapatilha de pano, que diria ser rosa, agora ganhava uma nova coloração marrom devido à terra. Ainda que encontrasse certa dificuldade em mover-se sobre o solo de terra, suas piruetas lhe pareciam perfeitas. Quando um vento foi de encontro ao seu corpo, o rapaz pôde finalmente ver o rosto sorridente da jovem menina que dançava apaixonadamente. Ela dançou, com os cabelos esvoaçantes e o vestido rodado como se sua vida dependesse daquilo. Dançou até que seus pés estivessem exaustos, até que não tivesse mais fôlego. Dançou com um sorriso no rosto até o último segundo. E ele a observou, hipnotizado, até o último deslize sobre o solo de terra. E quando ela agradeceu ao público e as palmas tomaram conta da pequena multidão, ela sorriu mais uma vez. Encantado, o homem que há minutos atrás questionava a sua própria vida, viu-se tentado a segui-la, agora como se a sua própria vida dependesse daquilo

Pegou dois copos de água na cozinha de uma francesa desconhecida. Avistou os fios de cabelo castanhos esvoaçantes e os pés dançantes repousando sobre um banco de madeira. Não pensou duas vezes antes de ir até a garota e sentar-se ao seu lado. Em silêncio, a estendeu um dos copos d'água.

— Para mim? Obrigada! — Ela pegou o copo de água e bebeu um gole. — Eu realmente estava precisando disso.

E, então, os olhos dela finalmente encontraram os dele. Um sorriso tomou conta do rosto delicado da menina, que perdia-se nos olhos azuis desconhecidos. Aquele havia sido o primeiro sorriso que ela havia dirigido a ele. O rapaz estava intrigado. Não deixara de reparar, havia uma cicatriz no seu braço direito e ousaria dizer ter avistado uma na sua perna enquanto dançava. Ela provavelmente havia sido tocada pelos horrores da guerra. Como conseguia manter-se tão radiante? A luz das estrelas facilmente perderiam para o brilho daquela desconhecida.

— A cicatriz? — Ela apontou para o próprio braço marcado.

Ela o vira encarando a marca e, por um breve momento, ele congelou, estava realmente constrangido.

— Eu sinto muito, não foi a minha intenção...

— Tudo bem, não tem problema. Eu a consegui vindo da Alemanha para França, há cerca de três anos atrás. Minha própria marca de guerra. — Um pequeno sorriso tímido surgiu nos lábios dela. Mas era diferente, não era feliz, na verdade, parecia nostálgico. — Mas por que está tão assustado? É um soldado, aposto que tem mais cicatrizes do que eu posso contar

— Não tantas, na verdade. São três, duas nas costas e uma na perna direita.

Ela ouviu as palavras atentamente, em seguida, acenou negativamente com a cabeça. A princípio, ele não compreendeu.

— Cicatrizes são incontáveis. No fundo, as físicas são as que menos machucam. Eu olho para o senhor e vejo claramente, há mais cicatrizes do que os olhos podem ver. As que ferem a alma são as que mais doem, e são as que o senhor mais tem.

As palavras saíam da boca dela com suavidade. Não tinha medo em expor o que sentia ou os próprios pensamentos. Não era admirável? Ele jamais seria assim, talvez por isso estivesse tão surpreso; sem palavras.

— O senhor sabe por que eu danço? Eu danço porque é o que eu amo. Agradeço todas as manhãs e noites por poder fazer algo que amo, e sinto muito que não possa fazer o mesmo, mas houve um tempo em que não pude dançar, e esses sim foram os dias mais nebuloso da minha vida. Então todas as noites eu fechava os olhos, e ao invés de lembrar-me das lágrimas e dos gritos, pensava em como seria poder dançar novamente. — Uma breve pausa, seguida de um sorriso sincero. — Em tempos difíceis, pessoas que mantêm as esperanças são as únicas capazes de mudar o mundo.

— Eu não entendo. — Finalmente, se pronunciou. Surpreendia-o o fato de alguém pensar assim com tanto caos ao redor.

Ela não estava alheia aos pecados da guerra. Ele via com os próprios olhos a pele marcada, os olhos saudosos e o sorriso nostálgico que ela carregava consigo. Também era inteligente o suficiente para perceber que se fugira da Alemanha em 1940, então provavelmente era uma judia. Sabia também que, embora houvessem se conhecido há menos de trinta minutos, ela confiava nele o suficiente para lhe contar tudo aquilo. Talvez ela pudesse mesmo ver a sua alma. Ninguém nunca o conhecera tão bem. Nem mesmo a sua própria família, já que ainda não haviam visto o homem tocado pelos horrores da guerra.

— Não entendo como pode viver tão feliz após ver tanta violência. — Ele deixou um suspiro escapar. — A história é composta por momentos como esse, de guerras, disputas, egoísmo humano. Eu realmente não entendo.

— A história, meu senhor, é magnífica. — Ela sorriu mais uma vez. — A história é fantástica, porque todos os dias há a oportunidade de mudá-la. Afinal, o que é o futuro se não história? E sempre há a possibilidade de mudar o futuro.

"Sempre há a possibilidade de mudar o futuro." Uma camponesa simples, em uma vila francesa, em outubro de 1943, o disse as palavras mais belas e encorajadoras que o rapaz poderia ter ouvido durante um período de tamanho desespero. O futuro é mutável e, portanto, a história também sempre será.

— A história sempre poderá ser mudada, porque sempre haverá o amanhã.

Ela sorriu mais uma vez. O sorriso mais puro o inocente que ele já vira em toda a sua vida.

— É uma bela forma de ver a vida, acho que posso tentar começar a pensar assim. Foi difícil deixar minha família para servir durante uma guerra tão catastrófica. É difícil viver com a incerteza de mais um dia de vida e se ele chegará ao final como todos os outros.

Nunca se abrira com ninguém sobre isso. Nem sequer com os seus companheiros do exército americano. Na verdade, poucos eram os amigos que tinha, já que muitos não tiveram a mesma sorte do que ele. Desde então, afastara-se dos outros companheiros, tentando poupar-se da dor da perda.

— Sei que não é fácil. Confio o suficiente no senhor para dizer-lhe que, quando vim da Alemanha, perdi meus pais, meus registros e todos os vestígios de minha origem e, embora eu viva de incertezas, tenho orgulho do que sou, porque sei que isso é que os meus pais desejariam. Vivo feliz por mim, por eles e por todos o que não tiveram a oportunidade, porque sei que eles gostariam de viver felizes, sei que gostariam de me ver feliz. — Ela bebeu mais um gole de água e brincou com a pulseira em seu pulso. — Nós nunca vivemos para nós mesmos.

Mais uma vez, ela estava certa. Perguntava-se por quantas dificuldades uma menina aparentemente tão frágil de cerca de vinte anos havia passado para falar e pensar daquela forma. Certamente, aquela fragilidade era apenas aparente, pois jamais presenciara alguém com tamanha força emocional. Garantia a si mesmo que certamente noventa e oito por cento dos homens que serviam com ele jamais seriam fortes o suficiente para ver o mundo daquela forma.

— Conhece a história do quebra-nozes? É a que mais me encanta no mundo do balé. Sabe por quê? — Então ela o encarou, havia uma feição curiosa em sua face.

— Conheço, mas por que lhe encanta tanto?

— Porque além da aparência, o que mais encantou a Clara foi o modo como o soldado quebrava as nozes sempre com um sorriso no rosto. Há aqueles que digam que é uma história fictícia, pura imaginação, mas todo conto é baseado em uma história verdadeira, não é mesmo? — Ela estava imersa em seus próprios pensamentos e o carregava consigo. Era uma viagem interessante, ele admitia. — O senhor é como o quebra-nozes, mas sente culpa demais para permitir-se sorrir. Culpa que não merece sentir, pois não é sua. Mas sei que é tão forte quanto o quebra-nozes.

Ela levantou-se em um pulo, agora arrastando a sapatilha sobre o gramado. As mãos delicadas tocaram as do rapaz e puxaram-no sem medo, em uma ousadia que poucas seriam as pessoas que teriam. Seguindo-a ainda naquela estrada imaginativa que ela havia criado, ele também se levantou, deixando-se surpreender pela pequenina que o guiava em meio ao gramado curto que cutucava as pernas dela de maneira divertida.

— O senhor disse que conhece a história do quebra-nozes, então imagine a música, vamos dançar! É a primeira vez em muito tempo que pode aproveitar uma noite linda como a de hoje, tenho certeza, então não a desperdice. Para dançar, não se precisa de música ou de habilidade, só de um corpo e de imaginação. Vamos, tente!

Ela colocou as mãos sobre os ombros do rapaz e começou a conduzi-lo, ele, por sua vez, apoiou as mãos sobre a cintura dela e deixou-se levar pela música que tocava em sua mente e pelos passos que ela realizava, sempre guiando-o. Naquela noite, ele era o quebra-nozes, um simples soldado sorridente. Aquela foi a primeira vez que ele sorrira em muito tempo, e fora tão engraçado que a menina acabou gargalhando da cara dele. Eles ficaram conversando por horas enquanto dançavam, mas não sobre a guerra. Nada de Alemanha, nada de França. Nada sobre tiros, tristeza, perdas, ou qualquer coisa do gênero. Conversaram sobre coisas fúteis e banais que se falam quando não há guerras. Sobre como ela nasceu na Inglaterra e gostava de brincar descalça nos campos de lá. E sobre quando ele ganhou o seu primeiro carrinho de madeira e furou o dedo em um dos pregos.

Quando as duas crianças que moravam com ela foram procurá-la preocupadas, tiveram que se despedir e ela lhe deu um beijo no rosto, mas o maior presente que ele recebera fora o seu sorriso e o aceno de mão dela enquanto corria. Observou-a até o vestido branco sumir de sua vista. Apenas quando não conseguia mais vê-la, ele percebeu que não sabia o seu nome, e que ela não sabia o dele. E ele suspirou, frustrado.

Partiram pela manhã, no dia seguinte, antes do sol nascer, ele e todos o soldados.

A vida é irônica, não é mesmo? Encontrara o seu primeiro amor aos vinte e três anos, em meio a um caos que se alastrava por todo o mundo. Apaixonara-se por uma judia durante a Segunda Guerra Mundial. Teve certeza quando encontrou um colar com a Estrela de Davi na grama, próximo ao local em que dançavam. Culparia-se eternamente por tirar dela a única lembrança que tinha sobre o seu povo e sua crença, mas jamais se arrependeria por tê-lo feito. Nunca soube o nome dela, então chamava-a de Clara sempre que desejava ter um vislumbre da melhor noite da sua vida. Um soldado americano apaixonou-se por uma bailarina judia em uma única noite e nunca a veria novamente. Perdera a conta de quantas vezes escrevera cartas sem remetentes, cartas que jamais foram enviadas para ela. Sabia que provavelmente jamais a veria novamente, mas tinha certeza de que ela seria o seu grande amor para a vida toda. Até então, ele nunca acreditara em contos de fadas, mas agora "O Quebra-Nozes" era o seu conto preferido. Todas as vezes que escutasse as músicas da peça, ou visse uma sapatilha, lembraria da sua Clara. Agora, todas as noites, além de agradecer pela própria vida, pedia aos céus para que a protegessem. Repleto de saudades, agora ele a guardaria como uma eterna lembrança.

Na França, em 1943, um soldado viveu o amanhã e mudou a sua própria história.

Notas finais
Obrigada por ler até o final, espero que tenha gostado! :) ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!