Uma Arte Sem Quadro
1 Madness
Notas iniciais
No começo não há como descrever a sensação. Um aperto. Um sopro. Um suspiro... É como ser erguido, elevado, posto no maior nível, é como ser um deus do seu próprio e maldito mundo. A liberdade, a capacidade, o inatingível.
Você tem tantas vidas para si, reina em um mundo em que só você habita. Vive a realidade que sempre quis. Realiza o que quiser. Controla seres como se respirasse.
Ouve vozes.
Muitas vozes.
E você não as controla, mas as cala quando despeja as palavras no papel. Quando você, finalmente e eternamente, se torna dono delas e cresce com elas. Quando você se torna o deus que elas precisam. Quando você as cria. Quando as dá a vida!
E é aquilo que você esperava, aqueles rostos, aquelas vidas, aquele bendito êxtase que te preenche até a última gota. Cada palavra, cada vírgula e cada ponto é como a sua dose diária de loucura feita sob medida para você.
Cada palavra o aproxima daquele fim glorioso que você planejou, cada letra o coloca mais próximo do fim. Você não está pronto. Não quer... e o vício aumenta.
Hoje são só trezentas palavras.
Amanhã são mil.
Em seis dias você escreve um romance e o joga fora em uma noite.
Em um ano você escreve outro e o guarda na gaveta porque aquelas pessoas, aquele mundo, aquela sensação que você sentiu não merece sair dali.
Tudo começa novamente. Mais trezentas palavras e então mais mil, ao fim do mês você tem cinquenta e nove mil delas, mas não sabe o que fará.
Está bom.
Não está bom.
O mundo merece conhecer.
Jogue fora.
O que te motiva? O que te freia?
Exaustão. Êxtase. Poder... Ah o poder. Poder de fugir da própria realidade, viajar e conhecer lugares que ninguém mais pode, construir e destruir com a mesma facilidade com a qual respira e então não mais o fazer.
Se esconder do vício, fugir... dizer adeus de tantas formas e no fim se esquecer de ir porque aquela vontade é maior, seus músculos conhecem as letras, seus dedos as teclam sem pudor em uma dança violenta que busca e repudia o final. Seu corpo conhece com a alma o que você cria, deixa sua marca.
Incendeia tudo e as cinzas são o que sobram no fim.
Se nada se cria, se tudo se copia... Quando foi que me perdi nos mundos que criei? Quando foi que os fiz? Quem os fez? Quem os contou? Quem sou eu?
Em uma exaustão desenfreada despejo palavras como quem caminha em uma tarde linda de sol, falo com seres estranhos e ouço seus desejos mais profanos! Moldo vidas e as ceifo com a tranquilidade de uma boa caneca de chá.
M e D e L e I t O.
Porque não há mais nada além disso que eu queria fazer.
Quem sou eu?
Quem são eles?
Quantas palavras já foram escritas? Com quem falei? Quem ouvi?
Eu não sei. Nunca saberei, mas há pessoas em mim que clamam por uma história, pessoas em mim que me sussurram seus finais. Pessoas que riem. Que choram. Que brigam e que transam. Pessoas que matam. Que ceifam reinos..
Elfos.
Duendes.
Fadas.
Princesas.
Humanos.
Monstros.
Amores.
Dores.
Reinados.
Histórias.
Simples… histórias.
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