Notas iniciais
Boa leitura.

Um Último Desejo

A neve caia muda sobre a superfície adormecida em meio ao manto pálido que se estendia por sobre a grama do parque. O vento uivava numa melodia calma pelos ouvidos do rapaz presente, este cuja face serena entregava o momento de paz no qual o mesmo parecia se encontrar.

Assim o jovem inspirou profundamente, ignorando o frio cortante que rasgara sua traquéia. Seus olhos se abriram numa lentidão dolorosa e aquela face serena de segundos atrás desaparecera em meio a dor e a tristeza que apossara-se da face tão bela.

Os olhos vermelho-sangue – o mesmo tom de seu casaco – apenas fixaram-se no céu, este tão escuro quanto os fios de seu cabelo que se espalhava pela neve branca, onde pontos luminosos dançavam tão atrativos e traiçoeiros. Não demorou muito para que o sorriso triste apossasse-se de seus lábios, um tanto azulados devido ao frio em que o homem estava exposto.

Inevitavelmente lágrimas lhe vieram aos olhos. Tão dolorosas e tolas.

Quanto tempo fazia desde aquele dia? Quantos dias? Quantos meses? Quantos anos?

A vida não fora justa para consigo.

O tempo não fora justo para consigo.

E mais uma vez permitiu que seus olhos se fechassem e as lágrimas quentes e cruéis escorreram por sua face pálida – tanto quanto a neve triste.

Tantas foram às vezes em que pedira, implorara, aos céus para que ela voltasse; para que ela estivesse ali consigo lhe abraçando, sorrindo, rindo. Cansara-se de buscar formas de trazê-la de volta. Esgotara-se física e mentalmente e tudo para descobrir que o que acontecera – por mais trágico que fosse – fora algo irremediavelmente inevitável. Ela tinha de partir. Tinha de morrer.

Mas por quê?

Fora tão doloroso das primeiras vezes, tão incrivelmente frustrante, mas ele aprendeu – como mago negro, imortal e autor de varias guerras – que ela sempre voltava, que sempre voltaria mesmo que não fosse para si. Mas ela estava lá com ele.

E agora, quando ele mais necessitava dela ali, ela não estava e, talvez, não voltasse nunca mais.

Assim, involuntariamente, um soluço fez-se presente. Baixo, dolorido, mas ainda sim estava lá dando lugar a outro e mais outro. No fim ele se encontrava, aos prantos, jogado sobre o manto pálido e triste daquela noite. Sua imortalidade, sua dor, as estrelas e o céu eram suas únicas companhias; estas as quais o mago profano a muito havia se cansado.

- Olá... — A voz baixa ecoou por seus ouvidos, e por um milésimo de segundo ela lhe pareceu familiar. Nem movera-se, não precisava se dar a esse trabalho.por muito tempo viajou sendo uma sombra de um passado que todos, atualmente, desconhecem. – Olá. – E novamente aquele som suave mostrou-se, desta vez mais familiar do que realmente deveria ser. Cogitou que aquilo era uma peça pregada por sua própria consciência. Por tantos anos desejou ouvir aquela voz melódica e ali ela estava. – Tudo bem? – Assim o moreno abriu os olhos de súbito, arregalando as orbes carmins quando rapidamente deparou-se com um par de olhos de chocolate o fitando.

- O-O que...? – Resmungou, rápido, impulsionando seu corpo para cima a fim de sentar-se quase confortavelmente. – Quem é você? – Questionou fitando a moça de forma assustada, esta que limitara-se a soltar um riso charmoso em resposta.

Viu os lábios brilhantes moverem-se, mas se quer conseguira ouvir o som da voz melódica novamente, encontrava-se hipnotizado pela aparência da moça. Tão bonita. Tão nostálgica.

Tão incrivelmente familiar.

Os cabelos pouco abaixo dos ombros. Os olhos avelanados brilhantes. Os lábios suaves rosados. A pele leitosa e macia. O corpo esbelto, mesmo que escondido sob o casaco. E, surpreendentemente, a mesma forma estranha de vestir-se.

- D-Desculpe eu n-não ouvi... – Gaguejou, logo quando percebeu que a loira o fitava curiosa.

Não custou a desviar o olhar sentindo a face queimar num sentimento que muito imaginava estar morto, ou que este houvesse sido levado para o tumulo com, exatamente, a mulher a sua frente.

E novamente ela sorriu.

- Sou Lucy Strauss. – Repetiu suavemente. – E o seu? – Indagou sentando-se ao lado do moreno.

- Zeref Dowlivan. – Murmurou voltando a fitar o céu noturno. Provavelmente aproximava-se de meia noite e, sugestivamente, ao perceber isso Zeref voltara a fitar a figura esbelta ao seu lado.

O que diabos ela faria ali a aquele horário? E, também, como ela poderia estar ali, viva?

Piscou, tornando a lembrar do sobrenome da loura.

Strauss...

Recordava-se de uma família com aquele nome, mais especificadamente três irmãos. Pessoas que haviam se tornado seus amigos. Pessoas que eram amigas da única mulher que amou durante sua infinita vida. Pessoas... Magos os quais lentamente deram adeus a aquele mundo séculos atrás.

Amigos que se perderam durante as décadas, séculos.

Quanto tempo mesmo havia se passado?

X792...

Inspirou e respirou, podendo ver os pequenos cristais que se formaram frente a si apenas por tal ato, estes que logo foram levados pela brisa.

- Que ano... Estamos? – Indagou, mais para si do que para a moça ao seu lado.

- 1748. – O murmúrio atraiu sua atenção e rapidamente o moreno virara a face para a jovem ao seu lado. – Por quê?

Involuntariamente o vermelho se apossara de sua face. Não esperava ter perguntado aquilo em alto e bom som.

- É que... Isso, essa situação, é meio nostálgico. – E assim riu-se baixo, tornando a observar o céu escuro pintado por manchas nevascas das nuvens invernais que banhavam a Europa naquela época do ano. – Nunca imaginei que a veria novamente. – Mal notou que aquelas palavras atraíram a atenção da jovem ao seu lado.

- Sou, assim, tão comum? – Sorriu-a, sugestiva, mas tudo o que obtivera em resposta fora uma negação muda.

E assim o silencio prevaleceu, banhado pelos flocos cálidos que escorriam do céu, pelo vento, tornando única aquela noite.

Após um curto período de silencio, onde ambos apenas limitavam-se a apreciar o silencio da noite ao som do uivo de uma possível tempestade que se aproximava, a jovem erguera-se de seu lugar limpando a neve da vestimenta.

- Tenho de ir. – Informou quando o olhar profundo e nostálgico caiu sobre si. – Não sei se é comum dizer isso, apesar de você próprio ter admitido algo do tipo, mas... – E assim ela sorriu, da mesma fora como ela fazia no passado. Como a novecentos e cinqüenta e seis anos atrás. – Você também me é, de certa forma, familiar.

Arregalara os olhos scarlets diante daquela informação. Como poderia imaginar que algo daquele tipo seria dito, ainda mais para si.

- Espero que possamos vermo-nos novamente. – Sussurrou-a, pela primeira vez, adquirindo certo rubor nas bochechas, o que arrancou um sorriso largo e brilhante do velho mago-negro.

- Quem sabe, se um dia resolver passar pelo parque durante a madrugada, talvez me encontre aqui novamente. – Confessou-o e, mesmo que fosse entre linhas, aquilo era um pedido para que ela fosse, novamente, a seu encontro no mesmo local que se encontravam naquele momento.

- Como se eu fosse me encontrar com um estranho que acabei de conhecer em plena madrugada. – Resmungou-a infantilmente cruzando os braços e fazendo bico.

Ele riu percebendo que, mesmo os séculos, mesmo que não tivesse as memórias da Lucy a qual Zeref tinha lembrança... Ela ainda sim parecia com a Heartphilia que o mago, há muito tempo, conheceu.

- Tudo bem então senhorita Strauss. – ergueu os braços em pura derrota, tornando a deitar-se sobre o manto pálido e frio.

E quando já imaginava que a loura havia partido, pode sentir sobre si um calor suave e macio. Ao abrir os olhos o bege cachecol podia ser visto sobre si enquanto, ao longe, a moça se afastava em passos apressado gritando para que, no dia seguinte o moreno estivesse lá.

Piscou, desnorteado, não tardando em abrir um sorriso tímido. De uma forma inconsciente aquela Lucy, era como a Lucy que ele conhecera a mais de um milênio atrás.

Sutilmente tornou a sentar-se demorando apenas poucos segundos antes de envolver o cachecol em seu pescoço, mesmo que não sentisse frio iria mantê-lo assim por que, ao menos assim, poderia sentir perto de si a presença que a tempos não tinha o luxo de desfrutar – não que isso fosse por escolha própria.

E, quando envolveu a peça em seu pescoço, não deixou de notar que o cheiro doce era o mesmo da mulher que séculos atrás viu-se perdidamente e incondicionalmente apaixonado.

Seria aquilo, talvez, uma chance para si? Uma chance para recomeçar? Uma chance, única, para amar e ser amado de verdade?

Isso o mago não sabia e talvez nem chegasse a descobrir, mas quem sabe aquilo não fosse a resposta de seu único e último desejo.

Fim.

Notas finais
Isso é um capitulo bonus de Além das Estrelas, uma fanfic minha que ja foi concluida.
Aqui esta o link dela: https://fanfiction.com.br/historia/302694/Alem_Das_Estrelas/.
O capitulo tambem foi adicionado no SocialSpirit, mas faz muito tempo ja.
Espero que tenham gostado.
Bye.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!