Um Último Conto

1 Um Último Conto


— Filhinhaa... Vamos? – uma voz masculina chama por alguém.

— ... – sem resposta.

— Filhinha, vamos lá?

— ...

— Maka? Vamos?

— ...

— Maka? – Spirit toca o ombro da filha delicadamente, coma a despertá-la de um sonho.

— P-Papai? – ela se assusta e fita logo o pai.

— Vamos, Maka? O Soul está nos esperando, lembra? Você estava tão ansiosa para visitá-lo...

— Sim, papai... Vamos...

Assim, pai e filha saem de casa a caminho de algum lugar.

Maka’s pov On

Hoje, faz um ano que voltei a morar com o papai. Soul deixou nossa casa, então não tive mais motivos para morar sozinha. E hoje, finalmente tomei coragem e decidi visitá-lo. O motivo de termos nos separado? Bem, será dolorido lembrar, mas é preciso.

“Havia cinco anos que eu e o Soul havíamos nos tornado Death Sithe, e nem sinal do Asura. Estávamos com 20 anos e terminaríamos os estudos na Shibusen naquele ano.

Tudo estava normal, tirando o estranho clima amoroso do lugar. Kim e Ox se entenderam depois que ele recebeu uma herança do avô. Jackie e Harver estavam enrolados. A Tsubaki, tadinha, conversara comigo há uns meses. Disse que mesmo que o Black Star seja daquele jeito meio perdido, ela sempre estará perto dele. O Kid perdeu completamente seu senso de simetria. Não bastasse ter recebido bem a declaração da Liz, ele também estava enrolado com ela.

Ah, falando no Kid, ele recebera o restante da Sanzou, e passou a trabalhar junto com o Shinigami-sama. E como ele não conseguiu fazer das irmãs Thompson Death Sithes, estava trabalhando com o Soul, para fazerem jus aos seus títulos.

Por causa disso, eu e Soul passamos a nos ver cada vez menos. Nossas missões e aulas práticas diminuíram, e nosso tamashii no kyoumei também. Enquanto as ressonâncias dos outros grupos estava cada vez mais forte, a minha, do Kid e do Black Star só tendia a piorar, e minhas notas baixaram.

Mas isso logo foi resolvido. O Soul percebeu que eu não estava legal, então pegou umas férias. Eu estava em casa, fazendo o jantar, quando ele chegou todo feliz (vendo de fora, parecia um dia comum, mas eu sei quando ele está feliz). Largou a mochila no hall e sentou na cadeira perto da bancada da cozinha.

- Maka.

Eu não falei nada, estava irritada.

- Maka, tenho uma novidade. Não quer ouvir?

Olhei emburrada pra ele e acenei que não com a cabeça.

- Ah, é? Não quer ouvir que eu peguei umas férias e a gente vai poder voltar pras aulas práticas? Não quer ouvir uma coisa dessas? – ele sorriu de canto, me fitando. Imediatamente, me endireitei e o olhei bem de frente pra ele.

- Como assim? – meus olhos brilharam.

- Assim mesmo. Falei com o Shinigami-sama, e o seu pai me deu uma ajuda. Estou oficialmente de férias – ele fez aquela cara irônica de novo.

Com isso, eu abri um enorme sorriso e comecei a pular de alegria. Porém, contudo, mas, todavia, como sou uma desastrada em casa, tropecei no meu próprio pé, e terminei por cair em cima do Soul, que caiu da cadeira e se espatifou no chão comigo junto. Isso já era normal. Mas dessa vez, algo conspirou contra nós.

Enquanto nos levantávamos apressados como sempre, nossos rostos chegaram bem perto um do outro, além do de costume. Meu coração acelerou. Pensei que já havia esquecido aquela paixão de criança, mas não. E como sou cabeça-dura, fiz de conta que nada havia acontecido.

Me levantei normalmente, e vi que o Soul ficara estático no lugar onde caíra. Ele estava com um olhar perdido e estranho, mas deixei quieto. Voltei ao jantar e lá me concentrei, e quando comecei a colocar a comida na mesa, notei que o Soul estava lá, no mesmo lugar, caído.

- MAKA CHOOOP!! – atingi ele com meu livro, e fiz jorrar sangue da cabeça dele, mas ainda assim ele ficou parado lá, me olhando. Depois de uns dez minutos é que ele percebeu a dor e saiu pulando pela casa.

- Pô Maka, por que fez isso? Eu te fiz alguma coisa? – ele resmungava protegendo o local da batida com as mãos.

- Vamos comer, antes que a comiga esfrie – fechei o livro e me sentei à mesa. Ele fez o mesmo.

No dia seguinte, minha alegria não perdurou. O Kid veio pessoalmente convocar o Soul para uma missão extra. Ele bateu na porta e eu atendi prontamente. Ele sentou no sofá mais sério que de costume, e nos encarava.

- Me perdoe por te tirar tão cedo das férias, Soul, mas há um Pierrô da insanidade aterrorizando uma pequena vila no norte do país. Nenhum dos nossos conseguiu derrotá-lo, então vim pedir para que venha comigo – Kid entregou um papel com uma convocação formal ao Soul, que olhou pra mim meio ressabiado.

- Maka...

- Tudo bem, pode ir. Mas eu vou junto. E não adianta tentar me convencer do contrário.

- E quem faria isso? Acho muito bom que vá, Maka. Assim, se eu tiver problemas, você assume com o Soul – Kid completou.

Assim, lá fomos nós. Para o meio de outro deserto. Tivemos que andar por horas até que o tal Pierrô aparecesse. Ele tinha a pulsação do Asura. Uma insanidade infernal, como diria o Soul.

Ele não era de conversa, partiu logo para tentar o contágio da insanidade, mas o Soul tocou seu piano e eliminou o perigo do contágio.

- Aí sim, hein Soul? Realmente aprecio sua música – Kid girava a foice se defendendo da metralhadora do Pierrô – Agora chega de enrolar. Tamashii no Kyoumei!!

O Soul pegou o Majingari com a energia do Kid. A lâmina se alongou e adquiriu três pontas. Bem a cara do Kid. Em seguida, com um golpe só, eles partiram o Pierrô ao meio, como eu já tinha feito na fábrica mal assombrada. Fiquei contente por eles, e os dois comemoraram.

Já estávamos voltando para casa, quando algo me agarrou pelo pescoço e me puxou para o alto. O ar faltou em meus pulmões, e eu custei a pedir por ajuda. Quando os rapazes perceberam que eu havia sumido, eu estava lutando para me soltar da mão deformada do pierrô.

- Maka! – ao me ver dependurada no ar, o Soul correu a toda e se transformou em foice. Ele cortou a mão do Pierrô, conseguiu fazer a volta e me amparou enquanto eu caía – Maka. Maka! – eu estava desmaiada, mas podia sentir o desespero na alma dele. Soul me abraçou forte, e quando retomei a consciência, senti algo escorrer do rosto dele para o meu. Abri os olhos e vi. Ele chorou.

- S-Soul... Está... M-Me sufocando... – quando ele ouviu minha voz, me soltou rápido e enxugou os olhos disfarçadamente.

- Idiota. Não faça mais isso – ele resmungou, pensou por um momento e voltou a falar – Maka, eu tenho que te falar uma coisa.

- O quê? – perguntei, mas antes de qualquer coisa, o Kid gritou a plenos pulmões.

- SOUL! HENSHIN! HEENSHIIN!!! – ele estava parado diante de três pierrôs, que se formaram depois dos cortes do Soul.

- Mas o quê... – ele olhava incrédulo enquanto se transformava – Maka, fique longe deles – recomendou a mim.

Depois disso, quase não pude ver nada. A velocidade em que Soul e Kid acertavam os golpes aumentou consideravelmente, e logo, o trio de pierrôs estava em pedaços.

Mas todo o esforço deles foi em vão. Daqueles pedaços surgiram mais ou menos quinze pierrôs, que falaram em conjunto:

- Não vamos permitir que destruam a insanidade. Nós somos a insanidade. Venham, pois que são nossos.

Senti uma perturbação imensa na alma dos dois, e minha cabeça começou a girar. Antes que a insanidade me atingisse, entrei em ressonância com o tamashii do Soul e do Kid que já haviam caído na armadilha insana. Os dois estavam frente a frente, mas pareciam não estar se vendo. Um chamava pelo outro enquanto eles eram pendurados por agulhas dentro daquela escuridão. Eu ouvia os clamores dos pierrôs, incitando os dois a se renderem à insanidade.

Lentamente, Kid e Soul iam sendo tragados pela insanidade, e eu ainda não conseguia detê-la. Lentamente, a escuridão se apossava da alma deles. Lentamente, gritos de dor e desespero eram ouvidos naquela imensidão negra, e eu sequer podia conter aquilo. Os gritos passaram a ser mais altos, e os dois se contorciam de dor; uma dor que atingia-os no fundo da alma.

Minha racionalidade deixou de funcionar ao ouvir um pedido de ajuda vindo do Soul. Algo que eu não via começou a sufocá-lo, assim como o Pierrô havia feito comigo. Eu via a expressão de medo no rosto dele, e fiquei apavorada. Me debati para tentar libertá-los, mas não conseguia. E por um segundo, percebi que Soul me vira, e passara a me fitar, movendo os lábios para pronunciar o meu nome.

Quando vi aquilo, finalmente perdi o controle. As asas da minha alma saíram do meu corpo e iluminaram as trevas. Voltamos à realidade, e a pulsação da minha alma havia destruído os pierrôs. Soul e Kid estavam no chão, de joelhos, buscando o ar como se tivessem ficado horas embaixo da água. Corri até eles, e os dois me agradeceram. Enfim, aquela missão havia terminado.

De volta a Death City, eu fiz o relatório da missão ao Shinigami-sama, enquanto Soul e Kid estavam na enfermaria da escola. Assim que terminei, fui até os dois. Estavam dormindo, Soul na cama perto da janela, e Kid na cama ao lado.

Fui até cama do Soul e me encostei na janela, por onde entrava uma luz tênue e acalentadora. Fiquei relembrando os momentos de medo, e recordei de que o Soul havia dito que precisava me falar algo. “A propósito”, pesei, “acho que vou falar logo que eu o amo. As coisas estão ficando muito perigosas, e se o Asura aparecer de surpresa, com certeza não poderei me confessar.”

Voltei para casa por recomendação da Neigus-sensei. A Blair estava fora, como sempre, então pude ficar tranquila no silêncio do lugar. Me deixei cair na cama fofa em que há anos vinha dormindo e sonhando. Onde todas as noites eu sondava a alma do Soul à espera de alguma mudança.

Os dias passaram rápido, e depois da luta contra aqueles pierrôs, nada mais voltou ao normal. A insanidade do Asura começou a aparecer e transformar tudo à nossa volta. As aulas práticas dos alunos da minha classe passaram a se denominar “Missões da Elite”, e compreendiam todas as possíveis investidas do Asura contra a ordem vigente.

Soul e Kid andavam pelo mundo às pressas para atender a boatos da aparição do kishin, todos falsos. Novamente eu estava sem arma, e não podia fazer muita coisa, então acabei me isolando em casa. Geralmente, o Soul chegava tarde das missões. Mesmo assim eu o esperava, com um sorriso no rosto e um prato da comida favorita dele.

- Como estão indo nas missões? – perguntei.

- Tá difícil. Além dessas informações falsas, a gente tem enfrentado as aparições da insanidade do Asura por todo canto. Hoje foi uma das grandes cidades do Japão que ficou infestada por aquela insanidade infernal. – ele explicava, com uma estranha cara de executivo ocupado.

- Soul, eu queria falar com você... – comecei a puxar o assunto.

- E já não tá falando comigo? Fala aí, ué – ele não me olhava.

- É que... Antes que eu engrenasse no assunto, Kid apareceu na janela da sala, flutuando, graças às caveiras a jato do Shinigami-sama.

- Vamos, Soul, há um chamado vindo da América do Sul. O Tezca Tlipoca não está dando conta sozinho.

- Me fala depois – Soul sorriu, pulou a mesinha de centro e se transformou enquanto saía pela janela.

O tempo passou como uma lesma às raias da morte, mas finalmente o Soul voltou. Já era de manhã, e eu não tinha conseguido dormir, então fiz um café da manhã caprichado pra ele, que entrou pela janela por onde havia saído na noite anterior.

- Falou, Kid – ele se jogou no sofá. Estava sujo de fuligem e cinzas – Yo, Maka.

- Oi, Soul – eu o fitei por alguns segundos – como foi lá?

- Racharam o espelho do Tezca Tlipoca. Quando chegamos ele tava desmaiado, mas conseguimos deter a insanidade lá.

- Por que está sujo de fuligem? – perguntei meio curiosa.

- A insanidade atingiu os vulcões do Círculo de Fogo, então tivemos que expandir a alma do Kid a partir do meio do círculo. Hum, o que é isso? – ele ergueu os olhos para a mesa.

- Seu café da manhã. Não consegui dormir, então fui cozinhar – eu disse. Soul se levantou do sofá e foi comer, sem falar mais nada. Quando terminou, colocou o prato na pia e avisou:

- Vou tomar um banho e vou dormir. Estou exausto.

E assim ele fez. Ouvi-o abrir o chuveiro e ficar lá por uns vinte minutos. Depois ele se fechou no quarto e dormiu. Fiquei parada, em pé na cozinha, meio frustrada. Quando acordei de meus devaneios, decidi ir ver como o Soul estava. Abri uma pequena fresta da porta e o observei. Ele estava estirado na cama, e mesmo no escuro, vi a antiga cicatriz no corpo dele. A cicatriz de quando ele quase morreu por mim quando tínhamos catorze anos. A cicatriz que eu tive de enfrentar para me tornar mais forte. O Soul se moveu na cama e eu me assustei, fechando a porta rápido.

A manhã passou, a tarde também. Soul acordou quando o Sol já babava de sono. Eu tinha adormecido lendo um livro no sofá. Acordei com um cheiro bom de comida que só ele sabia fazer.

- Soul...? – ainda sonolenta, vi uma manta me cobrindo.

- Ah, acordou. Quando levantei você tinha pegado no sono e tava tremendo de frio. Quer se resfriar? – ele ironizou.

- N-não... – levantei cambaleando e bocejei.

- Isso, venha guiada pelo aroma da minha comida – ele riu. Sentei à mesa e ele me serviu. Comemos em paz. E no meio da conversa que surgira, comecei a falar.

- Soul, tenho que te falar uma coisa...

- É mesmo. Era algo sobre... O que era mesmo? – nesse instante, ele recebeu uma mensagem no celular. Sim, Soul comprou um celular – Opa, me fala depois. O seu pai me chamou pra uma reunião.

- Meu pai? – é, meu pai também tinha comprado um celular.

- Que foi? Acha que é mentira? Olha aqui – ele me mostrou o visor do celular, e realmente parecia sério. Logo, eu estava sozinha mais uma vez.

E era sempre assim. As missões, os trabalhos e reuniões tiravam o Soul de casa a qualquer hora. Desse modo, quando ele estava em casa eu estava dormindo, e quando ele saía, eu esperava para tentar me confessar a ele.

- Soul, eu...

- Me fala depois, voltei apenas para buscar isso aqui.

...

- Soul...

-Estou atrasado, me fala depois.

...

- Maka, o que queria falar comigo?

- E-eu...

- Soul, sou eu, Kid. Vamos, há mais um ataque da insanidade.

Quase dois meses se passaram dessa forma. A insanidade ficava cada vez mais forte, e até o clima mudou por causa dela.

Então, Soul esqueceu de alguma coisa para um relatório ao Shinigami-sama. Ele entrou apressado pela porta e me viu sentada à mesa.

- Soul, eu preciso falar com você – disse tristemente.

- Maka, me fala depois, eu preciso ir – ele já ia saindo pela porta.

- NÃO! Você não vai sair daqui enquanto não me ouvir! Há meses você me esquece aqui e sai para as missões com o Kid! Ele não é o seu meister, seu meister sou eu! Eu fiz de você um Death Sithe! Foi comigo que você matou a Arachne! É comigo que você vivia! – eu gritava em fúria e quase chorando — Você vai ficar e ouvir o que eu tenho a dizer! – nesse instante, senti-me envolvida em um abraço forte e quente.

- Calma aí, Maka – ele estava de olhos fechados e me apertava contra si – Não pensei que isso te faria tão mal. Você é forte e não mostra facilmente o que tá sentindo. Calma.

Minha alma se acalentou com a alma dele tão perto. Eu acabei começando a chorar. O Soul me apertava contra ele e isso me fazia tão bem. Eu o abracei também, e depois de alguns segundos, o fitei. Estava com os olhos marejados.

- Soul, tenho algo pra te dizer...

- Pode falar, sou todo a ouvidos...

- Eu...

Nesse instante, ouvimos um estrondo, e quando olhamos na direção dele, percebemos que a sala da nossa casa havia sumido. Kid apareceu no ar. Um filete de sangue escorria da cabeça dele.

- Soul, vamos! O Asura apareceu em Death City e meu pai o está enfrentando! Preciso de você!

Soul me olhou em dúvida e me soltou devagar, dizendo:

- Eu já volto. Vou matar aquela aberração e daí você poderá falar tudo o que quiser – ele já estava no meio dos escombros – Ah, e depois disso tudo, sou eu quem quer falar com você – assim, ele pulou no ar e se transformou, caindo nas mãos do Kid.

Os dois seguiram em direção à luta principal. Toda a cidade estava insana. Expandi minha alma o quanto pude, mas isso não chegava nem perto do que o Shinigami-sama fazia. A periferia da cidade permaneceu insana, mas foi algo que ajudou, porque a luta se concentrou no meio da cidade.

O Shinigami-sama desferia golpes destrutivos sobre o Asura, que revidava com aquele laser vermelho (era difícil se esquivar daquilo). O Kid começou a desviar a atenção do Kishin, e cercado de shinigamis, ele se sentiu acuado. Passou a tentar fugir, mas as novas técnicas do Kid não permitiram.

Com um golpe do meu pai, o Asura tentou desesperadamente se esconder, mas foi novamente interceptado pelo Kid. Depois de tantas tentativas de fuga, ele se enfureceu e começou a liberar o poder que tinha. Uma redoma avermelhada se fechou em torno dele, e pude sentir sua alma fora de controle. O brilho carmim daquela alma me dava medo.

Depois de meia hora naquela redoma, Asura finalmente saiu. Era realmente uma aberração. Tinha aumentado muito de tamanho, e quando atacado, não sofria nenhum arranhão. Ele acertou o Shinigami–sama, e meu pai o defendeu com o próprio corpo, o que não causou muitos danos, pois o poder de recuperação do papai sempre foi bom. Infelizmente, o ataque desviou e pegou nas costas do Kid. Ele cuspiu um pouco de sangue, mas nunca se entregaria.

- Death the Kid, meu filho, a Sanzou está apenas com você agora. Meus poderes foram completamente transmitidos a ti. A partir de agora, eu o distraio e você ataca – a voz do Shinigami-sama ficou séria e tenebrosa, ecoando por toda a cidade.

- Tem certeza...? Kid ainda é muito jovem... – papai indagou.

- Sim, ó meu pai. Estou pronto para assumir definitivamente meu posto como Shinigami. E meu primeiro ato será destruir aquele que chamamos de Asura, o kishin – Kid falou. O tom do diálogo foi profundo.

Então, Kid e Soul entraram em ressonância. A Majingari se formou rapidamente, e os dois começaram a lutar. Kid não dava brechas para qualquer ataque a si, e também não via o que acontecia além de seus ataques. Então, o Shinigami-sama apareceu atrás do Asura e lhe desferiu um golpe de kishingari, que o fez gritar e se contorcer de medo e dor. Novamente fora de controle, mais lasers eram atirados da boca do Asura.

- Vocês querem me matar... Não pensam em fazer outra coisa além de me matar? Shinigami, seu porco, vou fazer você sentir a dor de ter a pele arrancada do corpo! – ele gritou, e num segundo de distração, ele pegou o Shinigami-sama no ar e começou a esmagá-lo em suas mãos. O Kid logo atacou a conseguiu libertar o pai, mas ele caiu no chão com um baque surdo e lá ficou.

- Pai! – Kid foi até onde estava o Shinigami-sama e parou de joelhos ante ele.

- Kid. Termine o trabalho de seu pai – foram as últimas palavras dele antes que desmaiasse. Meu pai voltou à forma humana e se responsabilizou pelos cuidados médicos, e em poucos minutos, eu já estava em meio ao campo de batalha o ajudando.

- Maka... – meu pai me fitou.

- Vou ajudar no que puder – e o fitei e ele me abraçou.

Enquanto tratávamos o Shinigami-sama, Kid e Soul afastavam Asura de onde estávamos. Eles atacaram massivamente, mas nada o atingiu. Quando cansaram, o kishin riu.

- Uma mosca não é capaz de matar alguém como eu – ele gargalhou, e com um tapa, jogou Kid contra os escombros no chão. Mesmo assim, ele voltou ao ar e continuou com a Majingari, atacando por todos os lados. Em certo momento, Asura ironizou – Quer tanto assim deter a insanidade? Pois bem, vejamos quem deterá quem... – ele sorriu, e de uma gigante aberração, transformou-se em sua figura normal — ... Morra...

Asura concentrou toda a sua energia em um único ataque. Uma enorme massa vermelha se formou, e foi lançada contra o Kid e o Soul.

- Soul... – Kid não sabia o que fazer.

- Defende com a lâmina da Majingari – Soul ordenou.

- Vai dar certo?

- Tem que dar.

O laser atingiu em cheio a lâmina do Soul, que não sentiu muita coisa. O ângulo em que o ataque fora desferido permitiu uma defesa razoável. Eu admirava a defesa deles, até notar que algo menor e tão destrutivo estava prestes a ser lançado.

- Kid! Soul! Cuidado! – gritei. Kid desviou a atenção para me ouvir, e com isso também desviou a posição de suas mãos. Com o fim do ângulo de espelhamento, o ataque atingiu o Soul diretamente. A Majingari se quebrou, e o laser passou a atingir em cheio a lâmina metálica.

Um grito horrendo partiu da garganta do Soul e todos na cidade o puderam ouvir. Um grito que se prolongava, enquanto a lâmina de metal era cortada pelo laser lentamente. E o segundo ataque, que eu tentei avisar, atingiu o meio do cabo da foice, quebrando-o e atingindo também o corpo do Kid.

Mais um grito foi ouvido vindo do Soul. A foice estilhaçada caía no ar em direção ao solo, e eu corri para tentar ampará-lo, sem êxito. Uma chuva de pequenos cacos vermelhos e negros caiu sobre mim. Ajoelhada no chão, vi aparecer no que sobrara da lâmina unida ao cabo, o reflexo ensanguentado do Soul. O liquido escorria pela face dele, e sua cor se misturava à cor dos olhos do Soul. Comecei a chorar, e pedi para que ele voltasse à forma humana, mas ele se negou.

- Não farei você passar pela cena de me ver despedaçado – ele afirmou.

- Soul... – eu não tinha mais palavras.

- Me desculpe, minha dominatrix – ele sorria. No reflexo, o resto de seu corpo eram apenas borrões sem nexo – Eu não queria te fazer passar por isso, mas vou morrer antes de você.

- Soul... – eu o fitava bem de perto. Recostei minha cabeça junto ao reflexo dele. Fiquei assim por poucos minutos, e quando tornei a olhá-lo, seu reflexo havia desaparecido. Soul estava morto.

Então, sua alma apareceu em minhas mãos, e depois disso eu perdi a consciência.”

Finalmente chegamos. Hoje faz um ano que o Soul morreu. Finalmente tive coragem de visitar seu túmulo. Levei-lhe flores e conversei com ele. Chorei o tempo todo, mas ainda assim, sorri, para que ele não ficasse triste por me ver daquela forma deprimente.

E assim, a morte nos separou. E eu fiquei aqui, sem nunca ter podido dizer que eu Amava o Soul.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!