Um vinho em meu Caminho
1 Um vinho em meu Caminho
Odeio o metrô, mas o de São Paulo odeio muito mais!
Não é pela limpeza ou quantidade de humanos.
Mas pela variedade de sabores.
Aqui é possível encontrar alimentos de todos os locais do mundo, com sabores misturados.
Fazem cinco dias que não me alimento. Sinto uma fome horrível! Depois de oito horas de voo, sinto que a fome irá me sucumbir. Acho que irei fazer alguma merda antes que esse dia chegue ao fim.
Maldito Nikolai! Por que ele tinha que vir se esconder justamente aqui em São Paulo?
Não poderia ter sido em Paraty, na nossa casa de lá? Onde teria menos humanos a minha volta?
Quando passei pela alfandega já não respirava mais, tinha decidido manter as narinas bem fechadas.
Na hora achei que atravessar a cidade dentro de um táxi seria muito perigoso para o humano que conduzia o carro. Mas agora, nem mesmo a boca fechada mantém o cheiro afastado de mim.
São tantos cheiros! Tantos sabores!
Sinto a boca cheia de veneno. Sinto vontade de me alimentar.
Ainda não são sete horas da manhã, o metrô está lotado, há humanos de todos os tipos, cores e formas.
A gordinha parada a minha frente tem cara de quem gosta de comer de tudo, numa verdadeira confusão de alimentos, provavelmente seu gosto seja de puro colesterol. Não, ela não!
O cara alto e forte à direita e a frente exala um forte odor, provavelmente não toma banho já tem uns três ou quatro dias. Seria entediante tentar me divertir sem permitir que o buquê do alimento entrasse em minhas narinas.
Olho ao redor desesperada em busca de algo que poderia me satisfazer.
Nossa! Aquela jovem com o cabelo pintado de verde é deliciosa! Na casa dos vinte e poucos anos, ela parece ser muito mais saborosa do que todos ali. Fico observando os movimentos que faz com o pescoço de pele alva, sem nenhuma tatuagem, bem diferente de sua mão tatuada, sua jugular pulsa de forma convidativa.
Uma pena eu achar tão triste tirar a vida de alguém que ainda tem tanto pela frente. Seu cheiro faz com que as minhas presas aumentem.
Pela mãe! Vou matar meu marido quando chegar em casa! Não quero nem saber! Depois de me satisfazer sexualmente, irei me alimentar o máximo dele.
Paspalho! Ainda não perdoei aquele filhodaputa por ter me traído com Lilith!
Ok! Ela havia o enfeitiçado, mas ainda assim deveria ter resistido ao maldito encantamento. Tem quase um ano que a guerra acabou e ainda não consigo lidar muito bem com tudo que vivi.
Mas deixe isto para outro momento, agora preciso focar no que farei com a fome que ronda meu corpo.
Preciso me alimentar!!
A raiva que ainda sinto dele e a fome estão me deixando doida! Já comecei a ver os humanos como gado e tenho vontade de me alimentar da maioria.
Preciso que me controlar, não posso expor a todos sem sofrer as consequências pelo meu ato. Mas a vontade de perder a cabeça é enorme, estou por um triz.
A porta do metrô se abre e o vento traz um aroma incomum e raro.
O buquê lembra o mais puro vinho, feito com esmero, mas envelhecido pelos anos. Começo a segui-lo e me deparo com uma senhorinha, na casa dos sessenta anos.
Ela é baixinha, gordinha, cabelos presos em um coque, usa saia longa e casaco imenso. Parece que saiu de uma década há muito tempo perdida.
Ela é evangélica! Por isto que seu aroma é tão puro! Provavelmente nunca provou álcool ou cigarro. Por isto que ela tem o cheiro mais delicioso e convidativo que já senti em terras brasileiras.
Dessa vez, quase fica impossível segurar as presas dentro da boca. O veneno chega a escorrer pelos cantos, o qual seco passando o torço da mão.
Olho para ela intensamente tentando decidir o que fazer. Ela retribui o olhar e faz cara de espanto. Provavelmente deve ter ficado admirada de ver os trajes e o modo como eu agia.
Mesmo que eu fosse uma humana, ainda assim chamaria a atenção na multidão, porque sou loira de pele alvíssima, cabelos longos e lisos, relativamente alta, com 1,75 de altura. E apesar do frio de quatro graus, uso apenas jeans e camiseta pretos e coturno, sem jaqueta ou nem mesmo uma malha de lã. A mochila jogada nas costas contém meia dúzia de coisas, o que não inclui um casaco. Terei que comprar um para aparentar alguma normalidade enquanto rondo entre eles. Havia esquecido completamente que era inverno no hemisfério sul.
Me afasto, fazendo de conta que estou distraída, e a sigo de longe.
Pegamos a linha vermelha e descemos na Sé. Essa região central da cidade é decadente, com muitos moradores de rua, vários humanos indo e vindo, outros tantos exalando cheiros convidativos, mas o daquela senhorinha não me abandona.
Ela entra no prédio do tribunal de justiça e fico na porta decidindo o que fazer. Depois de alguns momentos, permito que meu nariz me conduza até ela.
Passo como uma brisa pelo segurança, tão rapidamente que ele não me nota. Desço as escadas e a vejo se arrumando para o dia de trabalho junto com outras duas. Decido que não atacarei na frente das demais.
Não quero escândalos, mesmo sendo rápida, ainda assim poderia haver algum tipo de confusão e isto eu não quero
A ouço comentando sobre mim, descrevendo a roupa que eu uso e depois disse não saber definir se era um anjo ou um demônio.
— Você não gritou? Não fez nada?
— Não. No final das contas eu acho que era só uma jovem drogada que ronda por aí e me assustei atoa.
Pobre coitada, acertou nas três definições.
Eu sou mesmo um anjo, caído, mas ainda assim um anjo. Que ronda a terra se alimentando de humanos e pronta para tomar o seu sangue, justamente a droga que precisava agora.
A espero encostada no batente do corredor e quando ela aparece, não deixo que fale comigo, usoa compulsão e a obrigo a me seguir.
Entramos em um auditório com uma imensa mesa no centro.
Me aproximei devagar, as presas à amostra, sentia o medo que dela exalava, mas não me importo. Quero, preciso e vou me alimentar. Antes que o dia acabe ainda sairei para caçar novamente, mas por hora ela é suficiente para aplacar minha sede.
Mantenho o controle sobre sua mente e a deixo paralisada no mesmo lugar. Sinto o temor passar por sua mente e seu corpo preso sobre meu controle.
Não me importo com isso. Preciso me alimentar e tenho culpa dela ser tão saborosa assim
As presas estão totalmente expostas e tranquilamente a abraço por trás, sinto o asco que sente com meu toque frio, mas de novo, dane-se! Encaixo meus lábios sobre sua clavícula macia, sua pele suave se rompe sob a pressão dos meus dentes, e aquele doce e saboroso sabor invade em meu corpo.
Cada gota foi é prazer, até sinto a euforia que um orgasmo dá ao me embebedar daquele vinho que o sangue dela era.
Dura poucos segundos, mas foi inesquecível.
Acobou rápido demais!
Poderia deixar o corpo dela jogado no chão, mas acho que ela merece uma última homenagem por ter mantido aquele sangue intacto por tantos anos. Coloco seu corpo sentado no banco de espaldar alto. Seu rosto está em paz, fechei seus olhos e a arrumei de forma que ela parecesse estar adormecida.
Quando a encontrassem estaria mais fria do que eu.
Alimentada, mas ainda com fome, corro pelas ruas em direção a minha casa na região dos Jardins
O portão está trancado, pulo o muro alto e caio feito um gato de joelhos, sem fazer nenhum barulho.
Ao abrir a porta encontro meu marido deitado no sofá branco, com uma garrafa de vinho tinto ao lado, os cabelos espalhados sobre o encosto, sem camisa, exibindo os músculos do peitoral e assistindo televisão
Sinto a boca encher de água, mas dessa vez de desejo por ele.
— Naty! Você chegou! Finalmente!
Ouvi sua voz e não respondi, corro em direção a ele e me jogo em seus braços, decidida a matar a saudade que sentia, sentindo o sofá sair do lugar e bater de encontro a parede.
Ao mesmo tempo seus lábios encontram os meus e suas mãos rasgam minha camiseta ao buscar contato com a minha pele.
Mordi seu pescoço e vi que ele ficou mais excitado do que já estava.
Perfeito! Era essa a recepção de boas-vindas que eu queria receber. Iria me encontrar naquele corpo forte e musculoso que eu tanto amava.
O resto ficaria para depois.
Ah! Você ainda quer saber quem sou?
Prazer, Natascha. Vampira com setecentos anos de existência, mulher, guerreira, apaixonada pela vida e sempre em busca de outras emoções.
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