O mais estranho foi que Claude Jenks não gritou na direção da minha janela no dia seguinte, antes de irmos para a escola – como ele sempre fazia. Nem mesmo me deu uma carona na pick-up detonada que ele comprara numa liquidação de usados (eu nunca tinha visto isso antes) e que desde então consertava peça por peça. Como não tinha carteira e nem carro, fiquei esperando o ônibus em frente à minha casa.

Então Joseph parou junto ao meio fio e abaixou o vidro.

— Vejam só se não é a Pequena Sereia— disse ele.

Fiquei sem entender por algum tempo. Ah, a concha. Mar. Sereia.

Dei uma risada educada, e ele abriu a porta – uma vez que eu fiquei lá, parada, sem saber o que fazer diante do homem que beijara minha testa no dia anterior.

— Foi uma piada horrível, eu sei. Entra aí, acho que vamos para o mesmo lugar. – Não pareceu um pedido, mas uma ordem (que eu obedeci prontamente).

Joseph dirigia mansamente pelas ruas de São Francisco.

Quando chegamos à escola simplesmente saltei do carro ainda em movimento e saí correndo pelo estacionamento repleto de maus motoristas. Deixei o Joseph gritando pelo meu nome sem pensar duas vezes.

Eu tinha visto o Claude deixar o estacionamento segundos antes de chegarmos, e queria falar com ele antes das aulas (Leitura “silenciosa” era nossa única matéria em comum, sexta-feira à tarde, e se ele resolvesse me evitar não queria encontrá-lo na única aula em que não poderíamos dizer nada um ao outro).

Consegui alcançá-lo nos armários.

— Oi Claude – falei, ofegante.

— Oi – respondeu ele monossilabicamente.

Eu estava lá, com os pulmões em brasa de tanto correr para alcançá-lo, e tudo o que ele tinha para dizer era um “oi” frio e sem graça?

— Acho que esqueceu de mim hoje – falei.

Ele deu um empurrão na porta de metal e me encarou. A porta bateu com tanta força que voltou a abrir novamente, e ele deu outra pancada nela.

— Sabia que daria seu jeito de chegar – disse ele, olhando de relance pela porta. Joseph entrava por ela naquele momento.

— Claude...

— Quem não está disposto agora sou eu, Sofia. Preciso ir para uma coisa chamada aula de Ética. Ainda que você precise disso mais do que eu...

— Qual o problema agora? Foi porque não pude ler com você ontem?

— Não, foi porque você mentiu para mim ontem! A verdade é que está descontrolada, não sabe quando parar.

Joseph fingia que abria o armário dele (acho que o armário verdadeiro ficava ao lado do Claude, mas naquele momento era melhor ficar afastado).

— Não sei do que está falando, Claude...

Eu não queria mentir (de novo) para o Claude, assim como não queria ter mentido no dia anterior – porque sabia que ele teria outra crise de ciúmes, ficaria enraivecido e triste. Ele era meu melhor amigo, e isso para mim já bastava.

Mas, para ele, parecia que não era suficiente. Nada menos do que o meu amor seria.

— Sabe o que minha mãe disse hoje durante o café da manhã, enquanto servia um copo de suco de laranja para mim? “Sabe quem estava no Little Italy, ontem, jantando com o filho daquela mulher doente que se mudou para nossa rua?” Eu nem precisei perguntar de quem ela falava. Na verdade não queria saber quem era a nova vítima da minha mãe. Mesmo assim ela falou. “Sofia Spencer.”

Eu desviei os olhos dos de Claude.

— Não contava com essa, não é?

— Claude...

— E outra coisa, a luz do meu quarto estava apagada quando eu te liguei.

Ele me deu as costas e foi para a aula de Ética.

***

A primeira coisa que fiz quando cheguei em casa naquele dia, após uma horrível aula de Álgebra, foi me jogar na cama e olhar a concha que praticamente arrancara minha perna fora durante o passeio na praia.

Ela devia ter uns trinta centímetros. Sua superfície era cinza, irregular e algumas manchas roxas profundas se distribuíam aleatoriamente. O formato de lágrima fazia dela uma perfeita analogia para minha vida – uma lágrima gigante, talvez expelida do coração do oceano.

Liguei o computador decidida a fazer uma pesquisa sobre ela e, enquanto esperava o sistema operacional acabar de carregar, resolvi dar uma espiada na janela do Claude (só para saber se ele já tinha me perdoado pela nova mentira). As cortinas estavam abaixadas, sinal universal de que ele não queria me ver.

O pior é que eu sabia por quê. Claude gostava de mim mais do que deveria, e isso fazia da nossa amizade uma espécie de fase de jogo ou capítulo de um livro, que ele gostaria de superar o mais rápido possível – e eu não compartilhava do mesmo desejo.

Voltei ao computador e abri o navegador. Dois minutos depois o Google abriu (meu computador deveria ser jogado no lixo) e eu digitei: ostra gigante do Pacífico.

A página carregou mais rápido do que eu imaginava.

Ostra gigante do Pacífico

Nome científico: Crassostrea gigas

Pode atingir até trinta centímetros de comprimento (ostras adultas)

Originária da costa do Japão e Norte da Ásia, foi deliberadamente introduzida no Canadá na década de 1960 com fins comerciais. Tornou-se uma praga ao distribuir-se por todo o globo, levada pela água de lastro de navios. Ela compete com outras espécies, ocasionando desequilíbrios e extinções...

(eu estava certa, era uma ostra assassina)

...e muda de sexo durante a vida. As ostras jovens são machos e, à medida que envelhecem, tornam-se fêmeas. Elas vivem ligadas ao fundo do mar ou a qualquer substrato sólido, como rochas ou cascos de navios.

Aquilo foi bizarro. Minha ostra assassina provavelmente fora macho um dia, e agora tudo o que restava dela era a concha de uma fêmea.

Aproveitei que o computador estava ligado e com velocidade máxima e digitei: glioblastoma multiforme IV. Sei que não deveria fazer aquilo, mas não resisti. Tive de ceder a um pensamento que, por mais que pudesse soar cruel e inumano aos ouvidos de outra pessoa, tinha certeza de que até mesmo Joseph Humfrey já havia tido: quanto tempo até a loteria da morte escolher a mãe dele pela segunda vez?

Daquela vez a página demorou um pouco para carregar. Quando abriu eu cliquei na primeira página (cof cof, Wikipédia, cof cof).

Glioblastoma multiforme IV é o tumor mais agressivo já diagnosticado em seres humanos. Trata-se da evolução de um meningioma primário, e pode ser removido cirurgicamente quando não se encontra localizado na região onde o encéfalo se liga à medula. O tratamento pode ser feito por radiocirurgia estereotáxica (SRS), como a Gamma Knife. O diagnóstico e detecção do tamanho do tumor pode ser feito com o uso do ácido-5-aminolevulínico, que o faz ficar fluorescente. A citorredução (diminuição do tamanho do tumor por meio de cirurgia) é uma opção, além de quimioterapia e radioterapia. Os pacientes submetidos ao tratamento geralmente apresentam convulsões, náuseas, vômitos, forte dor de cabeça e déficit de memória. Apesar de haver casos registrados de “tempo de vida sem progressão” de até vinte e quatro meses, a média de vida após o diagnóstico e com o tratamento é de doze meses. Sem tratamento o paciente vai ao óbito em três meses. A morte geralmente se dá por edema cerebral.

Assim que terminei de ler eu agarrei a concha e me deixei cair sobre a cama, atônita. A mãe de Joseph fazia o tratamento há dezesseis meses, logo estava acima da média em termos de sobrevivência – a não ser que ela quisesse quebrar o recorde atual, tinha no máximo oito meses de vida. Ao mesmo tempo, ele disse que viajaram por oito estados diferentes, o que dava uma média de dois meses em cada estado.

Então, dentro de dois meses, Joseph Humfrey iria embora de São Francisco, da Califórnia e da minha vida.

***

Eu estava esparramada no sofá, e não prestava muita atenção ao programa que passava – acho que um reality show onde ganharia quem tivesse os maiores peitos, ou algo assim. Fofura estava deitada no meu colo e dormia um gostoso sono da tarde. De vez em quando eu acariciava as orelhas dela, como forma de mostrar que servia para algo a mais além de uma simples cama de gato.

Soube que Evan tinha chegado por causa do barulho estranho que o Jipe dele vinha fazendo. Ele parou em frente à garagem e minutos depois entrou com algumas folhas e um pacote de frituras – frango, eu acho. Deixou as folhas na mesa de centro de levou a comida para a cozinha.

Voltou, tirou os tênis e sentou-se ao meu lado. Colocou um dos pés sobre a mesinha de centro – ato que reprovei com os olhos. Ele nem ligou.

– E você e o Jenks? – perguntou despretensiosamente.

– Vinte e quatro horas sem nos falarmos.

– Tentou conversar com ele?

– Não. Foi ele quem parou de falar comigo, por isso ele deve fazer o esforço de voltar – respondi, pegando o controle. Evan não permitiu que eu mudasse de canal, pegando o controle antes de mim.

– Eu gosto desse programa – disse ele.

– É educativo e inteligente – falei, vendo mais um par de seios passar em frente às câmeras.

– Nem tudo precisa ser educativo e inteligente, Sofia. Às vezes só precisamos de algo idiota e sem sentido para fechar um dia ruim. Além disso, você já estava vendo antes que eu chegasse.

Ponto para ele.

– Como foi seu encontro com a garçonete do Texas Club?

– Mais lucrativa do que você pode imaginar.

Eu torci os lábios.

– Por favor, Evan, sem detalhes sórdidos. Só perguntei por perguntar.

– Não é nada disso que você está pensando, mente suja! – disse isso e riu. – Nós conversamos muito sobre a vida. Fomos ao cinema e depois jantamos em Chinatown.

– Matinê e carne de cachorro, que inveja eu tenho de você – falei, tentando agarrar o controle novamente. Mais uma vez Evan me impediu.

– Não vai mesmo voltar para a Universidade?

– Sabe que não posso, Sofia.

– Nem mesmo com a ajuda do papai, de uma ordem judicial? – insisti.

– Estou respondendo a dois processos, caso não se lembre. Não posso nem mesmo deixar o estado sem autorização judicial. Nosso pai conversou com o advogado dele...

– Aquele com os óculos de pára-brisa de caminhão? Meu Deus, alguém deveria dizer a ele que não se usa óculos assim desde os anos 60, acho que nem nos anos 60, aliás.

– O nome dele é Dr. Philip Werner, Sofia.

– E o que ele disse?

– Que posso tentar uma transferência. As chances são boas porque só preciso concluir o curso, e isso levará apenas seis meses. Mas nada é certo, por causa do processo nenhuma Universidade me aceitará.

– Desculpe-me, Evan, mas nesse ponto elas tem razão. Ninguém vai querer um atirador solto no campus.

– Rá. Rá. Rá. Muito engraçado, garota concha – brincou ele, puxando minha orelha de leve. Ele sabia da existência da concha.

– É Pequena Sereia! – falei, me arrependendo depois.

Pequena Sereia? Quem te colocou esse apelido? A Disney sabe disso? Não deveria estar no fundo do mar agora, sentada em uma concha?

Ele fazia cócegas em mim enquanto lançava aquelas perguntas ridículas. Fofura escapou correndo o mais rápido que conseguiu quando minhas pernas tremeram feito prédios durante um terremoto. Eu estava quase urinando nas calças, pedindo que Evan parasse.

Quando me libertei dele e voltei a respirar o programa ruim havia terminado, e começava uma série de época.

— Joseph Humfrey te chama de Pequena Sereia depois que te deu a tal concha do mar? – perguntou ele, olhando para a televisão.

— Sim.

— Então, o lance com ele é sério mesmo?

Dei de ombros. Eu não sabia o que era um lance, muito menos um lance sério. Só tinha ficado com três garotos durante toda a minha vida, e nunca namorara ninguém. Então só saberia que o lance era sério quando ele se tornasse sério. Se bem que, depois das conclusões matemáticas às quais eu chegara, em frente ao computador, já não tinha certeza se queria isso para mim.

– Ele tentou alguma coisa enquanto estavam na praia?

– Quem é você, Evan, meu confessor?

– Se ele partir seu coração, Sofia, e eu ficar sabendo... É melhor que ele esteja bem longe do parapeito da Golden Gate quando eu encontrá-lo...

– Evan, sem drama, por favor.

Eu sorri em pensamento. Evan, meu irmão escudeiro. Por mais nojento que fosse aquilo que ele disse, eu até que gostei de ouvi-lo falar que seria capaz de simular um suicídio para me defender.

– Você sabia da Miranda? – perguntei quase sem querer.

Evan pareceu desconfortável, mas não muito.

– Recebi um telefonema do papai há algum tempo...

– Quanto tempo?

– Uns cinco meses, eu acho... Disse que estava conhecendo uma mulher maravilhosa, e que logo apresentaria a você e a mim...

– Antes ou depois de apresentá-la para o resto de São Francisco?

– Agora quem está fazendo drama é você, Sofia. Por acaso conta para o papai sobre todos os rapazes com os quais sai?

Eu senti vontade de dar um soco na cara do Evan, mas resisti bravamente. Não havia rapazes sobre os quais falar com meu pai.

– Não, mas ele não tem de adotá-los como membros da família. É diferente, Evan.

– Você diz isso porque ainda ama a mamãe...

Ele parou no meio da frase, como que arrependido daquilo que começara. Eu cerrei os punhos e olhei para ele sem piscar.

– ...como se ela ainda estivesse aqui – terminou ele. – Sinto muito, Sofia, mas ela se foi...

– E você não a ama mais?

– Não foi isso que eu quis dizer, você sabe...

— Eu não sei de nada, Evan. Não sei nem metade do que achava que sabia. Principalmente sobre as pessoas desta casa. Eu estou chocada.

— Eu amo nossa mãe, Sofia, mas de uma forma diferente agora. Até quando vamos fingir que ela está em um lugar e que pode voltar de repente para nós? Ela se foi, e só estamos aqui porque você quis ficar. Nosso pai recebeu milhares de propostas de emprego nos últimos anos, bons empregos, salários mais altos. Mas ele decidiu ficar aqui por você, para que você mantivesse essa lembrança de uma mãe que não está mais neste mundo...

– Mas pode estar em outros...

Ele aproximou o rosto do meu.

– Acredita mesmo nessa besteira? – sussurrou.

– Eu odeio você, Evan! – gritei.

Eu me levantei e senti os olhos se encherem de lágrimas. Escutei-o chamar por meu nome por diversas vezes enquanto subia as escadas, mas não tinha a menor vontade de voltar e encará-lo novamente.

Queria ficar sozinha por um tempo.

Então o telefone tocou. Era Joseph.

***

Eu estava devendo aquele passeio a ele.

Decidimos percorrer a 17-Mile Drive, uma rota de 27 quilômetros ao sul de São Francisco. Enquanto o carro percorria a pista conseguíamos ver o oceano Pacífico, de um lado, e montanhas cheias de ciprestes do outro. Era muito bonito (eu já havia percorrido aquela rota várias vezes), mas me pareceu um programa vazio e solitário.

Eu estava com óculos escuros e olhava distraidamente pela janela. Havia sol e céu azul lá fora, e na água surfistas desafiavam as ondas.

— Você está muito quieta hoje, Pequena Sereia— disse Joseph, diminuindo a velocidade.

Eu sorri por educação, porque aquela história de me chamar de mulher de rabo de peixe já estava enchendo o saco. Ele diminuiu a velocidade cada vez mais, até encostar o carro numa ampla área, semi-deserta.

— O que acha de me dizer o que está acontecendo com você? – perguntou ele.

Olhei para Joseph Humfrey, o cara que fazia cursos livres no secundário quando, na verdade, deveria estar na universidade, brigando por um diploma (como o Evan estava há alguns meses). Ele pareceu, pela primeira vez desde que eu o vira colocando o lixo para fora, frágil. Não do jeito que comumente se concebe a fragilidade, como algo ruim. No caso de Joseph era bom, porque eu o via como um arranha-céu inatingível, grandioso e imponente. Mas ele poderia ser, se quisesse, um rapaz normal.

E naquele momento ele parecia bem normal para mim.

— Eu sou um fardo... – falei, desabando em lágrimas pela segunda vez naquele dia.

Joseph me abraçou, mesmo com o câmbio entre nós dois. Ele passou as mãos pelas minhas costas enquanto eu chorava compulsoriamente, como se entendesse exatamente o que eu sentia, como se, enquanto fazia aquilo, ele pudesse ser parte de mim – a parte mais forte, talvez.

– Shhhhhhhhhh.... Está tudo bem, Sofia, está tudo bem... – sussurrou ele em meu ouvido. – Eu estou aqui, e vou proteger você. Sempre.

Promessas foram feitas para serem quebradas. Corações também.

***

Caminhávamos pela praia. Joseph segurou minha mão sem aviso prévio. Foi muito rápido para que eu evitasse – supondo que quisesse evitar aquilo. E, só para constar, eu não queria – mesmo com os números contra nós, jamais desejaria evitar aquele momento maravilhoso.

Então imaginei que talvez tivesse errado os cálculos, que era besteira tentar adivinhar o tempo que alguém poderia ficar junto com outra pessoa. A loteria rolava o tempo todo, e há mais coisas para nos afastar de quem amamos do que para aproximar. A vida não poderia se resumir a um cálculo tão simples quanto dividir dezesseis por oito.

A água já estava gelada – era fim de tarde, e logo o sol desceria rumo ao mar, como se quisesse tocá-lo. Há sete bilhões de pessoas no planeta (ou, se preferir, sete mil milhões); pelo menos uma delas se chama Joseph Humfrey, e está caminhando ao meu lado pela areia molhada. Para isso ele teve de puxar as barras das calças até as canelas, e dessa vez deixou os tênis no carro. De vez em quando as ondas batiam em nossos pés, como que para nos manter acordados.

Não preciso de sete bilhões de pessoas enquanto caminho pela praia – na verdade não caberia toda essa gente na areia. Só preciso de uma. Naquele momento Joseph Humfrey preenchia todo o meu universo, e talvez eu precisasse de um pouco mais de espaço.

– Você está com aquele olhar de novo – disse ele de repente.

– Que olhar, Joey?

– Um olhar de quem está pensando em outra pessoa – disse ele.

Eu sorri e apertei um pouco mais os dedos dele entre os meus. Tinha medo de que alguma coisa o afastasse de mim – conchas, números, probabilidades ou pontes.

– Em sete bilhões delas, para ser mais exata. Você errou por pouco.

Ele riu. Joseph já parecia natural quando ria das minhas piadas, não soava mais forçado.

— E posso saber por quê?

Por que você é uma fração, Joseph Humfrey, e uma probabilidade também. Um em sete bilhões. É um número tão pequeno quanto o universo é grande. Não consigo calculá-lo, nem prevê-lo. Não sei quantas casas decimais tem. Você é improvável demais para ter acontecido, mas mesmo assim aconteceu. Improbabilidades são minha área favorita.

— Por nada – falei, esperando ser convincente o bastante para ele não insistir em uma explicação que eu não teria coragem de dar.

— Tudo bem, seu pensamento é rápido demais para que eu acompanhe. Que tal brincarmos de “meu passado me condena”? – sugeriu ele.

— Como é isso?

— Basicamente você tem que começar uma história que possa terminar de forma ridícula, e eu tentarei adivinhar o final. Se conseguir, você tem de me conceder um desejo. O mais importante é que realmente tenha acontecido com você.

Era um jogo interessante. Eu tinha várias histórias ridículas que desejava esquecer, e compartilhá-las com o cara que eu paquerava parecia uma boa forma de não deixar que elas sumissem da minha mente.

— Posso saber qual é o desejo?

— Saberá quando eu ganhar – disse ele.

Eu suspirei. Tudo bem, estávamos em uma praia, meia hora antes do provável pôr-do-sol, e parecia razoável que ele propusesse um passatempo bizarro.

— Mas, como você é nova nisso, permita que eu comece – disse ele, me deixando mais tranquila, pelo menos momentaneamente. – Quando eu tinha oito anos, passei nos testes para uma peça da escola, uma peça de Natal. Eu faria o papel de um querubim, por isso tinha de usar camisola branca, peruca de fios louros encaracolados e uma harpa. Seria o dia mais importante da minha vida até aquele momento. Ensaiamos tudo diversas vezes, e a única coisa que me deixou preocupado foi que teria de voar sobre o palco preso por fios...

Ele parou de falar.

— Tenho de continuar de onde parou? – perguntei.

— Essa é a ideia.

Aquilo era realmente difícil. Qual seria o final mais ridículo para a história de Joseph? Será que ele caiu no meio da platéia? Perdeu a peruca?

— Não sei se sou boa nisso... Bem, vamos lá. – Tentei imaginar algo bem ridículo. – Os fios se partiram, você caiu de cara no chão e perdeu dois dentes da arcada superior. Todos riram da sua cara e você passou a odiar o Natal, como o Grinch.

Joseph sorriu maliciosamente.

— Quase isso. Passou perto, Sofia Spencer. Na verdade, eu fiquei tão nervoso que, quando coloquei a camisola, esqueci de colocar as ceroulas. Quando a peça começou, alguma coisa fez com que minha camisola subisse e ficasse presa no gancho que me mantinha suspenso. Eu voei pelo palco com minha área de lazer (naquela época não era ainda uma área de lazer em funcionamento) exposta para a escola inteira, os pais dos alunos e o padre.

Rimos até não aguentar mais. Tive de parar um pouco e esperar meus olhos deixarem de arder.

— Depois eu me soltei, caí e quebrei um dente – completou ele, apontando para a própria boca. – Metade de um destes incisivos é resina. E não, eu não odeio o Natal.

Rimos.

— Puxa, essa foi ridícula mesmo – falei, voltando a rir. Quando você começa é difícil parar.

— Agora é a sua vez. Vamos ver se você me supera.

Eu devo ter corado as bochechas, porque Joseph soltou minha mão de repente e acariciou uma delas. Aquilo soou como “suas bochechas te condenam.”

— Tudo bem. Acho que tenho uma que pode superar você de longe. Quando eu tinha onze anos, fui convidada para uma festa na piscina. Eu era ingênua demais para saber que alguns convites são feitos, claramente, para que você os recuse. Então, quando chegou o dia, meu pai me levou para a casa de Lauren McCarth, a garota mais popular da escola. Eu estava radiante, e usaria o maiô que comprara na liquidação do inverno passado (tempos difíceis). Convidei o Claude para ir comigo, porque achei que chegar acompanhada demonstraria certo status. Claude usava um calção que mais parecia do pai dele e, como passou protetor solar demais, ficou com a cara branca, como se sua pele estivesse derretendo. Mas essa é a melhor parte, porque o pior ainda estava por vir. Eu não deveria ter aceitado aquele convite, muito menos levado o Claude comigo. As meninas se trancavam no quarto de manutenção da piscina para beijarem os garotos, em duplas, por meio de um sorteio onde elas trapaceavam...

Quando parei de falar o Joseph ficou pensativo por um tempo. Tive medo que ele adivinhasse, e ao mesmo tempo queria que ele adivinhasse.

— Você foi trancada com o garoto mais bonito da festa, ele agarrou você e arrancou se sutiã. Você saiu correndo cobrindo os seios que não tinha e caiu na piscina. Todos riram de você, e hoje você odeia piscinas.

Eu tinha de admitir que ele era bom, mas não o bastante. Na verdade o Claude tinha um papel essencial naquela história. Sem ele, ela não seria ridícula, apenas humilhante.

— Uau! Você também quase acertou. Naquele dia Claude ficou muito tempo na água, com uma bóia que balançava quando alguém se movia dentro da piscina. Então, balançava o tempo todo. Claude não pode ver o mundo se movimentando ao redor dele sem ficar enjoado. Então, ele ficou enjoado, e decidiu que estava com sede. Bebeu onze copos de ponche de frutas, e depois descobriu que tinha melão naquele ponche (ele é a única pessoa alérgica a melão que eu conheço). Enquanto isso eu estava trancada no quarto de manutenção com o garoto mais bonito da festa. Ele era louro, tinha olhos azuis e sardazinhas perto do nariz perfeitamente fino. Seus cabelos tocavam os ombros, e ele usava calção e camisa florida, como se estivéssemos no Havaí. Ficou olhando para mim e sorrindo, encostado à parede próxima à bomba do filtro da piscina. Eu não sabia o que fazer, com meu maiô azul piscina, com detalhes em branco e lacinhos nos ombros. “Sabe o que falam de você quando não está por perto?”, perguntou ele, cruzando os braços. Eu não falei nada. “Que você é uma suburbanazinha medíocre, burra e feia”. Eu não chorei naquele momento, mas acho que deveria ter chorado, porque qualquer coisa é melhor do que sentir seu peito inflar sem poder fazer nada para aliviar. Fiquei lá, olhando para os lacinhos do meu maiô, sem coragem para correr, sem coragem de permanecer. Acho que foi a primeira vez que eu quis ir embora deste universo, para nunca mais voltar. Queria encontrar a fenda pela qual minha mãe passara ao saltar da ponte, e descobrir um lugar melhor para viver. Um lugar onde eu me sentisse amada da forma de que julgava merecedora. Um lugar distante daquela festa. “Quer saber qual é a melhor parte? Eu vou ganhar vinte dólares”. O garoto, que se chama Robb, avançou sobre mim e arrebentou com as mãos os laços do meu maiô – os mesmos que mantinham a parte de cima presa. Eu gritei e saí correndo. Empurrei a porta com todas as forças, e derrubei quem estava do lado de fora – garantindo que ninguém entrasse enquanto não saíssemos. Corri pela borda da piscina, enquanto ouvia vaias e uivos dos outros garotos e garotas. Tentava arrumar meu maiô em meio à corrida, e então bati de frente com Claude Jenks. Caí com os seios (eu já tinha algum volume, só para você saber) na cara dele, e ele vomitou o ponche e tudo o que tinha comido em cima deles. Lá estava eu, com os seios à mostra e toda suja de vômito de um garoto que usava as roupas do próprio pai.

Olhei para o Joseph, e ele não estava rindo. Não era engraçado, era trágico.

Paramos de caminhar, pois o sol estava prestes a se por. Joseph me puxou para junto dele, e eu apoiei o rosto sobre seu peito. Quase conseguia ouvir o coração dele batendo descompassado, mas poderia ser o mar também.

— E desde então eu odeio festas na piscina – completei.

O peito de Joseph arfava enquanto ele acariciava meus cabelos, e eu passava as mãos pelas costas dele, para cima e para baixo, para baixo e para cima. O sol, lentamente, se aproximava da água. O céu estava avermelhado, e havia nuvens flutuando mansamente pela abóboda celestial.

— Quanto tempo ficará em São Francisco? – perguntei, com medo da resposta.

Queria que Joseph dissesse para sempre, o que tornaria meu cálculo com os meses completamente errôneo. Mas uma parte em mim dizia (dizia não, gritava) que eu era boa demais em matemática para errar uma conta como aquela.

— Eu não sei. Geralmente ficamos poucos meses antes de descobrir outro tratamento mais promissor. – Ele fungou levemente depois de falar.

— Quantos meses, Joey?

— Isso é realmente importante? Escute Sofia...

— Mais do que pode imaginar – falei, sentindo meu peito arfar.

— Não mais que dois meses.

Eu sabia que alguma coisa ruim tinha de acontecer para estragar aquele momento mágico. Tudo estava perfeito demais – a água, a areia, o sol e Joseph Humfrey. Nenhuma garota merecia tanto.

— Quando ia me dizer isso?

— Eu... Eu não ia te dizer, Sofia. Nunca digo a uma garota que acabei de conhecer que vou embora da cidade em dois meses – confessou ele. – Isso só aumentaria o meu sofrimento.

— Seu sofrimento? Joseph, olha pra mim! Como acha que eu ficaria se nós estivéssemos juntos?

— Achei que estávamos juntos – falou ele com uma voz sumida.

Eu estava furiosa com Joseph. Esperava que ele tivesse a mínima decência de pelo menos mentir para mim, dizendo que planejava contar em breve – talvez depois do nosso primeiro beijo, no meio dele ou antes. Mas que ele planejava pelo menos tentar contar, mesmo que isso significasse que não ficaríamos juntos.

Comecei a andar de volta para onde o carro estava.

— Sofia! Espera! – gritou ele.

Eu continuei andando, esmagando a areia com os pés, desejando ardentemente sair logo dali.

***

Desci do carro e disse um “tchau” e um “obrigado” atravessados. Já estava no jardim quando ouvi a porta do carro batendo e os passos de Joseph atrás de mim.

— Espera, Sofia! – pediu ele.

Eu parei. Estava em meu território agora – como se isso valesse alguma coisa.

— Diga logo o que quer, Joseph, acho que estou com insolação – menti, procurando uma razão para aquilo tudo.

— Queria que soubesse que não faço amigos nos lugares por onde passo. Não me esforço para isso, pelo menos nunca tinha me esforçado até agora. Até conhecê-la. Eu... eu não quero perder ninguém, e por isso não quero que mais ninguém entre em minha vida – ele disse isso e riu, meio sem graça. Mas pareceu sincero. – Imagine quantas pessoas legais eu deixei de conhecer, somente por medo de perdê-las quando fosse embora? Uma bela parcela dos seus 7 bilhões, imagino. Mas, depois que eu te vi pela primeira vez, algo mudou em mim. De repente eu percebi que queria conhecê-la, acho que é alguém que vale a pena ser conhecida. Você vale muito mais do que o preço que colocou em si mesma, Sofia Spencer. É bonita, inteligente, engraçada e espirituosa, mas parece não perceber isso. Quando perceber, porém, saberá o quanto merece ser feliz. É tudo o que tenho para dizer. Espero que melhore de sua insolação.

Não tive palavras para responder – mesmo porque acho que não há resposta para algo como o que Joseph disse. Eu fiquei lá, parada, enquanto ele voltava ao carro para andar mais duzentos metros e parar de novo.

Claude Jenks olhava para mim por detrás da cerca branca que separava nossas casas.

— Trégua? – perguntei, mesmo sem uma bandeira branca com a qual acenar.

***

Claude Jenks deitou-se no tapete que ficava ao lado da minha cama. Ele olhava a concha que Joseph me dera, como um cientista olharia um ser vivo nunca antes visto.

— Foi ele quem te deu isso? – perguntou Claude com um pesar injustificável na voz.

— Foi.

— É um presente medíocre. Sinto muito Sofia.

Eu ri. O velho Claude estava voltando para mim – aos poucos, mas estava. De certa forma, eu também estava voltando para ele.

— Consegue imaginar um presente melhor? – perguntei, desafiando-o.

Claude voltou os olhos para mim. Por detrás dos óculos de armação arredondada eu quase conseguia ver sua alma sofredora, pelo peso do sentimento que ele guardava – e que eu sabia que ele guardava, mas me sentia incapaz de corresponder.

— Vou pensar em alguma coisa até o Natal – falou ele.

— Tenho certeza de que pensará.

Claude agarrou o telefone de lata e sussurrou alguma coisa incompreensível dentro.

— O que disse?

— É um segredo. Somente a pessoa certa pode saber – disse ele, encolhendo as pernas e envolvendo-as com os braços.

— Como você sabe que a pessoa certa recebeu sua mensagem? Talvez, por garantia, seja melhor contar para mim também...

Eu parei de falar. É, acho que eu era a pessoa errada para aquela mensagem. Claude ficou em silêncio durante muito tempo.

— Por que não disse para mim que estava namorando Joseph Humfrey? – perguntou ele.

— Porque não estou.

— Chega de mentiras, Sofia.

— Você pode até mesmo não acreditar em mim, Claude, mas desta vez estou sendo completamente sincera. Joseph e eu não estamos namorando.

Jenks olhou para mim com um uma expressão um pouco melhor. Ajeitou os óculos e colocou a mão sobre o colchão.

— Aquilo lá fora pareceu uma briga de namorados.

— Então Joseph e eu somos bons atores.

— São só amigos?

— Joseph não quer amigos. Não quer que ninguém mais entre na vida dele, e dessa forma diminui a quantidade de pessoas para saírem da vida dele.

Então se não éramos namorados e nem amigos, nós não éramos nada – ou éramos uma coisa que ainda não tinha nome.

— Ele é estranho – disse Claude, fechando os olhos.

Fofura subiu na cama e foi aninhar-se no meu colo. Tive de abrir espaço, jogando a concha e o livro para o lado a fim de facilitar para minha gata.

— Em que parte parou? – perguntou Claude, puxando o exemplar de “Passos na escuridão” para perto dele.

— Não muito longe do começo. Capítulo 7, Kathy acabou de ser estuprada e está na presença do mal – falei, imaginando porque L. tinha se jogado da Golden Gate logo após terminar de escrever aquele livro.

— Estuprada? Seu livro é melhor do que o meu – falou ele, folheando o exemplar.

— E você?

Claude encobriu uma possível tristeza com um sorriso, implorando por compaixão. Era evidente que ele tinha algo para me dizer.

— Eu não tenho conseguido ler nada ultimamente... Não consigo me concentrar...

Eu sorri, e segurei a mão de Jenks por algum tempo. Ele tremia, seus lábios pareciam atingidos por um terremoto. Os olhos ficavam cada vez mais úmidos. Ele estava prestes a chorar.

— Meus pais estão se divorciando – finalmente disse.

— Claude... Eu sinto muito – sussurrei.

Ele apertou minha mão. Eu conhecia Claude Jenks melhor do que a mim mesma (só se consegue fazer isso com alguém que já tenha vomitado nos seus seios). Ele era um rapaz forte, mas sua força provinha da alegria e quando a alegria ia embora, obviamente a força também ia.

— Talvez não seja tão ruim quanto você imagina...

— Ele vai morar em Los Angeles, e minha mãe quer que eu vá com ele – falou Jenks. – Ela diz que me odeia por ser parecido com meu pai.

Eu sentia por aquilo também. Definitivamente, Claude não merecia ouvir tais coisas horríveis, principalmente da própria mãe. Mas, no fim das contas, não merecemos a maior parte do sofrimento que carregamos.

— Você terá de se mudar quando for para a Universidade mesmo. Além disso, Los Angeles fica perto...

— Ele trocou minha mãe por uma mulher que tem praticamente a minha idade. Minha mãe disse que vai pular da Golden Gate quando o divórcio terminar.

Tudo bem, era muito ruim, e aquela era a pior ameaça que alguém morando em São Francisco poderia fazer (veja só, eu vou pular da ponte e, se conseguir atravessar o portal, estarei bem melhor do que você!). Mas poderia ser pior (só não disse isso para o Claude porque tinha medo de que ele decidisse pular antes da mãe dele). O senhor Jenks poderia, por exemplo, ter trocado a mãe do Claude por uma mulher da tribo dos Maori, aquelas com tatuagem no queixo, ou por um homem. Eram duas possibilidades bem ruins.

— Tenho medo de que a gente não se veja nunca mais – disse ele, derramando uma lágrima.

— Isso não vai acontecer, eu não vou a lugar nenhum, e nem você. E se formos, ainda temos nossos celulares, podemos nos ligar todos os dias e quando nossas cartas de aceitação chegarem vamos para a mesma Universidade...

— Sofia?

— Sim, Claude.

— Tem certeza de que não quer ir comigo àquela festa? Pode ser nossa última festa juntos. – A expressão de Claude era de desolação.

Eu odiava a palavra última. Última da fila, última torrada, última vez. Ela tinha o poder de estragar outras palavras.

— Eu... Eu não sei, Claude.

— Tudo bem. Preciso ir, Sofia. Eu já sorri e já chorei. Obrigado por ser minha amiga.

Desculpe-me por ser somente sua amiga, eu queria dizer, mas não conseguia.

— Vou para casa tentar fazer o dever de Álgebra. Probabilidade – continuou ele.

— Espera, Claude. Eu pensei melhor, e acho que podemos ir à festa juntos – falei saindo da cama com a gata nas mãos, ainda que fosse me arrepender mais tarde.

Ele sorriu brevemente. Eu tive de ficar feliz porque tinha arrancado um sorriso do rosto de Claude Jenks depois de vê-lo chorar (e sentir que parte daquele choro era minha culpa também).

— Obrigado, Sofia – disse.

Claude Jenks me abraçou, e quase esmagou Fofura entre nós dois. Ela saltou da minha mão e caiu sobre o tapete, do jeito preguiçoso dela. Fofura tinha ganhado uns quilinhos a mais no último mês, o que muito me preocupava.

— Cuidado, a gata não sabe o tamanho do nosso amor... – falei sem pensar direito em como aquilo soaria aos ouvidos de Claude.

Ele parou por um instante, como que petrificado. Eu repassaria aquela frase mil vezes na minha mente antes da noite acabar. Nós estávamos tão próximos que sentia a respiração dele, quente no meu rosto.

Era estranho porque, por mais que eu tentasse, ainda não conseguia enxergar Claude como um pretendente. Nós crescemos juntos, e parecia terrivelmente errado trocar amizade por amor sem perder algo.

— Não, ela não sabe – disse ele. E, abaixando-se ao nível do solo, pegou Fofura com ambas as mãos. – Desculpe-me, Fofura. Sua dona tem o poder de mudar o humor das pessoas.

Geralmente para pior, pensei. Claude beijou a gata e acenou para mim antes de partir.

Eu fiquei em pé no meio do quarto, e repassei a frase pela primeira vez: A gata não sabe o tamanho do nosso amor.

***

Quando desci (com a concha como apoio psicológico) meu pai preparava o jantar. Estava de avental e tentava, a todo custo, esmagar alho para o molho do espaguete.

Sentei-me junto à bancada e fiquei observando-o trabalhar por um tempo.

— Se deixasse anotado o que quer no jantar, eu teria o prazer de fazer – falei.

Ele olhou para mim de relance e continuou com o alho.

— Você estava ocupada brigando com Claude Jenks.

— Conversando – corrigi.

— Ah, desculpe-me. Precisa avisar às pessoas para que saibam o que faz exatamente. Ajuda a evitar gafes como essa.

— Rá, rá, rá. Muito engraçado, pai.

— E, outra coisa Sofia, ainda espero por seu pedido de desculpas. – um pedaço de alho saltou da tábua de corte e passou perto da minha cabeça.

— O que eu fiz de errado agora?

— Sabe muito bem o que fez.

Eu sabia, mas não queria pedir desculpas quando (também) sabia que estava certa. Como deveria chamar a mulher que roubava meu pai de mim? Bruxa parecia uma denominação, no mínimo, adequada.

— Não vou pedir desculpas por nada, pai. Não me arrependo do que eu disse.

— É mesmo, Sofia? – perguntou ele, largando a faca. A panela de macarrão borbulhava no fogo.

— Sim. Acho que nunca fui tão sincera.

— Sabe o que eu tenho feito nos últimos anos?

— Não, pai, esse discurso de novo não...

Ele andava na minha direção. Acho que nunca tinha visto Mark Spencer tão nervoso. Fiquei com um pouco de medo do que ele poderia dizer.

— Esse discurso sim! Nos últimos anos, desde que sua mãe pulou daquela ponte por causa de uma maldita depressão, eu só tenho cuidado de você e do Evan, só isso!

Eu apoiei a cabeça na bancada de mármore.

— Sofia, olhe para mim – ordenou ele.

Eu obedeci.

— Eu trabalho, cuido da casa, pago pela sua escola, pela Universidade do Evan, até pela comida da sua gata... E no final, o que eu ganho? Eu recusei ótimos empregos porque você não quer deixar aquela ponte para trás. Seu irmão conseguiu ser expulso do curso seis meses antes de se formar, estou exausto e você...

— O que é que há comigo, pai?

— Você se comporta como uma garotinha mimada de cinco anos, que precisa de atenção o tempo todo, e cujas necessidades precisam ser atendidas prontamente, ou então ameaça pular da ponte como sua...

Mark tinha ido longe demais. Ele tremia, e eu sentia que já estava arrependido – não do que tinha dito, mas da forma como dissera. Nem preciso contar que eu estava chorando incontidamente enquanto ele falava aquelas coisas horríveis.

— Como a minha mãe? Era isso que ia dizer, pai?

— Sofia...

Evan chegou no instante seguinte. Não entendeu muita coisa quando nos viu na cozinha. Meu pai em pé e com a mão na testa; eu chorando agarrada à concha.

— O que está acontecendo? – perguntou meu irmão, entrando na cozinha.

Meu pai arrancou o avental e jogou em cima do Evan.

— Termine o jantar – disse, e saiu logo depois.

Escutamos o ronco do motor do carro minutos depois.

— O que houve aqui? Não, espera, deixa eu adivinhar: brigaram novamente. Vocês dois não vão se entender nunca?

— Não enche, Evan – falei, abraçando-o.

Ele me segurou com força. Cheirava à fritura e suor, e imaginei que talvez comesse fritas enquanto corria pela cidade.

— Sei que sente falta dela, Sofia. Eu também. Só que é preciso parar de vez em quando e pensar no que sua vida está se transformando. No que você está se transformando...

— Em alguma espécie de doida da ponte? – perguntei entre soluços.

Evan riu.

— Não, em uma pessoa que se isola, como uma ilha na qual para se chegar é preciso atravessar a Golden Gate da forma menos convencional.

Ergui os olhos para ele. Aquilo foi lindo e mórbido. Ele queria dizer que as pessoas tinham de morrer para chegar até mim? De certa forma Evan talvez tivesse razão. Eu afastava os vivos com placas onde se lia PERIGO, ILHA DESERTA. VOLTE, PULE DA PONTE E BOA SORTE.

Evan me largou e foi até o fogão. Desligou a chama, tirou o macarrão do fogo e colocou para escorrer.

Depois voltou e me abraçou novamente.

— Você é forte, Sofia. Pode se livrar dessa dor, se realmente desejar.

— Obrigada.

— Agora, vá procurar alguma coisa para fazer. Eu termino o jantar e pisco a luz quando estiver pronto – disse isso e riu.

— Engraçadinho.

— Ainda está me devendo aquele favor, Pequena Sereia. Vou cobrar na hora certa.

Eu me recusava a pagar. No fim das contas Claude descobrira tudo, então o acordo não valia mais.

— E, só para você saber, a Pequena Sereia não fica sentada sobre uma concha! – gritei da porta da cozinha. – Essa é a Vênus de Botticelli. Tudo o que a Pequena Sereia faz é se meter em confusões.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.